Tudo é narrativa – Quando mostrar é dizer

Amigos, estreei uma coluna no jornal literário Rascunho, de Curitiba. Intitulada Tudo é narrativa, ela trará, a cada mês, reflexões sobre processos de criação os mais diversos. Leiam abaixo a primeira, também disponível no site do jornal:

QUANDO MOSTRAR É DIZER

      A grande sedução da arte – seja ela qual for – está em seu potencial de contar uma história. É possível narrar de várias maneiras: usando gestos, movimentos, imagens, melodias, cores… além de palavras, claro. Estas últimas, no entanto, já são constantes (e indispensáveis) para os leitores do Rascunho e para mim mesma. Eis porque agora proponho, neste espaço, pensar em outros meios narrativos. Veremos como diferentes estratégias se apresentam, acompanhando as circunstâncias de cada linguagem.

      Comecemos pela fotografia. Pelo caso de Duane Michals. É um exemplo bem simples e evidente, embora nem por isso pouco interessante. Este autor, nascido em 1932, na Pensilvânia, traz alguns dos seus melhores temas numa coletânea das edições Photo Poche. A obsessão pelo duplo e o trabalho com espelhos, reflexos ou silhuetas fantasmagóricas agem a serviço da criação de suas histórias.

    Vários fotógrafos antes – como os clássicos Robert Capa e Cartier-Bresson – tinham ficado célebres pela capacidade de sugerir enredos. Mas Duane Michals vai além, sequencializando imagens, ou seja, dando a elas dinamismo, ação – tramas narrativas com início, meio e fim. No livro que citamos, há vários exemplos disso. Uma experiência poética como “O sonho da jovem” instaura, num conjunto de cinco fotos, o relato sobre uma moça nua dormindo num sofá, a sonhar com um homem (mostrado quase em transparência, a lhe tocar o seio). Ela acorda com a impressão física do toque, o que é indicado por sua própria mão, num espanto, sobre o tal seio. O sonho – ou a fantasmagoria – torna-se um elemento que atravessa várias das sequências de Michals, com diversos efeitos.

      Em “O espantalho”, o receio de uma garotinha, de que um monstro pudesse se esconder sob o paletó no cabide, materializa-se. E, quando vemos a criatura feita de roupas “ganhar pernas” e raptar a criança, o resultado é um riso ingênuo. Um sorriso, pelo contrário, muito malicioso, aparece ao final de “Tome um e veja o Fujiyama” – sequência cheia de bom humor sobre os desvarios eróticos provocados por um alucinógeno: o Fujiyama nada mais é do que um monte provocado pela ereção depois de um sonho delirante…

    Há bastante comicidade nestes relatos fotográficos, graças ao uso de variadas técnicas. Michals não surpreende o instante, ele o cria. Nessa teatralização, ele se lança ao que o ser humano pode representar (no duplo sentido do termo). Ele contrata modelos, age como um verdadeiro diretor de imagem – e sabe usar táticas de mise en abîme ou surrealismo para deixar o espectador intrigado, em obras como “As coisas são bizarras” e “A luva”. Nesta, por exemplo, encontramos a narrativa surreal sobre uma luva que engole a mão de quem a utiliza e ganha vontade própria.

     Para além da piscadela de olho humorística, o que Michals nos fornece é um belo posicionamento ficcional. Embora a atmosfera de alguns de seus trabalhos possa remeter às tradicionais fotonovelas, é a transgressão no trato com a imagem e o enredo o que mais parece interessá-lo. Em sua proposta, o compromisso com a realidade (aspecto pelo qual a fotografia ainda hoje se vê avaliada por uma parte da crítica e do público) não é, nem de longe, um dos primeiros objetivos. A preferência pelos temas oníricos ou transcendentais valida esta afirmação e, se precisamos de ainda outro argumento nesse sentido, vejamos o caso de “A viagem do espírito depois da morte”.

    No princípio da sequência, o tom hiperbólico da encenação de uma queda de escada vitima um homem – e lembra a nós, leitores deste texto visual, que esta é uma história encarnada por atores; é como um teatro em poses. O nosso voyeurismo aqui não contempla o real, mas escapa do empírico e, conforme o ponto de referência que Michals escolhe para nós, pode acompanhar a luz diminuindo sobre o corpo inerte do homem ao pé dos degraus. As fotos, aos poucos, mostram um círculo luminoso que cresce. O homem morto, transformado em espírito, frequenta, nu e sob um foco borrado, as pessoas que o conheceram, os objetos que possuiu. Finalmente, banhado em luminosidade, sua viagem chega ao limite e ele se dissolve. As duas últimas fotos, num ciclo de vinte e cinco, mostram um bebê cada vez mais nítido, sugerindo o renascimento do espírito.

    Somente através da ficção um fotógrafo poderia, aliás, trabalhar com assuntos metafísicos sem executar fotografia espírita propriamente dita. E a inventividade de Michals necessita de um fio sequencial: um recurso narrativo, em suma. Mesmo quando às vezes não existe uma ação dos personagens, o seu tema se desenrola através de uma série. Estou pensando em “A condição humana” – um famoso ciclo. Em seis fotos, vemos um homem comum numa estação de metrô qualquer, em meio a outras pessoas. A mesma cena progride, sem movimentos, apenas sendo trabalhada em hiperexposição, numa gradação cada vez mais clara, até que as figuras se dissolvam, transformadas em luz completa, galáxia. Se já existiu alguma série fotográfica com grande peso filosófico, foi essa.

   Mesmo dentro do gênero retrato, Michals elabora seu veio metafísico, reforçando o caráter misterioso dos rostos que escolhe clicar. René Magritte e Andy Warhol foram dois personagens retratados dessa maneira – sob o estímulo de duplicidades, sobreposições, transparências. E, se recordarmos com Susan Sontag que existem usos narrativos específicos para a fotografia fixa – como no álbum de família –, então aqui estes artistas igualmente integraram histórias, com um estilo direcionado para jogos performáticos, ambíguos (como a obra de Magritte e Warhol, inclusive).

   Duane Michals também experimentou o uso da palavra sobre a fotografia. A partir de 1974, suas provas fotográficas começaram a ser enriquecidas por textos manuscritos. Tal elemento tornou-se um registro extra de autoralidade – conforme ressaltava Foucault, ao citar declaração do próprio Michals: “A vista dessas palavras sobre uma página me agrada. É como uma pista que eu deixei atrás de mim, traços que provam que eu passei por lá”. Mas não seria isso, enfim, toda narrativa – uma forma de dizer “eu estive lá”? Estive dentro dessa história; mesmo que eu a tenha inventado.

   Michals, que em certa reportagem já se definiu como um contista, sabe que linguagens, suportes ou gêneros textuais não são limites. São trampolins para quem deseja experiências com as múltiplas artes de narrar.

Tércia Montenegro

 

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