Aquarius

Envolvida com tantas leituras e pesquisas, já percebo que não conseguirei fazer a postagem ideal sobre o filme Aquarius – então, para ao menos roçar no assunto antes que o tempo imponha suas prioridades, faço este registro mínimo. Quem sabe, isso possa ser suficiente para aguçar a vontade em quem ainda não viu o filme. Há vários motivos para ir ao cinema. A atmosfera de tensão no trabalho de câmeras e na escolha de ritmos talvez seja o ponto mais importante, por construir uma estética que faz crescer o enredo numa expectativa constante.

Em vários momentos, a direção de Kleber de Mendonça Filho lembra a de Karim Aïnouz: a cena da festa, logo na primeira parte do filme, poderia pertencer a O abismo prateado ou a Praia do Futuro – e existe, claro, a locação, o sol de Recife, o mar, os ambientes domésticos que tanto se assemelham no espaço nordestino urbano. Mas, para além das afetividades (não vou negar o prazer dessa experiência – o pertencimento – ao assistir a excelentes filmes produzidos nesta região brasileira), Aquarius é uma obra, por assim dizer, útil. Embora nenhuma arte precise se legitimar pelo aspecto da serventia reflexiva ou discussão ideológica (há inclusive vários exemplos que mostram o desastre que boas intenções acarretam na estética), também não se pode cair no extremo contrário, de criticar os casos que misturam com sucesso estes ingredientes.

Ensinar com deleite, propunha o clássico – e Aquarius faz isso. Ensina, ou expõe, o que subjaz às decisões imobiliárias, aos acordos que massacram a paisagem urbana, forçando-a a se verticalizar. Mostra como as pessoas se transformam em marionetes do medo, vivendo de acordo com o plano (e para o lucro) dos grandes empresários. Escancara, sem maniqueísmos, as discrepâncias econômicas, o racismo, o preconceito sexual e físico, o falso romantismo em torno da noção de família… e nenhum destes temas pesa na história a ponto de lhe roubar o principal: a beleza com que é contada. Com elenco primoroso e fotografia impecável, Aquarius é daqueles filmes que deixam a sensação das boas viagens: um desejo de voltar, de rever.

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