Bater a porta

O convite de uma amiga surge agora como um novo caminho artístico, insinuando-se paralelamente aos meus outros tantos projetos. É uma ideia bruta ainda, mas que me instiga pelo trabalho coletivo, coisa rara de acontecer no ofício da escrita. Não sabemos quanto tempo levará, nem prevemos a forma ou o resultado deste impulso. De qualquer modo, o aprendizado – e o crescimento – acontecerá para nós. Já começou, aliás: pelas coincidências cósmicas, conheci o Projeto Nora, interligado com o que queremos. Histórias de mulheres. De pessoas que têm de se afirmar como tal – porque, pelo fato de serem mulheres, são vistas (pelos demais, às vezes por si mesmas) em primeiro lugar como mulheres e, só depois, talvez, como pessoas.

Este blog não é um espaço para grandes reflexões íntimas, mas assim mesmo arrisco alguns pontos necessários. Depois de morar 6 meses na Bélgica, eu percebi o quanto de machismo existe no pensamento brasileiro. Machismo nas palavras, no peso que têm termos como velhice, feiúra, gordura – se associados ao sexo feminino, em especial. Machismo na distribuição de lugares, que em “tradicionais” encontros familiares empurra as mulheres para a companhia umas das outras, onde (espera-se) que tratem apenas de assuntos domésticos ou cosméticos. Machismo nas brincadeiras sarcásticas que pretendem relativizar as qualidades de uma pessoa ou exibir suas fraquezas – sendo que, se essa pessoa fosse um homem, haveria a opção de guardar silêncio: a ideia de uma revanche violenta, ou do medo de uma reação intempestiva, considerada viril, justifica o respeito ao homem. Para mim, isso é pura covardia, e os covardes só perdem para os cruéis, no nível de baixeza.

Lendo sobre o Projeto Nora, eu me felicito mentalmente por ter batido a porta na cara de muita gente que mereceu. Desfiz amizades, injetei friezas e distâncias e, em alguns casos, continuo alerta a ponto de chamar a polícia se encontrar determinados sujeitos. Claro que preferia não ter passado por várias situações infames – mas tudo isso me ensinou a reconhecer os que elejo para andarem ao meu lado. Eles têm olhos limpos, riso ingênuo e nenhuma intenção de adestrar, tolher ou sufocar. Para alguém assim, inexistem portas aqui em casa: meu afeto circula livre, alegre.

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