Submissão, de Houellebecq

Depois d’O último leitor, de David Toscana – obra em que o autor ridiculariza os maneirismos de escritores que citam grifes, nomes de vinhos e pratos em restaurantes –, eu engoli com muita antipatia várias passagens do Houellebecq. O protagonista de seu romance é um professor de literatura da Sorbonne, um sujeito blasé que passa os dias a enumerar as refeições que faz e as mulheres que conseguiu levar para a cama (além de esmiuçar detalhes, satisfatórios ou não, das relações sexuais). Tudo gira em torno desse mundinho egocêntrico, avaliado pelos quesitos anteriores: um bom dia assim o é se o personagem teve bom sexo e/ou provou bons vinhos.

Mesmo a linguagem não me interessava; lendo no original francês, eu percebia que Houellebecq só muito raramente construía uma frase especialmente pensada. O geral da prosa tinha aquele tom prático, com enumeração de ações, sequências enfadonhas de uma objetividade que tantas vezes me afasta de alguns autores de língua inglesa.

Soumission escapou de minha completa rejeição por um triz. A chave – de compreensão ou salvamento – esteve no vínculo entre esse inexpressivo protagonista e seu objeto de estudo literário, Huysmans. Em determinado momento do livro, estabelece-se um verdadeiro contraste (temperamental e estético) entre o personagem-narrador François e seu colega de profissão Steve, da mesma forma com que Huysmans e Bloy, autores respectivamente estudados por eles, opõem-se. A partir daí, entende-se que a displicência autocentrada de François é quase um mimetismo do que se vê nas páginas de À rebours.

O paralelismo cansa um pouco, sobretudo se lemos a conversão religiosa do protagonista como uma reprise da própria atitude de Huysmans no final da vida – com a diferença de que, no caso de François, sua adesão ao islamismo é uma estratégia calculada para benefício próprio: a riqueza e ascensão profissional prometidas, além da perspectiva de ser um polígamo oficializado, são os únicos fatores que o empurram para a decisão.

Soumission surgiu envolto em muita polêmica, pela perspectiva política que supõe para o futuro. Sob esta visada, parece óbvio que o autor pretende criticar as circunstâncias em que muitos franceses aceitariam, bem satisfeitos, a submissão ao islã. O egoísmo de ver suas necessidades supridas com facilidade e honraria seria uma tentação irresistível para a elite intelectual europeia.

De minha parte, não discuto a eficiência do livro nesse sentido acusatório. Meu problema é achar qualidade num texto que provoca a náusea e a irritação no leitor, muito mais do que o alerta. É um texto eficaz nesse ponto, sem dúvida. Mas, para alguém que começa a ler Houellebecq por aqui (como foi o meu caso), fica o receio de encontrar o mesmo estilo de novo. A linguagem, repito, não envolve nem um pouco – e as tentativas de humor (como na passagem “Eu me sentia tão politizado quanto uma toalha de banho”) exasperam mais que divertem. Quando recordo trechos assim, sinceramente penso: a vida é muito curta para que eu dê outra chance a este autor.

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