Para matar Roland Barthes

Quem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet, tem um título original mais interessante para o seu enredo (embora não tanto para o mercado): A sétima função da linguagem. A hipótese desse “thriller acadêmico” gira em torno de uma possível função – mágica – que Jakobson teria explicitado em sua clássica obra sobre o assunto; porém, à maneira do índex que também constituía a ameaça criminosa em O nome da rosa (influência evidente em Binet), o tal ensaio vira um instrumento mortífero graças aos poderes que seria capaz de conferir à pessoa que o utilizasse.

O livro começa com algumas qualidades irônicas, sobretudo no retrato humano, excessivamente humano, que traça de personalidades científicas. Quem já teve a oportunidade de conviver 10 minutos com um grande nome das pesquisas (linguísticas ou não) reconhece de imediato o temperamento agônico-vaidoso que encrespa, via de regra, esses indivíduos. Foucault, Deleuze, Kristeva, Sollers, Derrida: todo mundo entra nesse caldeirão em que teorias interessantes se misturam a conchavos sórdidos. É claro que o livro pretende ser uma ficção – e isso estabelece limites bastante claros. Mas o leitor fica com o gosto ruim de perceber que, tirando as máscaras das referências didáticas, o que sobra é uma história bem ruim. O velho esquema de passeio-por-muitas-paisagens, ação e mais ação, mistérios motivando personagens caricatos cheira a Dan Brown. As cenas de sexo são das menos convincentes já escritas: parecem fabricadas por um robô empenhado em encadear sequências previsíveis, que têm como único appel o fato de acontecerem em locações extravagantes.

A tradução para o português, de Rosa Freire d’Aguiar, também é descuidada, como o demonstra esta passagem:

“Eco diz que a teoria de Austin não se limita a esses poucos casos mas que ele a estendeu a situações linguísticas mais complexas, quando um enunciado não se contenta em afirmar alguma coisa sobre o mundo mas visa provocar uma ação, que se realiza, ou não, pelo simples fato de que esse enunciado é formulado. Por exemplo, se alguém lhe diz ‘está calor aqui’, pode se tratar de simples constatação sobre a temperatura mas em geral você entende que o outro conta, a partir do efeito de observação, com o fato de você ir abrir a janela. Da mesma maneira, quando alguém pergunta ‘que horas são?’, espera como resultado para a pergunta não que você responda sim ou não, mas que de fato lhe diga a hora.” (p.211)

O negrito acima acentua um trecho completamente incompreensível – por causa da tradução! E não é preciso saber francês ou consultar o original para supor que Binet deve ter escrito “quando alguém pergunta ‘você tem um relógio?'”. Neste caso, sim, seria possível a resposta sim ou não – embora, conforme a teoria de Austin, saiba-se que a verdadeira intencionalidade é saber a hora etc.

Há outras derrapadas de menor gravidade; entretanto, não quero responsabilizar a tradutora para além do que ela merece. Binet me pareceu enfadonho em suas soluções bizarras. Isso atrapalha até o “serviço científico” que ele poderia prestar, convidando leitores a buscarem teorias ou autores muitas vezes áridos. Desisti de recomendar mesmo curtas passagens para os meus alunos (embora trabalhando com Jakobson, Barthes, Foucault e Kristeva). O livro não merece concessões. Ele incorre no pecado do desleixo estético: não parece se importar com o texto; é cheio de irregularidades na proposta narrativa, sem que isso pareça atender a um propósito. Seu suspense conspiratório não é suficiente para compensar as fragilidades e inverossimilhanças da trama.

Houellebecq, meses atrás, e Binet, agora, inspiram a minha resolução de ano-novo (e de vida): exigir da arte o espanto imprescindível. Ser impaciente com o trivial – e rejeitá-lo. Vou engrossando o casco. Não apenas uma segunda chance a esse tipo de autor é impossível, como decido abandonar peças semelhantes – sejam livros, filmes, espetáculos – no meio. Afinal, a experiência demonstra: se não trouxe nenhum impacto até determinada altura (meia hora, 5o páginas), é caso perdido. Por que perder o tempo, esse bem inestimável?

 

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