Meditação e arte

Trechos de Em águas profundas, do David Lynch:

“(…) se você está preocupado porque 30 minutos depois estará em algum lugar, não há como criar. Por isso a vida artística implica liberdade; é preciso tempo para que as coisas interessantes possam acontecer. Nem sempre há muito tempo para as outras coisas.”

“Há um ditado que diz: ‘Mantenha os olhos na rosca e não no buraco’. Se você mantém os olhos na rosca e faz o seu trabalho, isso é tudo o que pode controlar. Não se pode controlar nada que esteja do lado de fora, fora de você. Mas você pode se voltar para dentro e dar o melhor de si.”

“É senso comum: quanto mais o artista sofre, menos criativo ele fica. O mais provável é que trabalhe de má vontade e que dificilmente faça algo de interessante.

A essa altura alguém pode mencionar Vincent Van Gogh, como exemplo de um pintor que fez coisas maravilhosas a despeito ou por conta do sofrimento. Acredito que Van Gogh teria feito coisas ainda mais maravilhosas se não fossem pelas restrições impostas por seus tormentos. Não acredito que tenha sido a dor que o tornou tão grande; a pintura é que lhe deu o pouco de felicidade que teve.

Alguns artistas têm a raiva, a depressão e a negatividade como suas molas propulsoras. Acham que devem se agarrar à raiva e ao medo para colocar no trabalho que fazem. E abominam a ideia de serem felizes – isso realmente os desagrada. Acham que a felicidade os fará perder o estímulo e o poder.

Mas não se perde o estímulo quando se medita. Assim como não se perde a criatividade. E não se perde o poder que se tem. Na verdade, quanto mais meditamos e transcendemos, mais as coisas se desenvolvem e percebemos isso. Quando mergulhamos mais fundo, ganhamos mais compreensão de todos os aspectos da vida. Dessa forma, o entendimento aumenta, o apreço cresce, a grande figura se forma e a condição humana se torna cada vez mais visível.”

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2 pensamentos sobre “Meditação e arte

  1. Tenho opinião diferente, acho que o desejo mais íntimo dos grandes artistas é ser feliz e se perder na multidão e abandonar o ofício das artes. Acredito que a produção de arte está ligado ao sofrimento.

  2. Concordo com o David Lynch. Uma pessoa em depressão profunda, por exemplo, é incapaz de produzir qualquer coisa. Por isso, não me parece bom para o artista se agarrar à tristeza como se ela fosse a sua musa. Isso não quer dizer que o sofrimento não exista e não seja útil. No budismo, o sofrimento existe porque a felicidade existe, e vice-versa. Não se pode conceber um sem conhecer o outro. Enquanto vivia no palácio protegido de todo tipo de dor pelo seu pai, o príncipe Gautama não sabia o que era felicidade. Foi só depois de sair de lá e ver como as pessoas sofriam que ele pode pesquisar e descobrir o que era a felicidade. Gosto de comparar essa experiência à ideia de valor em Saussure: palavras adquirem valor e significado não por sua relação com o referente, mas por oposição a outras palavras.

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