2666

Bolaño não é um dos meus favoritos (e para quem acha que sou muito exigente, quase impossível de agradar literariamente, aviso que em breve farei postagem sobre um autor contemporâneo que vem se multiplicando com muita felicidade na minha biblioteca). Já tinha lido Os detetives selvagens e Putas assassinas com aquele sentimento de “É bom, mas…”. A ressalva ficava sempre por conta de algumas passagens que não me convenciam em termos de metáfora, e – ainda mais grave – pelo estranho sentimento de que os livros não iam a lugar nenhum, não pareciam atender a qualquer propósito. Com isso, não quero dizer que acredite em compromissos literários, defesas ideológicas – muito pelo contrário! Apenas sei que o objetivo de um livro deve aparecer em algum momento: não como tema, tese ou moral, mas enquanto impacto que deixa no leitor, memória que o leitor vai carregar.

Os textos de Bolaño passaram em brancas nuvens por mim; deixaram-me num estado de amnésia fatal: sinal de sua qualidade descartável. Mas eu me dizia que não tinha conhecido a obra-prima do autor chileno. Quando lesse 2666, aí, sim, teria o melhor, a máxima envergadura desse escritor.

Fui parcialmente recompensada.

A primeira parte do livro é a pior, quase me fez desistir. Há um acúmulo de informações mesquinhas, verdadeiros relatórios da rotina de personagens, ação pela ação – e as tais comparações bizarras, que não me convencem. Vejam alguns exemplos abaixo:

“(…) por que pensava em Berthe Morisot e no livro e na nuca de Norton, e não na possibilidade certa de um ménage à trois que naquela noite havia levitado como um feiticeiro índio ululante no apartamento da inglesa sem nunca chegar a se materializar?” (p.70)

“(…) compungidos com o caso do taxista paquistanês, que girava ao redor da má consciência dos dois como um fantasma ou um gerador de eletricidade.” (p.87)

“perfumes que seguiam os corpos como meteoritos” (p.103)

“A partir desse momento a realidade, para Pelletier e Espinoza, pareceu se rasgar como um cenário de papel, e ao cair deixou ver o que havia por trás: uma paisagem fumegante, como se alguém, talvez um anjo, estivesse fazendo centenas de churrascos para uma multidão de seres invisíveis.” (p.140)

Além disso, Bolaño fica periodicamente relatando sonhos que as personagens têm – sem que isso pareça significar algo no livro, além do propósito de encher páginas (nem mesmo um esclarecimento de perfil psicológico os sonhos trazem). Eu estava, portanto, à beira da desistência – mas fui continuando. E o livro foi melhorando, quase como se eu percebesse um artista se aquecendo, ficando mais ágil, mais experiente. Lá pela metade, porém, veio a mesma sensação do início. Listas e listas de mulheres assassinadas, relatórios repetitivos, vai e vem espacial confuso etc. Mas no final… Ah, o final mostra que Bolaño sabe fazer as costuras! A obra não fica encerrada em si mesma (e seria ruim se isso acontecesse), mas a grande destreza desse livro é saber conduzir por paisagens que distraem a ponto de preparar muito bem uma surpresa. E assim toda a monotonia anterior se explica: 2666, pelo conjunto, fornece uma viagem que vale bem suas 852 páginas.

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