Viajar com Tchékhov

Tive o prazer de inaugurar as leituras de 2017 com Um bom par de sapatos e um caderno de anotações, coletânea de fragmentos escrita por Tchékhov sobre uma viagem que ele realizou a Sacalina, ilha que recebia presos deportados. A motivação para a experiência foi, em grande parte, conduzida pelo “lado médico” do autor – mas a observação sensível, que transforma o visto em outra coisa, está o tempo inteiro neste livro, organizado por Piero Brunello. É o que prova que um escritor nunca deixa sua tentação estética, por mais que profissionalmente incursione por outros territórios.

O livro surgiu num momento providencial da minha vida, quando eu refletia (e continuo nesse processo) a respeito de comodismo versus aventura. O risco de cair no conforto da primeira opção quase me fez negar o gosto que sempre tive pelas explorações imprevistas. De modo mais direto: sobre as difíceis viagens, não posso me queixar de ter já sofrido cansaço, se descubro, por exemplo, que Tchékhov saiu de Moscou em 21 de abril de 1890, para chegar a Sacalina somente em 11 de julho. Partiu de lá em 13 de outubro, voltando para casa apenas em 9 de dezembro. Além de todo o desgaste do tempo de deslocamento, enfrentou condições adversas até mesmo para um resistente russo: teve de andar em meio a lama e frio, usando botas de feltro, e em sua rotina com os prisioneiros só encontrou – como podemos imaginar – cenas degradantes de imundície e embotamento ou desespero.

As lições não param neste ponto. O desejo de observar, inspirado por uma pesquisa, num “elogio à experiência direta”, foi o que levou Tchékhov a sua expedição – que, dentre muitos ensinamentos, trouxe também a humildade de rever expectativas: perceber como relatos alheios ou leituras às vezes são completamente equivocados.

Um dos seus princípios, válido para qualquer coisa, não somente para viagens, era não desanimar: “não se deixar vencer pelas dificuldades iniciais e pelo medo do imprevisto” (p.39) E o outro: não planejar demais, sob pena de se privar do prazer – e da sabedoria – do Acaso. Um bom par de sapatos é um livro essencial sobre coragem. Do tipo que faz a gente se jogar sem paraquedas, para cair bem em cima do desejo.

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