Femme de Fortaleza

Há alguns meses aconteceu este clic de Martin Bruno, numa tarde em que concedi entrevista para matéria da revista da Air France (que pode ser lida, em francês, clicando-se aqui). Continuo preferindo a cor vermelha – mas o coração anda bem triste.

 

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Dentro da caixa escura

Há um ano Fortaleza ganhou um Museu da Fotografia e, quando conheci o espaço, senti que recuperava uma das melhores experiências estéticas que já tive. No final de 2015, encerrando minha estada de pesquisa justamente voltada para a arte fotográfica, visitei Charleroi, cidade belga conhecida por ter um magnífico museu na área.

Eu sempre entro nestes locais como quem explora uma catedral: vou em busca do silêncio e do sagrado. Há algo em mim que precisa recuperar um senso mágico. A fotografia – antigamente eu pensava – era a linguagem que com maior dificuldade me traria um grande impacto. Por sua banalização cotidiana, sua presença invasiva em tantos e diversos lugares, ela precisava mesmo ser muito boa, para me chamar a atenção. E ainda restava a dúvida quanto à “necessidade” de um museu que lhe fosse específico. Reproduzir fotos em livros, vê-las em catálogos, paredes ou postais não trazia uma equivalência? Mas a reprodutibilidade técnica não aniquilou a aura, oh Walter Benjamin.

Quando vi pela primeira vez uma exposição de Francesca Woodman – com as imagens no tamanho que a artista tinha escolhido para elas (e que era menor do que as impressões em qualquer livro) –, quando vi sob o vidro o papel pigmentado que estivera sob as vistas de Diane Arbus – quando tive ao alcance Cartier-Bresson, quando conheci na mesma sala (e por isso, para mim eles estarão sempre juntos) afinlandesa Susanna Majuri, o tcheco Pavel Banka, a mexicana Erika Harrsch… O único prazer comparável ao Musée da Photographie chegou à minha cidade, e não preciso mais morrer de saudades.

Ultrapassando a experiência pessoal, que – óbvio – não se repete (e quiçá nem se transmita), há fatos relevantes, de um alcance coletivo. O Museu da Fotografia em Fortaleza promove encontros, oficinas e workshops. Atua em comunidades carentes, com a ajuda de uma equipe educativa que ensina crianças a montarem câmeras Pinhole para produzir fotos artesanais. Ativou também recentemente o hábito do cineclubismo, com exibição gratuita de filmes clássicos premiados por fotografia, e ao longo destes meses trouxe importantes exposições.

Para além da Coleção Paula e Sílvio Frota, cujo rico acervo foi o elemento motivador da construção deste espaço, o museu apresentou, a partir de outubro, a obra de fotógrafos brasileiros em conflitos armados. Na linha de frente fez o público conhecer imagens contemporâneas feitas na Líbia, na Síria, no Iraque e em outros países, com a participação dos seus autores num ciclo de palestras. Ouvir Gabriel Chaim, João Castellano e Felipe Dana foi, sem dúvida, uma chance de refletir sobre questões que toda arte (que digo eu? que todo gesto humano) potencializa: território, política, liberdade, existência.

Meses antes, eu tinha ouvido naquele mesmo auditório uma palestra de Izabel Gurgel, sobre Frida Kahlo. Izabel estava interessada “em como a Vida se manifesta na forma Frida” – com as múltiplas visadas que o tema permite. As reflexões passaram pela fotografia como uma “insistência na repetição”, pela perda da memória (que equivale à perda do próprio rosto), pela “elaboração estética de si”, por álbuns de família vistos após um luto, pela ficção como “uma potência de desenho interior”… até a ideia de uma Frida-palhaça, com “sua entrega radical de presença”, inclusive – ou principalmente – diante dos desconcertos, do que não se sabe.

Essa palestra foi mais uma situação irrepetível, um privilégio que o museu trouxe à cidade. As digressões, as costuras temáticas diante do repertório de imagens aconteceram naquela tarde. Em outra, virão pensamentos diferentes, porque o contexto será diverso. E o Museu da Fotografia, na concepção dos arquitetos Marcus e Lucas Novais, reprisa de propósito uma caixa mágica, um dispositivo de captura. Somos presos pelo impacto – e, ao mesmo tempo, arremessados.

O clique da fotografia acontece inclusive sobre o olho de quem a contempla. Foi por causa dele que num janeiro de exílio tive um bem-estar imediato com certa imagem de Brigitte Grignet. Ela mostra uma jovem com os cabelos esvoaçando, prestes a pular de um pequeno muro, o mar espumoso logo atrás. Há um cão que espera a mulher, de costas para nós, e também não vemos o rosto dela. Tudo parece mistério, nessa foto em preto e branco onde o negrume do cabelo, da saia e do cão mantém o equilíbrio. Depois descobri que foi feita no Chile – mas não importa: quando vi a foto, exposta na galeria Satellite, do cinema Churchill em Liège, subitamente voltei à Beira-Mar de Fortaleza. Isso me bastou. Clic.

“Girl in the wind” in Chiloe, Chile

Tércia Montenegro (texto publicado no espaço Vida e Arte do jornal O Povo e também no jornal Rascunho, na coluna Tudo é narrativa)

Casa e Caramelo

Duas autoras hispanofalantes que recentemente li – por indicação da amiga Inês Cardoso – voltaram a me despertar para a narrativa breve. Samanta Schweblin, argentina, e Andrea Jeftanovic, chilena, alcançam o melhor do manejo contístico. Da primeira, Siete casas vacías (2015) é um volume perturbador, unificado em suas histórias pelo tema da vergonha causada pela família. Comportamentos insanos ou hábitos inexplicáveis levam a intervenções da polícia ou à chegada de ambulâncias, como uma tentativa de restabelecer a ordem – e quase sempre é uma personagem secundária quem narra: aquela que sofre as consequências dos protagonistas problemáticos.

Há também situações que envolvem vizinhos, na similar condição de um universo íntimo e inquietante em que algo sai do normal. A perda da memória, a demência, a dor – tudo leva à ideia de que, ao contrário do que pretendia Sartre, o inferno não são os outros; o inferno somos nós mesmos, em conflito permanente. Atos desvairados, cometidos por figuras avulsas pela cidade: os contos de Schweblin tratam de solidão e do enigma das personalidades. Comparada a Andrea Jeftanovic, notamos que de fato ela é mais veloz, mais econômica (e talvez mais profunda, por “deixar o entendimento para o leitor”, conforme ressalta numa entrevista disponível na internet).

Os textos de Jeftanovic podem, em compensação, atingir um maior grau poético, mas nem por isso chegam todos a ser convincentes. O tema de familiares complicados, envolvidos em jogos de perversão, igualmente cruza o seu No aceptes caramelos de extraños (2011) – e assim encontramos casais que, juntos há 30 anos, precisam fingir que são estranhos para que o desejo físico lhes ressurja… porque o muito conhecido aborrece, repugna – mas o mistério em geral inspira respeito. Há um erotismo de gestos elásticos e complexos, envolvendo vizinhos com seus segredos sexuais, sua cumplicidade incomunicável.

Se Schweblin é uma autora visual (por herança de sua formação em cinema), Jeftanovic é uma escritora de texturas. Ela claramente não se inibe diante de associações plásticas. Cria efeitos sinestésicos, arrisca elos que – mesmo quando escorregam num certo exagero expressionista – são admiráveis pela ousadia. O conto que dá título ao volume, por exemplo, trata do desaparecimento de uma garota de onze anos, com o consequente desmembramento da cidade criado pelas buscas da mãe. Num belo trecho à página 111, conferimos: “Salir andando, por inseguridad y por vacío de la voluntad, como si la caminata fuera la ultima experiencia que puedo ofrendar al paisaje de ruinas por donde te mueves, sin fuerzas para montar mi ventana fuera del anonimato”.

Os caramelos são a rota da fuga, do desabrigo – são as pistas que repercutem, confusas, dessa memória mítica de Grimm: migalhas de pão sumidas, no caminho que leva à casa da Bruxa. Mas o local da maldade pode ser bem ali, junto aos próprios parentes. Um dos melhores textos do livro é “Árvore genealógica”, que trata da sedução do pai pela própria filha. Censurado em antologias da Alemanha e dos EUA, onde se considerou que fazia a “apologia da pedofilia” e do incesto, penso se no Brasil de hoje esse conto também não seria motivo para levantar escândalos… A arte, enquanto espaço para a liberdade e a experimentação moral, conforme Jeftanovic, vem sendo cada vez mais vigiada por aqui.

Mas, pelo gosto dos censores, dos fiscais de “situações anormais”, os contos de Schweblin também deveriam ser varridos. Cenas vexatórias ou desagradáveis devem ser escondidas sob a pátina de bons modos, boas intenções? O conto “Mis padres y mis hijos” questiona exatamente tais fronteiras. Quando um casal de idosos, por um ato de demência (ou não) começa a se divertir num estado naturista e arrasta para essa celebração os dois netos pequenos, a polícia – junto com os adultos “responsáveis” – é incapaz de ver uma ingenuidade nesses gestos. O final do texto traz um riso implícito (que talvez ainda seja a melhor arma contra as exigências sociais):

“En ese momento me vuelvo hacia la casa. Los veo, ahí están los cuatro: a espaldas de Charly, más allá del jardín delatero, mis padres y mis hijos, desnudos y empapados detrás del ventanal del living. Mi madre restriega sus tetas contra el vidrio y Lina la imita mirándola con fascinación. Gritan de alegría, pero no se los escucha. Simón las imita a ambas con los cachetes del culo. Alguien me arranca la malla de la mano y escucho a Marga putear al policía. El radio hace ruído. Gritan a la central dos veces las palavras ‘adultos y menores’, una vez ‘secuestro’, tres veces ‘desnudos’, mientras mi exmujer golpea con los puños el asiento trasero del conductor. Así que me digo a mí mismo ‘no abras la boca’, ‘no digas ni mu’, porque veo a mi padre mirar hacia acá: su torso viejo y dorado por el sol, su sexo flojo entre las piernas. Sonríe triunfal y parece reconocerme. Abraza a mi madre y a mis hijos, despacio, calidamente, sin despregar a nadie del vidrio”. (pp.37-8)

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal Rascunho)

Para amar Manaus

Aproveitando o final das férias, fui à Amazônia – mas o sonho de conhecer o “Brasil profundo” teve de ser adiado por questões logísticas e éticas. Dentre estas últimas, ficou evidente que eu não poderia participar de um passeio que envolvesse pesca a piranhas, nado com botos ou focagem noturna de jacarés. Parece que a maioria dos turistas se diverte exotizando um bicho, sem pensar na intrusão que representa àquele habitat – por isso, foi um pouco difícil encontrar uma agência (fui a quatro) que simplesmente me oferecesse um trajeto de barco para ver o encontro das águas e voltar.

Quanto às questões logísticas, dormir na selva requer uma programação bem mais detalhada – e com mais tempo e dinheiro – do que previ. O ideal é sair direto do aeroporto para o traslado, sem ficar zanzando por Manaus. Entretanto, como eu não conhecia a cidade, achei interessante passear pelo centro histórico e também pela Ponta Negra, com uma esticada até o Museu do Seringal. Há coisas que lemos nos livros de História que só vão fazer sentido in locu – cada vez fico mais convicta.

Outros museus que visitei foram: o Palacete Imperial (que recomendo pela maior coleção numismática do Brasil) e o Museu Amazonense, infelizmente quase oco (a não ser por algumas peças indígenas e uma sala informativa sobre tecnologia lítica). Mas o melhor é o Musa, que fica no Jardim Botânico – um belo pretexto para ir até o lugar, embora a chuva forte do último dia tenha me contido. Assim, deixei de subir os 42 metros de torre para apreciar a floresta vista de cima. Mas, para ser bem sincera, ainda que eu tivesse joelhos fortes e tempo de sobra, talvez preferisse a hierarquia natural. As árvores e os pássaros devem permanecer no alto.

Dessa viagem, fica a lição – já tão repetida, porém nunca o bastante – de que a natureza é mesmo curativa. Passar dez minutos andando numa trilha, ou descansando diante de águas, ouvindo barulhos não-eletrônicos, equivale a uma noite de repouso. Ou talvez mais.

O regresso ao contínuo

    Em 2017, o centenário de nascimento de Algirdas Julius Greimas – linguista lituano grandemente responsável pelos avanços na área da semiótica – trouxe várias comemorações pelo mundo acadêmico. Os estudos dessa linha greimasiana costumam ser temidos por sua complexidade, mas também trazem ao pesquisador experiências de reflexão tão arrebatadoras que só podem ser comparáveis a determinados momentos estéticos. O próprio título de minha seção, Tudo é narrativa, foi inspirado nessa proposta semiótica. Óbvio que não pretendo agora enveredar pelo tema teórico da construção do sentido – mas, em homenagem ao autor de Semiótica das Paixões, gostaria de fazer volteios em torno de um assunto que o leitor pode inclusive considerar em sua dimensão mística: o par contínuo-descontínuo.

   Simplificando estes termos dentro de uma estrutura textual, o contínuo é a continuação, a rotina; o descontínuo é a parada, ou o acontecimento. Assim, qualquer enunciado modula estas instâncias, à medida que vai trabalhando com fatos dados ou novos. Toda cadeia processual possui alternância, e é a própria tensão entre tais dicotomias que vai gerando o andamento do texto.

       Se saímos, porém, da perspectiva de uma semiótica tensiva (mais explorada por outros teóricos, sobretudo por Claude Zilberberg), encontramos uma distinta aplicação para esta ideia oposicional. O descontínuo seria tudo o que está mergulhado na, por assim dizer, semiosfera. O princípio da comunicação é que ela aconteça por fragmentos. O fato de precisarmos falar a respeito de algo que estamos pensando, por exemplo, demonstra como existe uma separação entre a nossa mente e a de outra pessoa. Cada indivíduo é mera parte da humanidade, que se encontra em estado de dispersão – por isso, parece primordial que nos comuniquemos. Essa troca só é possível porque existe a separação, a diversidade. Se tudo fosse reduzido ao uno, as necessidades de transferência ou diálogo ficariam subitamente esgotadas.

      Faço uma pausa para o leitor respirar, contando uma ilustrativa experiência pessoal.

      Já faz muito tempo sinto uma espécie de chamado para uma vida mais primitiva, algo que nomeio como tentação de ser hippie. Insistentemente cogito passar um longo período sem tecnologia, de maneira mais ou menos selvagem, em contato íntimo com a natureza. Como jamais arrisquei efetivamente essa mudança, contento-me com pequenos retiros rústicos, para me desintoxicar. Foi assim que há cerca de um mês passei um final de semana numa praia ainda pouco conhecida, a quatro horas de Fortaleza. A paisagem, com dunas belíssimas, era um tipo de representação do infinito – e andar sob as estrelas parecia um ensinamento ancestral: estamos aqui por um instante apenas, mas isso não é trágico. Logo estaremos de novo integrados ao contínuo universal. Sem desejos, anseios ou fragmentos.

    Tudo muito espiritualizado e perfeito – não fosse pela presença de outras pessoas falando, quebrando o momento. Eu queria apenas ser esmagada pelo silêncio, deixar que ele me preenchesse, mas duas senhoras atrás de mim conversavam. Elogiavam um conjunto de panelas em promoção numa certa loja.

     Escutar aquele comentário me fez entender como a comunicação pode ser um defeito.

    Há momentos em que fazer uso da língua se torna um distúrbio, uma ação postiça. Toda mensagem é uma forma de romper-se, de evidenciar as fraturas: de mim para você, sempre haverá desentendimentos, elementos alheios incontornáveis.

    Esse é o descontínuo, convulsionando. E ele convulsiona o tempo inteiro, no espaço cultural permeado por signos – a tal semiosfera.

    Entretanto, temos uma potencialidade de transcendência, uma integração holística possível – o regresso ao contínuo, quando nada mais for separado, tempo e espaço e corpos: tudo inexiste porque chegou a uma totalidade tão extrema que qualquer coisa (inclusive a linguagem) se torna supérflua, uma futilidade que finalmente se ultrapassou.

   A própria língua deixaria de existir porque tudo nela – assim como no mundo – funciona na base de contrastes. Se digo (na tentativa de explicar uma vida-além) que ela seria um estado perene de paz, aí já existem oposições, pois não se entende o conceito de paz a não ser pondo-o em contraste com o de guerra; a ideia de estado obriga a pensar na ausência de estado, o perene evoca o perecível. Assim, cada palavra ou partícula existe somente por dialogar com outra – e este mecanismo, por si, é um sintoma da imperfeição, das partes que vão se dinamizando e nunca chegam à unidade completa. Chegar a essa imobilidade seria o fim das contradições e do simbólico. Seria a morte, por assim dizer.

     Nesse momento, penso que a frase do sábio “Só sei que nada sei” não parece uma lição de humildade, mas, ao contrário, uma afirmação iluminada (e até um pouco envaidecida): saber o nada é saber o tudo. É ter acesso à perfeição. Quando não existem divisões, compreender-se dentro da continuidade é contemplar o divino. Ou melhor, é dissolver-se nele, deixar de ser matéria, átomo. Retornar ao contínuo.

Tércia Montenegro (texto publicado também aqui, no jornal Rascunho)