A casa de Kahlo

Motivada pela postagem abaixo, que me fez reviajar para o México, recupero uma crônica que foi publicada em 15 de agosto de 2012, na coluna que eu tinha no jornal O Povo. Esse texto e os demais da época foram reunidos no meu livro Os Espantos (para saber mais, clique na guia Autora).

Já comentei na crônica anterior, quinze dias atrás, que a Cidade do México é um esplendor em museus – mas, em meio a tantas opções, a Casa Azul (que era residência da pintora Frida Kahlo) ainda se destaca. Faz toda a diferença andar por um ambiente que foi habitado pelo próprio artista, mesmo que na maior parte dos espaços hoje se perceba um “arranjo” artificial, criado para expor os objetos, e não mais para desfrutar deles. Na verdade, o único aposento que parece ter sido realmente mantido, em composição e atmosfera, é o estúdio onde Frida pintava. Uma placa na parede confirma o pressentimento: todos os móveis, com estantes de livros, cavalete, espelho, estão ali exatamente como no passado. Vemos os pincéis e as tintas (guardadas em frascos de perfume), tudo paralisado numa expectativa inútil – e a cadeira de rodas, um corpete que Frida usou, depois de várias cirurgias… O ateliê vibra de luz e dor, com janelas abertas para o jardim.

A essa altura do percurso, passamos pelos quadros e desenhos famosos, vimos a lareira que Diego Rivera mandou construir para a sala principal e descobrimos um acervo de ex-votos pintados em chapas de alumínio, que se mandava fazer pelo alcance de uma graça. Frida colecionava essas relíquias de arte popular, assim como também guardava inúmeras bonecas numa escrivaninha. Cada quarto estava repleto de gente, turistas lentos e silenciosos, provavelmente tão impressionados quanto eu. Porque é quase um ato profano, ingressar na intimidade doméstica de quem se admira e não se conhece – ainda mais em outra época, póstuma. Frida não tem como fechar as portas, defender-se do olhar invasivo de estranhos que sondam sua existência talentosa e trágica. Sua presença ronda os objetos que lhe sobreviveram, está fragmentada na memória de todas estas peças – mas ao mesmo tempo se distorce, com a lojinha de souvenirs e a escultura dela e Diego como esqueletos, num senso de humor bizarro. São as exigências do turismo, dirão alguns, e eu não posso negar. Estes elementos lembram que a Casa Azul, afinal, não é mais uma casa…

Talvez o verdadeiro refúgio de Frida, o núcleo onde ela ainda se mantém discreta e preservada, esteja no último quarto. Em meio à mobília e tantos acessórios de decoração, sobre uma mesa está sua urna funerária, em formato de sapo. Os antigos mexicas acreditavam que este animal tinha comunicação direta com o inframundo, por sua capacidade anfíbia – mas há outra explicação válida. Diego Rivera, marido de Frida, também era conhecido pelo apelido de sapo, por sua aparência gorda, de olhos saltados. Para as cinzas de uma mulher que viveu sempre desconfortável no próprio corpo, não pode haver descanso melhor que uma urna no formato do homem que ela amava.

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Frida Kahlo em foto de Edward Weston, em 1930.

 

 

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Para andar dentro do sonho

Neste sábado, fui ao Museu da Fotografia pela primeira vez. Embora não me perdoe por ter adiado tanto tempo esta visita, ainda vivi a felicidade clandestina de deixar para ver o acervo numa próxima ocasião. Hoje à tarde, o evento era a palestra da querida Izabel Gurgel, sobre Frida Kahlo – e como foi bom passar três horas inteiramente mergulhada numa inteligente conversa sobre artes, culturas, épocas!

Assim como o empenho de Leminski ao biografar personalidades, Izabel estava interessada “em como a Vida se manifesta na forma Frida” – com as múltiplas visadas que o tema permite. As reflexões passaram pela fotografia como uma “insistência na repetição”, pela perda da memória (que equivale à perda do próprio rosto), pela “elaboração estética de si”, por álbuns de família vistos após um luto, pela ficção como “uma potência de desenho interior”… até a ideia de uma Frida-palhaça, com “sua entrega radical de presença”, inclusive – ou principalmente – diante dos desconcertos, do que não se sabe.

Essa palestra foi uma situação irrepetível, tenho certeza: as digressões, as costuras temáticas diante do repertório de imagens aconteceram nesta tarde. Em outra, virão pensamentos diferentes, porque o contexto será diverso. E melhor acolhida o Museu da Fotografia não poderia ter me fornecido: é, de fato, uma caixa mágica, um dispositivo de captura. Como disse Izabel, é um lugar para andar dentro do sonho, na cidade de Fortaleza.

O riso de Orozco

Comecemos o ano com bom humor, que é a maneira mais sábia. Para isso, selecionei passagens da Autobiografia de José Clemente Orozco, pintor que aprendi a amar em Guadalajara. O seu texto, embora incompleto, serve como amostra do quanto nos iludimos, às vezes, achando que esses muralistas mexicanos foram todos uns chatos engajados. Orozco, por exemplo, por mais expressionista e denunciatório, tinha o olhar farceur sobre a vida – e sobre a política, claro:

“Yo no tomé parte alguna en la revolución, nunca me pasó nada malo y no corrí peligro de ninguna especie. La revolución fue para mí el más alegre y divertido de los carnavales, es decir, como dicen que son los carnavales pues nunca los he visto. A los grandes caudillos sólo los conocí de vista, cuando desfilaban por las calles al frente de sus tropas y seguidos de sus estados mayores. Por esto me resultaban muy cómicos los numerosos artículos que aparecieron en los periódicos americanos acerca de mis hazañas guerreras. (…) Hubo varios que me hicieron aparecer como uno de los abanderados de la causa indígena y hacían un retrato de mi persona en el cual podía reconocerse a un tarahumara. Yo jamás me preocupé por la causa indígena, ni arrojé bombas, ni me fusilaron tres veces, como aseguraba otro diario.” (pp.33-4)

E eu confesso, apesar de ter ficado embevecida diante da igreja del Senõr de los Rayos, en Temastián – e não somente pela arquitetura, mas pelos ex-votos e retábulos, tão semelhantes aos nossos, brasileiros (e aos que Frida colecionava e encontrei, em sua Casa Azul) – não pude conter as gargalhadas nesta passagem da Autobiografia (e Frida novamente me perdoará, pela parte que ridiculariza o surrealismo):

“En cuanto a los retablos, podrá haber algunos muy interesantes, magníficos y aun geniales, pero los más son como la pintura de pulquería, iguales a los muñecos de aficionados en cualquier parte del mundo. Los retablos repiten el mismo tema, con muy pocas variaciones: la cama, el enfermo arrodillado y la aparición milagrosa entre las nubes. Han pasado como obras de arte gracias al surrealismo: se pinta algo que semeja remotamente una silla y se le pone por nombre ‘niño jugando con su perro’. Después se le manda hacer marco, y listo.” (p.84)

Orozco pode ter sido impiedoso – mas se a arte e o humor tiverem medo da liberdade, isso indica que o reino dos agelastos dominou o mundo, e Deus nos proteja desta danação!

retábulo

A perna esculpida

Uma curiosidade sobre o Dr. Atl: na postagem anterior, mencionei que ele havia perdido a perna direita num acidente – e o fato pode ser confirmado em retratos e também num vídeo (onde ficamos sabendo que o pintor mandou fazer um andaime mecânico, com o qual podia trabalhar comodamente, apesar da deficiência física). Entretanto, alguém poderá estranhar o fato de a escultura na Rotonda mostrar uma perna diferente faltando, ou seja, a esquerda: pude comprovar isso até mesmo antes de chegar ao ponto turístico ao lado da Catedral de Guadalajara: em visita à Casa López Portillo, eu tinha encontrado a pequena estátua feita por Miguel Miramontes, certamente um estudo para a obra da Rotonda. Ambas trazem o idêntico erro, com a troca das pernas, a ausente pela esculpida.

Dr Atl

escultura Dr. Atl

Talvez o próprio Dr. Atl (a julgar pela risada súbita que explode no seu vídeo) se agradasse do equívoco que entrou para a posteridade. No caso de Orozco, que tinha perdido a mão esquerda na infância, isso não aconteceu: mas mesmo assim, sua escultura na Rotonda romantiza um pouco o defeito, e quem não sabe da história pode pensar que ele apenas segura um lenço amarfanhado.

Por sinal, se lembrarmos que a celebrada Frida foi outra a sofrer um acidente medonho, já temos aí três grandes pintores mexicanos do século XX marcados com mutilações – o que talvez dê o que pensar aos que gostam de associar arte a sofrimento físico…