Goethe na intimidade

Há alguns anos, quando fui a Frankfurt para a Feira do Livro, pude conhecer a casa em que Goethe viveu: vi os papéis de parede autênticos, a mobília, o piano piramidal, o teatro em miniatura, a biblioteca… Meu Deus, eu vi até mesmo as panelas usadas na época e a escrivaninha de onde saiu o Werther!

Tempos mais tarde, em Roma, também descobri um apartamento onde o poeta alemão viveu, durante sua temporada na Itália. E a visita me ensinou sobre o seu lado voltado para as artes plásticas – além de me postar diante da exata janela em que Goethe foi retratado por Tischbein na seguinte obra:

Mas até ontem, por mais que todas essas referências (e leituras em tradução) me aproximassem de Goethe, eu ainda não tinha desfrutado de sua intimidade, por assim dizer. Pois só é possível tornar-se familiar de um artista mergulhando em sua obra, percebendo como ela foi feita – no original, com o sabor autêntico.

Um minicurso com a amiga Reseda Streb, como parte da programação da Semana da Língua Alemã, na Casa de Cultura, abriu-me as portas da poesia germânica. Não foi uma experiência de entendimento imediato, óbvio (a cópia com minhas anotações abaixo demonstra o processo), mas o fascínio prevaleceu. Ao ouvir Reseda lendo os versos, com seu ritmo autêntico – e depois, ao experimentar também uma leitura em voz alta, tive a mesma sensação de entrar n’Os Lusíadas, ou na Divina Commedia.

Camões, Dante e Goethe pertencem a universos e temas distintos, lógico. Mas lê-los no original provoca em mim a mesma coisa; ativa o mesmo lugar interno – aquela fisgada de arrebatamento que também tive diante de Vermeer, diante de Rembrandt, ó céus. É nessas horas em que sinto o privilégio da arte, e como ela cria um tipo de felicidade específico.

Todo o esforço para aprender um novo idioma vale a pena nesses momentos. Assim como os sacrifícios para fazer uma viagem com o grande objetivo de ver um quadro num museu. São experiências de clímax na vida. E – devo admitir – , exatamente por trazerem êxtase, tornam-se um vício também.

O que posso fazer? Continuo perseguindo o princípio do prazer.

Obs.: Na época de minha visita à casa de Goethe em Roma, fiz uma postagem neste blog, que pode ser lida aqui.

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As casas de Goethe

Agora que retomei as aulas de alemão, não deixo de lembrar uma recente visita à Casa de Goethe, em Roma. Eu andava pela via del Corso, voltando da Piazza del Popolo, quando percebi a tentação do anúncio: “o único museu alemão em Itália” etc. Ainda pensei em não entrar (vinha tão cansada!), sob o argumento íntimo de que afinal já tinha conhecido a Goethehaus em Frankfurt – mas felizmente escutei o deus que protege os turistas insaciáveis, e ele me dizia: “Pode ter alguma coisa nova e interessante. Vai!”

Foi como se me rasgassem uma cortina de rótulos, por trás da qual eu enxergava o autor de Werther. Conheci um Goethe boêmio, aventureiro e insaciável por arte (inclusive – ou principalmente? – a pintura), um Goethe que teve aulas de desenho e elaborou sua teoria das cores – da qual eu já tinha ouvido falar, mas que nunca me impactou muito: eu precisava ver os seus estudos minuciosos, como nessa paleta de combinações que ele elaborou, ou como nos seus exercícios plásticos, impressionantemente modernos:

Demonstrativo da Teoria da Cor, de Goethe

Demonstrativo da Teoria da Cor, de Goethe

Acima: "Symolische Annahërung zum Magneten" (1798). Abaixo: "Brustbild eines Mädchens in umgekehrten Farben" (1808)

Acima: “Symbolische Annahërung zum Magneten” (1798). Abaixo: “Brustbild eines Mädchens in umgekehrten Farben” (1808)

Além de tudo isso, também adorei contemplar a paisagem da janela em que o próprio autor foi retratado, na imagem de Tischbein feita em 1797. Um ano antes, esse artista – que aliás foi colega de apartamento de Goethe – tinha pintado o célebre Goethe in der römischen Campagna. A curiosidade (para a qual o museu alerta) fica por conta da desproporção nas pernas do personagem e da presença de dois pés esquerdos em seu corpo!

Por fim, a visita ainda vale muito pelos livros expostos, primeiras edições emocionantes, de obras que mostram o quanto o escritor se entregou à pesquisa e à vida na Itália. Dá vontade de ler tudo, e ainda mais o Diário de Goethe, é claro!

primeira edição