Na Bienal de Fortal

A semana foi de pura correria, com algumas intempéries – mas fica um bom destaque para a Bienal Internacional do Livro do Ceará (que vai até domingo). É sempre enriquecedor falar sobre literatura com e para quem ama esse ofício. Nas imagens abaixo, de Chico Gadelha, duas dessas oportunidades que vivi, ao lado de Lira Neto e de Cleudene Aragão e Jáder Santana:

Goethe na intimidade

Há alguns anos, quando fui a Frankfurt para a Feira do Livro, pude conhecer a casa em que Goethe viveu: vi os papéis de parede autênticos, a mobília, o piano piramidal, o teatro em miniatura, a biblioteca… Meu Deus, eu vi até mesmo as panelas usadas na época e a escrivaninha de onde saiu o Werther!

Tempos mais tarde, em Roma, também descobri um apartamento onde o poeta alemão viveu, durante sua temporada na Itália. E a visita me ensinou sobre o seu lado voltado para as artes plásticas – além de me postar diante da exata janela em que Goethe foi retratado por Tischbein na seguinte obra:

Mas até ontem, por mais que todas essas referências (e leituras em tradução) me aproximassem de Goethe, eu ainda não tinha desfrutado de sua intimidade, por assim dizer. Pois só é possível tornar-se familiar de um artista mergulhando em sua obra, percebendo como ela foi feita – no original, com o sabor autêntico.

Um minicurso com a amiga Reseda Streb, como parte da programação da Semana da Língua Alemã, na Casa de Cultura, abriu-me as portas da poesia germânica. Não foi uma experiência de entendimento imediato, óbvio (a cópia com minhas anotações abaixo demonstra o processo), mas o fascínio prevaleceu. Ao ouvir Reseda lendo os versos, com seu ritmo autêntico – e depois, ao experimentar também uma leitura em voz alta, tive a mesma sensação de entrar n’Os Lusíadas, ou na Divina Commedia.

Camões, Dante e Goethe pertencem a universos e temas distintos, lógico. Mas lê-los no original provoca em mim a mesma coisa; ativa o mesmo lugar interno – aquela fisgada de arrebatamento que também tive diante de Vermeer, diante de Rembrandt, ó céus. É nessas horas em que sinto o privilégio da arte, e como ela cria um tipo de felicidade específico.

Todo o esforço para aprender um novo idioma vale a pena nesses momentos. Assim como os sacrifícios para fazer uma viagem com o grande objetivo de ver um quadro num museu. São experiências de clímax na vida. E – devo admitir – , exatamente por trazerem êxtase, tornam-se um vício também.

O que posso fazer? Continuo perseguindo o princípio do prazer.

Obs.: Na época de minha visita à casa de Goethe em Roma, fiz uma postagem neste blog, que pode ser lida aqui.

Em Curitiba

Lembrando que passei um dos melhores carnavais no Paraná, lá pelos anos de 2013, agora, nesta época coincidente, recebo a boa notícia do projeto Curitiba Literária, com duas participações minhas. Uma delas surge na antologia Algumas vozes, a ser lançada na próxima segunda-feira. Confiram o convite clicando na imagem abaixo:

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A segunda participação está nas ruas: esta frase – que para mim é um verdadeiro lema – pode ser vista na Estação-tubo Morretes/sentido Santa Cândida. A foto é de Rodrigo Cardoso:

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Reviajar – Chez moi

Há exatamente um ano voltei para casa. Dei por encerrada minha temporada belga e tive, desde então, a experiência de retomar a vida que escolhi levar. Creio que jamais teria chegado a refletir sobre tantos assuntos (rotina, arte, feminismo, autoestima) num nível de tal profundidade – e poder de mudança – sem passar pelo deslocamento do exílio. Pois meu ciclo simbólico parece agora chegar a uma espécie de resumo íntimo: a distância me permite enfim desejar novos projetos para a pesquisa que inspirou meu pós-doc. É hora de olhar para trás, vendo o que sobressai da memória, o que de fato importa. Nada melhor para inaugurar este momento do que um retorno ao espaço doméstico – o lugar que habitei durante 6 meses, em frente à igreja de Saint Denis, em Liège. Estas fotografias têm um sentido muito particular: por um lado, me fazem sorrir, lembrando o inofensivo fantasma de um vestido ancestral, suspenso sobre uma misteriosa escada; por outro, recordam que meu verdadeiro quarto, em Fortaleza, nunca precisou de edredons nem lareiras (felizmente!).

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Mapa.Doc

Amigos,

Mais de um ano após aceitar o convite para participar do documentário das artes Mapa.Doc, tenho o prazer de divulgar aqui o link do trabalho – que ficou muito lindo. Minha presença está a partir dos minutos 2:49, 5:50 e 11:49, com todo o traço cabalístico que isso possa conter.

 

Da personagem à pessoa

De tanto pensar na ideia de que tudo é narrativa, resolvi aplicar a proposta a um laboratório de escrita. Afinal, um objeto, frase ou rosto pode ser o elemento disparador de uma história (dizia Tchekhov que uma coisa – qualquer coisa – gera um texto, desde que desperte concentração suficiente e associações interessantes).

O experimento intitulado “Retratos Literários – Assim nasce uma personagem”  aconteceu dentro das atividades do OcupaLetras, na Universidade Federal do Ceará, no último dia 24. Em parceria com a amiga e também escritora Fernanda Meireles, sugeri: nós duas ficaríamos disponíveis para criar biografias, enredos, situações imaginárias a partir da fisionomia das pessoas que quisessem posar.

No início, claro, tive motivações “didáticas”. Era bastante tentadora essa tendência, já que a ação ocorreria no ambiente onde exerço o magistério há oito anos. Então, sabendo que vários alunos têm talento ficcional, queria demonstrar que não existe falta de inspiração para quem observa: seria uma pequena lição através do exemplo. Mas na prática o aprendizado acabou se tornando muito relevante para mim mesma – inclusive com reflexões que ultrapassaram o tema artístico.

O primeiro ensinamento foi sobre a necessidade de tempo e silêncio – para criar, ou apenas para estar acessível. Numa atividade tão econômica (exige somente cadeiras, papel e caneta), a presença humana se alargou, algo que muitas vezes não acontece, quando a tecnologia vem impor disfarces ou distrações.

O segundo aspecto foi sobre o processo recíproco. A ação prometia transformar uma pessoa em figura literária, mas não se pode esquecer que a contemplação era mútua e simultânea. Eu, escrevendo, estava diante do sujeito que posava tanto quanto ele estava diante de mim. E, além disso, o meu texto seria lido um segundo após eu  finalizá-lo. Ou seja, haveria a mudança de lugar: logo seria eu a oferecida à investigação alheia – e de maneira bem mais profunda, talvez: a leitura ultrapassa o jogo do olhar; é uma mirada íntima que o outro lança, acompanhando um processo mental.

Funcionava como aquela performance da Marina Abramović, The artist ist present – embora em circunstâncias agravadas. Ainda que Marina tenha passado centenas de horas disponível para o seu público, num museu, o que ela dava era isso, a sua presença (o que é bastante, sim, mas a artista não precisava se preocupar com um produto extra, um resultado que o público levasse, como um souvenir).

Quando me dei conta do grau de consequência que a ação proposta envolvia, quase paralisei de medo. Porém uma voluntária já sentava à minha frente, posando para o tal retrato escrito. Eu tinha de sufocar a angústia por perceber – naquele minuto – que perderia o conforto da “fase de gaveta”, o prazo em que ponho o texto de lado, esqueço-o até que o distanciamento me torne disposta a avaliá-lo. Na situação do laboratório, o método se invalidava. Não podia dizer à pessoa: “Pronto. Daqui a alguns dias, você lerá seu retrato literário – se ele estiver bom.” A obrigatoriedade de fazer algo no mínimo instigante era aflitiva. E a certeza de um leitor iminente exacerbava o quadro.

Apesar da ansiedade, a experiência foi maravilhosa. Imaginem: durante duas horas, duas escritoras produziram, juntas, trinta textos inspirados em pessoas que se deixaram contemplar. Lógico que o ambiente era próximo do perfeito, com gente que – por ser da área de Letras – compreendeu o plano e esteve profundamente envolvida com o exercício. Não sei como seria a mesma atividade realizada, digamos, numa esquina do centro de Fortaleza. Uma nova edição do projeto pode trazer vivências inesperadas. Mas por enquanto, o ensinamento crucial (e que jamais imaginei que viria com tanta força) foi o político. Tendo, de forma física e imediata, o meu futuro leitor ali, esperando pelo texto, ponderei sobre responsabilidade como nunca havia feito. As minhas palavras atingiriam alguém. Alguém que eu estava vendo. Não se tratava de um ente virtual, desconhecido ou improvável. Era uma pessoa tão próxima que, se eu estendesse a mão, poderia tocar.

Quando um político rouba o dinheiro público, quando age em benefício próprio, prejudicando o interesse coletivo, consegue dimensionar o impacto que seu gesto causa, realmente? Pode enxergar a repercussão – em pobreza, carência, uma avalanche de consequências ruins – sobre indivíduos concretos? Seria vital mostrar isso aos culpados, levá-los para conhecer as pessoas, ficar perto delas. Não falo nos retóricos passeios de épocas eleitorais: o que importa não é o desfile do candidato. Importa saber a história do outro, do sujeito anônimo que tem o seu destino não imaginado, mas efetivamente escrito pelas decisões de um gestor distante, mergulhado em egoísmo.

2016 se consagra como o ano da Surrealpolitik pelo mundo – e o Brasil ajuda muito a endossar este termo. O que temos diante de nós, em escândalos que estouram a cada dia, é gravíssimo. E, embora alguns episódios sejam inacreditáveis, se estamos iludidos precisamos nos convencer de uma vez: tudo está existindo. Infelizmente, não é ficção, nem tem fase de gaveta. Explode – e continua explodindo.

Tércia Montenegro (texto publicado hoje no Vida & Arte, caderno cultural d’ O Povo. Clique aqui para ler no jornal.)

Retratos Literários – assim nasce uma personagem

Realizei ontem, com minha amiga Fernanda Meireles, uma atividade no Ocupa Letras (contra a PEC 55, contra Temer & todos os demais famigerados). A ideia, inspirada nas sessões plásticas da Mesa Branca, recebeu o nome de Retratos literários: assim nasce uma personagem. Diante de uma pessoa que posasse para nós, criaríamos uma personagem, uma situação ou cena biográfica. Com 30 retratos finalizados por ambas, ao longo de duas horas – e sob as bênçãos de São Moreira Campos, no Bosque -, tivemos sem dúvida uma experiência marcante, que ainda vai render muitas reflexões sobre processo criativo. Confiram algumas imagens deste momento:

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