Da série Motivos para amar Fortaleza

O céu tem a cor mais linda – mesmo sem esse luxo de arco-íris.

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O regresso ao contínuo

    Em 2017, o centenário de nascimento de Algirdas Julius Greimas – linguista lituano grandemente responsável pelos avanços na área da semiótica – trouxe várias comemorações pelo mundo acadêmico. Os estudos dessa linha greimasiana costumam ser temidos por sua complexidade, mas também trazem ao pesquisador experiências de reflexão tão arrebatadoras que só podem ser comparáveis a determinados momentos estéticos. O próprio título de minha seção, Tudo é narrativa, foi inspirado nessa proposta semiótica. Óbvio que não pretendo agora enveredar pelo tema teórico da construção do sentido – mas, em homenagem ao autor de Semiótica das Paixões, gostaria de fazer volteios em torno de um assunto que o leitor pode inclusive considerar em sua dimensão mística: o par contínuo-descontínuo.

   Simplificando estes termos dentro de uma estrutura textual, o contínuo é a continuação, a rotina; o descontínuo é a parada, ou o acontecimento. Assim, qualquer enunciado modula estas instâncias, à medida que vai trabalhando com fatos dados ou novos. Toda cadeia processual possui alternância, e é a própria tensão entre tais dicotomias que vai gerando o andamento do texto.

       Se saímos, porém, da perspectiva de uma semiótica tensiva (mais explorada por outros teóricos, sobretudo por Claude Zilberberg), encontramos uma distinta aplicação para esta ideia oposicional. O descontínuo seria tudo o que está mergulhado na, por assim dizer, semiosfera. O princípio da comunicação é que ela aconteça por fragmentos. O fato de precisarmos falar a respeito de algo que estamos pensando, por exemplo, demonstra como existe uma separação entre a nossa mente e a de outra pessoa. Cada indivíduo é mera parte da humanidade, que se encontra em estado de dispersão – por isso, parece primordial que nos comuniquemos. Essa troca só é possível porque existe a separação, a diversidade. Se tudo fosse reduzido ao uno, as necessidades de transferência ou diálogo ficariam subitamente esgotadas.

      Faço uma pausa para o leitor respirar, contando uma ilustrativa experiência pessoal.

      Já faz muito tempo sinto uma espécie de chamado para uma vida mais primitiva, algo que nomeio como tentação de ser hippie. Insistentemente cogito passar um longo período sem tecnologia, de maneira mais ou menos selvagem, em contato íntimo com a natureza. Como jamais arrisquei efetivamente essa mudança, contento-me com pequenos retiros rústicos, para me desintoxicar. Foi assim que há cerca de um mês passei um final de semana numa praia ainda pouco conhecida, a quatro horas de Fortaleza. A paisagem, com dunas belíssimas, era um tipo de representação do infinito – e andar sob as estrelas parecia um ensinamento ancestral: estamos aqui por um instante apenas, mas isso não é trágico. Logo estaremos de novo integrados ao contínuo universal. Sem desejos, anseios ou fragmentos.

    Tudo muito espiritualizado e perfeito – não fosse pela presença de outras pessoas falando, quebrando o momento. Eu queria apenas ser esmagada pelo silêncio, deixar que ele me preenchesse, mas duas senhoras atrás de mim conversavam. Elogiavam um conjunto de panelas em promoção numa certa loja.

     Escutar aquele comentário me fez entender como a comunicação pode ser um defeito.

    Há momentos em que fazer uso da língua se torna um distúrbio, uma ação postiça. Toda mensagem é uma forma de romper-se, de evidenciar as fraturas: de mim para você, sempre haverá desentendimentos, elementos alheios incontornáveis.

    Esse é o descontínuo, convulsionando. E ele convulsiona o tempo inteiro, no espaço cultural permeado por signos – a tal semiosfera.

    Entretanto, temos uma potencialidade de transcendência, uma integração holística possível – o regresso ao contínuo, quando nada mais for separado, tempo e espaço e corpos: tudo inexiste porque chegou a uma totalidade tão extrema que qualquer coisa (inclusive a linguagem) se torna supérflua, uma futilidade que finalmente se ultrapassou.

   A própria língua deixaria de existir porque tudo nela – assim como no mundo – funciona na base de contrastes. Se digo (na tentativa de explicar uma vida-além) que ela seria um estado perene de paz, aí já existem oposições, pois não se entende o conceito de paz a não ser pondo-o em contraste com o de guerra; a ideia de estado obriga a pensar na ausência de estado, o perene evoca o perecível. Assim, cada palavra ou partícula existe somente por dialogar com outra – e este mecanismo, por si, é um sintoma da imperfeição, das partes que vão se dinamizando e nunca chegam à unidade completa. Chegar a essa imobilidade seria o fim das contradições e do simbólico. Seria a morte, por assim dizer.

     Nesse momento, penso que a frase do sábio “Só sei que nada sei” não parece uma lição de humildade, mas, ao contrário, uma afirmação iluminada (e até um pouco envaidecida): saber o nada é saber o tudo. É ter acesso à perfeição. Quando não existem divisões, compreender-se dentro da continuidade é contemplar o divino. Ou melhor, é dissolver-se nele, deixar de ser matéria, átomo. Retornar ao contínuo.

Tércia Montenegro (texto publicado também aqui, no jornal Rascunho)

O viajar impreciso – Hamburg

Toda viagem reverbera, constrói memórias, referências e outras âncoras das quais partimos para entender a nós mesmos. Eu sempre gosto de voltar aos lugares onde estive (e continuo estando, numa diferente dimensão) – por isso, as fotos, os objetos e diários de bordo que recupero constantemente. Mas também sinto a necessidade de construir viagens futuras, de começar a vivê-las através dos planos. Por mais que elas possam parecer impossíveis por alguma razão prática do momento, não ousar sequer imaginá-las atingiria um nível absurdo de autocensura. Portanto, resolvi inaugurar esta série de postagens sob o título “O viajar impreciso”. Não tenho qualquer estimativa de data para conhecer estes locais que elejo (daí a imprecisão), mas formular o desejo já é uma forma de início.

O primeiro destino da lista é Hamburgo – por causa de sua Filarmônica. Não digo mais nada. Apenas perco o fôlego.

Die Elbphillarmonie in Hamburg

 

 

Para saber mais, recomendo este link.

Sequestrar a arte

158 artistas expondo em 15 espaços da cidade, sob a organização de 9 curadores: uma colaboração voluntária que fez a efervescência cultural em Fortaleza durante um mês. Foi belo, foi revigorante – além de marcante em termos históricos. Mas foi, acima de tudo, necessário. O Salão de Abril Sequestrado representou uma iniciativa da classe artística contra a inexplicável mudez da Prefeitura, que em 2017 deixou que os meses se desenrolassem, sem dar qualquer resposta à pergunta “Não vai ter Salão de Abril este ano?”. O compromisso, assumido desde 1964 pela administração pública, parecia ignorado pela atual gestão. Era grande o risco de que este – que é o mais antigo salão de artes em vigor no país – passasse a ser desconsiderado e, por conseguinte, fosse extinto.

O Salão Sequestrado aconteceu como estratégia de salvamento – sem perder por isso o prumo da qualidade, das excelentes trocas estéticas. A organização costurou temas e propostas múltiplas, com uma eficiência impecável, num prazo quase impossível. E os espaços utilizados, dentre galerias e sedes culturais autônomas, envolveram também as afetividades urbanas. A Vila Vicentina, o Poço da Draga, o Parque do Cocó são locais que levantam questões muito sérias relativas à preservação do patrimônio paisagístico e das comunidades hoje, em Fortaleza. Envolver esses ambientes na proposta do Salão reforçou o seu gesto político. Trata-se de defender, de modo amplo, o que está sendo ameaçado, o que por um triz pode ser condenado ao sumiço.

Não raramente, a técnica do descaso é adotada em nosso país: em vez de recusar claramente uma atitude ou compromisso – o que provocaria réplicas imediatas, polêmicas –, a pessoa simplesmente vai deixando correr o tempo, evitando o assunto, “matando no cansaço”, como se diz. Foi esse o destino empoeirado, aliás, que sofreu uma escultura produzida por Flávio de Carvalho, em homenagem a Garcia Lorca – e que depois viria igualmente a ser salva através de um sequestro. Em matéria assinada por Lais Modelli para a BBC Brasil, publicada em 30 de setembro, somos informados de que o monumento foi danificado em 1969 numa explosão misteriosa, possivelmente associada ao Comando de Caça aos Comunistas. As ruínas da obra foram levadas pela Prefeitura de São Paulo para um lugar desconhecido e, apesar de todos os esforços do artista que a criou, nenhuma satisfação foi dada, acerca do seu paradeiro.

Esperava-se que a escultura simplesmente fosse esquecida, bem como a figura que ela homenageava – o poeta Lorca, até hoje um exemplo de resistência a governos repressores.

Entretanto, em 1979 o futuro cineasta Fernando Meirelles, que à época estudava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), descobriu o esconderijo da escultura num depósito. Com um grupo de amigos conspiradores, ele conseguiu raptar a obra de Flávio de Carvalho, que depois foi remontada e exposta no vão livre do Masp, até finalmente ser restituída ao local onde primeiro esteve, a Praça das Guianas.

Aqui, a similaridade do gesto de sequestro é uma feliz coincidência. Nos dois casos trata-se de uma captura não para ocultar algo; ao contrário, sequestrar a arte só pode ter por finalidade expandi-la, torná-la viável, tirá-la de qualquer congelamento. Mas, para além desse aspecto, há o sentido jurídico do termo: um sequestro para o cumprimento da tutela de urgência, verdadeira medida cautelar para a asseguração do direito.

Depois que o Sequestrado abriu suas atividades, o secretário Evaldo Lima prometeu, em entrevista concedida ao jornal O Povo no dia 29 de setembro, um Salão com mostra retrospectiva do acervo da Prefeitura, a acontecer no último mês de 2017. A cidade está aguardando, assim como espera para os anos seguintes um compromisso público fortalecido na direção da arte e da cultura. Não deveria ser necessário lembrar que esses elementos são parte crucial na formação do pensamento e da própria humanidade – mas esta anda tão enxovalhada, que já bastante gente vai pensando que se trata de um luxo…

Tércia Montenegro (Texto publicado hoje no jornal O Povo. Para ler neste veículo, clique aqui)

Aprender com a desordem

Reformar a casa pode ser uma experiência existencial – desde que se esteja mais atento aos pensamentos que à poeira de gesso. A companhia de alguns livros específicos também ajuda a fertilizar os dias caóticos: eu havia escolhido três volumes para a quinzena de folga, planejada em torno de uma reclusão heroica, ao lado de pintores e pedreiros. Enfurnada num dos quartos enquanto o mundo se acabava no restante domicílio, comecei agarrando Só garotos. A história de Patti Smith e Robert Mapplethorpe foi um modelo punk de sobrevivência: um alívio saber que se pode existir (e criar) em meio à desordem.

Enquanto devorava a biografia do casal, recordei as fotos de Mapplethorpe que vi expostas, ambas em Paris, quatro anos atrás. Até então, eu não tinha digerido bem a ideia de que o mesmo artista que iluminava flores com delicada sugestão erótica chegava às raias do grotesco em imagens de sadomasoquismo gay. Pois o seu percurso de vida, se não explicou, ao menos pôde me indicar os caminhos complexos na origem dessas obras.

Fiquei admirando ainda mais a Patti, por tudo o que teve de enfrentar – e por seu envolvimento tão humano com todas aquelas pessoas-ícones da Nova York de décadas atrás. Em vários momentos, parei para escutar as canções dela no youtube: apesar da interferência acústica de uma furadeira, creio ter me transportado para a sua atmosfera.

Passei para os contos de O. Henry na noite em que dormi no chão da sala (pois agora era o meu quarto que estava em obras). A sua ironia e sagacidade – apesar dos costumes incrivelmente datados, de uma sociedade que talvez me fizesse espirrar com tanta poeira (não estivesse eu já imunizada, àquela altura do campeonato) – fizeram a minha distração.

Em horas mais solenes, como a do café pelo meio da tarde, eu pegava o Da Poesia, reunião dos livros poéticos da Hilda Hilst. Avancei bastante no volume, mas tomando o cuidado de não terminá-lo: é injusto ler poesia como se lê prosa. O ritmo tem de ser outro, o mesmo passo tranquilo que aplico ao contemplar as peças num museu. Preciso ver os detalhes da composição, considerar seu efeito no espaço, sua presença. Com a prosa, tudo pode ser mais fluido – é um passeio no estilo dos que faço descendo à beira-mar: fico atenta ao movimento das ruas tanto quanto à paisagem: é o conjunto que me atinge, com sua dinâmica.

Hilda esperou, portanto, na cabeceira (eu voltava a ter uma, assim como tornei a dormir na minha própria cama). Decidi que merecia a releitura de um ensaio, Um teto todo seu, que me trouxe a riqueza-desperdício típica dos grandes autores. Aliás, por falar em reler, eu me convenci de que esta pergunta basta para avaliar a qualidade de um artista: quero estar com sua obra de novo? Ou uma vez só já me deixou farta? Virgínia Woolf, óbvio, merece a máxima assiduidade.

Esta passagem sobre verdade e ilusão, por exemplo, era um belíssimo consolo para quem se via em meio a um vendaval doméstico: “Qual era a verdade sobre aquelas casas, por exemplo, agora embaçadas e festivas com suas janelas vermelhas ao anoitecer, mas cruas, vermelhas e esquálidas às nove horas da manhã? E os salgueiros, o rio e os jardins que seguiam para o rio, agora oscilantes sob a névoa furtiva, mas dourados e vermelhos sob a luz do sol – qual era a verdade, qual a ilusão que os cercava?”

Qual era a verdade sobre o meu apartamento e o meu estilo de vida? Eu começava a enxergar as possibilidades secretas de uma casa, e elegia prioridades: espaços vazios, iluminados, abertos, com muito vento despenteando as cortinas. Quero, sim, luz entrando com violência, queimando com lento vigor a lombada dos livros, empalidecendo fotos e mobília. Quero o tempo a se instalar nesses objetos que, em sua maioria, sobreviverão a mim. Pois que ao menos envelheçam! Que sofram gastos, ganhem essa pátina das coisas manuseadas – que saiam da postura rígida que se confunde com zelo ou preservação, mas em realidade (descobri) é puro medo de movimento.

Quando as peças saem do lugar, nós nos forçamos a fazer algo de improviso. E as soluções – apressadas que sejam – têm sua fagulha criativa. Eu aproveitava as prateleiras e gavetas expostas para desenterrar restos de uma antiga colonização amorosa: detritos que enfiei longe da vista mas persistiam ali, enviando algum tipo de energia desnecessária.

Livrei-me de tudo.

Fui tomada pela fúria das donas de casa em faxina, mas a ação se deu de forma sobretudo íntima. Nenhuma das palestras budistas que frequentei, nem os cânticos de Hare Krishna ou o retiro com os seguidores de Osho, nada disso me trouxe a revelação didática, clara e transformadora que alcancei em duas semanas de acampamento residencial, num cenário em certos momentos semelhante a Aleppo. Como resultado, tornei-me uma resistente com ideias um tanto radicais. Anotei várias num diário de bordo (que foi ao mesmo tempo uma espécie de âncora mental), e percebo que a mais prática delas – apesar de expressa de modo um pouco obscuro – é a que promete: Não arrastarei meus fósseis para o futuro, nem orquestrarei uma dança de múmias; tudo o que é vestígio deve se expandir, ou então se extinguirá. Traduzindo: muitos objetos para o lixo, sem remorso.

Quinhentas libras por ano, uma tranca na fechadura, tempo e solidão – disse Woolf, na sua lista de quesitos indispensáveis ao ofício de escritora. Uma certa bagunça com grande capacidade de renovação – digo eu. Porque tudo ao final é liberdade, e essa é a única coisa que importa.

Tércia Montenegro (texto publicado no jornal literário Rascunho. Pode também ser lido aqui)