Dr. Atl em Olinka

Em 2014 editei pela Casarão do Verbo o Dicionário amoroso de Fortaleza. Na mesma época, também finalizava para a Companhia das Letras o romance Turismo para cegos. Essa confluência fez o tema das viagens, dos percursos em torno (e fora) da minha própria cidade tornar-se uma questão obcecante.

Ainda em 2014, viajei pela segunda vez ao México e conheci a obra de Dr. Atl. Sobre ele, havia lido algo poucos dias antes de embarcar, aprendendo que tinha sido um dos amores de Nahui Olin e inclusive o responsável por batizá-la assim, em náhuatle, língua na qual o seu pseudônimo foi igualmente cunhado, significando “água”. Desse modo, não por acaso o Dr. Atl aparece como a representação do elemento líquido no famoso afresco de Orozco (mas esse é um assunto para mais tarde). Tive sobre ele breves leituras, mas já fui uma felizarda por encontrar a exposição com seus quadros, em Guadalajara. No Hospício Cabañas, a mostra Rotación Cósmica me ensinou muitíssimo.

Logo na primeira sala, fotos de Dr. Atl o mostravam no vale de Pihuamo, onde ele quis – em vão – instalar sua Ciudad Internacional de la Cultura (um projeto que me lembrou um sonho parecido com o da Violeta Parra, mas em outro lugar e sob diferentes dimensões). O pintor queria construir uma cidade inteira, para artistas e cientistas, e formulava esse desejo desde 1903 – mas somente em 1912, em Paris, começou de fato a esboçar seu projeto. A cidade seria batizada de Olinka, que em náhuatle quer dizer “onde se cria em movimento”.

Dr. Atl cogitou como lugares o vale de Teotihuacán, as “estribaciones” de Popocatépétl e Iztaccíhuatl, Tepoztlán, entre outros. Olinka seria uma “fuga hacia el espacio infinito”, onde o homem alcançaria seu “potencial absoluto” – mas o que mais me impressionou foi uma fotografia deste velho homem à procura do local para sua terra prometida. A ausência da perna direita e as extremidades das muletas fincadas na terra, o contorno triangular de sua figura sombreada, terminando num chapéu… tudo fazia lembrar um vulcão! Será que o artista tinha enfim se metamorfoseado no que mais queria?

Desde os 19 anos, quando ainda se chamava Gerardo Murillo, ele realizava caminhadas solitárias de até quatro meses de duração, pela espessura das selvas de Nayarit e Jalisco. Buscava paisagens para pintar e situações espirituais que lhe trouxessem revelações cósmicas. Os vulcões o seduziram de maneira fulminante, e em 1943 Dr. Atl se instalou nos arredores do Paricutín por quase um ano. Pintou este vulcão de todos os modos, suas “fumaradas” e jorros de fogo. Em seguida publicou Como nasce e cresce um vulcão, com observações mais profundas do que as de qualquer geólogo.

Não posso deixar de imaginar que o seu amor pela explosão da natureza, por esse tipo de inferno terrestre, por assim dizer, foi um modo de continuar ligado a Carmen Mondragón, essa mulher lança-chamas, uma espécie de Pagu mexicana que ele chamou de Nahui Olin. Na época do relacionamento, ele a fotografou e pintou – e, de acordo com as informações que obtive, sofreu as oscilações da pré-loucura de Nahui. O próprio Dr. Atl não era um ingênuo, mas tornou-se vítima das crises de sua companheira até que, por uma questão de sobrevivência, resolveu largá-la (parece que ela havia atirado duas vezes nele). A separação não significou uma existência tranquila: como vulcanólogo, Dr. Atl constantemente estava se arriscando – e o motivo para ter perdido a perna, gangrenada e amputada na altura do quadril, foi uma de suas apaixonadas expedições.

Olinka nunca chegou a existir – mas o artista, ao pintar obsessivamente vulcões, talvez reconstruísse a paisagem escondida por trás daquelas bocas fumegantes: os grandes olhos de Nahui, abertos sobre o céu como se o rastro das estrelas tivesse lançado uma golfada sobre a terra.

A sua pretensão de fundar uma cidade perfeita, assentada na artistocracia, fez com que ele se tornasse o defensor dessa nova classe social capaz de concentrar tudo, a vontade de conhecimento e a força de raciocínio, em obras de beleza. Lógico que se pode enxergar na proposta um perigo sectário, mas Dr. Atl nem de longe foi o primeiro a sonhar com um refúgio para artistas. Van Gogh e Gauguin ensaiaram uma coletividade desastrosa, dentro do mesmo princípio de retiro necessário. Uma exclusão social, que preservasse da vida massificada, era o sonho de Stanislávski para os seus atores, através da Comunidade do Teatro de Arte. Man Ray, por um certo período, pertenceu ao grupo da Abbaye de Créteil: instalados numa casa campestre, os hóspedes – dentre os quais incluíam-se Alfred Jarry e Robert de Montesquiou – tinham como modelo a abadia de Thélème de Rabelais, sob a divisa “Faça o que você quiser”.

Essas propostas respingam nos projetos de residências artísticas, quando às vezes convivem no mesmo habitat vários criadores, influenciando-se mutuamente – ou não. O prazo limitado desse tipo de vivência (e o fato de que os artistas em geral desconhecem uns aos outros quando vão morar juntos) gera, entretanto, a sensação de que tudo não passou de um teste.

Algo muito mais espontâneo ocorreu em Fortaleza, no Residencial Iracema, condomínio que durante décadas teve dentre os seus moradores músicos, escritores, cineastas, gente do teatro, da dança, da culinária… Os pequenos blocos de apartamento abrigavam uma rotina altamente criativa, em meio a árvores, bichos, amizade. A especulação imobiliária expulsou os inquilinos deste espaço no final de 2015; o condomínio agora segue fechado, esperando decisão judicial. Seus antigos moradores se dispersaram; continuam produzindo arte – mas a ideia de um refúgio se desfez. O que não quer dizer que não possa ser novamente construída. Aliás, cada artista – pela própria inquietação criadora – costuma levar uma existência anormal. A sua maneira de ver o mundo, de pensar, revela a busca de realidades possíveis: a não-conformidade com o que está posto, seja em relação a um momento ou espaço.

No México – país que exerce sobre mim uma identificação irresistível –, aprendi a pensar despudoradamente em paraísos, a almejar oásis. Foi o primeiro passo para que eu inventasse um tipo de Olinka, ao menos na paisagem interna, pessoal. Ela se confunde um pouco com Fortaleza, pela força solar. Mas é bem mais caleidoscópica, fusão de trilhas reais ou fictícias, mistura de desejo com verdade. Narrar a cidade me faz pensar que ela está em minha casa, com meus livros e gatos. Ou junto com os amigos, num café em fim de tarde. Talvez esteja sobretudo em meu corpo, na forma com que escolho habitá-lo. Seja em precipício ou paságarda, esta vida é vibrante: é como o Dr. Atl encontrando Nahui e contemplando seus vulcões.

Tércia Montenegro (texto também publicado no jornal Rascunho)

Na Bienal de Fortal

A semana foi de pura correria, com algumas intempéries – mas fica um bom destaque para a Bienal Internacional do Livro do Ceará (que vai até domingo). É sempre enriquecedor falar sobre literatura com e para quem ama esse ofício. Nas imagens abaixo, de Chico Gadelha, duas dessas oportunidades que vivi, ao lado de Lira Neto e de Cleudene Aragão e Jáder Santana:

Goethe na intimidade

Há alguns anos, quando fui a Frankfurt para a Feira do Livro, pude conhecer a casa em que Goethe viveu: vi os papéis de parede autênticos, a mobília, o piano piramidal, o teatro em miniatura, a biblioteca… Meu Deus, eu vi até mesmo as panelas usadas na época e a escrivaninha de onde saiu o Werther!

Tempos mais tarde, em Roma, também descobri um apartamento onde o poeta alemão viveu, durante sua temporada na Itália. E a visita me ensinou sobre o seu lado voltado para as artes plásticas – além de me postar diante da exata janela em que Goethe foi retratado por Tischbein na seguinte obra:

Mas até ontem, por mais que todas essas referências (e leituras em tradução) me aproximassem de Goethe, eu ainda não tinha desfrutado de sua intimidade, por assim dizer. Pois só é possível tornar-se familiar de um artista mergulhando em sua obra, percebendo como ela foi feita – no original, com o sabor autêntico.

Um minicurso com a amiga Reseda Streb, como parte da programação da Semana da Língua Alemã, na Casa de Cultura, abriu-me as portas da poesia germânica. Não foi uma experiência de entendimento imediato, óbvio (a cópia com minhas anotações abaixo demonstra o processo), mas o fascínio prevaleceu. Ao ouvir Reseda lendo os versos, com seu ritmo autêntico – e depois, ao experimentar também uma leitura em voz alta, tive a mesma sensação de entrar n’Os Lusíadas, ou na Divina Commedia.

Camões, Dante e Goethe pertencem a universos e temas distintos, lógico. Mas lê-los no original provoca em mim a mesma coisa; ativa o mesmo lugar interno – aquela fisgada de arrebatamento que também tive diante de Vermeer, diante de Rembrandt, ó céus. É nessas horas em que sinto o privilégio da arte, e como ela cria um tipo de felicidade específico.

Todo o esforço para aprender um novo idioma vale a pena nesses momentos. Assim como os sacrifícios para fazer uma viagem com o grande objetivo de ver um quadro num museu. São experiências de clímax na vida. E – devo admitir – , exatamente por trazerem êxtase, tornam-se um vício também.

O que posso fazer? Continuo perseguindo o princípio do prazer.

Obs.: Na época de minha visita à casa de Goethe em Roma, fiz uma postagem neste blog, que pode ser lida aqui.

Em Curitiba

Lembrando que passei um dos melhores carnavais no Paraná, lá pelos anos de 2013, agora, nesta época coincidente, recebo a boa notícia do projeto Curitiba Literária, com duas participações minhas. Uma delas surge na antologia Algumas vozes, a ser lançada na próxima segunda-feira. Confiram o convite clicando na imagem abaixo:

convite-lancamento_literatura-2016

A segunda participação está nas ruas: esta frase – que para mim é um verdadeiro lema – pode ser vista na Estação-tubo Morretes/sentido Santa Cândida. A foto é de Rodrigo Cardoso:

tercia-montenegro_-baixa-resolucao

Reviajar – Chez moi

Há exatamente um ano voltei para casa. Dei por encerrada minha temporada belga e tive, desde então, a experiência de retomar a vida que escolhi levar. Creio que jamais teria chegado a refletir sobre tantos assuntos (rotina, arte, feminismo, autoestima) num nível de tal profundidade – e poder de mudança – sem passar pelo deslocamento do exílio. Pois meu ciclo simbólico parece agora chegar a uma espécie de resumo íntimo: a distância me permite enfim desejar novos projetos para a pesquisa que inspirou meu pós-doc. É hora de olhar para trás, vendo o que sobressai da memória, o que de fato importa. Nada melhor para inaugurar este momento do que um retorno ao espaço doméstico – o lugar que habitei durante 6 meses, em frente à igreja de Saint Denis, em Liège. Estas fotografias têm um sentido muito particular: por um lado, me fazem sorrir, lembrando o inofensivo fantasma de um vestido ancestral, suspenso sobre uma misteriosa escada; por outro, recordam que meu verdadeiro quarto, em Fortaleza, nunca precisou de edredons nem lareiras (felizmente!).

ap

ap2-1

ap2-2

Mapa.Doc

Amigos,

Mais de um ano após aceitar o convite para participar do documentário das artes Mapa.Doc, tenho o prazer de divulgar aqui o link do trabalho – que ficou muito lindo. Minha presença está a partir dos minutos 2:49, 5:50 e 11:49, com todo o traço cabalístico que isso possa conter.

 

Da personagem à pessoa

De tanto pensar na ideia de que tudo é narrativa, resolvi aplicar a proposta a um laboratório de escrita. Afinal, um objeto, frase ou rosto pode ser o elemento disparador de uma história (dizia Tchekhov que uma coisa – qualquer coisa – gera um texto, desde que desperte concentração suficiente e associações interessantes).

O experimento intitulado “Retratos Literários – Assim nasce uma personagem”  aconteceu dentro das atividades do OcupaLetras, na Universidade Federal do Ceará, no último dia 24. Em parceria com a amiga e também escritora Fernanda Meireles, sugeri: nós duas ficaríamos disponíveis para criar biografias, enredos, situações imaginárias a partir da fisionomia das pessoas que quisessem posar.

No início, claro, tive motivações “didáticas”. Era bastante tentadora essa tendência, já que a ação ocorreria no ambiente onde exerço o magistério há oito anos. Então, sabendo que vários alunos têm talento ficcional, queria demonstrar que não existe falta de inspiração para quem observa: seria uma pequena lição através do exemplo. Mas na prática o aprendizado acabou se tornando muito relevante para mim mesma – inclusive com reflexões que ultrapassaram o tema artístico.

O primeiro ensinamento foi sobre a necessidade de tempo e silêncio – para criar, ou apenas para estar acessível. Numa atividade tão econômica (exige somente cadeiras, papel e caneta), a presença humana se alargou, algo que muitas vezes não acontece, quando a tecnologia vem impor disfarces ou distrações.

O segundo aspecto foi sobre o processo recíproco. A ação prometia transformar uma pessoa em figura literária, mas não se pode esquecer que a contemplação era mútua e simultânea. Eu, escrevendo, estava diante do sujeito que posava tanto quanto ele estava diante de mim. E, além disso, o meu texto seria lido um segundo após eu  finalizá-lo. Ou seja, haveria a mudança de lugar: logo seria eu a oferecida à investigação alheia – e de maneira bem mais profunda, talvez: a leitura ultrapassa o jogo do olhar; é uma mirada íntima que o outro lança, acompanhando um processo mental.

Funcionava como aquela performance da Marina Abramović, The artist ist present – embora em circunstâncias agravadas. Ainda que Marina tenha passado centenas de horas disponível para o seu público, num museu, o que ela dava era isso, a sua presença (o que é bastante, sim, mas a artista não precisava se preocupar com um produto extra, um resultado que o público levasse, como um souvenir).

Quando me dei conta do grau de consequência que a ação proposta envolvia, quase paralisei de medo. Porém uma voluntária já sentava à minha frente, posando para o tal retrato escrito. Eu tinha de sufocar a angústia por perceber – naquele minuto – que perderia o conforto da “fase de gaveta”, o prazo em que ponho o texto de lado, esqueço-o até que o distanciamento me torne disposta a avaliá-lo. Na situação do laboratório, o método se invalidava. Não podia dizer à pessoa: “Pronto. Daqui a alguns dias, você lerá seu retrato literário – se ele estiver bom.” A obrigatoriedade de fazer algo no mínimo instigante era aflitiva. E a certeza de um leitor iminente exacerbava o quadro.

Apesar da ansiedade, a experiência foi maravilhosa. Imaginem: durante duas horas, duas escritoras produziram, juntas, trinta textos inspirados em pessoas que se deixaram contemplar. Lógico que o ambiente era próximo do perfeito, com gente que – por ser da área de Letras – compreendeu o plano e esteve profundamente envolvida com o exercício. Não sei como seria a mesma atividade realizada, digamos, numa esquina do centro de Fortaleza. Uma nova edição do projeto pode trazer vivências inesperadas. Mas por enquanto, o ensinamento crucial (e que jamais imaginei que viria com tanta força) foi o político. Tendo, de forma física e imediata, o meu futuro leitor ali, esperando pelo texto, ponderei sobre responsabilidade como nunca havia feito. As minhas palavras atingiriam alguém. Alguém que eu estava vendo. Não se tratava de um ente virtual, desconhecido ou improvável. Era uma pessoa tão próxima que, se eu estendesse a mão, poderia tocar.

Quando um político rouba o dinheiro público, quando age em benefício próprio, prejudicando o interesse coletivo, consegue dimensionar o impacto que seu gesto causa, realmente? Pode enxergar a repercussão – em pobreza, carência, uma avalanche de consequências ruins – sobre indivíduos concretos? Seria vital mostrar isso aos culpados, levá-los para conhecer as pessoas, ficar perto delas. Não falo nos retóricos passeios de épocas eleitorais: o que importa não é o desfile do candidato. Importa saber a história do outro, do sujeito anônimo que tem o seu destino não imaginado, mas efetivamente escrito pelas decisões de um gestor distante, mergulhado em egoísmo.

2016 se consagra como o ano da Surrealpolitik pelo mundo – e o Brasil ajuda muito a endossar este termo. O que temos diante de nós, em escândalos que estouram a cada dia, é gravíssimo. E, embora alguns episódios sejam inacreditáveis, se estamos iludidos precisamos nos convencer de uma vez: tudo está existindo. Infelizmente, não é ficção, nem tem fase de gaveta. Explode – e continua explodindo.

Tércia Montenegro (texto publicado hoje no Vida & Arte, caderno cultural d’ O Povo. Clique aqui para ler no jornal.)