Perfeita camuflagem

Edward Weston, numa daquelas antológicas.

Johnny, 1944

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Nabokov e as borboletas

Aos poucos vou lendo os Contos reunidos de Nabokov, e hoje ressalto uma passagem que me interessa particularmente, pela relação com o post anterior neste blog:  a ideia sobre um idêntico gesto de captura, seja em direção a palavras ou imagens. Essa foto do escritor russo, que abre a edição da Alfaguara, é uma das mais belas que já vi: a atitude imóvel de expectativa, de tensão criadora, o gesto suspenso à espera de que a presa pouse… não é exatamente isso o que faz um artista, seja em que área for?

Vejam se o trecho abaixo, retirado do conto “O aureliano”, não pode ser tomado de maneira belamente metafórica:

“O que desejava, com uma intensidade quase mórbida, era ele próprio pegar com a rede as mais raras borboletas de países distantes, vê-las voando com seus próprios olhos, ficar enfiado no mato até a cintura e sentir o final do movimento da rede chiando, e depois o furioso pulsar de asas através da dobra da seda entre os dedos.” (p.311)

Parece que vejo o escritor falar não de insetos, mas de palavras – e os países estrangeiros (Estados Unidos, Alemanha, Suíça), com suas línguas, eram seduções que ele ia, pouco a pouco, colecionando.

Claro que os imediatistas dirão que não é nada disso, que Nabokov simplesmente era, além de escritor, um estudioso de lepidópteros, atuando também como desenhista de borboletas para a sua amada Vera. Quem duvida pode visitar o acervo de borboletas que ele deixou e hoje está no museu de zoologia de Lausanne – e pode ainda consultar alguns textos confessionais, nos quais o famoso autor de Lolita sonhava com uma vida diferente, em que ele seria “feliz de uma outra maneira, como um obscuro entomologista”. Os argumentos são válidos, porém… prefiro continuar olhando esta imagem como se adivinhasse que Nabokov espreita algo, qualquer coisa – não apenas borboletas, mas todos os seres que sabem voar.

 

O belo e o banal

Eu me tornei fotógrafa em Israel. Apenas quando estive nesse país, as técnicas e os estudos anteriores se encaixaram perfeitamente com os temas que eu tinha à vista – e experimentei a angústia da captura (que é a mesma, quer a gente busque a palavra ou a imagem) na hora de criar.

Até agora, entretanto, não entendia porque, um ano depois de ter fotografado em Jerusalém, em Bet She’an e, sobretudo, em Zefat e Tel-Aviv, eu não consegui, em Veneza, fazer um registro que tivesse o meu estilo, por assim dizer. Todas as fotos saíam lindas, por causa da paisagem – mas elas podiam ter sido feitas por qualquer pessoa. Eu tentava refletir sobre essa beleza que, de tão extrema, parece que se esbanja e se banaliza – mas só recentemente, lendo Sémiotique de la photographie, alcancei um ponto mais ou menos firme sobre o assunto. Eis o trecho que fez disparar minha lembrança:

“Quelle est donc la part de l’objet (objet trouvé) qui se présente dans le lieu, qui ‘sollicite’ le photographe et, d’autre part, celle de la prise d’image? Une question de ce genre n’existe guère en peinture. Pensons à Canaletto et à ses vues de Venise: personne ne pourrait atribuer à la seule beauté de Venise la plénitude esthétique des paysages de Canaletto. Quelles sont donc les frontières entre la plénitude sensible que l’énonciation photographique offre au sujet représenté et celle que le sujet représenté offre à la photo?” (BASSO et DONDERO, 2011, p.101)

O que ocorreu em Veneza foi que minhas fotos soaram como uma única voz tímida perdida em meio a um coral possante: o aspecto extremamente turístico do lugar, somado ao fato de que todos ali estavam empenhados numa idêntica atitude fotográfica (obsessão que jamais tornei a ver, no mesmo nível, em qualquer outra cidade), tudo isso me fez sentir uma espécie de sufocamento, como se eu estivesse sendo soterrada por centenas de câmeras simultâneas – e a minha perdia o sentido, ao se misturar com a multidão. Não houve, portanto, qualquer “plenitude sensível” que eu pudesse oferecer às fotos que fazia, até porque isso se conquista com um ritmo lento (que, não por acaso, é o ritmo de um pintor: um pintor não dispara sobre uma imagem, ele a compõe).

Resta a dúvida: algum dia retornarei a Veneza para fotografar (e viver) de maneira tranquila?

Canaletto

 

 

Ariano

Depois do João Ubaldo, o Ariano Suassuna… O mundo fica mais miserável – e não esboço qualquer tentativa de consolo, apenas uma constatação do fato. Que pode uma criatura, agora, fazer? Ler e esquecer. Ler, reler e desler. Sempre, e até de olhos vidrados, ler. É o único gesto que resta.

Em João Pessoa, muitos anos atrás.

Em João Pessoa, muitos anos atrás.

A casa de Balzac

Trecho do livro Le flâneur des deux rives, de Apollinaire, sobre a região de Passy:

“On arrive ensuite derrière la maison de Balzac. L’entrée principale qui mène à cette maison se trouve dans un immeuble de la rue Raynouard. Il faut descendre deux étages et, grâce à l’obligance de feu M. de Royaumont, conservateur du musée de Balzac, on pouvait sinon descendre l’escalier même que prenait Balzac pour aller rue Berton et qui est maintenant condamné, du moins prendre un autre escalier qui mène dans la cour que devait traverser le romancier et passer sous la porte qui le faisait déboucher dans la rue Berton.”

Maison Balzac

Novamente Paris

Jardim

Hoje, 14 juillet – ou 14/7/14 (o que dá uma impressão de uma sequência cabalística)- é dia propício para que eu pense no meu recente retorno a Paris. Nesta segunda vez, que entretanto foi a primeira em tantos aspectos, tive a certeza de que uma extensão do meu corpo está na França. Porque de lá eu alcanço o mundo inteiro – e o mundo começou, algumas semanas atrás, no Trocadéro. Por exemplo: pensemos no Musée do Quai Branly, para um mergulho ancestral. Ali, há potes cerimoniais da população mapuche, máscaras da Danse des Chunclus e da Morenada, cerâmica Nasca (dos Andes pré-hispânicos), teponaztli (tambores astecas) e um maravilhoso vaso cefalomórfico maia, da Guatemala, datado por volta de 300 a.C.

Vaso

Eu poderia também falar das coroas e braceletes da Etiópia cristã, das cruzes de procissão e pinturas do começo do século XIII – ou então, comentar o díptico da igreja de Qaha Iyäsus. Ainda haveria o aloalo, tipo de pote funerário de Madagascar, ostentando crânios de zebras fixados como oferendas. E os guardiões dos relicários, obras do Congo. Os escudos de palha trançada, de madeira, ou ainda feitos de couro de elefante ou de rinoceronte, vindos da Uganda. E as máscaras küappaat, da Groenlândia, com uma deformidade que lembra os quadros do Francis Bacon…

Masque (1)

Na linha de sedução pelo terror, lembro os vodus do Haiti, ligados aos rituais desconhecidos da sociedade secreta Bizango: o personagem guerreiro se apresenta coberto de tecidos vermelhos e pretos, costurados em alternância com espelhos, como se fosse um tipo de brincante do Nordeste brasileiro.

Vodoo

Mas o mais comovente – se fosse preciso escolher – foi o mastro do urso, canadense,a retratar o mito de Peesunt, jovem raptada por ursos, que dá à luz criaturas mistas. É justamente assim que sinto, sequestrada por inúmeras culturas férteis, obras de arte, países, línguas – tantos sobressaltos felizes que acontecem somente em Paris.

Totem