Aprender com a desordem

Reformar a casa pode ser uma experiência existencial – desde que se esteja mais atento aos pensamentos que à poeira de gesso. A companhia de alguns livros específicos também ajuda a fertilizar os dias caóticos: eu havia escolhido três volumes para a quinzena de folga, planejada em torno de uma reclusão heroica, ao lado de pintores e pedreiros. Enfurnada num dos quartos enquanto o mundo se acabava no restante domicílio, comecei agarrando Só garotos. A história de Patti Smith e Robert Mapplethorpe foi um modelo punk de sobrevivência: um alívio saber que se pode existir (e criar) em meio à desordem.

Enquanto devorava a biografia do casal, recordei as fotos de Mapplethorpe que vi expostas, ambas em Paris, quatro anos atrás. Até então, eu não tinha digerido bem a ideia de que o mesmo artista que iluminava flores com delicada sugestão erótica chegava às raias do grotesco em imagens de sadomasoquismo gay. Pois o seu percurso de vida, se não explicou, ao menos pôde me indicar os caminhos complexos na origem dessas obras.

Fiquei admirando ainda mais a Patti, por tudo o que teve de enfrentar – e por seu envolvimento tão humano com todas aquelas pessoas-ícones da Nova York de décadas atrás. Em vários momentos, parei para escutar as canções dela no youtube: apesar da interferência acústica de uma furadeira, creio ter me transportado para a sua atmosfera.

Passei para os contos de O. Henry na noite em que dormi no chão da sala (pois agora era o meu quarto que estava em obras). A sua ironia e sagacidade – apesar dos costumes incrivelmente datados, de uma sociedade que talvez me fizesse espirrar com tanta poeira (não estivesse eu já imunizada, àquela altura do campeonato) – fizeram a minha distração.

Em horas mais solenes, como a do café pelo meio da tarde, eu pegava o Da Poesia, reunião dos livros poéticos da Hilda Hilst. Avancei bastante no volume, mas tomando o cuidado de não terminá-lo: é injusto ler poesia como se lê prosa. O ritmo tem de ser outro, o mesmo passo tranquilo que aplico ao contemplar as peças num museu. Preciso ver os detalhes da composição, considerar seu efeito no espaço, sua presença. Com a prosa, tudo pode ser mais fluido – é um passeio no estilo dos que faço descendo à beira-mar: fico atenta ao movimento das ruas tanto quanto à paisagem: é o conjunto que me atinge, com sua dinâmica.

Hilda esperou, portanto, na cabeceira (eu voltava a ter uma, assim como tornei a dormir na minha própria cama). Decidi que merecia a releitura de um ensaio, Um teto todo seu, que me trouxe a riqueza-desperdício típica dos grandes autores. Aliás, por falar em reler, eu me convenci de que esta pergunta basta para avaliar a qualidade de um artista: quero estar com sua obra de novo? Ou uma vez só já me deixou farta? Virgínia Woolf, óbvio, merece a máxima assiduidade.

Esta passagem sobre verdade e ilusão, por exemplo, era um belíssimo consolo para quem se via em meio a um vendaval doméstico: “Qual era a verdade sobre aquelas casas, por exemplo, agora embaçadas e festivas com suas janelas vermelhas ao anoitecer, mas cruas, vermelhas e esquálidas às nove horas da manhã? E os salgueiros, o rio e os jardins que seguiam para o rio, agora oscilantes sob a névoa furtiva, mas dourados e vermelhos sob a luz do sol – qual era a verdade, qual a ilusão que os cercava?”

Qual era a verdade sobre o meu apartamento e o meu estilo de vida? Eu começava a enxergar as possibilidades secretas de uma casa, e elegia prioridades: espaços vazios, iluminados, abertos, com muito vento despenteando as cortinas. Quero, sim, luz entrando com violência, queimando com lento vigor a lombada dos livros, empalidecendo fotos e mobília. Quero o tempo a se instalar nesses objetos que, em sua maioria, sobreviverão a mim. Pois que ao menos envelheçam! Que sofram gastos, ganhem essa pátina das coisas manuseadas – que saiam da postura rígida que se confunde com zelo ou preservação, mas em realidade (descobri) é puro medo de movimento.

Quando as peças saem do lugar, nós nos forçamos a fazer algo de improviso. E as soluções – apressadas que sejam – têm sua fagulha criativa. Eu aproveitava as prateleiras e gavetas expostas para desenterrar restos de uma antiga colonização amorosa: detritos que enfiei longe da vista mas persistiam ali, enviando algum tipo de energia desnecessária.

Livrei-me de tudo.

Fui tomada pela fúria das donas de casa em faxina, mas a ação se deu de forma sobretudo íntima. Nenhuma das palestras budistas que frequentei, nem os cânticos de Hare Krishna ou o retiro com os seguidores de Osho, nada disso me trouxe a revelação didática, clara e transformadora que alcancei em duas semanas de acampamento residencial, num cenário em certos momentos semelhante a Aleppo. Como resultado, tornei-me uma resistente com ideias um tanto radicais. Anotei várias num diário de bordo (que foi ao mesmo tempo uma espécie de âncora mental), e percebo que a mais prática delas – apesar de expressa de modo um pouco obscuro – é a que promete: Não arrastarei meus fósseis para o futuro, nem orquestrarei uma dança de múmias; tudo o que é vestígio deve se expandir, ou então se extinguirá. Traduzindo: muitos objetos para o lixo, sem remorso.

Quinhentas libras por ano, uma tranca na fechadura, tempo e solidão – disse Woolf, na sua lista de quesitos indispensáveis ao ofício de escritora. Uma certa bagunça com grande capacidade de renovação – digo eu. Porque tudo ao final é liberdade, e essa é a única coisa que importa.

Tércia Montenegro (texto publicado no jornal literário Rascunho. Pode também ser lido aqui)

 

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Escolhas

Isadora Duncan escolhendo a longa echarpe para usar no passeio de carro; Robert Capa correndo para fazer a última foto, seus pés se aproximando da mina terrestre em Thai-Binh; Walser saindo para caminhar nos campos nevados; Camille Claudel procurando a rue de l’Université em Paris, aos 21 anos, sem saber que naquele endereço encontraria o início de sua loucura. Todos estavam arriscando, vivendo episódios em plena inocência – como qualquer um de nós, aliás.

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A beleza convulsiva

Dentre tantas declarações da história da arte, uma das minhas preferidas é aquela que André Breton deixou no seu livro Nadja: “A beleza, ou será convulsiva, ou não será”. Esse princípio estético condensa o impacto – ou o espanto – imprescindível à condição surreal, mas também, numa escala maior, aponta para o mecanismo que ativa a essência do ato criador.

A convulsividade, em tal caso obviamente metafórico, tanto indica o simples ímpeto do imprevisto, da chama explosiva, do absurdo – quanto pode sugerir um desespero confuso. A realidade, de qualquer maneira, fixa limites e constâncias que podem passar uma ideia de segurança. Quando o surrealista se desvincula destes elementos, o lado sombrio – do desamparo que a liberdade proporciona – também entra em xeque.

Não por acaso, a vida de muitos artistas dessa época parece ter tido componentes trágicos: Frida Kahlo sofreu um acidente que iria marcá-la para sempre; Magritte e Dalí tiveram surtos de depressão; Leonora Carrigton envolveu-se em relacionamentos destrutivos; Giacometti enfrentou a solidão e o exílio, enquanto criava suas figuras anoréxicas; Dora Maar viveu a tortura de ser ao mesmo tempo artista e companheira de Picasso, situação que quase lhe custou a sanidade…

Mas a liberdade era o troféu máximo das vanguardas europeias do início do século XX – mesmo que isso significasse atravessar as fronteiras do desvario. Breton, no seu conhecido Manifesto do Surrealismo, ressaltava: “Não será o temor da loucura que nos forçará a hastear a bandeira da imaginação a meio mastro”. Inclusive o repúdio à condição do louco era questionado: “Cada um sabe, com efeito, que os loucos só devem seu internamento a um pequeno número de atos legalmente repreensíveis, e que, na falta destes atos, sua liberdade (o que se vê de sua liberdade) não estaria em jogo. Que eles sejam, numa medida qualquer, vítimas de sua imaginação, estou pronto a concordar (…), mas o profundo desprendimento de que eles dão testemunho em relação à crítica que lhes fazemos, quiçá aos corretivos diversos que lhes são infligidos, permite supor que eles sentem um grande conforto na imaginação, que eles se comprazem bastante com seu delírio.”

O prazer de ultrapassar barreiras e criar era, voilà, a convulsão surrealista. Para explorar a psique em suas possibilidades mais extravagantes e autênticas, nada foi tão bom quanto o método da escrita automática. Lançar ao papel o que viesse à mente, sem permissão para a autocensura revisionista, significava não apenas produzir com flexibilidade. Significava produzir aquilo que o inconsciente do artista queria. A um só tempo, através desta técnica os surrealistas recusavam as pressões comerciais da arte, elevando o individualismo à potência mais alta, e também estabeleciam um curioso nexo com uma área do conhecimento que começava a se expandir: a psicanálise.

Os livros de Freud, especialmente A interpretação dos sonhos, tiveram um grande impacto na época. O princípio da “isenção da lógica” e do “acesso a uma realidade superior, maravilhosa” parecia garantido pela via do inconsciente. E Freud celebrava um tipo de automatismo pelas associações livres que o paciente podia elaborar, revelando à “atenção flutuante” do psicanalista o que o superego normalmente não lhe permitia admitir. Através de recalques, chistes, sonhos ou atos falhos, elementos do inconsciente emergiriam para a consciência.

A proximidade de interesses fez com que o Surrealismo se declarasse como uma espécie de voz artística da psicanálise, embora o criador desta última não quisesse reconhecer tal diálogo. Ao que consta, um dos mais escandalosos pintores da vanguarda, Salvador Dalí, tentou visitar Freud em Londres, em 1938 – mas o encontro não se revelou frutífero. O “pai da psicanálise” estava bastante debilitado pelo câncer que viria a matá-lo, e se medicava pesadamente. É de se crer, entretanto, que, ainda que Freud gozasse de plena saúde, não iria aceitar a espetacularização de sua teoria sob a irreverência daliniana…

De qualquer maneira, a ideia de uma conversa entre o criador da psicanálise e o mais icônico dos surrealistas inspirou o dramaturgo britânico Terry Johnson a escrever o texto Histeria. A comédia ganhou em 2016 adaptação brasileira no teatro Tuca, com tradução e direção de Jô Soares e os atores Cassio Scapin e Pedro Paulo Rangel nos papéis principais. O traço humorístico desta produção não causa estranheza: o próprio Freud havia demonstrado que a comicidade tem importante papel na economia psíquica – e, por outro lado, a vanguarda surreal alavancou o humor absurdo.

A escrita automática, por si, já lançava a possibilidade de gerar o non sense, situação em que palavras ou expressões não têm sentido ou significado, ou indicam condutas ou ações tolas. Enquanto possibilidade expressiva, o Teatro do Absurdo teve em Alfred Jarry o seu precursor, com a peça Ubu Rei, que estreou em 1896. Alfred Jarry chegou a criar um mundo às avessas — o mundo da Patofísica, que invertia conceitos da física e metafísica, rejeitando a realidade vigente. Até hoje, em sua homenagem, o Collège de Pataphysique, na França, declara-se como uma “sociedade dedicada a pesquisas sábias e inúteis” e tem como figuras de inspiração Boris Vian, Marcel Duchamp, Raymond Queneau e James Joyce, dentre outros.

Todo procedimento de absurdidade e fuga do real gera o riso, ainda que intencionalmente esse não seja o primeiro objetivo. Henri Bergson recorda que o que faz rir é uma situação inesperada, “um tipo de absurdo realizado de forma concreta”. Enquanto estética das “belas convulsões” e dos sonhos individuais, portanto, o Surrealismo pendula entre a denúncia anárquica de um tempo e a esperança que existe no humor e no fazer da arte. Por esses componentes, afirma-se como tendência válida para além de cercas cronológicas – razão pela qual ainda hoje encontramos quem, seja através do método criador, seja através da postura existencial, esteja filiado a uma tendência surreal.

Numa medida extensa, qualquer forma de ver o lado oculto das coisas (ou a ficção da representação) recupera o Surrealismo em suas reflexões fundadoras. Talvez esse movimento possa mesmo ser entendido para além de sua época, como uma estratégia – com inúmeras gradações – que o ser humano encontrou de salvar-se pelo deslocamento, escapando rumo ao inusitado.

Tércia Montenegro (texto publicado na seção Tudo é Narrativa, do jornal literário Rascunho. )

 

Viajar não acaba nunca

Então houve aquela aula de polonês em que a professora pediu uma sentença com um verbo perfectivo que, conjugado no presente, tivesse valor de futuro. Eu sugeri o verbo “podróżować” (viajar), mas então a nauczycielka Magdalena Szymanska saiu-se com essa frase, de uma fulminante verdade filosófica: “Viajar não tem perfectivo, viajar não termina nunca”.

Respaldada pela sabedoria eslava, eu retomo o interminável tema – porque as experiências de estar em trânsito sempre me fascinaram. Há alguns anos inclusive publiquei Meu destino exótico, ebook disponível na Amazon, que condensa alguns acontecimentos, dentre curiosos e cômicos, que fui colhendo pelo mundo. Uma série de circunstâncias, porém, fez com que do ano passado para cá eu me pusesse a refletir (e continuo nesse processo) a respeito de comodismo versus aventura.

O risco de cair no conforto da primeira opção quase me fez negar o gosto que tenho pelas explorações imprevistas. Salvou-me desta incoerência Um bom par de sapatos e um caderno de anotações, coletânea de fragmentos escrita por Tchékhov sobre a viagem que ele realizou a Sacalina, ilha que recebia presos deportados. A motivação para a experiência foi, em grande parte, conduzida pelo “lado médico” do autor – mas a observação sensível, que transforma o visto em outra coisa, está o tempo inteiro neste livro.  É o que prova que um escritor nunca deixa sua tentação estética, por mais que profissionalmente incursione por outros territórios.

De modo mais direto: sobre as difíceis expedições, não posso me queixar de ter já sofrido cansaço, se descubro, por exemplo, que Tchékhov saiu de Moscou em 21 de abril de 1890, para chegar a Sacalina somente em 11 de julho. Partiu de lá em 13 de outubro, voltando para casa apenas em 9 de dezembro. Além de todo o desgaste do tempo de deslocamento, enfrentou condições adversas até mesmo para um resistente russo: teve de andar em meio a lama e frio, usando botas de feltro, e em sua rotina com os prisioneiros só encontrou – como podemos imaginar – cenas degradantes de imundície e embotamento ou desespero.

As lições não param neste ponto. O desejo de observar, inspirado por uma pesquisa, num “elogio à experiência direta”, foi o que levou Tchékhov a sua viagem – que, dentre muitos ensinamentos, trouxe também a humildade de rever expectativas, perceber como relatos alheios ou leituras às vezes são completamente equivocados.

Um dos seus princípios, válido para qualquer coisa, era “não se deixar vencer pelas dificuldades iniciais e pelo medo do imprevisto”. E o outro: não planejar demais, sob pena de se privar do prazer – e da sabedoria – do Acaso. Um bom par de sapatos é um livro essencial sobre coragem, do tipo que faz a gente se jogar sem paraquedas, para cair bem em cima do desejo.

Se entendemos, aliás, que a própria vida é processada como viagem, a extensão do ensinamento de Tchékhov se amplia – e aqui preciso fazer uma costura com certo conhecimento acadêmico…

Já faz muito tempo que conheci a proposta de Lakoff e Johnson, no clássico Metáforas da vida cotidiana – mas posso dizer que meu fascínio por ela continua intacto. Poucas vezes fiquei tão empolgada com uma teoria e, embora jamais tenha utilizado essa linha em nenhum trabalho específico, quase todos os dias penso em como nós, humanos, somos moldados por estruturas mentais metafóricas e metonímicas, que nos condicionam a perceber de um modo particular. Claro que não poderia reduzir o trabalho dos pesquisadores nas poucas linhas deste texto; portanto, sem qualquer tentativa resumitiva, destaco somente o que me leva à reflexão de agora.

Estamos habituados – dizem Lakoff e Johnson – a entender acontecimentos dentro de um padrão comparativo (ou metafórico, por comparações implícitas). Assim, o trajeto de um lugar a outro, com simultânea passagem de tempo e espaço, serve de paralelo ao percurso da própria existência. Cognitivamente, somos levados a compreender que A VIDA É UMA VIAGEM, estrutura que justifica uma série de expressões, do tipo “Ele partiu”, para se referir à morte, ou “Quando o bebê chega?”, para indagar sobre um nascimento.

Ora, mas a vida não apenas poderia ser compreendida em seus limites e abrangência, mas também em suas aventuras ou peripécias, dentro do esquema de uma viagem. Tal ponto já foi diversamente explorado, por inúmeros artistas, poetas, cineastas – e, embora sejamos da opinião de que uma biografia jamais pode ser, na sua inteireza, narrada (vejam a propósito nosso artigo “Verlaine e seu fantasma”, na edição de número 197 deste Rascunho), enxergamos, óbvio, que ela é composta à maneira de uma narração.

A sequencialidade, as ações lineares, o retorno de leitmotive, a presença de personagens em variados papéis, os cenários, os momentos de clímax, até mesmo as digressões… tudo parece “combinar” com os ingredientes de um romance, nem sempre longo ou interessante – e, claro, não obrigatoriamente sensato. Mas, por mais vanguardistas que sejam as experiências de errância de um personagem em sua narrativa, digamos, real, o fio condutor, ou o eixo de sua história, será inevitável, com um começo no nascimento e um final na morte.

Talvez pela tentativa de quebrar o possível neste padrão aprisionante (ou seja, tudo o que não for chegada e partida, os extremos deste esquema), às vezes nos esforçamos por fazer do caminho vital uma coisa singular, irrepetível, que vale o registro. É como diz Vila-Matas, em seu Não há lugar para a lógica em Kassel: “tive a impressão de estar vivendo mais uma vez o começo de uma viagem que poderia acabar transformando-se em um relato escrito no qual, como era comum, mesclaria a perplexidade e a vida em suspenso para descrever o mundo como um lugar absurdo aonde se chegava através de um convite muito extravagante.”

E através do texto se pode sentir – como quando se encontra o verbo exato – que podróżuję, de fato, jamais acaba!

Tércia Montenegro (crônica publicada aqui, no jornal Rascunho)