Portinari e suas poéticas

A mim sempre emociona, ver nascerem as personagens. Flagrar os bastidores do processo artístico – encontrando as fases iniciais de um projeto, com suas hesitações, experiências provisórias, testes – costuma ser uma lição de humildade e talento. Ninguém chega ao seu melhor sem passar por exercícios – e, ao mesmo tempo, quando o criador tem verdadeira perícia, um rascunho de sua obra já traz a marca do gênio. É um privilégio ter acesso a manuscritos, esboços, notas que mostram o trampolim de uma ideia, o lampejo – seguido por alguns recuos, ajustes… até que, de repente, o artista achou o ponto profundo, o caminho dentro do qual seguirá, firme e feliz.

A exposição sobre o universo gráfico de Portinari, em cartaz na galeria Multiarte, de Fortaleza, abre ao público a chance de viver esta experiência. Mas não somente adentramos a intimidade criativa do pintor: pelos seus desenhos, percebemos a vasta multiplicidade técnica que ele dominava.

Alguém que percorresse as seções desta mostra sem atentar para qualquer notícia, digamos, um visitante (nesta hipótese que agora invento) distraído a ponto de sequer saber que o mesmo autor – Candido Portinari – unifica todas as obras, essa pessoa facilmente poderia sair com a sensação de ter visto uma coleção de vários artistas. Porque, no fundo, são muitas as fontes que Portinari aciona, na complexidade de seu(s) estilo(s). A sua poética é híbrida, plural – conforme o tema, a fase, a matéria plástica.

Há cenas de ação agrícola, ciclos do trabalho – e os famosos retirantes, os despejados da terra e da sociedade. Os estudos para quadros mostram o treino (somos convidados a presenciar um ensaio antes do espetáculo), o artista manipulando seus temas preferidos. Figuras em reza, crianças desfalecidas: muitos corpos disformes que se apresentam quase como fantasmas, máscaras de dor. Este é o Portinari mais conhecido – e que prazer acompanhar o palimpsesto de seu processo, o surgimento de suas criaturas pelo traço!

Eu me detenho diante dessas mulheres que seguram crianças mortas: levam os corpinhos rijos logo abaixo dos seios – os filhos são a trava a lhes barrar o gesto, um corpo que elas não oferecem nem agarram, apenas sustentam, exatamente ali, horizontalmente sob o peito. Quando eles forem tirados delas, certamente o seu movimento será o de levantar as mãos vazias para o alto. Desespero ou prece?

Há uma partitura em Portinari.

Mas há ritmos inesperados, muitos, nesta exposição. E o novo chega ao máximo impacto, pela mudança estilística.

Na série Israel, encontramos um desenhista viajante, voltado sobretudo para a rapidez do registro, o reconhecimento do território. Vejo o traço veloz desta pequena imagem: árabe e israelita. Logo depois, na seção dedicada às ilustrações, encontro a multiplicidade com que Portinari abrilhantou, por exemplo, livros de Graham Greene ou André Maurois. Posso apenas reconhecer a mesma dança convulsiva, aplicada antes na paisagem de Cafarnaum, e agora investida na rispidez das Figuras (de 1954, em grafite), feitas para A cidade assassinada, de Antonio Callado. O restante da seção é um mistério mágico.

Os três desenhos surrealistas de 1936, feitos para poemas de Manoel de Abreu, trazem uma densidade lenta em sua textura aveludada, com o sfumato que indica a destreza no uso do carvão. E, se parece inesperado encontrar Portinari praticando surrealismo, mais adiante – nos Estudos para Painéis – juramos encontrar um trecho de Guernica numa peça de 1942, em nanquim. Saímos desta influência de Picasso para, bem perto, flagrar dois desenhos de animais – um tamanduá e uma corça – que se diria pertencerem ao caderno de um artista-viajante do século XIX.

Tudo isso é Portinari.

E ainda as cenas religiosas, com este belo Profeta, que me captura pela expressão de firmeza viril. Mais discreta, descubro a avó, Nonna, numa cabeça feita em malha de riscos. Seu traçado é semelhante ao de outra cabeça – este Rosto de mulher, de 1960, que parece surgir de um novelo, com os leves pontos de cor do lápis. Estamos diante de figuras familiares, e esta sensação foi bem premeditada. Dentre tantas técnicas, o artista sabe à perfeição o que usar, segundo o seu intento dramático.

Mas eu me rendo por completo é com esta pequena Mulher chorando, de 1955. O que temos, por um lado, parece tão pouco: uma postura debruçada, que se esconde sob os cabelos, simples feixes verticais a escorrerem por um corpo do qual praticamente se veem somente os pés, esquálidos. Nada poderia ser mais anônimo do que este vulto feminino em desespero – e, no entanto, nada é mais potente como tradução visual de um sentimento, todos os sentimentos pelos quais as mulheres ao longo dos séculos choraram.

Fecho os olhos diante desse quadro, para buscar uma forma de silêncio. Ali, no meu escuro interno, ainda o tenho. Ele está comigo inclusive enquanto termino este texto.

Portinari persiste.

 

Tércia Montenegro (texto produzido para a galeria Multiarte e publicado também no site dela)

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Visada – Grupo de investigação do Texto Visual

Ainda aproveitando o dia da Fotografia, declaro o início oficial do Visada – Grupo de investigação do texto visual, que terá suas atividades no curso de Letras da UFC. Agradeço ao Coletivo Colher pela bela logomarca!

Deixo abaixo maiores informações.

VISADA – Grupo de investigação do Texto Visual

Coordenação: Profa. Dra. Tércia Montenegro Lemos

Encontros às segundas-feiras, de 11h50 às 13h20, a partir do dia 26 de agosto.

Critérios de participação:

– ter interesse por pesquisa e/ou produção de textos visuais

– ter cursado a disciplina de Semiótica ou de Teoria da Imagem Fotográfica

Interessado(a)s devem se inscrever, enviando um email para grupovisada@gmail.com

Fotografia extrema

Um dos meus grandes prazeres, durante o semestre letivo que se encerrou, foi trabalhar com os alunos de Teoria da Imagem Fotográfica os textos de Calvino e Cortázar sobre o vício em imagens. A ocasião de encontrar um artista tratando de outra linguagem criativa que não é a sua prática primordial expande reflexões de modo assombroso. Existe essa distância, o tom de estranhamento que se mantém, o passo recuado que nos faz observar as coisas sob um ângulo que os profissionais da área esquecem, por estarem completamente mergulhados no assunto. E tantas vezes na docência se perde esse ponto de vista do neófito! Um professor pode facilmente se empolgar com a própria aula e começar a falar para si mesmo, e não para os outros. Colocar-se no lugar da experiência alheia é a principal situação do magistério – e é o que permite a um professor aprender constantemente, não somente repetir palavras ao longo da vida.

E, tratando de palavras, o conto de Cortázar começa por esbarrar nas margens do indizível: “Nunca se saberá como isto deve ser contado, se na primeira ou na segunda pessoa, usando a terceira do plural ou inventando constantemente formas que não servirão para nada. Se fosse possível dizer: eu viram subir a lua, ou: em mim nos dói o fundo dos olhos, e principalmente assim: tu mulher loura eram as nuvens que continuam correndo diante de meus teus seus nossos vossos seus rostos.”

Sentir-se constrangido por uma gramática, uma estrutura que nos impõe modos de dizer, é semelhante a se ver limitado pelo corpo, único – até onde se sabe – instrumento de existência. Não há escapatória. N’As babas do diabo, essa história de um fotógrafo que é também tradutor (transitando entre o espanhol e o francês, assim como o próprio Cortázar), chega à proposta de que toda criação é uma tradução. A arte em si já traduz a realidade, as sensações. Exatamente por isso (lembremos a máxima traduttore/traditore), o exercício artístico sempre inventa, nunca é completamente fiel a nada.

Se o gesto fotográfico ainda sofre com especulações que o vinculam a um mundo real (seja lá o que isso for), Cortázar em seu texto vai além e pretende talvez investigar o “segredo sobre um segredo”, conforme disse Diane Arbus em seu conceito de fotografia. Sua história explora a obsessão de um indivíduo, que certo dia registra um jovem e uma mulher, num ato quase que de descuido – mas depois, diante da imagem ampliada, surpreende-se ao flagrar uma situação maliciosa, praticamente um crime, indicado pela cena. O conto explora nos seus melhores momentos o estado de ânimo do protagonista traduzido em imagens (que, por sua vez, são traduzidas em palavras): “O que resta por dizer é sempre uma nuvem, duas nuvens, ou longas horas de céu perfeitamente limpo, retângulo puríssimo cravado com alfinetes na parede de meu quarto. (…) tudo é uma nuvem enorme, e de repente explodem os respingos da chuva, vê-se chover longo tempo sobre a imagem, como um pranto ao contrário, e pouco a pouco o quadro se aclara, talvez o sol saia, e outra vez entram as nuvens, duas a duas, três a três. E as pombas, às vezes, e um ou outro pardal.”

A presença destes trechos nos recorda como Cortázar um dia lamentou, em entrevista a Omar Prego Gadea, não ter se lançado como gostaria à experimentação, por receio de chegar à incomunicabilidade. Esse era, conforme o seu próprio juízo, o seu maior defeito como escritor: “Não ter coragem suficiente para levar adiante experiências que entrevi no campo mental e que não levei para a escrita porque senti que rompia totalmente as pontes com o leitor” (La fascinación de las palabras, pág.294).

A metalinguagem, nesse sentido, é um tipo de investigação inevitável: o artista questiona seus limites, suas possibilidades. Por que narrar? Por que fotografar? “Uma das muitas maneiras de se combater o nada”, responde o protagonista deste conto, que se revira com cada mínima escolha lexical: “Agora mesmo – que palavra agora, que mentira estúpida”. Não há o que fixe o tempo, embora se tenham criado mecanismos (como a máquina de escrever e a de fotografar) que criam esta ilusão de paralisia, ao apontar para “a vida (…) que uma imagem rígida destrói (…) se não escolhemos a imperceptível fração essencial”.

Calvino, no seu texto “A aventura de um fotógrafo”, igualmente se obceca pela captação do tempo. Aos poucos, seu personagem Antonino Paraggi desenvolve um desejo de controle que o leva à loucura. Começa por perceber a efemeridade do clique, que é a mesma da existência: “Um dos primeiros instintos dos pais, depois de pôr um filho no mundo, é o de fotografá-lo; e dada a rapidez do crescimento torna-se necessário fotografá-lo com frequência, pois nada é mais transitório e irrecordável do que uma criança de seis meses, rapidamente apagada e substituída pela de oito meses e, depois, pela de um ano; e toda a perfeição que aos olhos de um pai um filho de três anos pode ter atingido não é suficiente para impedir que suceda a ela, destruindo-a, a nova perfeição dos quatro, só restando o álbum fotográfico como lugar onde todas essas perfeições fugazes se salvam e se justapõem, cada uma aspirando a um absoluto próprio incomparável.”

Embarcando numa busca filosófica pela “essência” da fotografia, o protagonista passa a desenredar “o fio das razões gerais dentro dos emaranhados particulares”. Questiona se a realidade é fotografada por parecer bonita ou se, pelo contrário, a realidade parece bonita porque é fotografada – e elege uma escolha para o seu corpus de pesquisa: excluirá os contrastes dramáticos, as fotos antigas, posadas, e trabalhará somente com os instantâneos. São estes que podem garantir uma “posse tangível do dia passado”. O fotógrafo, assim, passa a ser visto como o “caçador do inalcançável”: sua utopia, por um lado, aponta para a “fotografia única”, perfeita, essencial – mas, por outro, indica a urgência de múltiplas imagens, que possam (re)construir a vida, torná-la documentada a um tal ponto que ela poderia ser eternizada.

“Tudo o que não é fotografado, é como se não tivesse existido”, admite Paraggi, num extremismo que reconhecemos facilmente hoje, nas redes sociais. O fenômeno é discutido por Fontcuberta e outros teóricos que se debruçam sobre a era da chamada pós-fotografia, quando a proliferação de imagens supera em muito o seu consumo. Mas décadas antes, Calvino já meditava sobre os limites do fotográfico, ou a falta deles: “A fotografia só tem sentido se esgotar todas as imagens possíveis”, ou seja, se cair na realidade. Isso é o que gera o colapso, a que Paraggi se entrega no final do conto: a fotografia do nada, a destruição, os fragmentos, a fotografia da fotografia (à la Sherrie Levine).

Assim retornamos à metalinguagem, vista já no texto de Cortázar e presente em qualquer aula que se queira interativa. Talvez ela seja a maneira vital de mantermos um diálogo com aquilo que concebemos e com o público – esse outro – que sempre nos justifica.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal Rascunho)

filmes fot

 

O amor de um bom amigo

Pedro e TérciaMinha memória entra em loop sempre que desejo: volto àquela noite na livraria Café com Letras, onde havia algum evento – um sarau, lançamento? Não lembro mais – e no meio do barulho escuto alguém chamar “Pedro Salgueiro!” Olhei na direção de onde vinha a voz; fui lá, rompendo a timidez dos meus 17 anos, e me apresentei. Pouco tempo depois, saía O Peso do Morto, livro de estreia desse autor que conheci antes pelos contos lidos aqui e acolá, com entusiasmo.

Muita literatura se passou desde então. Foi Pedro – não esqueço! – quem me apresentou Kafka, Quiroga, Rulfo, Munro… Até hoje ele continua me indicando novos nomes (seus presentes são invariavelmente livros); prossegue sendo um dos leitores mais compulsivos que conheço – e este é o fundamento óbvio da qualidade do que ele escreve. Os seus contos têm o estilo da sua existência: o mesmo olhar arguto, objetivo, persistente. Numa época em que pela mídia se regurgitam tantas frases feitas, é um conforto (re)ler um autor como Pedro Salgueiro. Ele aposta na própria coerência e sabe que o mais importante é a criação de um universo particular, inconfundível. Só busca isso quem tem alma de artista.

Ao longo do tempo, ambos construímos narrativas dentro e fora de nossas vidas. Sei que dei alguns sustos em Pedro: ele sempre tão calmo, com a voz baixa e os gestos discretos, muitas vezes considerou minhas viagens ou aventuras com espanto. Quando nos encontrávamos e eu falava dos riscos que tinha vencido, escapando de situações tão diversas, geralmente ele ria, jogando a cabeça para trás: “Mulher, se aquieta!”. Em outras ocasiões, quando eu estava superando relacionamentos funestos, ele me fazia ver o lado engraçado da coisa. Pedro sabe como ninguém transformar pessoas em personagens – e há momentos em que apenas se precisa enxergar um desafeto de modo caricato. Gente rala feito caldo de bila, como Pedro costuma dizer, encontrando valores nos inimigos.

Tenho muitas outras cenas na memória. Encontros no Bosque de Letras, reuniões para projetos coletivos – antologias, revistas – aniversários, almoços, passeios e alguns atritos também, que toda amizade fiel conhece pontos nevrálgicos. Mas no conjunto carrego uma certeza maior: se a literatura me trouxe alegrias, a mais especial delas é conviver há décadas com o Pedro Salgueiro. Mesmo se passamos por hiatos de silêncio, cada reencontro se faz tão espontâneo que percebo, ao vê-lo, o imutável amor de um bom amigo.

Tércia Montenegro

Oblomovismo e machismo

Um dos meus projetos de felicidade clandestina envolve alguns clássicos russos, lidos ou relidos numa ordem mais ou menos cronológica, permeados por estudos sobre a história do país e o passeio por outras artes: pintura, balé, música etc. Claro que se trata de um projeto que exige anos – mas essa não é uma razão para abandoná-lo. Eis porque, tendo relido um pouco de Pushkin e Gógol, na sequência eu deveria mergulhar na obra-prima de Gontchárov, o romance Oblómov, que já conhecia por diversas resenhas. Mas nenhum comentário crítico me advertiu para tipo de machismo que iria encontrar neste livro.

Antes que me debruce sobre o tema, entretanto, devo advertir que minha abordagem será escancaradamente parcial. O romance tem muitas qualidades literárias nas construções de cena – sobretudo nos diálogos, que esgrimem um timing cômico primoroso –, mas eu pretendo apenas apontar alguns de seus temperos machistas, tarefa que considero válida por há séculos nos alimentarmos desses pratos culturais, sem perceber como são cozidos.

Ora, é evidente que um texto ambientado numa Rússia ainda feudal lança um olhar bastante preconceituoso sobre as mulheres – diria certa voz anônima, genérica. Mas a questão é que o livro de Gontchárov complexifica a situação: não somente reforça (ou constrói, dependendo da perspectiva) estereótipos que associam a figura feminina a uma entidade sempre altruísta. A tal respeito, a personagem Olga, musa do protagonista, pretende salvá-lo de sua fleuma, de sua preguiça fatal – e confunde essa dedicação com amor. Vejamos alguns trechos:

“E Olga fará tudo isso, ela, tão tímida e silenciosa, a quem até então ninguém dava ouvidos, ela, que mal havia começado a viver! Ela será a culpada de tamanha transformação!

E já havia começado: no instante em que ela começara a cantar, Oblómov já não era o mesmo…

Ele irá viver, agir, bendizer a vida e Olga. Devolver um homem à vida – que glória para um médico quando ele salva um paciente já sem esperança! E salvar a mente de alguém, uma alma aniquilada?…”

Porém, o livro não se detém nessa perspectiva, eu dizia. Sutilmente injeta um perfil de superioridade intelectual em Olga, quando expõe sua eterna curiosidade pelos mais diversos assuntos e sua compulsão pela leitura. É um quadro bem diferente do que vemos traçado sobre Agáfia Matviéievna, a proprietária da casa onde Oblómov vai residir, referida sempre como “burra” e absolutamente voltada para a esfera doméstica, tão disposta ao sacrifício que os problemas financeiros apenas lhe pesam porque podem afetar a dieta de seu patrão. Será esta figura de mulher, que não para de trabalhar em prol do bem-estar masculino, que oportunamente o protagonista vai escolher para esposar.

Há vários pontos de machismo na história, em relações diversas (de Olga com Stolz e do empregado Zakhar com a própria esposa, que aceita suas humilhações e grosserias como se fossem brincadeira). Entretanto, o aspecto mais veemente do livro – por ser o que caracteriza o personagem-título – passa por essa composição de Oblómov: um sujeito criado para as regalias, incapaz de qualquer atitude, um covarde que não toma as rédeas da própria vida. É o caso de reler outra passagem:

“Olga via até que, apesar de sua própria juventude, a ela cabia o papel principal naquela relação afetiva, que dele só se podia esperar uma impressão profunda, uma passividade fervorosamente preguiçosa, uma eterna harmonia com cada batida do pulso de Olga, mas nenhum movimento da vontade, nenhum pensamento ativo.”

Nesse ponto, a voz anônima poderia retornar para dizer que essa letargia não é propriedade exclusivamente masculina. Concordo; em termos científicos, nada no cromossomo Y deve estar associado a uma postura blasée ou inerte. Mas, na prática, quantas toneladas de homens não vagam por aí, representando essa atitude que passa incólume porque não é violenta nem ostensiva? Um machismo que parte da ideia de que as mulheres devem ser as mais esforçadas: elas movimentam o mundo, põe o dia para funcionar, fazem coisas, providenciam resultados. E os homens ficam ali, sendo servidos com um ar de tédio ou doença; lastimam-se, estão indispostos ou deprimidos. Repetem frases que começam por “Ah, se eu pudesse…!” ou “Se eu fosse…!”

Sinceramente, faltam-me dedos para contar o número de tipos que conheci assim, seja por convívio direto ou mera observação. E, se durante grande parte da vida não consegui nomear esse desconforto que sentia, perto de um homem fraco qualquer, um sujeito à procura de uma serviçal, mecenas ou enfermeira que cuidasse dele, hoje tenho bem clara a definição. É oblomovismo. Um caso específico de machismo.

Tércia Montenegro

 

Gatofilia

O tigre na casa – uma história cultural do gato, de Carl van Vechten, é daquelas obras que a gente adquire pelo simples impulso de felicidade. Eu a li numa edição argentina, e foi a chance de conhecer este autor, nascido em Iowa em 1880. Jornalista, crítico de música e teatro, van Vechten também foi fotógrafo, atingindo – numa época analógica, lembremos! – a impressionante autoria de 15 mil retratos, conservados hoje na Biblioteca do Congresso em Washington. Dentre os que estiveram sob o seu clique, famosos como F. Scott Fitzgerald, Marc Chagall, Truman Capote, Billie Holliday e Marlon Brando. Além disso, o escritor é tido como “uma das mais iconoclastas e influentes figuras da Nova York do início do século passado – ainda que poucos se lembrem disso”.

O tom bem-humorado passa por todo este volume, que nos conquista desde o início: “Cada vez que se toca no tema, e sendo moderado pode-se dizer que surge umas quarenta vezes ao dia, invariavelmente alguém diz: ‘Eu não gosto de gatos, prefiro os cães’. A observação dicotômica equivalente, igualmente popular, predominante e banal, seria algo como: ‘Não, não gosto de Dickens, prefiro Thackeray’. Tal como o escritor James Branch Cabell deixou assentado de uma vez para sempre, ‘ao pensamento filosófico essa afirmação parece tão sensata quanto recusar um convite para jogar sinuca com o argumento de que se é fanático por arenque’.”

Há muitos outros trechos deliciosos, que fui pinçando durante a leitura. Os felinos são referidos de diferentes modos: “a pantera do lar”, “a serpente com pelos”, “um ser de veludo”, “esfinge”… E, dentro das questões linguísticas, o autor assinala como especialmente aberrante o adjetivo “gatuno”, com seu sentido pejorativo. Na verdade, “só se poderia descrever como gatuna uma criatura graciosa e elegante, digna e reservada, o epítome da beleza, o encanto e o mistério do amor”. Os estudiosos de Estilística concordariam com essa colocação.

Dedicando-se a uma pesquisa sobre a presença felina em diversas áreas – ocultismo, folclore, leis, teatro, música, ficção –, van Vechten atinge o seu ápice quando trata de literatura e gatos. Dentre muitas curiosidades, o escritor nos faz saber que no “notável volume em que Cesare Lombroso intenta demonstrar que todos os gênios estão contaminados pela loucura, o italiano dirige seus dardos para Charles Baudelaire. Motivo: escreveu três poemas sobre gatos. Mas se os três poemas bastaram para enviar ao manicômio o autor de Les fleurs du mal, a madame Deshoulières, que escreveu mais de uma dúzia, a Heinrich Heine e a Joseph Victor von Scheffel teríamos que amarrar com camisa de força e aplicar-lhes a cura da água!”

Talvez Carl van Vechten nunca tenha ouvido falar de Nise da Silveira – senão, com que prazer citaria sua medicina, em tudo contrária à agressividade das propostas lombrosianas! A psiquiatra brasileira, além disso, enxergou de forma pioneira a importância dos animais como auxílio terapêutico. E, ultrapassando este aspecto “utilitário” de sua presença, Nise escreveu um livro precioso: Gatos, a emoção de lidar. Nele, por exemplo, ressalta o repúdio que Montaigne tinha, retirado no seu castelo a escrever ensaios (na companhia de sua gata), a “essa realeza imaginária que o homem atribui a si próprio sobre as outras criaturas”. E acrescenta: “Posição, portanto, oposta à de Descartes, nascido no fim do mesmo século em que nasceu Montaigne. Para Descartes, só o homem pensaria e vivenciaria sentimentos. A cruel visão cartesiana lisonjeia a arrogância do homem. Por isso predomina essa vaidade no homem até hoje.”

Bem antes que o termo especismo fosse cunhado, para se referir à discriminação praticada pelos humanos contra outras espécies, Nise da Silveira já – por sua inteligência e sensibilidade – lamentava que Montaigne fosse menos seguido que Descartes.

Sei que existem vários outros livros sobre gatos, e prever que encontrarei ainda diversos títulos sobre o assunto me faz antecipadamente feliz. De maneira geral, o tema – assim como os gatos em si – me põe sorridente. Por causa dessa descontração involuntária, inclusive, eu me tornei amiga de muita gente. Fala-se em gatos: isso me leva subitamente a conversas desenvoltas. Aliás, sempre perco a timidez se vejo alguém com um bicho; faço perguntas, papeio nem que seja por um minuto.

Entretanto, descobri que há quem se aproxime de gatos por motivo torpe. Mais de dez anos atrás, alguém que conheci – e que me procurou como se eu pudesse lhe passar “fórmulas” para prosperar na literatura – essa pessoa (que até hoje, pelo que sei, investe lamentavelmente no projeto de se tornar best seller) enfiou na cabeça que o êxito de algum modo estaria associado a gatos. “Com gatos em casa, você parece uma autêntica escritora”, disse, e depois de algum tempo – embora preferisse poodles –, a tal figura me informou por e-mail que havia adotado um casal felino. A mensagem tinha um tom triunfante, como quem põe nas entrelinhas: “Agora estou no páreo!”. Fiquei feliz pelos bichos, que já não corriam risco nas ruas, e também achei que eles poderiam servir como lição de paz, beleza e contemplação. Quanto ao sucesso que a ansiosa criatura esperava abocanhar, tive vontade de dizer: os gatos são deuses, mas às vezes – simplesmente – não querem fazer milagres.

Tércia Montenegro (texto publicado no jornal Rascunho deste mês)

Poema, palavra feminina

Nina Rizzi me ensinou: poema é palavra feminina. A poema. Que reviravolta no sentido, que expansão se abre com este claramente adequado artigo, que coincide com a primeira e mais larga de nossas letras! Ahhh!

Passo agora a pensar dessa maneira, a vista fértil das possibilidades: sofisma, mapa, tema, artista, maquinista, cinema, planeta… Uma área léxica amplamente feminina. Todas as coisas parecem fartas. Nascem alvíssaras.

Penso também em Sara Síntique, que fala de águas (enquanto Nina trata de sereias: a liquidez é feminina, igualmente). Suas poemas me chegaram na mesma data – quero dizer, na mesma dia – e tive em mãos aquela peça – Concha – que, tendo-a lido antes, já se tornara minha preferida:

fecho em torno do ouvido a mão

e a outra

disseram que há um mar em nós

um mar

isso que ouço?

instável quanto?

desbravável? ou

impossível a um navegante?

pacífico? ou

impossível a um navegante?

queria invenção duma bússola

pra isto que ouço

quem trouxesse uma agulha

magnetizada

 

um norte?

 

fecho em torno do ouvido a mão

e a outra

 

algo ecoa

 

(já é muito)

 

Temos mares em nós. Ah!

Grata, Nina e Sara – pela vogal de força que vocês carregam. Com ela, não fica necessariamente mais fácil (mas com certeza se torna aprazível) navegar.

Tércia