BAL

Acabei de conhecer uma parte do BAL (Museu de Belas Artes de Liège), dedicada a uma expo intitulada “Jeu de miroirs”, sobre diálogos e intertextualidades entre quadros. A relação em si, entre os temas e as figurações, não foi o que mais me interessou, confesso. Mas a possibilidade de ver certas obras – que eu nunca tinha visto sequer em livros – me trouxe várias reflexões. Este quadro de Picasso, por exemplo, da fase azul:

Picasso

É uma obra inacabada, mas que a distância me fez pensar no Douanier Rousseau, pela postura dos personagens. Não por acaso: Picasso já buscava o primitivismo, já fugia do figurativismo “perfeito”, realista. E, olhando melhor, esse retrato da família Sollier, de 1903, parece anunciar a proposta que cinco anos mais tarde criaria o impacto das Demoiselles d’Avignon… Lição imediata – não se deve fugir dos propósitos, mas aprofundá-los, sempre.

Outro encanto da visita foi deparar com um Paul Delvaux (o primeiro que encontrei foi num afresco do Aquarium, dias atrás – mas depois voltarei a esse tema). Reconhecível por suas estranhas mulheres de olhos bizantinos, nesse quadro o artista brinca com um assunto bem caro a Magritte: a questão que ronda palavras e imagens. Observem o personagem com o jornal:

L'homme de la rue, 1940

L’homme de la rue, 1940

Finalmente, outro quadro que me chamou a atenção foi este, de Louis Tytgadt, Le petit béginage à Gand, de 1886. Não somente a cena é linda, muito bem construída, mas o tema vem a calhar. Há poucos dias minha orientadora me disse: “Il faut connaître les béginages”, e eu pretendo fazer isso o mais rápido possível.

beginage

A Literação

Aqui onde estou já é quase quarta-feira – mas sei que agora, neste exato momento em Fortaleza, é comecinho da noite e está sendo lançado, no Bosque de Letras, a segunda edição do zine A Literação, durante a Semana Entrepalavras. A publicação deve estar linda, com essa ótima proposta de mesclar as fotos de professores e alunos. Na edição também, inaugurando a sessão dedicada à literatura cearense, há uma entrevista comigo. Tudo isso me dá muita saudade e vontade de estar pertinho, acompanhando as coisas… Mas enfim, dou meu jeito de acompanhar mesmo a distância – e daqui a alguns meses estarei de volta! Quem quiser, por enquanto, saber mais sobre o zine, pode clicar aqui.

Literação

Natureza e cultura na fotografia de Tiago Santana

Amigos, é com grande alegria que anuncio a publicação do meu artigo “Natureza e cultura na fotografia de Tiago Santana”, na revista CASA – Cadernos de Semiótica Aplicada, vol.13, nº 1, que acabou de sair e pode ser consultada neste link. Esta já é uma primeira parte da minha pesquisa de pós-doc, que tanto aprendizado está me trazendo! Agora ando às voltas com a elaboração de um novo texto para apresentar aqui em Liège… Não dá vontade de parar!

Um flerte com as palavras

Amigos, saiu hoje, na revista Pessoa, um lindo texto da Susana Fuentes, seguido de entrevista comigo. A publicação é parte do projeto “Literatura Brasileira Hoje”, organizado pelo prof. Dr. João Cezar de Castro Rocha, da Uerj. Vale clicar aqui, para ler!

Abaixo, foto do Turismo para cegos lido por Susana: todo livro quer ficar assim, marcado, usado – apropriado por cada novo leitor!IMG_20150809_190920

 

Mensagens sobre o muro

Comecei a compor esse acervo ao acaso, motivada por um pequeno texto que há muito tempo encontrei, rasgado na balaustrada de uma ponte, em Vila Nova de Gaia. Era algo como “Amo-te, Filipa”: uma declaração que jamais seria feita, dessa maneira, no português brasileiro – tanto pela colocação pronominal como pelo nome citado, pouco recorrente entre nós. O texto me deu aquela sensação de relíquia ingênua, se assim posso definir. E passei a procurar – e fotografar – outros exemplos singulares, conforme o destino me possibilitasse achá-los. Capturei mensagens nos muros da Ilha do Sal e em paredes parisienses. Ontem, foi a vez de Liège: numa estreita passagem, vi esta frase em giz, que me pareceu instantaneamente filosófica:

Cindy

Conforme fui andando em direção ao começo da rua, porém, uma outra mensagem (com a mesma letra e o mesmo giz) me esclareceu o sentido da primeira. “Cindy, veux-tu m’épouser?” era a primeira pergunta, de acordo com a “ordem de leitura” da rua, ou seja, da esquerda para a direita. Portas adiante, aparecia o tal “Tu réflechis encore?”, resgatando o referente implícito e substituindo, para sempre, o enunciatário-transeunte por uma específica Cindy, pensativa a respeito do matrimônio que lhe era proposto duas vezes em poucos metros de caminhada. Caiu por terra toda a minha interpretação sociológica, filosófica, anticonsumista etc, que a frase inicialmente sugeria. Ficou só a insistência de um apaixonado anônimo – e, quer saber? Isso me soou muito melhor e mais importante. Espero que Cindy (como a outra, Filipa) esteja feliz com este amor.

Le Grand Curtius e a Idade Média

Se depois de uma semana em Liège certas ruas já me parecem familiares, os museus, par contre, continuam sendo uma atração inesgotável.  Hoje tive a alegria de visitar o Grand Curtius, que fica perto da rue Hors Chatêau. Vi apenas metade do acervo, com a sensação inédita de poder voltar amanhã para contemplar o resto (e com isso pude dimensionar a plenitude em que vive, por exemplo, monsieur Armand, o senhor francês que certa vez encontrei no Louvre e que me disse que, a cada semana, voltava ali para ver alguma sala).

A metade do Grand Curtius consiste num mergulho que começa pela pré-história e, no meu caso, foi até a Idade Média. Essa é uma época que sempre me faz parar, embevecida. Selecionei algumas imagens e informações riquíssimas para compartilhar com o leitor interessado no tema.

Vierge à l'enfant

Vierge à l’enfant, vers 1530

(Venerada numa capela da antiga catedral. Revela um estilo gótico tardio com traços da produção limbourgeoise. Denota também influência da escultura suábia)

Christ mosaneO Cristo acima é um bom exemplo de “art mosan”, um estilo que se desenvolveu no vale do rio Meuse (e daí o nome “Mosa”, de Meuse) entre o fim do século X e a metade do século XIV. A cultura era herdeira da época carolíngia; Liège no século XII contava com mais de 20 paróquias, além dos colegiados, estabelecidos nos locais em que seus fundadores haviam evangelizado. Essas instituições ligadas à igreja desenvolviam o ensino e a arte, contando com importantes bibliotecas e ateliês de iluminuras e ourivesaria.

vers 1260-1270

vers 1260-1270

Fiquei absolutamente magnetizada pela dramaticidade deste cristo, com seu esquema arcaicizante (flexão dos braços em W, posição dos dedos). A obra provém da capela de Frenay, em Lens-sur-Geer.

Vierge d'Évegnée, vers 1060-1070

Vierge d’Évegnée, vers 1060-1070

A iconografia acima é a da “Siège de la Sagesse”, em referência ao trono de Salomão: Maria serve efetivamente de trono ao seu filho, sabedoria encarnada. Mas a virgem está igualmente representada como uma nova Eva: ela segura na mão direita uma maçã, símbolo do pecado original. Fortemente esquematizada, esta figura traz vestígios de arcaísmo, sobretudo pela frontalidade. Estilisticamente, pode ser comparada às portas da igreja Sainte Marie de Capitole, em Colônia, datadas de 1050.

Vierge de Xhoris, vers 1030

Vierge de Xhoris, vers 1030

Esta outra “Sediae Sapientiaie” tem uma silhueta caracterizada pelo alongamento, ao contrário da anterior. O rosto apresenta similitudes com o cristo de Tancréamont, o que conduz a uma datação próxima a 1030.

Vierge, início do séc. XII

Vierge, início do séc. XII

Vierge à l'enfant, vers 1149-1150

Vierge à l’enfant, vers 1149-1150

Acima, a dita Virgem de Dom Rupert mostra um estilo mosan mesclado com o bizantino (no véu da Virgem e na almofada do tipo “obus” sobre a qual ela se senta). Este relevo provém da abadia beneditina de Saint-Lorent, em Liége, e o seu nome é atribuído a uma lenda segundo a qual Dom Rupert, famoso teólogo liégeois do século XII, pouco voltado aos estudos durante a juventude, teria sido abençoado pela Virgem, que permitiu que “seu espírito se desenvolvesse”.

Para terminar esta postagem (e tendo que suprimir muitas imagens lindas, para não me estender infinitamente), vão ainda estas duas, que me comoveram por sua semelhança com as esculturas populares nordestinas. Não é que elas têm um quê de mestre Noza? Ou melhor: em verdade histórica seria bem o contrário – mas em termos emotivos foi assim que estabeleci a conexão: do Ceará para o mundo, sempre. O sentido é esse.

séc. XIII

séc. XIII

De um relicário. Fotografada por trás de vitrine; perdão pela qualidade!

De um relicário. Fotografada por trás de vitrine; perdão pela má qualidade!