O trem no teatro

Aviso aos amigos que estão ou estarão em Sampa neste mês de março: começou a nova temporada de O trem das onze, espetáculo teatral dirigido por Lucas Sancho, com inspiração no meu livro de contos Linha Férrea. Agora com novo elenco, a peça fica em cartaz às quartas-feiras até 25/03, às 20h, no espaço Cia. do Pássaro.

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Kundera

Trecho de A vida está em outro lugar:

“Um homem pequeno e magro, de óculos, estava sentado diante de uma mesa de trabalho e perguntou-lhe o que desejava. Jaromil disse seu nome. O redator perguntou-lhe de novo o que desejava. Jaromil disse mais uma vez (mais claramente e mais forte) seu nome. O redator disse que estava feliz em conhecê-lo, mas que gostaria de saber o que ele desejava. Jaromil disse que enviara seus versos à redação e que recebera uma carta em que lhe pediam que viesse. O redator disse que quem cuidava da poesia era seu colega e que no momento ele estava ausente. Jaromil disse então que lamentava muito, pois gostaria de saber quando seus poemas seriam publicados.

O redator perdeu a paciência, levantou-se da cadeira, pegou Jaromil pelo braço e conduziu-o até um armário grande. Abriu-o e mostrou pilhas enormes de papel arrumadas nas prateleiras: ‘Caro colega, nós recebemos em média, diariamente, poemas de doze autores novos. Quanto dá isso por ano?’.

‘Não consigo calcular de cabeça’, disse Jaromil, constrangido, pois o redator insistia.

‘Dá quatro mil, trezentos e oitenta novos poetas por ano. Tem vontade de sair do país?’

‘Por que não?’, disse Jaromil.

‘Então continue a escrever’, disse o redator. ‘Estou certo de que mais cedo ou mais tarde iremos exportar poetas. Outros países exportam montadores, engenheiros, trigo ou carvão, mas nós, a nossa principal riqueza, são os poetas líricos. Os poetas líricos tchecos irão fundar a poesia lírica dos países em desenvolvimento. Em troca de nossos poetas líricos, poderemos conseguir coco e banana.” (pp.230-1. Trad. de Denise Rangé Barreto, ed. Companhia das Letras)