A perfeição de Piero

O famoso estudo de Roberto Longhi a respeito de Piero della Francesca é o tipo de material que se torna deleite não só para os interessados em pintura, mas também em arte literária. Sua pesquisa sobre estruturas figurativas e verbalização da imagem esmiúça, de modo infalível, o elo mágico entre as linguagens. Além disso, como professor na Universidade de Bolonha entre os anos de 1934 e 1943, Longhi soube articular investigação e produção artística de seus estudantes – muitos dos quais foram responsáveis por exposições na época do pós-guerra. Para nós, que não tivemos a sorte de compartilhar tempo e espaço com ele, restam seus livros, porta direta para o pensamento.

O volume publicado pela Cosac Naify em 2007, reunindo os estudos sobre Piero della Francesca, traz a peculiar dicção do crítico. Muitas vezes carregada de floreios, ela acaba por adquirir tom irônico, em alguns instantes chegando ao humor escancarado, como por exemplo quando Longhi descreve um mantel que “desce com a facilidade de um teorema de Euclides” ou analisa um “Cristo horrendamente silvestre e quase bovino, como um sisudo meeiro úmbrio detendo-se, rústico, a contemplar da borda do sepulcro suas propriedades terrenas”.

Também podemos sorrir à descrição de um menino Jesus “obeso e linfático, como todos os contemplativos fundadores de religiões orientais, com aquela infância altiva e triste que, como nos bizantinos, parece se assemelhar à velhice – e o que dizer de um anjo com “rosto mestiço esmaltado e olhinhos de elefante sagrado”? Tudo isso são efeitos de um excesso verbal: se no primeiro momento pode parecer estranho pensar que uma pérola, digamos, poderia ser confundida com “uma preciosa secreção daquela colônia de rizópodes a que vimos se reduzir, sob as raras circunstâncias luminosas, a massa vermiculada dos cabelos”, à medida que o texto avança essa afetação nos diverte e parece gerar leveza, no diálogo com as imagens.

O mais importante, entretanto, é que – ao apontar a perfeição de Piero della Francesca – Longhi não pretende com isso idealizar o artista de modo alucinado, mas acima de tudo busca entender como foi possível o desenvolvimento de uma personalidade como a sua, na cultura figurativa do Quatrocentos. Para isso, recorda-lhe o nascimento, em 1410, “em Borgo San Sepolcro, no alto vale do Tibre, divisa entre a Toscana e a Úmbria”, assinalando como “inquestionável que suas primeiras impressões artísticas, quando menino, derivaram do Trezentos sienense”. O seu amadurecimento estético, porém, ocorreria entre 1435 e 1440, em Florença: “Ali, ele viria a refletir de maneira bem diferente sobre a substância dos fatos, antigos mas ainda solenes, do Trezentos local, e a tomar partido diante das enormes novidades de Brunelleschi, Masaccio, Fra Angelico e Domenico Veneziano.”

Nesse período, apesar de a maior ideia artística do Renascimento, a perspectiva, ter sido invenção do arquiteto Brunelleschi, os pintores seguiam obrigados a acomodar suas figurações entre os vãos, os espaços menos favoráveis. Isso ainda ocorria com Piero por volta de 1452, durante os seus trabalhos na igreja de São Francisco em Arezzo. O problema de ajustar as imagens ao predomínio vertical do gótico acarretava consequências – mas, apesar desse e de outros constrangimentos históricos, Piero conseguiu desenvolver aquela que foi sua “inclinação fundamental”: representar o mundo como “eterno espetáculo em ação”.

O “mundo de Piero se desdobra claro como um tecido colorido envolto por uma fatalidade calma e indiferente”, é o que diz Longhi, e só podemos constatar essa evidência. Mais adiante, ressalta: “as cores parecem nascer pela primeira vez como elementos de uma invenção do mundo”.

As cores “são superfícies medidas e extensas de uma natureza completa que vai se manifestando desde as profundezas sob a luz natural. Essa conjunção deliberada ocorre graças a uma ‘síntese perspectiva’ que, primeiramente, coloca um conjunto selecionado de formas simples em terceira dimensão e, depois, recoloca-as no plano bidimensional como ‘perspectiva cromática’: tal é, precisamente, o segredo da poética de Piero desenvolvida a partir da reflexão, também tendo em vista a forma humana, sobre as mesmas leis que Brunelleschi havia extraído da mensuração dos edifícios antigos”. E, um pouco mais além, Longhi destaca: “é como se Piero previsse e realizasse plenamente o lema, então distante, de Cézanne: ‘quand la couleur est à sa richesse, la forme est à sa plenitude’.”

Sobre os afrescos aretinos, minuciosamente analisados, o crítico assinala: “Nenhum posicionamento espacial ali é gratuito”. Seus comentários atingem momentos entusiasmados, quando o(a) leitor(a) encontra a potência de sua tradutibilidade da imagem em palavras. Vejamos por exemplo esta passagem, que descreve a cena do Encontro da rainha de Sabá com o rei Salomão: “No trecho da rainha ajoelhada diante da pontezinha do Siloés, as damas formam como que uma abside à sua volta: encerradas na avalancha dos mantos, luminosos como geleiras ao sol, rosados, verdes, brancos, elas desenvolvem o espaço predeterminado com o círculo dos cintos, com os gestos de um inconsciente ritual, com a calma elegância das nucas majestosas, com as frontes desabrochadas como bulbos gigantescos sobre o fundo cinza das colinas”.

A grande marca deste livro é, na verdade, a paixão que extravasa da linguagem crítica. Longhi deixa-se arrebatar – seja descrevendo as mulheres com suas “túnicas de cauda marcadas pelo cinto, para conferir uma majestosa elegância de ânforas antigas, coroadas pelas cabeças de terra suave e luminosa”, seja concentrando-se na cor crepuscular do Sonho de Constantino, onde assinala: “aqui, a absoluta novidade é a maneira como Piero transpõe o milagre para a natureza, como se dissesse: o que há de mais milagroso do que uma lua cheia numa noite serena da Úmbria?” Isso não reduz seu rigor de análise, ao contrário do que podem pensar os acadêmicos empedernidos. Saímos da leitura percebendo com clareza os laços que a história vai construir, assimilando em parentesco Piero della Francesca, Van Eyck, Rafael, Caravaggio, Rembrandt e até mesmo Seurat.

Ao final do estudo de Longhi, aprendemos como um artista (não só Piero) torna-se perfeito. A trajetória envolve o respeitoso manejo de influências, a percepção arguta de sua própria época e o salto – que, muito mais que impecável, é visionário – para uma tendência pioneira. A partir daí, trata-se de exercitar inúmeras possibilidades dentro dessa descoberta.

Tércia Montenegro (texto publicado no jornal Rascunho de abril de 2021)

A HISTÓRIA SE REPETE

“Um homem sem convicções, sem hábitos, sem tradições, sem nome, e que nem era francês, se destaca, por força do que parecem ser os acasos mais estranhos, entre todos os partidos que se agitam na França e, sem aderir a nenhum deles, é alçado a uma posição de proeminência.

A ignorância de seus camaradas, a fraqueza e a insignificância dos opositores, a sinceridade na mentira e a estreiteza mental inflamada e autoconfiante daquele homem conduziram-no ao comando do exército. (…)

Qualquer coisa que ele faça dá certo. A peste não o abala. A crueldade do assassinato dos prisioneiros não é imputada a ele. (…) Na ocasião em que, já totalmente intoxicado pelos crimes bem-sucedidos praticados por ele e pronto para representar o seu papel, ele chega a Paris sem nenhum objetivo, a decomposição do governo republicano, que o poderia ter destruído um ano antes, tinha chegado agora ao extremo, e a presença dele, um homem alheio aos partidos, agora só pode servir para a sua elevação.

Ele não tem nenhum plano; tem medo de tudo; mas os partidos se apegam a ele e exigem sua participação.

  Só ele, com seu ideal de glória e de grandeza (…), com sua louca admiração por si mesmo, com sua audácia nos crimes, com sua sinceridade na mentira – só ele pode justificar aquilo que tem de acontecer.

Ele é necessário na função que o aguarda e por isso, de forma quase independente de sua vontade e apesar de sua indecisão, da ausência de um plano e de todos os erros que comete, ele se envolve numa conspiração cujo objetivo é a tomada do poder, e a conspiração alcança sucesso.

Levam-no à força para uma reunião do governo. Assustado, quer fugir, julgando-se perdido; finge ter um desmaio; fala coisas absurdas que deviam ser sua perdição. Mas os governantes da França, antes sagazes e orgulhosos, agora, sentindo que seu papel terminou, ficam ainda mais confusos do que ele e não falam as palavras que teriam de falar para manter o poder e aniquilá-lo.

O acaso, um milhão de acasos lhe dão o poder, e todas as pessoas, como que numa conspiração, colaboram para ratificar esse poder. Os acasos criam o caráter dos governantes da França de então, subordinados a ele; os acasos criam o caráter do tsar Paulo I, que reconhece a autoridade dele; o acaso cria contra ele uma conspiração que não só não o abala como reforça seu poder.”

     Os parágrafos acima foram retirados de Guerra e Paz (Cosac Naify, pp. 2328-31, em tradução de Rubens Figueiredo). Duvido que o(a) leitor(a) não veja a ascensão de Bonaparte em brutal similitude com o Brasil dos últimos anos… Há muitos outros pontos visionários na grande obra de Tolstói – que, óbvio, não caberiam neste texto. Cito apenas mais uma frase, boa para uma reflexão de domingo: “Vencerá a batalha quem resolver com firmeza que vai vencer.” (p.1612)

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje, no Vida & Arte do jornal O Povo)

Um ano sem Benfica

O Benfica foi meu bairro de infância; a primeira casa onde morei ficava numa rua próxima à avenida da Universidade. Não importa que minhas lembranças desse período sejam sutilezas fantasmagóricas. A atmosfera do lugar se entranhou na memória, enriquecida por novas experiências conforme eu crescia e — já morando em outra área — voltava ao circuito de ensino, cultura e artes que se respirava por ali.

Lembro que aos 12 anos, no Teatro Universitário, assisti ao ator e dramaturgo Ricardo Guilherme estrear um monólogo na estética do seu Teatro Radical. Também visitei algumas vezes o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, onde minha mãe estudou canto e piano. Ia ao Museu da Universidade, pesquisava na biblioteca da UFC e gostava de esperar meu pai na saída de suas aulas, no curso de Letras. Aquela mesma efervescência estudantil seria parte da minha rotina, desde que passei no vestibular e o Benfica tornou-se realmente uma espécie de casa. A Reitoria excitava minha imaginação, com a história aristocrática por trás dos seus prédios de amplos salões, escadarias – e também com os seus jardins, vez e outra ocupados por eventos artísticos ou manifestações de greve, além da Concha Acústica, com tantos shows e formaturas.

Fui a missas na igreja dos Remédios, participei de programas na Rádio Universitária, conheci residências estudantis e suas lendas fantásticas. Também estive em quitinetes de amigos que me arrastavam para livrarias e bares decadentes. Frequentei inúmeras fotocopiadoras, sorveterias e restaurantes, vi performances e exposições fotográficas em plena rua. Presenciei passeatas, assaltos, estive em filmes na Casa Amarela Eusélio de Oliveira, ouvi centenas de palestras. E andei muito a pé por todo o Benfica, espiando o interior doméstico em ruas transversais à Faculdade de Administração e Estatística. Mapeei sedes de partidos políticos, sindicatos, grupos circenses, lojas, escolas. Durante todo o período de graduação, mestrado e doutorado, eu respirei o bulício desse que é um dos bairros mais criativos de Fortaleza. Depois, como professora efetiva do Centro de Humanidades, eu o incorporei com naturalidade à rotina: “Agora vai ser para sempre”, pensei.

Não imaginava (como ninguém, aliás) que uma pandemia chegaria, impondo um exílio sui generis. O home office, a aula remota, o convívio virtual… faz um ano que o magistério, por força das circunstâncias, virou esse diálogo entrecortado por oscilações de internet, transmitido por câmeras e microfones que hesitam, interferências domésticas e outros episódios insólitos. A sala de aula se transformou nesse rizoma espalhado por muitos bairros – mas sempre que surge o prazer nas trocas de aprendizado, e quando detecto em estudantes o bom humor, a motivação que resiste apesar de tudo, reencontro o Benfica. Então penso que o espírito do lugar somente passeia por nós, disperso, mas em breve voltará ao seu núcleo primordial.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no Vida & Arte do jornal O Povo)

OSSOS E ABRICÓS

O caderno vermelho, de Paul Auster, é um livro que sempre me faz recuperar a disposição mágica, quando ela está escassa. Trata de episódios de “coincidência” ou sincronicidade, encontros milagrosos, guinadas do destino experimentadas pelo próprio autor ou por amigos dele – situações tão inverossímeis que, se estivessem num filme, e não na vida, serviriam para rotulá-lo de fantasioso em demasia. As tais conexões parecem favorecidas pela “intensidade dos pensamentos” que manda “um sinal pelo mundo afora”, algo que se popularizou como “lei da atração”.

Ora, eu me encontrava numa época de mesmice pós-quarentena naquele fatídico 2020 (que na verdade ainda não acabou) e resolvi apelar para as confluências energéticas – ao menos para me divertir um pouquinho, catalogando uma cadeia de aventuras ou acasos, que poderia ou não trazer uma mensagem implícita. Eis o que aconteceu.

Eu voltava de uma viagem que, dentre outras finalidades, servira para que me submetesse a um tipo de exame dendrológico, após vários meses estudando informalmente árvores. Pois desse trajeto sertanejo, devo confessar que quase trouxe um crânio de boi para dar sorte. Cheguei à iminência de carregar a mandíbula branquíssima, afiada ao modo da arma com que Sansão massacrou os filisteus – mas desisti, com medo de profanar despojos. Logo no dia seguinte ao retorno, eu me pus a ler Mulheres que correm com lobos – e aí encontro a história da velha-loba, que canta sobre ossos, para encantá-los. Vale a pena trazer aqui a passagem:

“Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montanhas e os arroios, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.

Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pelos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.

La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.

E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.”

Pouco depois, num parque onde me encontrei com uma amiga, sentadas sob um abricó falamos sobre esse título da Clarissa Pinkola Estés, dentre outras referências de histórias com personagens e autoras mulheres. Pensei então na Herta Müller, nos dois livros dela que me aguardavam, ainda intocados. Quando cheguei em casa, peguei o primeiro que vi – O rei se inclina e mata – e comecei a lê-lo como se estivesse esfomeada. A presença de um abricó, na paisagem das primeiras páginas, fez com que eu parasse, suspensa num tipo de elo transcendental.

No trecho, Müller menciona a árvore que “não se envergonhava de florescer” no pátio de sua casa, e que passou a estar associada com a ausência de seu pai, tanto quanto as ferramentas que em vida ele usava: “Com os olhos eu adentrava as árvores de modo tão irracional que os galhos ainda curtos e pelados se pareciam incrivelmente com as pequenas chaves de fenda”.

Mais adiante, a escritora lembra como em Berlim encontrou um pé de abricó, sem o procurar e mesmo contra as probabilidades climáticas: “Para mim a árvore é um pedaço de vilarejo que escapou; é muito mais velha do que minha estada na Alemanha”. Aquela presença orienta sua rotina: “Através do lado da rua que escolho, tenho de decidir se visito a árvore ou se prefiro desviar-me dela. Decidir isso não é uma grande sensação. Digo a mim mesma: vejamos como ela está hoje. Ou: que ela me deixe em paz hoje. Não é o pai que me empurra para as visitas, não o vilarejo, não o país – nada de saudades. A árvore não é peso nem alívio. Ela só está ali como um travo daquele tempo. O que me range na cabeça em sua proximidade é meio açúcar, meio areia. A palavra ‘Aprikosen’ [abricó] é lisonjeira, ela soa a ‘liebkosen’ [fazer carinho].”

Eu sei que esses laços temáticos estão o tempo todo acontecendo – mas na maioria das vezes os ignoramos, considerando que aquela recorrência é um dado trivial, ou não significa nada, ou, ao contrário, significa algo enorme, tão poderoso que jamais chegaremos a decifrá-lo; portanto, a ignorância passa a ser nossa condição de calma, manutenção de sanidade.

Eu, entretanto, prefiro a curiosidade: a observação e desvendamento, ainda que as conclusões escapem. E me fascina acompanhar esse roteiro de um Grande Narrador que vai soltando pistas, como se fossem sementes ou vestígios que sequer sabemos que existem. Contenho a vontade de encontrar uma resposta específica, um tesouro no fim do mapa dessas aventuras. O próprio mapa é o tesouro, como diz minha amiga Fernanda Meireles. Para ajudar a fruir melhor desse trajeto num escuro com relâmpagos, lembro outro trecho da Herta Müller, quando ela comenta que só o ocidente desenvolve a “crença de que não se pode suportar o que não tem sentido”.

A propósito, o surrealismo talvez tenha sido a única reação saudável da nossa cultura diante do absurdo dos fatos – e, usando o espelhamento de temas, soube explorar o humor que há nesses emaranhados. Afinal, o non sense restaura uma espécie de conforto mental pela via da comicidade. Rir do que não compreendemos, observar os sinais sutis do universo, seguir a intuição de modo implacável… esses são procedimentos que aperfeiçoo para viver, sabendo que o mais importante é a margem para o improviso.

Cada momento intrigante permanece pulsando, como “um modo de lembrar a mim mesmo que não sei nada, que o mundo onde vivo continuará me escapando eternamente”, diz Paul Auster – e ressalta que, no meio dessa rede de aventuras, há muitas outras conexões que passam despercebidas. São intervalos insignificantes, em que inclusive escapamos do fim sem ao menos reparar nisso: o segundo exato em que descemos de um ônibus prestes a colidir, o passo que nos livrou do vaso caído da janela de um prédio, o voo desmarcado inexplicavelmente, a festa cancelada, a amizade rompida… Quem sabe a série de eventos graves que daí sucederia, em hipóteses variadas?

Há um potencial de ficção que permanece ardente, em toda e qualquer rotina. Basta ficarmos atentos, para encontrar o fio que desvenda todo um tecido, com sua trama.

Em tempo: no livro citado, Auster também conta curiosos fatos que envolvem sua esposa, Siri Hustvedt, que vim a conhecer como escritora seguindo o impulso de comprar um de seus títulos após um manuseio rápido na livraria. Eu nunca ouvira falar dela antes, mas A mulher trêmula acabou se tornando uma valiosa referência: tratei desta obra no texto “O outro que me habita”, publicado aqui no Rascunho, em abril de 2019, e já utilizei bastante este livro em sala de aula.

É agora em Siri Hustvedt que encontro – aparentemente ao acaso – mais um trecho que vem enlaçado com minha viagem, com o crânio e as árvores tão próximos. N’O verão sem homens, a protagonista escreve um poema durante uma crise emocional, e ele termina bem assim: “Escolho uma figura do meio do nada,/de um furo na mente/e olho, ali na prateleira:/um osso florido”.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal Rascunho de março de 2021)

Patriarcal

             Eis um livro valioso: A criação do patriarcado, da historiadora Gerda Lerner. Publicado no Brasil em edição da Cultrix, com prefácio de Lola Aronovich, essa história da opressão das mulheres pelos homens é obra de profunda lucidez científica. Longe de cair num vitimismo passional, a pesquisa mostra como a subordinação das mulheres foi resultado de um processo que, ao longo de 2.500 anos aproximadamente, envolveu relações econômicas e governamentais, além de mudanças de cosmogonias que fizeram com que imperassem divindades masculinas.

           Aprendi muitíssimo com a leitura, e ressalto aqui apenas um aspecto: a falta de evidências antropológicas que atestem um matriarcado pré-histórico. A autora explica: “Penso que só podemos falar em matriarcado quando as mulheres têm poder sobre os homens, não ao lado deles; quando esse poder inclui o domínio público e as relações exteriores, e quando as mulheres tomam decisões essenciais não apenas para seus parentes, mas para a comunidade. (…) esse poder deveria incluir a definição de valores e sistemas explicativos da sociedade, bem como a definição e controle do comportamento sexual masculino. Pode-se observar que defino matriarcado como a imagem refletida do patriarcado. Segundo essa definição, eu concluiria que nunca existiu uma sociedade matriarcal.” (p.59)

            Todos os indícios de épocas que celebraram a fecundidade e a força da mulher, todas as 30 mil esculturas da Deusa-mãe não são o bastante para uma certeza histórica desse teor. Ou seja: não houve qualquer período em que as mulheres detiveram o poder político, econômico e, sobretudo, o poder de posse sobre o corpo dos homens, regulando sua sexualidade e liberdade. Gerda Lerner observa que a criação de “mitos compensatórios” não facilita a vida das mulheres contemporâneas, e a atitude mais inteligente é “abandonar a busca por um passado empoderador”, para se concentrar no que ela chama de enigma central: “a participação da mulher na construção do sistema que a subjuga” (p.65).

            Parece de fato incompreensível que as próprias mulheres propaguem a ideologia patriarcal. Uma razão, entretanto, pode estar numa alternativa de domínio – porque, se inexistiu um matriarcado no mundo, isso não indica ausência de agressividade por parte das mulheres. Nós, tanto quanto os homens, somos capazes de oprimir – a diferença é que jamais fomos estimuladas a isso, nem premiadas por um juízo que costume ignorar nossas maldades. Desse modo, criaturas com ganas de controlar, cercear e punir quase sempre cultivam sua sordidez na esteira do machismo, tendo como alvo outras mulheres. Textualmente, inclusive, a identificação é imediata; utilizam o mesmo léxico opressor de um homem, revelando um exercício de poder por imitação. São vítimas brincando de carrasco, sentindo um prazer postiço. São pobres alienadas que direcionam seu sofrimento para o lado errado. Só quem ganha, no final, é o patriarcado.

Tércia Montenegro (texto publicado hoje no Vida & Arte do jornal O Povo)

O futuro a flutuar

Depois que a pandemia passar, será que nos sentiremos seguros de viver sem máscaras? Ou o acessório vai se incorporar como uma necessidade incontornável? É verdade que, à medida que o tempo corre, a humanidade arranja novos meios ou necessidades para se cobrir ou amarrar. Houve uma época em que nosso corpo não se metia em tantas roupas, e andávamos com os pés, não levados por gaiolas móveis.

Então a partir de agora ficaremos abrigados em excesso: com o rosto debaixo de um pano, com o corpo dentro de um carro, sob um cinto de segurança, debaixo de roupas, e mais roupas, íntimas. Espero que, se o passo seguinte for a criação de cápsulas, a humanidade ao menos retorne à nudez. Que cada um, nu dentro de sua bolha, protegido e sequestrado por essa placenta eterna, possa experimentar o toque direto na própria pele.

Inventarão certamente dispositivos para manter o pudor: a bolha pode, por exemplo, tornar-se nublada em certas áreas, para os que a veem de fora, isto é, de outras bolhas. Alguns poderão escolher o fumê, estampas florais ou mesmo projeção de pinturas, na superfície bolhosa – e assim a diferença social continuará vigorando: todos nus e isolados, mas uns poucos em bolhas riquíssimas, talvez até disfarçadas em bolhas simples às vezes, para não despertar o ódio alheio. Sim, porque a humanidade ainda será igual, nos seus velhos sentimentos – e inimigos continuarão à espreita, testando zarabatanas, dardos ou alfinetes, para estragar a bolha vizinha, em casos extremos destruí-la, com consequências trágicas.

Não imagino bem os detalhes de uma rotina nesse tipo de envoltório, mas suponho que estudos, convívio, passeios, tudo se fará de modo remoto, com hologramas – para quem puder pagar, claro. Mas me intriga pensar nos casos em que o contato direto é indispensável, digamos, num exame médico, no ato sexual, no parto… Creio que haveria uma bolha específica para cada uma dessas ocasiões e, quando as pessoas combinassem de se encontrar nesse espaço comum, ainda assim não teriam acesso completo uma à outra. Um tipo de plasma, uma película viscosa cobriria o corpo de cada ser que entrasse na bolha coletiva, inclusive os bebês recém-vindos ao mundo. O sexo seria possível, mas apenas dentro desse preservativo integral. Filhos, para quem os quisesse, não seriam gerados por fecundação direta, mas sempre induzida – um processo in vitro, limpíssimo.

A boa consequência seria o fim dos estupros, porque uma pessoa que se sentisse abusada poderia, com um comando, espessar a película na região baixa, tornando-a inviolável. Fim das gravidezes não planejadas, das agressões domésticas (pois marido e esposa não sairiam de suas bolhas individuais, na maior parte do relacionamento)… Percebo como esse estilo de vida traria vantagens às mulheres, e isso é um péssimo sinal. Mostra certa ideia – de que só podemos estar em paz com a supressão da liberdade física – subjacente até num delírio futurista.

Tércia Montenegro (texto publicado hoje no Vida & Arte do jornal O Povo)

Indivíduos

A série Crown, exibida pela Netflix sobre a recente monarquia inglesa, é um exemplo bem didático para entendermos o alcance das constrições impostas por um jogo de aparências social. Grande parte do que mantém o poder frente a um público repousa no mistério: podemos pensar na velha fórmula de sucesso do suspense, do esquema folhetinesco que ainda hoje domina estruturas narrativas, sobretudo populares. Mas o mistério também é a base do poder numa sociedade. Seja em circunstâncias religiosas ou políticas, segredos não podem ser desvendados, sob pena de que o respeito acabe. Penso em como isso é frágil: a veneração, o ato de admirar o que não compreendemos.

Um comentário de François Lebrun, em capítulo da História da Vida Privada, v.3, recorda: “Enquanto instituição hierarquizada, a Igreja sempre desconfiou das manifestações de devoção pessoal consideradas excessivas e dos consequentes riscos de aventurismo espiritual; com muita frequência parecia satisfazer-se com uma religião coletiva cujo unanimismo aparente significava, talvez, mais uma cega conformidade que o envolvimento sincero e ponderado de cada fiel”. (p.73)

Via de regra, a promoção do sujeito é considerada uma ameaça para os sistemas, que preferem massificar uma multidão anônima e reduzi-la a mera engrenagem. Mesmo os modelos de liderança não podem ser inovadores, para não desestruturar os artifícios, o “teatro” que mantém hierarquias. Quando se olha a distância, parece grotesco que populações inteiras continuem com velhas ilusões absurdas, perpetuadas para garantir privilégios aos dominadores. Mas a explicação se encontra nesse mecanismo de homogeneidade: faça as pessoas sentirem que são parte de um bando, de um país, de uma ideia – e logo ninguém mais pensará por si, ou aqueles que o fizerem serão tão raros que permanecerão inofensivos.

A tentação da coletividade, que deve ser inclusive um traço da espécie humana (basta lembrar como as crianças são dependentes, e durante tanto tempo, se comparadas aos filhotes de outros animais), surge como isca essencial para a manutenção do status quo. Ainda que hoje exista uma sensação de que muitas vozes individuais se fazem ouvir, através do uso acessível dos meios comunicativos, uma simples observação mostra como essas pessoas, na verdade, agem como repetidores autômatos, repassando palavras (ou imagens) que vêm de outro lugar. São sujeitos assujeitados, conforme classificação da Análise do Discurso. São meras peças, que funcionam azeitadas por uma ideologia, uma crença indiscutível ou um algoritmo.

E por falar em algoritmo, a homogeneização virtual agora é uma tendência inegável.

Étienne de La Boétie, em pleno século XVI, comentou sobre a mais estranha das perversões do vínculo social, a “servidão voluntária” – e, em sua época, apontava o perigo dentro dos excessos de confiança ou até das gratidões legítimas, que poderiam gerar a tirania de um sobre outros. Mas o que dizer de nosso comportamento contemporâneo, quando nos tornamos dependentes de curtidas, servis diante de desconhecidos para quem “produzimos conteúdo”, inventamos artifícios, estratagemas para agradar ou atiçar com polêmicas?

Já não temos mais autonomia ou escolha própria; inventamos nosso Big Brother particular, damos satisfação de onde estamos, com quem, e em que estado de espírito (muitas vezes, forjado). Míchkin, protagonista de O idiota, de Dostoievski, em determinado instante diz: “Eu tenho tempo. O meu tempo é todo meu.” Quantos de nós realmente poderíamos afirmar isso?

Claro, lembremos que numa sociedade moderna – e não somente nela – há compromissos, obrigações, deveres. Mas para além das horas com trabalho, cuidado doméstico e/ou familiar, quanto tempo sobra? E o que você faz com esse tempo? Desperdiça, investigando a vida alheia ou expondo a própria, em redes sociais que são feitas para estimular vícios, gestos inúteis e repetitivos? Ou realmente utiliza a folga para o seu prazer – que pode, sim, estar no descanso e na solidão?

Se a pandemia de 2020-1 trouxe alguma lição, mínimo oásis em meio ao horror de mortes, talvez ela esteja em torno do autoconhecimento. E não me refiro a crescimentos espirituais: desconfio do aprendizado através de modelos punitivos, e acho que se aprende muito mais sobre Deus e o amor através da alegria. A mudança que várias pessoas perceberam em si mesmas, enquanto indivíduos, refere-se a algo tão imediato e inescapável, que paradoxalmente muitas vezes se ignora: o próprio corpo.

Houve relatos sobre insônias, dores de cabeça, suores. Gente se queixando de apatia ou, ao contrário, de uma adrenalina indomável, um apetite feroz. Todos os que são deixados a sós em algum momento oscilam, estranham-se, observam-se. Examinam os humores, escrevem diários, desnudam-se em frente a um espelho ou câmera. Na falta do mundo, o território interno torna-se convidativo, explorável.

O regresso ao corpo é uma primordial conquista da identidade. Conhecer minha composição, aprender sobre os músculos, os órgãos, o esqueleto é aprofundar na experiência humana. Da mesma forma com que uma planta, pela maneira como se exibe, comunica o que está sentindo, os meus olhos, unhas, gengivas indicam como estou realmente.

Fomos muito habituados a “consertar” o que nos desagrada. Cheiros, texturas, cores são alterados por razão cosmética, e na maioria das vezes por moda, para acompanhar o que todos fazem, ou o que a cultura impõe. Nesse ímpeto de manutenção da estética, a natureza é ignorada. E a natureza sempre nos fala de mudança, envelhecimento, ciclo sazonal: coisas tão distantes do nosso eu abstrato, que aprendemos a temê-las. Qualquer transformação parece uma perda ou ruína; queremos escondê-la.

Entretanto creio que, se observássemos o nosso organismo, cumprindo a rotina de nutrição, exercícios e sono, sem pensar que são obrigações incômodas que queremos reduzir ou cumprir logo – mas que de fato são o nosso modo de existência real –, teríamos uma nova perspectiva. Talvez deixássemos de nos ver como máquinas, para lembrar que somos sujeitos e, antes disso, animais. Nossa cognição, por mais desenvolvida que seja, não nos exime do trajeto de todo mamífero – vamos do ventre ao verme. O que deixamos no planeta pode ser grotesco ou sublime, mas esse legado não se confunde com nossa essência, nem a substitui. O nosso propósito não é produzir, como as máquinas fazem. Enquanto animais, nossa primeira finalidade é existir, habitar o mundo por um tempo. E, exatamente por sermos animais, não somos descartáveis nem substituíveis: cada ser é individual.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal Rascunho, de fevereiro de 2021)

Experimentar

Em recente palestra transmitida de modo remoto, o linguista Ugo Volli trouxe reflexões a partir do conceito de experiência, a partir do qual se chega a uma específica técnica narrativa. Todas as considerações em torno do que poderia representar um modo de ultrapassar análises textualistas me interessaram muitíssimo – mas o espaço de debate adequado para isso não é uma página de jornal, de modo que levanto aqui somente um ponto, ligado à própria palavra, experimentar. Essa arte do fazer, conforme Michel de Certeau, não parece estabilizada numa definição social nem pode se confundir com as “coisas do mundo”.

Mantendo um sentido difuso tanto em conversações comuns quanto em abordagens científicas, a experiência aponta para uma zona pessoal inevitável. Como diz Ronald Laing no livro “The voice of experience”, de 1982, “a experiência não é um fato objetivo (…). O efeito que produz sobre nós um fato objetivo não pode ser um fato objetivo. Os fatos não sonham”. Porém, essa dimensão do sonho – que se mistura com as impressões individuais e intransferíveis de cada um(a) de nós – guarda certa previsibilidade, sem a qual o entendimento mútuo a respeito de qualquer situação seria inalcançável.

A margem do que é previsto pode ser traçada por hábitos sociais. Assim como um analisando (diz Volli), conforme uma velha anedota não despida de verdade, sonha de acordo com a orientação do seu psicanalista, vendo arquétipos se ele é junguiano, ou símbolos sexuais se é freudiano etc, também qualquer um(a) de nós ama, sente raiva, decide, tem fé etc, segundo um contexto cultural e linguístico: “A vida vivida não é menos cultural que as palavras escritas nos livros”.

Entretanto, a experiência pode servir de trampolim para um indivíduo aprender algo além do corriqueiro. Se observamos a construção etimológica dessa palavra, recebemos uma lição importante: em todas as línguas neolatinas, o vocábulo deriva de experiri, um verbo composto da preposição ex e da raiz indoeuropeia per(que não deve ser confundida com a preposição latina per, com o sentido de “através de”). Essa raiz, apontando para um significado de risco ou prova, aparece em palavras como pericolo, pirata, repertorio – lembra o estudioso italiano, e poderíamos acrescentar à lista de exemplos pernicioso, permissão, perícia, quem sabe inclusive perjúrio e perdão. Em tempos de pandemia, passamos a considerar perdigotos também como um risco terrível, embora a origem dessa palavra não se aplique ao mesmo caso…

De todo esse passeio filológico, resta a ideia de que experimentar confunde-se com a noção de colocar-se à prova, para eventualmente adquirir um conhecimento. Portanto, experiente é quem de algum modo enfrentou desafios, superou antagonistas – sejam eles outras pessoas ou pressões na forma de costumes, crenças, preconceitos. O aprendizado adquirido desta forma tão prática não pode ser transferido e pertence, de fato, a cada indivíduo que o conquista.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no Vida & Arte)

A casa do Quinze

As fotografias são um trampolim do tempo; revejo aquela em que Rachel posa como Rainha dos Estudantes, e penso: essa era a sua aparência, quando escreveu O Quinze. Uma foto da casa no Pici acrescenta cenário à retrospectiva desse momento. Estive algumas vezes lá, em passeios investigativos para criar a biografia Rachel: o mundo por escrito (Edições Demócrito Rocha, 2010) – e reparei na divisão dos aposentos, atentíssima ao piso, às paredes. Eram os espaços em que a autora havia se recolhido para, muito jovem, produzir um dos melhores romances da literatura brasileira.

A casa, anunciada por grandiosos benjamins, talvez ainda guarde um pouco da atmosfera dos habitantes antigos. Ela não foi transformada em museu, e o fato de que permaneça sendo uma residência dificulta o acesso a esse patrimônio, claro. Mas na rua Antônio Ivo, ela se destaca – com certa solenidade que a velhice lhe atribui –, juntamente com as árvores. Enquanto viveu ali, Rachel de Queiroz também colaborava para o jornal O Povo, escrevendo crônicas, e atuou como professora da Escola Normal. Aos 18 anos, era mais nova que a maioria de suas alunas, daí ter sido eleita Rainha dos Estudantes. Aos 20, já concluíra O Quinze.

Quero crer que os espaços são, em certa medida, responsáveis por um destino. Não somente o país e a região de nascimento definem muita coisa na vida de alguém – idioma, cultura, tendência religiosa ou política, certas formas de pensar ou agir, crenças –, mas a própria moradia afeta um temperamento.

Viver numa casa, bem próxima da terra, das plantas, transitando pelos cômodos largos, de paredes grossas… como isso afetou Rachel? Em sua época, como percebeu, daquele justo lugar em que vivia, a chuva no telhado, a ventania fazendo crepitar as folhas dos benjamins ou passando veloz, como um assobio, pelas frestas das janelas? De que modo se aplicou a olhar para o céu, apostando em descobrir os formatos de nuvens, tendo em torno amigos e familiares que o dia inteiro zanzavam pelos quartos, pela cozinha de cheiros tão variados e frequentes? Como decidiu por suas histórias, quando começou a imaginar personagens e fixar palavras – e qual foi o instante preciso em que se deitou no chão da sala, inaugurando sua primeira noite a escrever em cadernos, à luz de um lampião?

Esses detalhes as fotografias não resgatam. Mas o salto que elas permitem, de volta ao passado, mistura imaginação com verdade. Observo de novo o rosto dessa Rachel ainda adolescente, bochechuda e numa pose graciosa. Transfiro mentalmente sua fisionomia para o interior da casa que ela habitou no Pici. Integro as existências – a pessoa, a morada, as árvores – numa harmonia que surge como um tipo de lufada: refresca, alegra e traz alívio. Mas é, ainda assim, bastante fugaz.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no Vida & Arte do jornal O Povo)

Portinari e suas poéticas

No início de 2020, Bia Perlingeiro me encomendou um texto a respeito da exposição de Portinari, em cartaz na galeria Multiarte. Eu fui lá várias vezes, em parte porque devia me inspirar para o trabalho, coletar dados etc. Mas também voltava à galeria pelo prazer da conversa com uma pessoa que, assim como eu, interessava-se pelo fenômeno que faz as artes se cruzarem, superando qualquer limite.

“Pinturas. Ou o colapso do tempo em imagens” – dizia Paul Auster em algum lugar. Essa frase retorna quando penso que, poucos meses depois, Bia Perlingeiro morreu de maneira inesperada, vitimada por covid. Hoje, lembrar Portinari e republicar o texto virou minha forma de resgate – de uma época nem tão distante, mas muito mais inocente. Obrigada, Bia.

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A mim sempre emociona, ver nascerem as personagens. Flagrar os bastidores do processo artístico – encontrando as fases iniciais de um projeto, com suas hesitações, experiências provisórias, testes – costuma ser uma lição de humildade e talento. Ninguém chega ao seu melhor sem passar por exercícios – e, ao mesmo tempo, quando o criador tem verdadeira perícia, um rascunho de sua obra já traz a marca do gênio. É um privilégio ter acesso a manuscritos, esboços, notas que mostram o trampolim de uma ideia, o lampejo – seguido por alguns recuos, ajustes… até que, de repente, o artista achou o ponto profundo, o caminho dentro do qual seguirá, firme e feliz.

A exposição sobre o universo gráfico de Portinari, em cartaz na galeria Multiarte, de Fortaleza, abre ao público a chance de viver esta experiência. Mas não somente adentramos a intimidade criativa do pintor: pelos seus desenhos, percebemos a vasta multiplicidade técnica que ele dominava.

Alguém que percorresse as seções desta mostra sem atentar para qualquer notícia, digamos, um visitante (nesta hipótese que agora invento) distraído a ponto de sequer saber que o mesmo autor – Candido Portinari – unifica todas as obras, essa pessoa facilmente poderia sair com a sensação de ter visto uma coleção de vários artistas. Porque, no fundo, são muitas as fontes que Portinari aciona, na complexidade de seu(s) estilo(s). A sua poética é híbrida, plural – conforme o tema, a fase, a matéria plástica.

Há cenas de ação agrícola, ciclos do trabalho – e os famosos retirantes, os despejados da terra e da sociedade. Os estudos para quadros mostram o treino (somos convidados a presenciar um ensaio antes do espetáculo), o artista manipulando seus temas preferidos. Figuras em reza, crianças desfalecidas: muitos corpos disformes que se apresentam quase como fantasmas, máscaras de dor. Este é o Portinari mais conhecido – e que prazer acompanhar o palimpsesto de seu processo, o surgimento de suas criaturas pelo traço!

Eu me detenho diante dessas mulheres que seguram crianças mortas: levam os corpinhos rijos logo abaixo dos seios – os filhos são a trava a lhes barrar o gesto, um corpo que elas não oferecem nem agarram, apenas sustentam, exatamente ali, horizontalmente sob o peito. Quando eles forem tirados delas, certamente o seu movimento será o de levantar as mãos vazias para o alto. Desespero ou prece?

Há uma partitura em Portinari.

Mas há ritmos inesperados, muitos, nesta exposição. E o novo chega ao máximo impacto, pela mudança estilística.

Na série Israel, encontramos um desenhista viajante, voltado sobretudo para a rapidez do registro, o reconhecimento do território. Vejo o traço veloz desta pequena imagem: árabe e israelita. Logo depois, na seção dedicada às ilustrações, encontro a multiplicidade com que Portinari abrilhantou, por exemplo, livros de Graham Greene ou André Maurois. Posso apenas reconhecer a mesma dança convulsiva, aplicada antes na paisagem de Cafarnaum, e agora investida na rispidez das Figuras (de 1954, em grafite), feitas para A cidade assassinada, de Antonio Callado. O restante da seção é um mistério mágico.

Os três desenhos surrealistas de 1936, feitos para poemas de Manoel de Abreu, trazem uma densidade lenta em sua textura aveludada, com o sfumato que indica a destreza no uso do carvão. E, se parece inesperado encontrar Portinari praticando surrealismo, mais adiante – nos Estudos para Painéis – juramos encontrar um trecho de Guernica numa peça de 1942, em nanquim. Saímos desta influência de Picasso para, bem perto, flagrar dois desenhos de animais – um tamanduá e uma corça – que se diria pertencerem ao caderno de um artista-viajante do século XIX.

Tudo isso é Portinari.

E ainda as cenas religiosas, com este belo Profeta, que me captura pela expressão de firmeza viril. Mais discreta, descubro a avó, Nonna, numa cabeça feita em malha de riscos. Seu traçado é semelhante ao de outra cabeça – este Rosto de mulher, de 1960, que parece surgir de um novelo, com os leves pontos de cor do lápis. Estamos diante de figuras familiares, e esta sensação foi bem premeditada. Dentre tantas técnicas, o artista sabe à perfeição o que usar, segundo o seu intento dramático.

Mas eu me rendo por completo é com esta pequena Mulher chorando, de 1955. O que temos, por um lado, parece tão pouco: uma postura debruçada, que se esconde sob os cabelos, simples feixes verticais a escorrerem por um corpo do qual praticamente se veem somente os pés, esquálidos. Nada poderia ser mais anônimo do que este vulto feminino em desespero – e, no entanto, nada é mais potente como tradução visual de um sentimento, todos os sentimentos pelos quais as mulheres ao longo dos séculos choraram.

Fecho os olhos diante desse quadro, para buscar uma forma de silêncio. Ali, no meu escuro interno, ainda o tenho. Ele está comigo inclusive enquanto termino este texto.

Portinari persiste.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal Rascunho, em janeiro de 2021)