Maracajá 03

Já está disponível a boa conversa que tive com a jornalista Lílian Martins, para a revista Maracajá. Confiram abaixo:

 

Anúncios

O outro que me habita

Siri Hustvedt escreveu seis romances, mas o primeiro título dela que me chegou às mãos foi um tipo de autobiografia: A mulher trêmula ou Uma história dos meus nervos. O livro parte de uma experiência pessoal: depois do falecimento de seu pai, a autora começou a sofrer de fortes tremores durante falas públicas, uma situação que não lhe afetava a voz ou a inteligência, mas certamente produzia embaraço. Em pesquisa sobre a sua condição, e ao mesmo tempo em que estudava temas médicos para compor a personagem de um romance, Siri Hustvedt foi coletando reflexões sobre psicanálise e psiquiatria – e os momentos mais interessantes jogam com dúvidas acerca da unidade que constituiria um indivíduo.

“O que realmente sei a meu respeito? (…) O que vem a ser o corpo? E a mente? Cada um de nós é um ser singular ou plural?” Muitas destas indagações, que eu já havia percorrido antes, em leituras de Merleau-Ponty, por exemplo, levaram-me agora a um lugar mais longínquo. Penso se o descontrole físico, ou o desconhecimento de si, pode ser visto como um tipo de ficção, na medida em que indica o alheio, o inesperado – e creio que Siri Hustvedt acompanha este raciocínio, pois poucas páginas adiante explora a escrita automática e a sensação que tantos escritores têm, de que as palavras que produzem lhes são estranhas em certa medida; não nascem (pelo menos não exclusivamente) deles mesmos: “Quando estou escrevendo bem, com frequência perco todo o senso de composição: as sentenças surgem como se eu não as tivesse escolhido, como se outro ser as manufaturasse. Não é minha maneira costumeira de escrever, que inclui polimento, períodos dolorosos de iniciativas e interrupções. Mas a sensação de ser conduzida acontece diversas vezes durante a criação de um livro, em geral nos momentos finais. Não escrevo; sou escrita.”

Estas considerações, óbvio, levam em conta que há diversos graus de consciência, que o interno é formado pelo externo, o sujeito moldado pelo coletivo. Mas elas apontam, sobretudo, para um dinamismo desses atravessamentos. A experiência subjetiva inclui o mundo dentro do sujeito: “visões, sons, cheiros, sensações, emoções, outras pessoas, pensamento e linguagem. Eles estão em nós.”

O que autora entende como o “problema mente-corpo” – e que ela explora não só nestas memórias, mas também em outros títulos – abre um vasto campo. O que a ciência quer dizer exatamente quando distingue o psicológico do fisiológico? Há uma lacuna neste ponto, e é preciso admitir que qualquer ser humano existe numa zona de ambiguidades. A divisão mente-cérebro criou a distinção entre psiquiatria e neurologia, o que reforçou o dualismo orgânico-não orgânico. Estamos acostumados a separar os elementos materiais e imateriais, que constituem um ser.

O livro de Hustvedt virou uma referência no âmbito das reflexões neurológicas. É interessante observar como o seu trânsito flexível entre literatura e ciência abre fronteiras para o pensamento. Como ela diz numa entrevista, “interpretar dados é também uma tarefa da filosofia e das artes”. É inevitável o paralelo com Oliver Sacks, que igualmente narrou casos clínicos como se fossem contos, sob o ponto de observação privilegiado do neuropatologista que ele foi. Siri Hustvedt está bastante interessada nas histórias dos pacientes – mas não somente por uma simples investigação etiológica. Há momentos em que a ideia de unidade a assombra por um lado diferente: “A narrativa não fazia parte da doença? As duas coisas podem ser separadas?” Concordemos ou não com este ponto, sabemos que o contexto nunca merece desprezo: “Existe uma fenomenologia do estar doente, e ela depende de fatores como temperamento, história pessoal e cultura na qual se vive.”

De qualquer maneira, quando alguém entende os benefícios de trabalhar consigo mesmo – apesar de toda a multiplicidade que isso subentende –, acontece um ganho. Fica-se numa posição de “poder colocar a próxima pergunta de um modo sofisticado”. É o que a curiosidade obtém: não a chegada a um fim propriamente dito, mas a chance de crescer cada vez mais no nível da compreensão, que dispara novas perguntas. Para começar nesse caminho, basta se perceber.

Impulsos bizarros que nos habitam, reações inesperadas, estranhezas… O corpo, ao fugir do controle (racional ou social), foi tantas vezes apontado como vítima de possessões espirituais. Mas considere eu que aí está uma atuação do inconsciente – das Es (o isso), conforme o termo inicial que Freud escolheu, a partir de Georg Groddeck, que escrevera: “o homem é animado pelo Desconhecido, que se encontra dentro dele como ‘Es”, um ‘It’, uma força impressionante que dirige tanto o que ele faz como o que acontece a ele” –, ou considere, de maneira saudosista, que há demônios e anjos a se revezarem em mim, sempre tratarei de um íntimo potencial, uma ação secreta. O Eu é um Deus na medida desta complexidade; e o encontro entre dois seres – como este, de mim para você, leitor(a) – envolve um mistério que reverencia o alheio.

Como diz Siri Hustvedt, “há momentos em que olho para uma coisa com tanta intensidade que desapareço”.

Namaste.

 

Tércia Montenegro (texto publicado também em http://rascunho.com.br/o-outro-que-me-habita/)

O que não se esconde

Coletivo Colher

Hoje comemoramos um ano do Coletivo Colher, e há vários motivos de alegria! Nossa parceria artística trouxe grandes conexões, êxtases e êxitos diversos. Expusemos uma série fotográfica na Casa de Cultura Alemã, fizemos ações urbanas e aquáticas, algumas que inclusive saíram do país (caso da performance Zona B), e – o mais importante – os projetos continuam a crescer! Divulgamos agora este recente trabalho, O que não se esconde, para marcar nossos festejos e fazer um agradecimento retrospectivo aos envolvidos, com destaque para os queridos parceiros Helder Weiss e B. Ayres, que oxalá possamos logo rever. Uma lembrança especial vai também para a performance revisitada da obra de Sophie Calle, na semana passada! Vida longa para nós!

Brennand

Exatamente um ano atrás eu estava em Recife. Em meio a várias reflexões e compromissos acadêmicos, acionei o antigo desejo de conhecer a Oficina Brennand, no bairro Várzea. A experiência foi mística, não tenho como definir de outra forma. Revejo agora fotografias desse passeio e me transporto de volta para lá. Reencontro as estátuas protetoras, os bichos: um mundo de fábulas íntimas que eu percorria, como se entrasse por baixo das pálpebras de Brennand e pudesse conhecer as histórias que ele sonhou durante décadas, para depois nascerem petrificadas. Eu dava voltas, contornava os objetos, tornava a um e outro, comparando. Queria adivinhar a experiência geradora, o impulso antes da obra, o símbolo do cisne, do jaguar, do pássaro rompendo o ovo – que vontade precedeu cada imagem?

E os textos (sim, eles também estavam ali, nas paredes, tão plásticos quanto os outros seres): “Não interrompam este silêncio. Não interrompam este sonho”. Fragmentos de Ariano Suassuna, de Joseph Conrad ou dos Eclesiastes criavam estações – paradas necessárias para deixar o pensamento ecoar.

Há portais nos jardins, painéis de cerâmica – várias edificações, refúgios para diferentes propósitos do autor. No prédio principal se encontram as obras-primas em escultura, com insistentes formas eróticas. Cabeças inclinadas sugerindo falos, gigantescos elementos priápicos a compor tantos personagens – Galatea, Hiera, Halia, Oreste, Calígula, Édipo, Vênus, Semíramis. E as figuras femininas, fendidas e férteis, surgem no esbanjamento daquela orgia estética. Muitas referências clássicas, históricas ou míticas, mas cada uma vista sob esta perspectiva: o festejo do corpo. A abundância vital.

Não tive dúvidas de que a longevidade do autor está ligada a esse tipo de celebração. Depois de passear durante horas pelo espaço, eu o encontrei – e ali, na figura daquele homem alto, de 95 anos, de repente vi concentrados todos os ancestrais, Rembrandt, Monet, Balthus, Picasso… Foi como se eu entrasse no olho do Aleph, ou me empoleirasse em frente à Máquina do Mundo, levada por espirais de tempo para a frente e para trás, condensadas num minuto. Depois tudo se resumiu numa frase: “Ele não se submeteu”, surgida enquanto eu cumprimentava Francisco Brennand e recebia o seu presente – o Diário em quatro volumes (O nome do livro) que ainda hoje continuo a ler. A frase era uma espécie de lema para compreender a Oficina, a produção em esculturas e pinturas, os temas, os estudos… A persistência de um criador que constrói o próprio mundo: isso representa o mais profundo pacto que se pode ter com a arte.

Mas o turista em Recife deve prestar atenção para não confundir a Oficina de Francisco Brennand com o Instituto Ricardo Brennand. Este último apresenta-se como uma coleção montada por um industrial parente do artista. O espaço tem um contexto muito agradável, cercado pela mata atlântica. Mas quem busca a fruição típica dos museus sai de lá horrorizado: as peças estão dispostas sem qualquer coerência cronológica ou estética, sem legenda, seguindo apenas o gosto pessoal do proprietário ou alguma anedota de sua vida, que um esforçado monitor buscava me esclarecer.

O visitante deveria ser advertido de que o lugar foi concebido como um depósito, ou como a extensão da casa de alguém. Quem paga o ingresso pode espiar (mas não aprender, como é uma função dos museus). Sim, espiamos um acúmulo de obras; genuínas ou reproduções, estavam todas indistintamente juntas.

No jardim, uma escultura de Botero formava grupo com um rinoceronte de outra autoria e época – e o motivo daquela junção era o material comum, de que eram feitas as peças! Numa das salas, um tapete de Gobelin ficava em frente a uma mão do ateliê de Rodin. Um Bom Jesus da Agonia, do Barroco mineiro, bem como um arco de igreja do mesmo período, fazia a gente pensar na história dos trajetos, saques, revendas e complexas transações comerciais que as obras sacras – não apenas do Brasil – já sofreram. E, para ir a um local bem distante, havia ali também a China, representada por um gigantesco e terrível navio feito de marfim (quem puder, pense no tamanho da matança que uma obra assim representa).

A sala das figuras de cera, mimetizando em paralisia o julgamento de Nicolas Fouquet, juntamente com o castelo onde estão guardadas as armas – de uma variedade abominável, dentre canivetes, sabres, cimitarras, pistolas – trouxe um toque curioso à visita, que desse modo não me proporcionou somente angústia. Mas eu precisei passar um bom tempo em meio às plantas para reencontrar um eixo de tranquilidade. A grande beleza do Instituto é de fato a natureza circundante; na Oficina, ao contrário, tudo é primoroso e interessante. Não fica difícil fazer uma escolha.

Tércia Montenegro (texto publicado no jornal Rascunho – edição de março de 2019)

H! Mulheres!

Passei uma semana no Mato Grosso, viajando a convite do Sesc. O belo projeto Arte da Palavra, que leva escritores para conversas com alunos (de escolas e universidades) de vários locais do país, fez com que eu me convencesse ainda mais de como somos diversos e ricos, enquanto nação – apesar de todo o massacre dos que estão “no poder” (e as aspas indicam que realmente não considero que este tipo de poderio seja o verdadeiro). Mas um projeto assim inevitavelmente leva a reflexões sobre matéria linguística, também: os sotaques, o léxico, a melodia frasal… há muitas formas de falar a língua brasileira. Expressões de espanto, como o “Vôte!”, entravam no fluir das conversas e, em Poconé, o “Agá!” (que me disseram aparecer como “H!”, em grupos locais do whatsapp) tem valor equivalente.

Para além das gírias, Luisa Geisler, com quem dividi as palestras, chamou-me a atenção para um fenômeno que – aparentemente sutil – nos levou a um sério pensamento. Por duas ocasiões, pessoas responsáveis pelo projeto se dirigiram a nós com o vocativo “Mulheres”: “Sejam bem-vindas, mulheres”, “Venham por aqui, mulheres”. Nossa estranheza inicial revelou que estávamos acostumadas – eu em Fortaleza, e Luisa em Porto Alegre – ao aparentemente delicado tratamento de “meninas”. Meninas, garotas, gurias… variações infantilizadas que tantas vezes foram a escolha do(a) interlocutor(a). Como se chamar alguém de mulher fosse violento demais. Ou como se nos fosse exigido um comportamento menos adulto ou impositivo, numa determinada ocasião. Em outros países, isso me parece inadmissível. Pensem se na França ou nos Estados Unidos, por exemplo, um organizador de congresso chamaria suas convidadas de “filles” ou “girls”, ao convidá-las para ocuparem uma mesa-redonda. Mas aqui, vezes sem conta aconteceu comigo: o tal organizador justificava o seu “menina” com um sorriso ou gesto descontraído.

E o pior é que até agora eu não tinha organizado meu incômodo na forma de um pensamento bem claro. Eu não quero descontração neste momento, quero respeito. Não há informalidade profissional que justifique este pernicioso eufemismo, que na verdade é uma forma de reduzir o valor. Mulheres adultas nunca serão meninas quando exercem seu ofício: são professoras, escritoras, pesquisadoras, fotógrafas, engenheiras, cientistas, bailarinas etc. Há sempre outra opção para reconhecer verbalmente que as mulheres estão no seu lugar. No lugar certo.

Sobre fotos e farsas

A legenda era tão surpreendente quanto a imagem que eu tinha sob os olhos: “Manbaa Mokfhi diverte os seus companheiros, agindo como um equilibrista em sua mula. O instantâneo capta precisamente a pirueta chamada ‘estrela do céu’, muito apreciada entre os mujahideen, 2002.” Com a série “Desconstruindo Osama”, que conheci no fotofestival Solar, o trabalho de Joan Fontcuberta me seduziu imensamente, pela inteligência e humor.

A sequência de imagens em que ele aparece barbado e vestido à maneira de um mulçumano tem outros momentos hilários. O seu personagem é o doutor Fasqiyta Ul-Junat, um dirigente da Al-Qaeda, que supostos repórteres de um fictício jornal independente, Al-Zur, revelaram na verdade ser Manbaa Mokfhi, um ator e músico que havia trabalhado em novelas televisivas no mundo árabe. Após o furo jornalístico, o comediante reconheceu ter sido contratado para interpretar o papel de terrorista-vilão em operações orquestradas no Afeganistão e Iraque, conforme detalha um recente livro de Fontcuberta: “Depois dos atentados de 11 de setembro, a inteligência estadunidense e os aliados de sua órbita de interesse precisavam encontrar rapidamente um culpado que fizesse esquecer a cadeia de aparentes negligências em que haviam incorrido. Segundo alguns grupos antibelicistas, foi assim que a Oficina de Influência Estratégica encarregada da difusão de informações falsas inventou o personagem de Osama Bin Laden e o grupo de seus seguidores mais próximos.”

Deste livro, consta também uma entrevista/conversa entre os pretensos fotojornalistas que fizeram “a descoberta inverossímil” em torno de Ul-Junat: sob os nomes de Mohammed Bem Kalish Ezab e Omar Bem Salaad, estes personagens debatem sobre os paradoxos de sua profissão, dentro de uma tradição religiosa que proíbe imagens – e suas reflexões atingem um valor universal. Com a mão sobre o peito, pensemos no Brasil recente ao ler este trecho, por exemplo: “Tal como ocorre com a Bíblia, a doutrina islâmica pode ser interpretada de muitas maneiras, tanto para promover a paz e a tolerância como para promover a guerra e o fanatismo. Os culpados desse desencontro interessado são os ideólogos que distorcem a religião – qualquer religião – para colocá-la a serviço de seus programas políticos e seus interesses econômicos.”

A ideia de que o 11 de setembro nada mais foi do que um autoatentado para promover interesses bélicos (e financeiros – óbvio) já vem sendo debatida por diversas vertentes. Mas, para além de teorias da conspiração, o que a proposta de Fontcuberta faz é criticar a fotografia como evidência do real. Uma foto não é um fato – cada vez menos, aliás, neste mundo em que a manipulação digital virou uma tendência frenética.

Fontcuberta cria uma farsa – pelo tom jocoso e pela dimensão teatral, inclusive. Sua obra provoca o tipo de estranhamento que leva ao riso, sim, mas logo o ultrapassa para chegar a um questionamento complexo. A simplicidade também está no recurso estético: o uso de colagens em fotografia, deslocando elementos de vários lugares e promovendo o seu inusitado encontro numa cena, é tradicional. Os surrealistas, principalmente, souberam explorá-lo muito bem. Mas Fontcuberta, à diferença dos vanguardistas do início do século XX, que se empenhavam na geração de uma estranheza onírica, interessa-se pelo efeito de realidade que expõe nossos preconceitos culturais, nossos temores mais arraigados. A visão de um sujeito com longa barba desgrenhada e turbante recebe, imediatamente, um rótulo; se ele estiver num cenário de deserto, segurando uma arma, então… é inevitável pensar em terrorismo, ameaça, fundamentalismo etc.

Além de todos estes aspectos de reflexão política, social e cutural, a obra de Fontcuberta – ao colocar em dúvida o conceito de “verdade” que ainda persegue a imagem fotográfica – joga mais um peso na sua definitiva classificação como arte. Embora a fotografia tenha nascido com forte valor utilitário e documental, as estratégias e interesses particulares já presentes em seus primeiros autores (Robert Cornelius e Hippolyte Bayard, dentre outros) indicavam uma prática, em certa medida, ficcional.

Fontcuberta, também enquanto professor e pesquisador, aponta para suas realizações artísticas na consciência deste esgarçamento de fronteiras: ler seus livros, como La furia de las imágenes – notas sobre la postfotografía, acrescenta profundidade à fruição do seu trabalho. Afinal, este não é apenas um artista de êxito. É um artista que pensa sobre a linguagem que manipula e – a julgar pela sua palestra que vi, “A decadência da mentira”, realizada no citado fotofestival Solar, de Fortaleza – é um perfeccionista, que organiza com didatismo as ponderações que apresenta. No meio de tantos que se vangloriam de serem criadores meramente pulsantes, orgulhosos de um improviso desleixado na hora de falar, ouvir Fontcuberta abre um oásis. Não à toa eu sempre prefiro os artistas intelectuais: inspiração, surto de loucura, sorte pode até gerar alguns resultados na arte. Mas faz diferença, quando alguém assume o prazer – e a necessidade – do estudo nesta área.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal curitibano Rascunho)