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Estou no inverso daquela época, quando a juventude me desamparava. Embora desde sempre eu enxergasse os fatos com seu devido peso e inegável verdade, havia a opressão do respeito pelos outros, mais velhos. Hoje eu sei que eles não eram sábios. Não conheciam mais sobre o mundo e a vida: se me colocaram obstáculos, foi por ignorância, medo – ou por maldade mesmo, exercício de poder.

Gostaria de dizer àquela que fui aos 24 anos (e que continua, fixada na sua faixa de tempo): você se salvou lindamente. Eu não me esqueço nunca de você – e agora aproveito.

Foto: Coletivo Colher

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20 anos de prosa

Amigos, repasso este convite com muita alegria!

Dia 19 de setembro, às 18h, os Encontros Literários Moreira Campos (ELMC) em parceria com o Departamento de Literatura e o Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLetras) da Universidade Federal do Ceará (UFC) apresentam o evento “Tércia Montenegro, 20 anos de prosa”. A mesa acontecerá em comemoração às duas décadas de publicação da obra “O vendedor de Judas”, da escritora e professora da Universidade, Tércia Montenegro. Convidamos todas as leitoras, leitores e demais pessoas interessadas a prestigiar e discutir a obra aniversariante, assim como os demais livros de contos da autora, que também é romancista e fotógrafa. Para a ocasião, serão convidadas à fala as professoras Cleudene Aragão (UECE), Juliana Diniz (UFC) e Glória Diógenes (UFC). #EncontrosdaUFC

Mais informações: http://www.encontrosliterarios.ufc.br/

Inscrições: https://docs.google.com/

Local: Auditório José Albano – CH I/UFC.

 

O coração e a serpente

Desde o século XIV, numa capela de Pádua, certo afresco de Giotto lembra a fusão de valores em torno dos vícios e virtudes. Uma criatura feia, que cospe uma serpente e leva um saco repleto de moedas, contrapõe-se ao seu extremo bondoso: a generosa mulher que segura uma cesta farta e – em suave coreografia – entrega o próprio coração a Deus, representado pelo minúsculo profeta no canto superior da imagem. Ora, esta fértil camponesa é a personificação da Caridade, a virtude que se costuma opor aos terríveis impulsos de avareza.

Para Giotto, porém, a Caridade forma um par maniqueísta com a Inveja. É ela quem vomita a víbora – e, se por este gesto podemos associá-la às maldades e infâmias características de um invejoso, por outro lado o tal saco com moedas nos faz pensar no apego aos bens, traço constitutivo dos avarentos. É pela idolatria material que a figura parece assar nas chamas que lhe sobem pelas pernas. A serpente a sair de sua boca, assim como os olhos inflamados e a orelha pontuda, talvez contribua muito mais para a repulsa que o pintor pretendeu inspirar, no retrato do vício. Uma aparência diabólica, aliás, fazia parte da identificação de Mamon, o demônio do dinheiro, príncipe do inferno também pintado a carregar uma sacola cheia.

A complexidade em torno das representações dos pecados não se resume a este exemplo – mas ele nos bastará, por enquanto. A questão imagética mostra, em termos bem didáticos, o quanto oscilam as interpretações e como elas podem se cruzar. Se a Caridade é virtude inquestionável, qual seria o seu contrário? Inveja, ganância ou avareza (alguns podem apontar ainda a gula e a luxúria) circulam, todas, por relações de desejo. O indivíduo que ambiciona e jamais encontra saciedade é um viciado – e uma vítima dos anseios.

São tantos os quereres, que parece impossível evitar a tentação em alguma medida. Mas há, vamos admitir, temas dignos de cobiça, enquanto outros apenas revelam modismos, satisfações superficiais ou falta de criatividade do pretenso ambicioso. Assim acontece quando alguém hoje suspira por veículos, aparelhos eletrônicos, dinheiro, roupas – elementos que não têm valor para além da necessidade social que lhes foi imposta. Ter ganas de agir, em vez de possuir, já indica vontade um pouco mais refinada. A ação pode se traduzir numa viagem, numa mudança de emprego ou na decisão de conquistar a pessoa por quem se está enamorado: em todo caso, a ambição se volta para uma experiência, não para uma coisa, propriamente.

O ponto seguinte – que muitos nunca alcançam – é o desejo de algo abstrato, de mudança íntima. Pode envolver desde o crescimento intelectual até um amadurecimento místico. É claro que, para se aproximar deste alvo incorpóreo, faz-se necessário algum procedimento físico: frequentar um curso, dedicar-se a leituras ou meditações etc. O impulso, em qualquer medida, impõe esforço e planejamento estratégico; o problema não está aí.

Na escala viciosa, o pior ganancioso somente chafurda na inveja: é mesquinho e egoísta, autocentrado; quer o que os demais têm, e quer só para si. Às vezes – num nível extremo de avareza – não quer nem mesmo assim. Esconde os benefícios de sua própria pessoa, tranca os bens em cofres, torna-se um obsessivo guardião daquele tesouro, em louca idolatria. Com exceção destes casos perniciosos, a ganância pode até ser uma qualidade. Se funcionar como élan, motivação, meta a seguir sem prejuízo alheio, qual o pecado? A ganância em tal sentido é um trampolim, é o começo do mundo. No princípio bíblico ela já se destacava, como luz imperiosa precisando brilhar, explodir, fazer-se conquista. Mas então – óbvio – a vontade divina excluía a posse ciumenta; era autêntica abundância, ganho em puro senso de fartura.

Ninguém faz votos de escassez ao felicitar uma pessoa. Ao contrário, conforme a tradição desejamos prosperidade, vida fecunda como equivalente a feliz. Mas a boa medida aqui se torna decisiva: riqueza em excesso costuma trazer inquietações. Desconfianças, medo, urgências no ritmo vertiginoso criado pelo fetiche de acumular – tudo isso deve ter o efeito de uma armadilha. Perto de um milionário neurastênico, qualquer boiadeiro será mais saudável.

Para voltar à Caridade, esta camponesa virtuosa não indica exclusivamente altruísmo, gesto em direção ao outro. Ser desprendido é, de fato, uma atitude libertária: basta lembrar Francisco doando até a roupa e tornando-se o primeiro santo performático e naturista do mundo – ou então Gautama renunciando ao trono no Nepal para sair em errância iluminada. O desapego, antítese da ganância, além de promover uma aura de santidade, prova que a renúncia material envolve um estado de sabedoria. É provavelmente a melhor maneira de deixar o coração leve, antes que a serpente nos morda no paraíso…

Não se trata, portanto, de anular a ganância por completo. Isso equivaleria a deixar de viver. Mesmo o não querer nada pode ser entendido como um anseio – o da autoplenitude, da satisfação com o fundamental. O lado ressequido e estéril das vontades, a avareza, deixa de existir quando o desejo se expande dessa maneira. Se nos enxergamos enquanto seres mais fartos que frágeis, mais realizados que humildes, só então – depois deste reconhecimento pleno – arriscaremos querer o máximo. Ousaremos querer tudo, a completude que já não nos mutila se falta, porque temos o essencial, e o essencial extravasa.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal Rascunho. Leiam também postagem anterior sobre esta obra de Giotto em https://literatercia.wordpress.com/2013/04/06/giotto-por-proust/)

 

Paradisus, do Helle

No princípio, era o Paraíso. O mito, a ficção, o mundo vegetal perfeito. Sérgio Helle em sua nova série nos leva a esse regresso de êxtases. Mas aqui o paraíso está cheio de mudanças acontecendo. Cada tela mostra uma transformação da natureza – com a presença da morte também. Ora, introduzir a morte no paraíso é um grande risco; ela vem sempre como sinal de dor, castigo ou sofrimento nas interpretações convencionais. Entretanto a arte, em seu propósito mais vigoroso, busca romper com o previsível. No Paradisus de Helle a finitude surge bela e tranquila.

A morte nas folhas acontece de modo limpo, delicado e poético – não há nada grotesco nessa existência que desaparece pela gradual mudança de cor, pela água que se evapora e deixa um corpo crepitante, quebradiço, esfarelável. Não há cheiros pestilentos, miasmas nocivos: no mundo vegetal o fim encontra sua expressão menos agressiva. A natureza se torna generosa com os seres imóveis; talvez sua decrepitude seja indolor. Eu lembro quando, criança, me disseram que as folhas caíam das árvores como os cabelos caem espontaneamente de uma cabeça – não eram membros amputados, como eu pensava, num horror infantil; os galhos, sim, seriam membros, braços. Mas as folhas pareciam com os cabelos. As árvores carecas do sertão seriam idosos sob um sol inclemente, mas idosos encantados, capazes de surgir com suas cabeleiras verdes e esplêndidas na outra estação.

Diferentes comparações me vieram depois. As folhas eram os pulmões, o respiradouro das árvores, o seu fôlego na forma de pelagem. Ou seriam também os seus olhos, observando e criando paisagens. Eu gostava de pensar nessa ideia de criaturas com múltiplas visadas, com tantos olhos quanto uma centopeia teria patas. E, além do privilégio de ver tudo por todos os ângulos, elas teriam a capacidade de enviar um daqueles órgãos a passeio. Vinha um vento e… puft! Lá ia um olho velejando no ar, viajando de um jeito que a própria árvore jamais poderia, tão infelizmente presa vivia.

Eu tinha pena das plantas, grudadas pelo tronco. Achava que estavam sob feitiço, sofrendo como alguém eternamente condenado ao jogo da estátua. Mas então certa vez encontrei uma árvore caída, arrancada por um temporal. Eu vi suas vísceras como ela tivesse morrido num bombardeio – e entendi. As pernas das árvores são o solo inteiro. Elas se movimentam por dentro, enquanto os outros seres andam por cima. E ainda há as folhas, mensageiras. Não pode haver indivíduo mais livre.

Sérgio Helle celebra a liberdade vegetal, a sua predisposição paradisíaca. Sua arte nos carrega por um pensamento espiralado, à medida que fitamos estas plantas assumindo curvas, torneios. Cada quadro sugere uma tapeçaria, dessas que antigamente retratavam motivos sagrados. É o éden em sua autenticidade: com silêncio e delicadezas, com tantas texturas e temperaturas que, se pudéssemos entrar num único desses ambientes, teríamos a experiência de um banho sensorial.

Há uma espécie de art nouveau essencial aqui. Sobretudo com o torém, a árvore da preguiça, com folhas que parecem mesmo se enrolar, procurar o feitio de conchas, a postura fetal.

Algumas telas passam uma impressão antiga, clássica. É como se descobríssemos um raro camafeu, ampliado. Ou o balé parado nas tramas de uma renda. Coisas que sobrevivem discretas neste contemporâneo high tech, que prega o asséptico mas ignora o aconchego. No entanto, enquanto não nos tornarmos serem completamente metálicos, com chips aderidos ao cérebro e computadores na corrente sanguínea, seremos propensos ao conforto da natureza. É isso, principalmente, o que Sérgio Helle nos lembra.

A arte pode ser um tipo de paraíso, inclusive. A criação restaura um senso do divino – embora sem associações religiosas, nada de inspiração sobrenatural ou leis do espírito. Refiro-me apenas à liturgia íntima do fazer artístico: seus procedimentos, rituais de nascimento. Toda obra passa por isso, um mínimo de bênção luminosa, por assim dizer. E esse facho de êxtase envolve muitas vezes um processo infernal. O artista – até que atinja o que almeja – pode se atormentar, penar em dúvidas, experiências confusas.

Aliás, o trabalho artístico, como qualquer outro, tem o seu lado de sacrifício. Ainda levamos entranhada a crença bíblica da expulsão, com seu castigo: chega de bem-bom, vida contemplativa, colhendo os frutos permitidos e perenes. Tudo ganha esse amargor obrigatório a partir da sentença: necessário trabalhar para o próprio sustento. Mas o artista – se tem a finança como a parte mais problemática do ofício (basta ver a relação flutuante que a arte trava com pagamentos, cachês, vendas) – talvez seja o profissional mais felizardo em sua rotina. Porque, inquestionavelmente, trabalha criando. Acrescentando coisas ao mundo. Crescendo.

A trajetória de Sérgio Helle mostra como o seu processo começa de modo sempre mágico: um estalo de imagem, que desencadeia uma série de atrações visuais. Com “Dobras moles”, foi uma camisa listrada jogada no chão do banheiro; em “Acqua”, a percepção da lente da água transformando os tecidos; em “Fragmenta”, a possibilidade de unir os resquícios de trabalhos anteriores, à maneira de um mosaico, com a chance de partir para a abstração e uma reflexão sobre a desmontagem e montagem de infogravuras, um make in off do fazer criativo.

Para esta nova série, talvez ele já se preparasse desde o arquivo de figuras que montou na infância, catalogando suas referências e construindo um paraíso particular. A importância da estética sobressai, o agradável à vista é crucial. O artista se transforma num arqueólogo vegetal, interessado em reviver a planta, ressuscitar o fóssil.

Mas este paraíso não tem qualquer sintoma de imobilidade eterna. Longe de ser um espaço onde o mundo congela, os quadros de Sérgio Helle nos convidam a uma experiência vibrante, por dentro das folhas: suas rugosidades crepitantes, seus tons múltiplos revividos. O sagrado da natureza transborda – e nos convida a um retorno às origens.

Tércia Montenegro (texto publicado hoje no Diário do Nordeste)

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A vida que há nas pedras

Assistindo a uma série documental sobre o império romano, sofro aquele assombro óbvio diante das proezas antigas – não as proezas bélicas, porque a meu ver elas não podem ser consideradas assim; são na verdade insanidades, desperdícios de vida. Mas o admirável está em todo o resto: a moda, o mobiliário, as joias, a arquitetura. Toda a disciplina absurda que foi necessária para construir cidades e rotinas, organizações implacáveis. E, dentre os artifícios e artefatos, algumas peças especialmente me sensibilizam. É por elas que visito os museus arqueológicos.

Há um mês, em Taranto, quando achava que depois dos museus mexicanos (vistos alguns anos atrás) eu já não me espantaria mais diante de lâminas, espelhos velhíssimos, pontas de lanças ou cacos de cerâmica e urnas funerárias, tive o encanto de voltar a esse passado. Um passado que não é especificamente meu – e justamente por isso seduz e assusta, filosoficamente lembrando como a humanidade estava no mundo e continuará (?) nele, extravasando os limites individuais. De maneira específica, as esculturas me atraem. Elas dão vida à pedra – ou melhor, lembram que há uma vida também nelas. Basta saber olhar para perceber sua identidade única: o polido, as cores, os reflexos, os formatos. Cada pedra em si é uma joia e conta uma história, no momento em passa pelas mãos de alguém. Colher pedras – um gesto simples, mas tão raro, que os sensíveis compreendem.

A verdade flutuante

Tive um desconforto, alguns meses atrás, quando tentava organizar minha biblioteca. Coloquei bem próximos Natalia e Carlo Guinzburg: havia motivos alfabéticos, familiares e nacionais para isso. Mas eu não podia deixar de pensar que a vigilância de Carlo, sua obcecada perseguição por uma fidelidade histórica entrava em descompasso com os livros de sua mãe, reconhecida ficcionista. Eu poderia me contentar com mais um curioso caso de um filho que segue caminho contrário ao dos pais para afirmar a própria identidade – mas não achei que a coisa fosse tão simples.

Existe, afinal, algum tipo de ficção que assombra o relato histórico de maneira inerente mesmo, constitutiva? Será totalmente utópico pensar num relato que não contenha qualquer forma de invenção? Parti para uma pesquisa que aplacasse minhas dúvidas.

Conversei com profissionais da área, informalmente. E busquei não só historiadores, mas também jornalistas. Dizem que o Jornalismo é o rascunho da História – e, óbvio, há aspectos similares no método investigativo, no tratamento dado ao fato. Mas (agora eu me inquietava) se quisermos considerar um texto que seja o contrário da ficção, qual seria o mais propenso para isso – o histórico ou o jornalístico? Cada pessoa me dava argumentos distintos, indicava referências, emprestava livros.

O próprio Guinzburg, em obra sobre Piero della Francesca, discute como a verdade pode ser flutuante. Ela envolve um processo de adesão, confiabilidade. É um pacto que depende de várias circunstâncias – mas, para o profissional, deve estar na mira de uma disciplina implacável.

Enquanto historiador, Guinzburg eriça-se diante de “séries cronológicas relativas”, que são aquelas indicadas pelos métodos estilísticos. Critica severamente Roberto Longui, atribuindo-lhe “implicações divinatórias” na sua atividade de conhecedor, sobretudo por utilizar múltiplas séries documentais – estilo, biografia, molduras, iconografia etc – para resolver dilemas na datação de uma obra – no caso, a Flagelação de Piero della Francesca.

Considerando que “mesmo o calendário é coisa arredia às vezes”, o filho da romancista observa que todo elemento iconográfico é polivalente: “Como saber se, num determinado quadro, uma ovelha, por exemplo, representa Cristo e a mansidão ou apenas uma ovelha?” Às vezes a verdade é improvável, e somente pelo contexto pode ser resgatada. Guinzburg se entrega à extrema modernidade da Flagelação de Piero, que coloca em primeiro plano três personagens misteriosos (cujas identidades provocaram inúmeros debates), numa espécie de desinteresse pelo tema principal. Aproveita para lembrar os também profundamente modernos retratos de Frederico da Montefeltro e sua esposa, Battista Sforza: seus perfis foram prenúncios importantes para o cubismo (e ao ler sobre isso entendi porque a visão destes pequenos quadros na galeria Uffizi, muitos anos atrás, provocou dubiedades em mim).

Didi-Huberman, por sua vez, questiona a certeza do historiador, proclamando um olhar sobre o não-saber, um olhar fenomenológico, experiência sensitiva que – ressalta – é “o mais belo risco da ficção”. No seu livro Diante da imagem, a análise de um trecho branco de muro num afresco de Fra Angelico é semelhante ao impacto que Proust sente diante de Vermeer: Didi-Huberman, a propósito, também tem um trabalho sobre este pintor. A sua análise, junto com o livro de Daniel Arasse, L’ambition de Vermeer, são obras-primas interpretativas. Aliás, Arasse em outros lugares igualmente se debruça sobre Fra Angelico e della Francesca – o que me põe novamente inquieta, agora em busca de possíveis nexos entre os artistas (e os pesquisadores). Mas isso é assunto futuro. Por enquanto, tento circular a ideia inicial. Didi-Huberman afirma que o passado está ligado ao impossível, ao impensável – o seu resgate, portanto, envolve a ilusão “de que o discurso mais exato é necessariamente o mais verdadeiro”. Guinzburg também chegou a comentar que “os mesmos ingredientes, cozidos em molhos hermenêuticos diferentes, resultam em pratos de sabores no mínimo diversos”. Portanto, a tal verdade sobre um fato seria sempre utópica – ou relativa?

Por mais que aceitemos esse deslizamento, não creio que a completa confusão de fronteiras aconteça, até agora. Todo artista oscila ou ocasionalmente mergulha em águas históricas, factuais – mas não se obriga ao testemunho ou ao documento (um tipo de “voz verídica”). O seu pacto com o público é outro: a construção do imaginário. O inventado, o falso e a farsa terão sempre a potência das possibilidades – jamais o fechamento de um ato consumado.

Existe, entretanto, um alerta no parágrafo acima: pensamos na situação até agora. Imagino os historiadores daqui a um século, as dificuldades que terão para se debruçar sobre nossa época, tão farta de notícias e documentos, sim – mas quais destes serão fake news? Com o surgimento de uma sofisticada tecnologia de adulteração da realidade, capaz de manipular áudios e vídeos, o phishing via laser parece abrir caminho para o chamado “Infocalypse”. Nessa altura, a inteligência artificial poderá mudar bastante a maneira como recebemos os fatos. A verdade por enquanto é flutuante – mas haverá um dia em que ela será engolida pela correnteza? No futuro, tudo será ficção? Quem sabe?

Tércia Montenegro (texto publicado no jornal Rascunho. Pode ser lido também aqui)

 

Viagem de salvação – parte 3

Lecce foi aquela cidade em que a recepcionista do hotel nos perguntou, espantada: “Por que vocês haveriam de sair agora à tarde?” Nós precisávamos almoçar, já com um certo atraso – mas de fato a ideia de andar sob o calor parecia não ocorrer a mais ninguém: todo o centro histórico estava deserto, passando uma sensação de abandono e sordidez que acende alertas de perigo. Horas depois, com apetite para jantar, o cenário estava completamente transformado. Intenso burburinho nas lojas, vida boêmia e familiar se entrecruzando nas ruas. Lecce foi onde pude ver a emocionante exposição do Elliott Erwitt – foi onde entrei em magníficas igrejas, onde contemplei um anfiteatro clássico.

Lecce – Chiesa del Gesù

No dia seguinte, tivemos um almoço em Ostuni (que também ostentava uma mostra do Picasso – mas dessa vez estávamos vacinados), e o restaurante era um charmoso local cavado na rocha. A parte culinária da viagem se tornava uma sensação à parte: para além das excelentes massas, dos inesquecíveis primitivi, havia os pães, os queijos e os quitutes. Ainda suspiro quando penso nos taralli, nos paticciotti… uma lástima que não se possa carregar um sabor como se faz com um artesanato ou uma fotografia!

Ostuni

Tomamos a estrada ladeada por antigos olivais – e dessa vez rumo à nossa última parada. Polignano a mare suplica por uma entrega poética: não há outra forma de entrar nessa cidade. A famosa Lama Monachile é de uma beleza tão profunda que, se não houvesse o bulício das multidões por perto, se alguém pudesse caminhar como antigamente se fazia, com silêncio e suspensão – seria uma experiência quase insuportável. Seria o inconcebível, como olhar direto nos olhos de Deus.

Polignano a mare

Talvez se possa dizer o mesmo de outros lugares (ou de qualquer lugar, se repararmos bem). Mas quando é que estamos em condições ideais de contemplação? Veneza, por exemplo: voltei para lá, por mais dois dias antes de pegar o voo de volta. É um local impossível, de tão mágico. Se não fosse exaurido o tempo inteiro pelas pessoas, pelo ruído em tantos idiomas simultâneos, também seria perfeito para uma viagem mística.

Il tramonto (Venezia)

Mas é verdade que o exercício espiritual pode ser tentado em qualquer parte. No avião de retorno (enquanto a França se tornava campeã na copa, para o festejo geral dos comissários) eu assistia a um documentário sobre os Rapanui e desejava ir para a ilha de Páscoa. Ou para Galápagos. Ou então (mais viável?), Patagônia. A ânsia pelo mundo não se acaba – mas, por enquanto, espero que um casal de pássaros aceite morar na minha varanda. Acompanhar o movimento deles tem sido igualmente um modo de voar.