O nosso nome

Em 2012, um amigo médico contou do espanto que sentiu quando, lendo a lista dos pacientes agendados para aquele dia no consultório, achou o meu nome mas, no horário previsto, viu uma garotinha entrar pela porta.

Esse episódio me indicou que eu tinha uma homônima, nascida também em Fortaleza.

O tempo foi passando, e de vez em quando alguém me dizia que, por eu não estar no Facebook, tinha se confundido, enviado um pedido de amizade virtual para a outra Tércia Montenegro.

Até ontem, porém, não tínhamos estado frente a frente – e tudo aconteceu na Bienal do Livro: melhor contexto, impossível! A amiga Cleudene deparou com minha xará-quase-perfeita (apenas os sobrenomes paternos nos diferenciam) e, ultrapassando qualquer pretexto de timidez, fez as apresentações. “Tércia Montenegro, esta é a Tércia Montenegro”. O jogo de espelhos onomástico arrancou risadas, exigiu foto de registro e – embora saibamos não ter parentesco ou qualquer história juntas – criou um elo entre nós. Porque o nome é parte de uma experiência única, eu olhei para aquela jovem como quem descobre uma pessoa iniciada no mesmo tipo de mistério. Que momento singular!

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Na Bienal de Fortal

A semana foi de pura correria, com algumas intempéries – mas fica um bom destaque para a Bienal Internacional do Livro do Ceará (que vai até domingo). É sempre enriquecedor falar sobre literatura com e para quem ama esse ofício. Nas imagens abaixo, de Chico Gadelha, duas dessas oportunidades que vivi, ao lado de Lira Neto e de Cleudene Aragão e Jáder Santana:

Preferências

(Para mim, o teatro. Os coqueiros à beira-mar. Tchékhov. E a cor vermelha. Mas todo o resto é igual,  Wisława.)

Possibilidades

Prefiro o cinema.Prefiro os gatos.

Prefiro os carvalhos sobre o Warta.

Prefiro Dickens a Dostoiévski.

Prefiro-me gostando das pessoas

do que amando a humanidade.

Prefiro ter agulhas e linha à mão.

Prefiro a cor verde.

Prefiro não achar

que a razão é culpada de tudo.

Prefiro as exceções.

Prefiro sair mais cedo.

Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.

Prefiro as velhas ilustrações listradas.

Prefiro o ridículo de escrever poemas

ao ridículo de não escrevê-los.

Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,

para celebrá-los todos os dias.

Prefiro os moralistas

que nada me prometem.

Prefiro a bondade astuta à confiante demais.

Prefiro a terra à paisana.

Prefiro os países conquistados aos conquistadores.

Prefiro guardar certa reserva.

Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.

Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.

Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.

Prefiro os cães sem a cauda cortada.

Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.

Prefiro as gavetas.

Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui

a muitas outras também não mencionadas.

Prefiro os zeros soltos

do que postos em fila para formar cifras.

Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.

Prefiro bater na madeira.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.

Prefiro ponderar a própria possibilidade

do ser ter sua razão.

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Goethe na intimidade

Há alguns anos, quando fui a Frankfurt para a Feira do Livro, pude conhecer a casa em que Goethe viveu: vi os papéis de parede autênticos, a mobília, o piano piramidal, o teatro em miniatura, a biblioteca… Meu Deus, eu vi até mesmo as panelas usadas na época e a escrivaninha de onde saiu o Werther!

Tempos mais tarde, em Roma, também descobri um apartamento onde o poeta alemão viveu, durante sua temporada na Itália. E a visita me ensinou sobre o seu lado voltado para as artes plásticas – além de me postar diante da exata janela em que Goethe foi retratado por Tischbein na seguinte obra:

Mas até ontem, por mais que todas essas referências (e leituras em tradução) me aproximassem de Goethe, eu ainda não tinha desfrutado de sua intimidade, por assim dizer. Pois só é possível tornar-se familiar de um artista mergulhando em sua obra, percebendo como ela foi feita – no original, com o sabor autêntico.

Um minicurso com a amiga Reseda Streb, como parte da programação da Semana da Língua Alemã, na Casa de Cultura, abriu-me as portas da poesia germânica. Não foi uma experiência de entendimento imediato, óbvio (a cópia com minhas anotações abaixo demonstra o processo), mas o fascínio prevaleceu. Ao ouvir Reseda lendo os versos, com seu ritmo autêntico – e depois, ao experimentar também uma leitura em voz alta, tive a mesma sensação de entrar n’Os Lusíadas, ou na Divina Commedia.

Camões, Dante e Goethe pertencem a universos e temas distintos, lógico. Mas lê-los no original provoca em mim a mesma coisa; ativa o mesmo lugar interno – aquela fisgada de arrebatamento que também tive diante de Vermeer, diante de Rembrandt, ó céus. É nessas horas em que sinto o privilégio da arte, e como ela cria um tipo de felicidade específico.

Todo o esforço para aprender um novo idioma vale a pena nesses momentos. Assim como os sacrifícios para fazer uma viagem com o grande objetivo de ver um quadro num museu. São experiências de clímax na vida. E – devo admitir – , exatamente por trazerem êxtase, tornam-se um vício também.

O que posso fazer? Continuo perseguindo o princípio do prazer.

Obs.: Na época de minha visita à casa de Goethe em Roma, fiz uma postagem neste blog, que pode ser lida aqui.

Os boxeadores

Por um fenômeno de sincronicidade – ou coincidência significativa – que Jung explica, venho esbarrando em referências ao boxe nos seis últimos meses. Praticamente não há um título que li durante esse período sem topar com a tal menção ao esporte. Mesmo num insuspeitado Georges Perec d’A coleção particular – que trata de uma pintura em técnica de mise en abîme, mas que ironicamente altera detalhes dos quadros dentro dos quadros – encontrei um trecho: “um lutador de boxe, ainda vigoroso na primeira cópia, recebia um terrível uppercut na segunda e tombava na lona na terceira”. (pág.20)

Uma biografia sobre Man Ray, escrita por Serge Sanchez, fez com que eu soubesse do poeta Arthur Cravan – cujo histórico de lutas foi endossado num texto de Vila-Matas, “Borracheros, pugilato y arte”, publicado no El País. Além desse autor excêntrico, soube que diversos literatos também praticaram pugilismo. Na lista, óbvio, está o macho man Hemingway – mas, de maneira não tão evidente, figuram Nabokov e T.S. Eliot.

À página 303 do seu 2666, Bolaño faz sua personagem Rosa Méndez mencionar um “boxeador bonitão”. Um artigo sobre Trotsky me informa de seus estudos de pintura na Ferrer Modern School, em Nova Iorque, e aprendo que essa escola foi fundada em homenagem a Francisco Ferrer y Guardia, militante da educação executado pelo governo espanhol, que o considerou responsável pelas rebeliões da Catalunha em 1909. Óbvio, recebo ainda a indispensável referência: um dos professores da instituição foi George Wesley Bellows, “pintor célebre por suas representações de combate de boxe”.

Muitos outros autores me trouxeram informes sobre a coreografia desse esporte, assimilando-o a um tipo de dança. Sem que eu fosse à procura, descobri a respeito de golpes e movimentos: cruzados, ganchos, diretos, jabs ou clinchs surgiam à minha frente, em bibliografias as mais ecléticas. Minha exasperação atingiu o limite quando encontrei na antologia Neurótica – autores judeus escrevem sobre sexo (qual era a chance, oh Javé?) a passagem a seguir, de um conto de Harold Brodkey: “às vezes seu corpo ficava flácido, mas seus gritos se aceleravam, de sua boca voava um pássaro após outro enquanto ela jazia inerte, como se eu fosse um boxeador e tivesse acabado com sua capacidade de mover-se.” (pág.77, grifo meu)

O boxe transcendia o domínio esportivo, virava metáfora para o sexo – ou para qualquer tipo de enlace… inclusive com o corpus, o texto. Eu lembrava Drummond no seu “lutar com palavras”, a luta mais vã: conseguia imaginar o poeta, um peso-pena saltando pelo ringue. Enfim decidi me render à conspiração do universo; voluntariamente mergulhei no assunto.

Jack London ofereceu um dos melhores livros sobre o tema. Em “A fera no abismo”, põe em cena um boxeador que ama versos e fotografia. Com Nocaute e outros contos, conseguimos nos envolver em histórias para além dos estereótipos de brutalidade e pouca massa encefálica, tão associados ao tema.

Já não é o caso de Norman Mailer, em A luta. Este livro foi um dos mais frustrantes; enquanto o folheava, não parava de pensar na assertiva de Clement Greenberg: “Você não pode legitimamente querer ou esperar nada da arte, exceto qualidade”. O relato, em torno do combate entre Muhammad Ali e George Foreman, acontecido em outubro de 1974, mostra como as histórias de boxe são boas em sugerir imagens – mas às vezes as situações ficam pouco convincentes (culpa da linguagem), como no trecho: “os olhos nus e flamejantes a disparar ogros ectoplásmicos”. (pág.14)

A luta, a bem da verdade, traz mais egos que músculos hipertrofiados – sendo que o mais inflado é o do próprio autor, referido numa terceira pessoa que não chega a garantir um efeito de distanciamento. Nomeando-se ora Norman, ora Mailer, o dito não tem pudor em se colocar como um “campeão dos escritores”. Nos lapsos em que para de falar de si, fazendo uma espécie de contrapeso às personalidades de Ali e Foreman, Mailer até consegue passar reflexões sobre o antigo Zaire (hoje República Democrática do Congo), onde ocorreu a histórica luta do relato. Apesar disso, o livro é um massacre de monotonia. Sua autoficção esbanja passagens fúteis como esta, à página 78: “Estava adorando tudo o que acontecia na noite, exceto a lentidão de sua digestão”. Quando um escritor se põe a falar dos próprios movimentos peristálticos, é porque alguma coisa – não somente em seu organismo – está funcionando mal.

Na dúvida, voltamos aos infalíveis, os autores que jamais decepcionam e servem de alento para qualquer instante. Cortázar é um xodó inclusive dentro do nosso tema: basta lembrar O último round, naquela edição em dois volumes charmosíssimos, publicada oito anos atrás. Embora num dos textos ele carregue no senso denotativo e pareça solamente un periodista ao descrever o retorno de Juan Yepes aos combates, o título – encapsulando ensaios, artigos, versos e escrituras que escapam às cordas de uma classificação – de novo apela à metáfora do boxe.

A letra e a luta. Os meus autores preferidos pelejam com árdua disciplina, prodigiosa estratégia. Maiakóvski tem o rosto congestionado, vibrando com a camisa amarela; Castro Alves avança entre golpes enérgicos – e vários distribuem murros ou tabefes, conforme o estilo. A literatura supõe um tipo de pancada; é prática de impacto – embora haja, sim, momentos em que um ritmo sutil se instala. É o caso da esgrima de Lygia Fagundes Telles, n’A disciplina do amor: quando o florete toca o coração exposto, é quanto basta para uma tranquila entrega.

Tércia Montenegro (texto originalmente publicado na coluna Tudo é Narrativa,  no jornal Rascunho. Para ler neste veículo, clique aqui)

 

Varda

 

Trechos de uma entrevista conduzida por Hans Ulrich Obrist:

“(…) o acaso da vida privada, o acaso dos encontros determinam também o que fazemos”

“Não tenho vontade de fazer cinema autobiográfico. Tenho vontade de fazer um cinema em que eu exista dentro do filme, e principalmente quando é um filme sobre os outros.”

(Oh, Agnès, você tem tanta razão!)