O momento secreto

Natalia Ginzburg, em trecho d’As pequenas virtudes:

“Somos adultos por aquele breve momento que um dia nos coube viver, quando olhamos como se fosse pela última vez todas as coisas da terra e renunciamos a possuí-las e as restituímos à vontade de Deus; e de repente as coisas da terra nos pareceram em seu justo lugar sob o céu, e assim também os seres humanos, e nós mesmos suspensos a olhar do único ponto justo que nos foi dado: seres humanos, coisas e memórias, tudo nos pareceu em seu justo lugar sob o céu. Naquele breve momento encontramos um equilíbrio para nossa vida oscilante; e nos parece que sempre poderemos reencontrar aquele momento secreto, buscar ali as palavras para o nosso ofício, nossas palavras para o próximo; olhar o próximo com olhos sempre justos e livres, não com o olhar temeroso ou arrogante de quem sempre se pergunta, em presença do próximo, se ele será seu senhor ou seu servo. Durante toda a vida só soubemos ser senhores ou servos: mas naquele nosso momento secreto, naquele momento de pleno equilíbrio, soubemos que não há verdadeiro senhorio nem verdadeira servidão sobre a terra. Assim, agora, tornando àquele nosso momento secreto, tentaremos enxergar nos outros se eles já viveram um momento idêntico, ou se ainda estão longe disso: é o que importa saber. Na vida de um ser humano, este é o momento mais alto; e é necessário que estejamos com os outros, mantendo os olhos no momento mais alto de seus destinos.” (pp.120-1)

Por um surrealismo ativo

“Volta e meia me perguntam o que aconteceu com o surrealismo. Não sei muito bem o que responder. Às vezes digo que o surrealismo triunfou no supérfluo e fracassou no essencial. André Breton, Éluard, Aragon estão entre os melhores escritores franceses do século XX, ocupando seu espaço em todas as bibliotecas. Max Ernst, Magritte, Dalí estão entre os pintores mais caros, mais reconhecidos, ocupando seu lugar em todos os museus. Reconhecimento artístico e sucesso cultural, justamente aquilo a que a maioria de nós não dava nenhuma importância. A preocupação maior do movimento surrealista não era entrar gloriosamente na história da literatura e da pintura. O que ele desejava acima de tudo, desejo imperioso e irrealizável, era transformar o mundo e mudar a vida. Nesse aspecto – essencial -, um breve olhar ao redor mostra claramente o nosso fracasso.”(Luís Buñuel. Meu último suspiro, p.174)

                                          Vladimir Kush

Dia de sol

Mais um trecho d’A vontade radical, de Susan Sontag. E, para terem a exata dimensão da lucidez desta autora, lembrem que este ensaio, “O que está acontecendo na América”, foi escrito em 1966!

“Gertrude Stein disse que os Estados Unidos são o país mais idoso do mundo. Certamente, é o mais conservador. Têm o máximo a perder com mudanças (sessenta por cento da riqueza mundial nas mãos de um país que tem seis por cento da população do planeta). Os americanos sabem que suas costas estão contra a parede: ‘eles’ querem tirar tudo isso de ‘nós’. Na minha opinião, a América merece que tal aconteça.

“Não é preciso dizer que os Estados Unidos não são o único país violento, feio e infeliz na face da Terra. Ainda uma vez, é um problema de escala. Somente 3 milhões de índios viviam aqui quando o homem branco chegou, fuzil na mão, para seu novo início. Hoje, a hegemonia americana ameaça a vida não apenas de 3 milhões, mas de incontáveis milhões que, como os índios, nunca ouviram falar dos ‘Estados Unidos da América’ e muito menos de seu mítico império, o ‘mundo livre’. ” (pp.203-5)

Sontag e o silêncio

Nestes dias desconcentrados e difíceis, a leitura só poderia acontecer de forma fragmentária. Poemas ou ensaios seriam a opção. Como eu estava precisando racionalizar, deixei o gênero poético de lado e me agarrei com A vontade radical, da Susan Sontag. O ensaio “A estética do silêncio” satisfez de imediato, mas dando aquela sensação de atraso – porque, quando eu li O homem que dorme, do Perec, os romances de Vila-Matas sobre “a arte do não” e o próprio Baterbly, o escrivão, fiz inúmeros questionamentos sobre o tema. Sontag teria vindo no momento ideal, então. Mas mesmo agora, com a simples lembrança destas obras, aproveito muitíssimo as suas ponderações:

“A atitude verdadeiramente séria é a que encara a arte como um ‘meio’ para alguma coisa que talvez só possa ser atingida pelo abandono da arte. (…) Embora não seja mais uma confissão, a arte é mais do que nunca uma libertação, um exercício de ascetismo. Através dela o artista torna-se purificado – de si próprio e, por fim, de sua arte. (…) enquanto anteriormente o bem do artista era o domínio e o pleno desempenho de sua arte, agora o seu bem mais elevado é atingir o ponto onde tais metas de excelência tornam-se insignificantes para si, emocional e eticamente, ele fica mais satisfeito por estar em silêncio que por encontrar uma voz na arte. (…) O silêncio é o último gesto extraterreno do artista: através do silêncio ele se liberta do cativeiro servil face ao mundo, que aparece como patrão, cliente, consumidor, oponente, árbitro e desvirtuador de sua obra.” (pp.12-3)

“Uma decisão exemplar dessa espécie só pode ser efetuada após o artista ter demonstrado que possui gênio e tê-lo exercido com autoridade. Uma vez suplantados seus pares pelos padrões que reconhece, há apenas um caminho para seu orgulho. Pois ser vítima de ânsia de silêncio é ser, ainda num sentido adicional, superior a todos os demais. Isso sugere que o artista teve a sagacidade de levantar mais indagações que as outras pessoas, e que possui nervos mais fortes e padrões mais elevados de consciência.” (pp.13-4)

“De tudo o que é dito pode-se indagar: por quê? (Incluindo: por que se deveria dizer isso? E: por que eu deveria dizer alguma coisa, de qualquer modo?)

Além disso, falando-se em termos estritos, nada que é dito é verdadeiro. (Embora uma pessoa possa ser a verdade, nunca se pode dizê-lo.)

Todavia as coisas que são ditas podem às vezes ser úteis – é o que as pessoas geralmente querem significar quando enxergar alguma coisa dita como sendo verdadeira.” (pp.26-7)

“Um dos usos do silêncio: atestar a ausência ou a renúncia ao pensamento.” (p.27)

“(…) a obra de arte eficaz deixa o silêncio em seu rastro.” (p.31)