Turismo acessível

Compartilho com vocês a alegria de receber a edição acessível do meu Turismo para cegos! Este novo formato do romance foi lançado em setembro do ano passado, junto com mais outros 24 títulos selecionados pelo Projeto Acessibilidade em Bibliotecas Públicas, do Ministério da Cultura. Para adquirir um exemplar, entre em contato com a Ong Mais Diferenças.

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Viajar com Tchékhov

Tive o prazer de inaugurar as leituras de 2017 com Um bom par de sapatos e um caderno de anotações, coletânea de fragmentos escrita por Tchékhov sobre uma viagem que ele realizou a Sacalina, ilha que recebia presos deportados. A motivação para a experiência foi, em grande parte, conduzida pelo “lado médico” do autor – mas a observação sensível, que transforma o visto em outra coisa, está o tempo inteiro neste livro, organizado por Piero Brunello. É o que prova que um escritor nunca deixa sua tentação estética, por mais que profissionalmente incursione por outros territórios.

O livro surgiu num momento providencial da minha vida, quando eu refletia (e continuo nesse processo) a respeito de comodismo versus aventura. O risco de cair no conforto da primeira opção quase me fez negar o gosto que sempre tive pelas explorações imprevistas. De modo mais direto: sobre as difíceis viagens, não posso me queixar de ter já sofrido cansaço, se descubro, por exemplo, que Tchékhov saiu de Moscou em 21 de abril de 1890, para chegar a Sacalina somente em 11 de julho. Partiu de lá em 13 de outubro, voltando para casa apenas em 9 de dezembro. Além de todo o desgaste do tempo de deslocamento, enfrentou condições adversas até mesmo para um resistente russo: teve de andar em meio a lama e frio, usando botas de feltro, e em sua rotina com os prisioneiros só encontrou – como podemos imaginar – cenas degradantes de imundície e embotamento ou desespero.

As lições não param neste ponto. O desejo de observar, inspirado por uma pesquisa, num “elogio à experiência direta”, foi o que levou Tchékhov a sua expedição – que, dentre muitos ensinamentos, trouxe também a humildade de rever expectativas: perceber como relatos alheios ou leituras às vezes são completamente equivocados.

Um dos seus princípios, válido para qualquer coisa, não somente para viagens, era não desanimar: “não se deixar vencer pelas dificuldades iniciais e pelo medo do imprevisto” (p.39) E o outro: não planejar demais, sob pena de se privar do prazer – e da sabedoria – do Acaso. Um bom par de sapatos é um livro essencial sobre coragem. Do tipo que faz a gente se jogar sem paraquedas, para cair bem em cima do desejo.

Razão e retina

Enquanto admiradora de artes plásticas, procuro me informar sobre as estéticas, sobretudo quando elas não me conquistam de imediato. Afinal, um aprendizado consiste em acrescentar juízos e ponderações àquele estágio emotivo primeiro, que nos identifica – ou não – com a obra de arte. Embora a emoção nunca deva ser desprezada, e em última instância retorne como o eficaz medidor das nossas preferências, sair de uma contemplação “selvagem” exige estudo.

Eu me empenhei bastante em apreciar o Concretismo. E inicialmente pensei que, sendo uma tendência derivada do Construtivismo, a arte concreta talvez pudesse ser articulada com a revolução comunista. O pensamento em torno do Estado Operário negava qualquer primazia ao artista: estava longe o tempo em que a “musa” tocava de maneira especial um indivíduo; aos olhos da sociedade soviética, qualquer sujeito, fosse poeta, artista plástico ou operário, deveria estar a serviço do bem comum.

Desde o momento em que o termo “arte construtivista” foi aplicado pela primeira vez por Malevich para descrever o trabalho de Rodchenko, uma sugestão do clima de progresso e modernidade impera nessa proposta. A utilização abundante de elementos geométricos e cores primárias recai como influência valiosa sobre a arte concreta – mas o Construtivismo também foi crucial para o design moderno e para movimentos como o De Stijl, o Suprematismo, o Neoplasticismo e as experiências da Bauhaus, numa tal medida que, grosso modo, pode-se considerar que toda a arte geométrica do século XX foi derivada de suas ideias.

O Concretismo consegue destacar-se em meio a esse panorama que, numa primeira visada, poderia passar por homogêneo. Os seus princípios estipulam “clareza absoluta” e busca por uma construção “técnica”, “mecânica” e “controlável visualmente”, nas palavras de Theo van Doesburg em texto introdutório ao primeiro número da revista Arte Concreta, fundada em 1930, em Paris. Ora, todos esses objetivos já eram perseguidos pelo Construtivismo – mas, enquanto este movimento ligava-se a um contexto político e nacional (russo), os concretistas aclamavam a arte como “universal” e defendiam que “um elemento pictural só significa a si próprio” e “um quadro não tem outra significação que ele mesmo”. Ou seja, estavam bem distantes de uma estética a serviço das transformações sociais, ao menos enquanto ideologia explícita.

Por negar a expressão de sentimentos, a proposta concreta opõe-se não somente à tradição figurativa, mas até mesmo à arte abstrata. O abstracionismo podia, com suas obras, levantar questões simbólicas ou emotivas – basta, por exemplo, resgatar o gesto de Pollock, pulsante no percurso de suas telas. Ao contrário, o Concretismo quer apenas os elementos concretos: a linha, o ponto, a cor, em sua materialidade imediata, sem abstrações de qualquer espécie.

Essa ojeriza aos elementos paisagísticos nos recorda o holandês Piet Mondrian. Suas pesquisas em torno do grupo De Stijl buscavam “a pureza e o rigor formal na ordem harmônica do universo” – mas sua investigação do equilíbrio entre cores e espaços afastava-se tal modo da representatividade que (dizem) Mondrian não suportava a cor verde. O verde existia na natureza, nas folhas, nas árvores; enquanto criador, o artista autorizava-se a negar o já criado pelo mundo. Chegava a pintar de branco o caule das poucas flores que tinha em casa.

No Neoplasticismo – tendência que Mondrian iria liderar – a limpeza espacial da pintura é evidente, bem como o seu aspecto confessadamente artificial. O cromatismo chapado e a composição geométrica são indícios de uma arte fortemente racional, que rejeitava impulsos para além do estímulo da visão. O “prazer retiniano” como uma primária fruição estética, uma fruição orgânica, começa a ser celebrado, em detrimento de uma arte visual com valores narrativos ou simbólicos.

No Brasil, a proposta de uma “arte sem ilusões” começou a crescer a partir de 1950,  com uma sequência de nomes e coletivos fervilhantes, como o Grupo Ruptura e o Grupo Frente. Dentre os participantes deste último, encontramos Hélio Oiticica,  Lygia Pape, Lygia Clark, Amilcar de Castro e Franz Weissmann. É importante assinalar, entretanto, que cada um – por mais que estivesse enquadrado num grupo ou revista – teve trajetória e estética particulares. Note-se, por exemplo, a singularidade de um Oiticica, que produz obras inegavelmente ricas de emotividade e expressão, como os Parangolés a partir de 1964, mas que também produziu trabalhos bem dentro da estética concreta, como o Metaesquema.

Ou então, vejamos Lygia Clark, ainda como exemplo dessa riqueza que torna cada artista um ser jamais classificável por completo. A sua famosa série Bichos explora, pelo trabalho com o alumínio, os materiais de indústria e as formas geométricas. Mas quem dirá que as dobradiças, capacitando cada peça a assumir diferentes posturas, não abrem espaço para a subjetividade? E o próprio nome, Bichos, não é exatamente uma palavra afetiva, simbólica, carregada de memória – ou seja, o oposto do que o Concretismo propôs?

Lógico, toda tentativa de explanação sobre um período ou uma pessoa cai na armadilha da superficialidade. Mas se os rótulos são, em certa medida, incontornáveis para a compreensão, cabe problematizarmos o que resta insuficiente. Foi o que fez, aliás, o crítico Mário Pedrosa, que em artigo sobre a Exposição Nacional de Arte Concreta observou a diferença entre os concretos paulistas, mais teóricos e dogmáticos, e os cariocas, intuitivos e empíricos. Seguindo essa linha, em 1959, os cariocas assinam o Manifesto Neoconcreto, liderados por Ferreira Gullar: era o fim do repúdio ao subjetivo, nas artes.

Se a pintura concreta, de acordo com o suíço Max Bill, deveria ser uma “realidade controlada e observada”, a finalidade de sua existência não estaria numa representação da natureza, mas na simples demonstração de seus elementos constituintes. Assim, o prazer do olhar seria motivado pelo essencial: a vibração provocada pela cor pura ou pela linha, sem qualquer conteúdo simbólico.

Como a arte prossegue sendo um gesto humano, porém, os paradoxos são inevitáveis – sinais de uma fluidez perene. É assim que percebemos a curiosa contradição que parece nascer dessa dupla base: razão e retina. Para os Concretistas, os maiores cálculos, a maior contenção, seriam requisitos para gerar um efeito de fruição primário. Isso equivale a dizer que as maiores complexidades criam os resultados mais simples – ou de aparência mais simples. É algo paradoxal porque o prazer retiniano se aproxima da inocência de um olhar animal, dessemiotizado – mas para elaborá-lo foi necessário um esforço da razão.

Assim, por mais que os concretos parecessem exaltar o homem em seu raciocínio e sua técnica, o homem muito próximo da máquina ou do cérebro total, no fundo também celebravam o orgânico, a reação que surge no olho à provocação de uma luz, forma ou cor. Perceber esse intuito nas composições concretistas é um aspecto extremamente positivo, que nos assegura estarmos diante de obras artísticas – portanto, o sentido existe, a emoção existe, a humanidade está pulsando, ali. Ainda que num primeiro momento isso não pareça tão evidente, é o bastante para me convencer, dentro de um museu.

 

Tércia Montenegro  (texto publicado na coluna Tudo é narrativa, no jornal literário Rascunho)

2666

Bolaño não é um dos meus favoritos (e para quem acha que sou muito exigente, quase impossível de agradar literariamente, aviso que em breve farei postagem sobre um autor contemporâneo que vem se multiplicando com muita felicidade na minha biblioteca). Já tinha lido Os detetives selvagens e Putas assassinas com aquele sentimento de “É bom, mas…”. A ressalva ficava sempre por conta de algumas passagens que não me convenciam em termos de metáfora, e – ainda mais grave – pelo estranho sentimento de que os livros não iam a lugar nenhum, não pareciam atender a qualquer propósito. Com isso, não quero dizer que acredite em compromissos literários, defesas ideológicas – muito pelo contrário! Apenas sei que o objetivo de um livro deve aparecer em algum momento: não como tema, tese ou moral, mas enquanto impacto que deixa no leitor, memória que o leitor vai carregar.

Os textos de Bolaño passaram em brancas nuvens por mim; deixaram-me num estado de amnésia fatal: sinal de sua qualidade descartável. Mas eu me dizia que não tinha conhecido a obra-prima do autor chileno. Quando lesse 2666, aí, sim, teria o melhor, a máxima envergadura desse escritor.

Fui parcialmente recompensada.

A primeira parte do livro é a pior, quase me fez desistir. Há um acúmulo de informações mesquinhas, verdadeiros relatórios da rotina de personagens, ação pela ação – e as tais comparações bizarras, que não me convencem. Vejam alguns exemplos abaixo:

“(…) por que pensava em Berthe Morisot e no livro e na nuca de Norton, e não na possibilidade certa de um ménage à trois que naquela noite havia levitado como um feiticeiro índio ululante no apartamento da inglesa sem nunca chegar a se materializar?” (p.70)

“(…) compungidos com o caso do taxista paquistanês, que girava ao redor da má consciência dos dois como um fantasma ou um gerador de eletricidade.” (p.87)

“perfumes que seguiam os corpos como meteoritos” (p.103)

“A partir desse momento a realidade, para Pelletier e Espinoza, pareceu se rasgar como um cenário de papel, e ao cair deixou ver o que havia por trás: uma paisagem fumegante, como se alguém, talvez um anjo, estivesse fazendo centenas de churrascos para uma multidão de seres invisíveis.” (p.140)

Além disso, Bolaño fica periodicamente relatando sonhos que as personagens têm – sem que isso pareça significar algo no livro, além do propósito de encher páginas (nem mesmo um esclarecimento de perfil psicológico os sonhos trazem). Eu estava, portanto, à beira da desistência – mas fui continuando. E o livro foi melhorando, quase como se eu percebesse um artista se aquecendo, ficando mais ágil, mais experiente. Lá pela metade, porém, veio a mesma sensação do início. Listas e listas de mulheres assassinadas, relatórios repetitivos, vai e vem espacial confuso etc. Mas no final… Ah, o final mostra que Bolaño sabe fazer as costuras! A obra não fica encerrada em si mesma (e seria ruim se isso acontecesse), mas a grande destreza desse livro é saber conduzir por paisagens que distraem a ponto de preparar muito bem uma surpresa. E assim toda a monotonia anterior se explica: 2666, pelo conjunto, fornece uma viagem que vale bem suas 852 páginas.

Meditação e arte

Trechos de Em águas profundas, do David Lynch:

“(…) se você está preocupado porque 30 minutos depois estará em algum lugar, não há como criar. Por isso a vida artística implica liberdade; é preciso tempo para que as coisas interessantes possam acontecer. Nem sempre há muito tempo para as outras coisas.”

“Há um ditado que diz: ‘Mantenha os olhos na rosca e não no buraco’. Se você mantém os olhos na rosca e faz o seu trabalho, isso é tudo o que pode controlar. Não se pode controlar nada que esteja do lado de fora, fora de você. Mas você pode se voltar para dentro e dar o melhor de si.”

“É senso comum: quanto mais o artista sofre, menos criativo ele fica. O mais provável é que trabalhe de má vontade e que dificilmente faça algo de interessante.

A essa altura alguém pode mencionar Vincent Van Gogh, como exemplo de um pintor que fez coisas maravilhosas a despeito ou por conta do sofrimento. Acredito que Van Gogh teria feito coisas ainda mais maravilhosas se não fossem pelas restrições impostas por seus tormentos. Não acredito que tenha sido a dor que o tornou tão grande; a pintura é que lhe deu o pouco de felicidade que teve.

Alguns artistas têm a raiva, a depressão e a negatividade como suas molas propulsoras. Acham que devem se agarrar à raiva e ao medo para colocar no trabalho que fazem. E abominam a ideia de serem felizes – isso realmente os desagrada. Acham que a felicidade os fará perder o estímulo e o poder.

Mas não se perde o estímulo quando se medita. Assim como não se perde a criatividade. E não se perde o poder que se tem. Na verdade, quanto mais meditamos e transcendemos, mais as coisas se desenvolvem e percebemos isso. Quando mergulhamos mais fundo, ganhamos mais compreensão de todos os aspectos da vida. Dessa forma, o entendimento aumenta, o apreço cresce, a grande figura se forma e a condição humana se torna cada vez mais visível.”

Mapa.Doc

Amigos,

Mais de um ano após aceitar o convite para participar do documentário das artes Mapa.Doc, tenho o prazer de divulgar aqui o link do trabalho – que ficou muito lindo. Minha presença está a partir dos minutos 2:49, 5:50 e 11:49, com todo o traço cabalístico que isso possa conter.