A sabedoria da seta

“Siga”, ela diz. E não importa a direção. Um vento pode alvoroçar a placa, mas me concentro no que ela sempre aponta: o caminho, a trilha, o horizonte – a próxima aventura aonde me lanço. Quem se estagnou já morreu.

 

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O demônio favorito

A recente edição brasileira dos Diários de Sylvia Plath levou-me de volta a esta autora. Eu, que anos atrás tinha lido com admiração os viscerais versos de Ariel, nunca me detivera no suicídio de Sylvia com grande atenção. Talvez apenas tenha deixado escapar um lamento diante d’A redoma de vidro, que anuncia um talento narrativo infelizmente condenado – pelas circunstâncias – a jamais amadurecer.

Os Diários, entretanto, pelo próprio gênero textual, forçam uma atitude diferente. O leitor cai na intimidade, no interior do pensamento privado, sem disfarce ficcional. Eu conheci o impulso primário de Sylvia, aquele que provavelmente ela despejava com máxima urgência – mais até do que na poesia. E (confesso) não esperava a força de tantas reflexões – nem esperava desmascarar o mecanismo de fetiche comercial que se criou em torno da escritora e de sua vida.

Neste último aspecto, fui auxiliada pela biografia escrita por Janet Malcolm, A mulher calada. Seguindo a tendência usual a vários de seus livros, também neste Malcolm levanta a bandeira de como a verdade é escorregadia, com cada versão exibindo os seus próprios interesses. A ambiguidade do título aqui se evidencia: A mulher calada pode, no impacto inicial, sugerir um perfil de submissão e timidez (uma mulher levada a se calar – e o suicídio parece endossar essa tendência interpretativa). Mas no decorrer das páginas encontramos um episódio em que Sylvia desafia sua cunhada Olwyn com persistente silêncio, no meio de uma discussão: “Olwyn ataca Sylvia verbalmente, mas suas palavras não passam de palavras; a mudez (medusal) de Sylvia Plath é que é a arma mortífera, impiedosa”.

A revelação de uma mudez hostil e de uma “voz má” surge nos melhores escritos literários e nos Diários de Sylvia Plath. Ainda muito jovem, a poetisa manifesta absoluta lucidez, tanto sobre suas ânsias como suas limitações: “Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei”.

Ela detecta na sociedade – que vê como o seu “demônio favorito” – a grande causa das limitações, principalmente por causa dos códigos de comportamento feminino: “Tenho consciência demais arraigada em mim para romper com os costumes sem efeitos desastrosos; consigo apenas debruçar-me invejosa na beirada e odiar, odiar os rapazes que podem esbanjar livremente o apetite sexual, sem receio, permanecendo íntegros, enquanto eu me arrasto de encontro em encontro ensopada de desejo, sempre insatisfeita.”

Janet Malcolm lembra que em 1956 “não havia movimento ou teoria feminista, e as relações entre homens e mulheres se encontravam no apogeu do inevitável delito transferencial. Que os embates entre Sylvia Plath e a literatura tenham se fundido com sua inveja e ressentimento em relação aos homens não é surpreendente”. Essa tendência inclusive gerou um maniqueísmo entre as figuras da escritora e seu marido Ted Hughes, também poeta: para a cunhada Olwyn – ainda conforme Malcolm – até hoje Sylvia é “representada como uma antagonista silenciosa, poderosa e sinistra” de seu irmão.

Na contramão dessa ideia, pintada como vítima de um marido egocêntrico e infiel, Sylvia Plath virou emblema de luta para muitas feministas. Embora não falte quem lhe critique a “covarde” e “egoísta” atitude de se matar, deixando dois filhos pequenos (um dos quais no futuro, aos 47 anos, repetiria o seu gesto), a maior parte das vozes se elevou contra Hughes – que divulgaria ao longo dos anos (com várias mutilações) os diários e cartas da ex-esposa, lucrando financeiramente com sua fama póstuma, sim, mas vivendo sob uma espécie de maldição dessa mulher talentosa e enlouquecida: uma imagem tão poderosa que esteve a ponto de esmagá-lo, principalmente quando reprisada por Assia Wevill. Ela, que foi a mulher com quem Hughes traiu Sylvia, matou-se em 1969, utilizando o idêntico método de se envenenar com gás – mas sua decisão envolveu também a filhinha que tivera com Ted, dois anos antes.

Essa “voz má” de Plath – ou mesmo o seu silêncio combativo – seria sintoma de um temperamento ávido e narcisista, potencializado (ou justificado) por uma doença mental que a levou ao suicídio? O público das várias biografias escritas sobre a autora continua ávido por explicações. Mas não esqueçamos que a tentativa de classificar o psiquismo de alguém é tarefa muito complexa, e qualquer rótulo empobrece. Um livro como o de Phyllis Chesler, Mulher e loucura, ajuda a refletir a respeito das pressões sobre as mulheres da década de 1950, criadas para regular seu psiquismo dentro de um modelo “aceitável”. Sobretudo, alerta para as tradições deste pensamento que continuamos a encontrar, de um modo às vezes tão agressivo.

Afinal, imaginando Sylvia Plath encarnada, digamos, numa atual jovem brasileira, ela certamente poderia afirmar o que vai nesta passagem: “Um homem, se escolher ser promíscuo, pode continuar torcendo o nariz para a promiscuidade, do ponto de vista estético. (…) Mas as mulheres também desejam. Por que devem ser relegadas à posição de zeladoras de emoções, babás de crianças, alimentando sempre a alma, o corpo e o orgulho do homem? Ter nascido mulher é minha tragédia horrorosa. (…) Sim, meu desejo ardente de me misturar a turmas de operários, marinheiros e soldados, a frequentadores de bares – fazer parte de uma cena, anônima, ouvindo e registrando – tudo isso é prejudicado pelo fato de eu ser uma moça, uma fêmea que corre sempre o risco de ser atacada e maltratada. Meu interesse imenso pelos homens e suas vidas é frequentemente confundido como desejo de seduzi-los, ou como um convite à intimidade. Mas, meu Deus, quero conversar com todo mundo, o mais profundamente que puder. Quero poder dormir em campo aberto, viajar para o oeste, andar livremente pela noite…”

Devemos admitir que mais de meio século se passou, mas o demônio que perseguiu Sylvia permanece à solta, estimulando várias fontes de maldade em torno – e dentro – das mulheres.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal curitibano Rascunho. Pode ser lido também aqui)

 

 

 

 

 

 

Coleção Identidade

Só um belo convite assim para me fazer voltar ao conto! Já está disponível a Coleção Identidade, da Amazon, nascida da parceria entre três grandes agências literárias do país (dentre as quais a maravilhosa Riff, que me representa). Cada texto pode ser adquirido separadamente ou dentro do livro que o integra. No meu caso, o conto se intitula “O mundo tão pequeno” e pertence ao volume Selvageria. A foto abaixo é de divulgação do catálogo, mas o livro é virtual. Vejam mais detalhes em encurtador.com.br/DEMQS

 

O dia em que espanei um Cartier-Bresson

Recentemente, fiz um ótimo curso de fotoperformance com a querida Maíra Ortins. Como resultado, realizei uma ação – inspirada nas propostas da Sophie Calle, de simbiose com a experiência alheia – em que utilizava roupas e materiais do serviço de limpeza do Museu da Fotografia. Dentro desta função, pude interagir de um novo jeito com as obras expostas, refletindo sobre questões importantes a respeito da receptividade de uma peça artística. O que conta mais no processo de fruição, afinal: o convívio – que pode levar o estético ao prazer familiar – ou a contemplação respaldada por informações e critérios crítico-exegéticos? Obviamente não se trata de uma escolha, necessariamente, e o ideal seria poder acumular todas essas perspectivas.

A experiência também me levantou os velhos temas em torno de discrepâncias econômicas, invisibilidade social, embotamento cultural por força de tantos desgastes na rotina do indivíduo. Mas estes pensamentos ainda merecem seu tempo de fermentação, antes que eu me ponha a fazer um texto-testemunho. Por enquanto, apresento-lhes o registro das performances – com meu agradecimento especial à Aline Herculano (pelos clics), à Fernanda Oliveira (por disponibilizar todo o material necessário à ação no Museu da Fotografia) e ao Coletivo Colher (pelo tratamento de imagens).

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Elliott e Fulvio

Lá vou eu de novo pelo assunto da fotografia – minha segunda paixão… se é que existe hierarquia nos amores. Talvez tudo seja tentativa fútil de classificar racionalmente esse medo desejável diante da armadilha da beleza: o impacto criado pela arte. Mas não nos prolonguemos nesse debate – vamos à fotografia. E, dessa vez, conforme os caminhos de Elliott Erwitt (que eu já conhecia de tempos) e Fulvio Roiter (que descobri em recente viagem a Veneza).

Erwitt talvez seja lembrado por muitos como “o fotógrafo dos cachorros”. O seu livro pela coleção Photo Poche ressalta no prefácio este aspecto, pelo recorrente tema. Além disso, o humorístico no trato com muitas situações e fisionomias caninas vira uma marca registrada do autor, que considera fazer rir como um dos mais altos êxitos que se pode alcançar.

Mas uma carreira tão longa e diversificada apresenta múltiplas propostas. Lembro que em 2013, numa anterior viagem à Itália, eu o havia encontrado em cinco imagens no Il piccolo libro dei baci: ali havia um fotógrafo dedicado aos flagrantes amorosos, bem distante do riso irônico. E havia, nesta publicação, aquele que talvez seja seu registro mais famoso: os apaixonados vistos pelo espelho retrovisor de um carro – a foto da Califórnia em 1955, que só foi divulgada 25 anos depois do clic (e não era uma das preferidas do autor).  Reencontrei esta cena na exposição em Lecce, no Castello Carlo V – e a ampliação me levou a um mergulho, a experiências surpreendentes.

Já a obra de Fulvio Roiter me foi uma inteira descoberta. Vi sua retrospectiva na Casa dei Tre Oci, que inicialmente eu pensava fosse um espaço destinado especialmente às mostras fotográficas, por causa do nome, em dialeto veneziano: três olhos – ou seja, os dois do artista e o terceiro, da câmera (divagava eu). Mas depois, no próprio local, esclareci a história do prédio e soube que a origem do nome vem da arquitetura neogótica, com as três grandes janelas ovais na fachada.

De todo modo, ali, em plena Veneza, eu tinha o privilégio de conhecer um artista que esteve sempre associado à cidade. Morto em 2016, Fulvio renascia através não somente de suas imagens, mas de um documentário exibido numa das salas. No filme, o seu rosto me pareceu de uma simpatia extremamente familiar. Divertido e modesto, ele ressaltava o prazer da criação como algo fundamental. “Eu não quero saber de trabalho, quero me divertir”, afirmava em certo instante – e fazia ressoar as palavras de Elliott Erwitt quando dizia que, se suas fotos podiam ajudar as pessoas a ver o mundo de determinada maneira, talvez fosse a “ver as coisas sérias de maneira não séria”. A celebração do divertimento, a ironia dos flagrantes e a ideia de que “a vida é casualidade, é mistério”: tudo isso se percebe na obra de ambos.

Fulvio Roiter também teve ampla carreira. Publicou uma centena de livros, arremessado pelo grande sucesso da edição suíça Venise à fleur d’eau, de 1954. Cinco anos mais tarde, fez sua primeira viagem ao Brasil – aqui se demorando por vários meses, e retornou durante a década de 1960. No meio de tantas imagens desse viajante contumaz, entre cenários do Líbano, do México ou de Portugal, eu me vi emocionada ao descobrir uma jangada, num instantâneo que bem poderia ser do Chico Albuquerque. Então o Fulvio inclusive olhou para o Ceará e o amou – pensei.

Amou da mesma forma as nuvens. Certa vez escrevi sobre uma personagem que tinha obsessão por fotografá-las – e na exposição de Fulvio achei o seu livro de 1998, Il nuvolario. Tivemos, os dois, essa ânsia de fixar o máximo do efêmero? É de fato através dessas identificações que passamos a apreciar um artista, torná-lo favorito: ele ressoa nossos interesses, torna-se uma espécie de cúmplice, um parceiro na perspectiva de como se vê o mundo.

O aprofundamento numa vida mais simples está no livro Un uomo senza desideri (2005), que traz como objeto o “exemplo radical de isolamento na natureza ancestral” dado por Ernesto Girotto, que viveu por mais de 40 anos numa pequena localidade de San Cipriano, sem qualquer contato com a sociedade moderna e suas necessidades. Esse “homem sem desejos”, um mítico ser pleno, parece indicar uma antiga investigação do fotógrafo, que em L’albero (1987) já elegia as árvores como essas criaturas inteiras, tranquilas e sábias pela própria presença.

Mas persiste pelas brechas de toda arte – para além das insistências temáticas, das séries obsessivas e complementares – algo que falta. A missão de Erwitt e Fulvio, capturar o fantástico no real, sob uma implacável curiosidade (que afinal é o ponto de partida da criação), não esconde um limite. Fulvio Roiter assim admitiu: “Fotografar a Itália não é difícil. É impossível. Condensar-lhe a beleza, os mais significativos aspectos paisagísticos, históricos ou sociais – é um empreendimento louco”.

Estou certa de que cada artista pode dizer o mesmo em relação aos objetos que elegeu para seu compromisso.

Tércia Montenegro

CC, WW, HH

O Coletivo Colher recorda, na linha de Walt Withman: Colhe o dia, porque és ele.

E, como parece que estamos envolvidos hoje com Iniciais Idênticas, vejam também para ilustrar as fotos o fragmento de Hilda Hilst:

“que vontade de encontrar umas roseiras floridas, um jasmim-manga, vontade de encontrar dentro de mim uns clarões, umas auroras boreais, uns repentinos rojões.” (In: Fluxo-Floema)

Fotos: Coletivo Colher