Ser um movimento

tudo ao mesmo tempoQuanto mais vou ao teatro aqui em Fortaleza, mais descubro razões de êxtase – e a principal delas é saber que divido um tempo e um espaço com certo(a)s artistas tão potentes.

Ontem vi Tudo ao mesmo tempo agora, do Grupo Terceiro Corpo. Visceral, poético, engraçado e reflexivo: esta poderia ser a síntese. Mas a síntese é impossível, diante de qualquer obra valiosa. É preciso estar lá. Ver. Sentir, principalmente, no caso desta peça tão sensorial. Há cheiros e sabores, timbres, gestos, acordes – e eu carrego algumas imagens, ainda vibrando na mente. Nádia Fabrici no solo, dançando Beethoven: perfeita no clássico e no contemporâneo. Nunca vi mãos tão expressivas quanto uma face trágica, e a atriz trouxe isso, o inesperado – e ao mesmo tempo o ancestral – em seu corpo. Sara Síntique fazendo rir e um instante depois emudecendo a plateia, com seu domínio de voz, cantando de olhos fechados, entre um conviva e outro. Jéssica Teixeira virando shiva, multiplicando braços – e com ela o texto alcança o ponto nevrálgico. O texto de Maria Vitória, que – também em cena, além de assinar a direção do espetáculo – retoma as palavras, rodopia com farinha de trigo, faz com ela um dueto efêmero. A vida não é mesmo sopro, poeira?

Enquanto o espetáculo se desenrola, as atrizes cozinham. Preparam um jantar para dez convidados. É contraste ou convívio, o que dispõe o “pensamento-dança” e o “pensamento-comida”? Oscilamos, junto com Úrsula Laura, a protagonista fragmentada pelas quatro atrizes – a figura que não sabia se tinha nascido para explodir o mundo ou explodir no mundo. E essa vira uma dúvida ou decisão de cada um(a) de nós, afinal: soltar o grito ou sufocá-lo. A segunda escolha traz, a princípio, comodidade – mas equivale a um veneno lento, diário.

A pequena ursa que triunfa é patética em sua solidão, em suas conversas com os alimentos, na confissão que faz aos anônimos atraídos ao jantar porque “quase ninguém resiste a comida grátis”. Mas o que é na verdade que alimenta? O que é ser gente? Comer, seguir uma receita – ou fragmentar-se? Ser “só um movimento” talvez resuma o impulso de um(a) artista. Impensável parar: este é um destino (condenação), mas também fornece o melhor sabor à jornada.

Tércia Montenegro

–> Quem ainda não viu o espetáculo só tem mais uma chance: próxima quinta-feira, no Centro Cultural Banco do Nordeste.

Antes do jardim selvagem

Em meio ao vasto repertório das emoções, o ser humano conhece a angústia de ser fiscalizado por atitudes e palavras. O pensamento surge como um dos únicos territórios livres, embora permaneça isolado, impossível de compartilhar. A literatura de Lygia Fagundes Telles (conforme estamos analisando desde o mês passado, nesta coluna) abre uma porta para o lugar da ruptura, dos dramas que se desenvolvem na sombra, no mistério inconfessado – e, assim, vence o isolamento das personagens, faz com que nos tornemos cúmplices de seu sofrimento, com o qual podemos até nos identificar. O ofício da escritora paulista, dessa maneira, também pode ser visto como um ato solitário e – por que não? – muitas vezes doloroso, mas cuja persistência não sufoca; ao contrário, liberta, através do produto estético, da arte.

Nesta parte de nosso trabalho, vamos nos dedicar à investigação sobre a cor verde e o misticismo, sem perder a ligação com o tema da disciplina (visível ou ausente) no perfil das personagens e em seus relacionamentos. Como uma análise exaustiva deste aspecto cromático não cabe aqui, escolhemos detalhar algumas narrativas e fazer uma simples remissão a outras, que o(a) leitor(a) poderá conferir depois.

Do livro A noite escura e mais eu (1995), selecionamos o texto que nos interessa agora, o conto intitulado “A rosa verde”. Esta é uma história concentrada na infância, numa menina órfã que vai morar num sítio com os avós e tem de aprender, com eles, a disciplina diante da dor da morte. A avó, prática e ativa, tem a pequena rebeldia de não se conformar, não comparecer à missa. É um protesto miúdo, embora a neta pensasse que sua atitude seria de escândalo: “(…) tremia de medo só de pensar na Avó Bel. Se na morte da nora ela armou aquele berreiro imagina então na morte desse filho o que ela ia aprontar.” (p.140)

Surge então esse aprendizado da amargura, da domesticação das dores. No segundo luto, a avó não esbraveja mais, apesar de manter-se indignada: “(…) aceitava porque não tinha outro remédio mas não estava conformada. É por isso que não piso nessa missa porque senão Ele pode pensar que me conformei mas Ele sabe que não vou me conformar nunca! Ele era Deus.” (p.142)

A pequena órfã tem de se adaptar à sua condição, comparando-se com o primo João Carlos (que tinha pai e mãe vivos – a mãe era meio amalucada, mas ainda assim estava viva) e confrontando-se com o universo díspar dos adultos. Na vida provisória do sítio (no ano seguinte, a menina irá para um internato), ela descobre o mundo através de sua lupa, concentrada em bichos e plantas que parecem travar uma batalha minimalista e silenciosa, porém tão agressiva quanto a que se vê no resto do mundo:

Fui me acostumando quando fui achando que todos esses insetos eram parecidos com a gente nas suas festas. Nas suas brigas. Trabalhavam sem parar e também vadiavam como naqueles ajuntamentos de domingo no largo do jardim, gostavam de se divertir. E gostavam de brigar e algumas brigas ficavam tão feias que eu fugia com vontade de vomitar. Debaixo da lente era medonho demais ver o olho vazado pelo ferrão cravado fundo e horrível a perna arrancada e ainda tremendo lá adiante ou a cabeça cortada e aquele corpo descabeçado procurando pela cabeça. Na lupa aparecia até a cara preocupada da formiga carregando no ombro o ferido ou o morto, como faziam os soldados nas fitas de guerra. (p.155)

A referência à formiga é importante: veremos mais adiante, em outros contos, como esta figura parece associada a cenas de trabalho e organização. Ao observar seu mundo, a garota aprende sobre o método necessário para lidar com o sofrimento – algo que percebe também na imagem da avó, trabalhadeira, sempre a espanar a casa, arrumando as coisas. Entretanto, ao mesmo tempo a garota não perde a dose de fantasia, através do avô botânico que lhe promete uma rosa verde, a cor da esperança, a única cor que amadurece.

No livro Seminário dos ratos (1984), vemos também uma narrativa voltada para a infância no contato com as plantas e os insetos, encontrando fortemente a associação do verde com o mistério e a morte. “Herbarium” traz a paixão da menina protagonista por um “vago primo botânico convalescendo de uma vaga doença”, o primo que lhe desperta emoções mas também lhe inspira a disciplina do colecionismo. Para criar alguma cumplicidade com ele, ela sai todas as manhãs ao bosque, com o objetivo de procurar folhas raras que pudessem compor o seu herbário.

O método dessa rotina, entretanto, não é o único hábito que o primo inculca na garota; ele percebe que ela é uma viciada em mentiras e pretende mudar seu modo de agir. Fala-lhe sobre as “folhas persistentes” como uma metáfora da verdade, embora a menina o escute com atenção apenas por estar apaixonada, e não necessariamente por valorizar suas palavras.

O conto faz lembrar “A rosa verde” igualmente pela cena da menina vendo o mundo através de uma lupa. E não à toa ela percebe que a mão do botânico é cheia de “linhas disciplinadas”. À semelhança do avô da garota na narrativa citada (que pretendia criar uma rosa verde, produto de ilusão mas também de persistência), o primo desta menina coleciona folhas e parece se absorver pela tranquilidade (ou monotonia?) do comportamento vegetal, tão limitado e estreito quanto a verdade diante das riquezas de uma mentira:

E a verdade era tão sem atrativos como a folha da roseira, expliquei-lhe isso mesmo, acho a verdade tão banal como esta folha. Ele me deu a lupa e abriu a folha na palma da mão: “Veja então de perto.” Não olhei a folha, que me importava a folha? mas sua pele ligeiramente úmida, branca como papel com seu misterioso emaranhado de linhas, estourando aqui e ali em estrelas. Fui percorrendo as cristas e depressões, onde era o começo? Ou o fim? Demorei a lupa num terreno de linhas tão disciplinadas que por elas devia passar o arado. (p.44)

O tema da leitura da linha das mãos recebe, porém, ainda outra nuança, comparável ao desvendamento do futuro, que a tia da menina, Clotilde, havia aplicado ao rapaz. Dentre as previsões feitas, estava a da chegada de uma bela moça no fim de semana: “podia ver até a cor do seu vestido de corte antiquado, verde-musgo.” (p.45)

O choque do ciúme faz a menina desatinar (é um sentimento que leva ao desespero, como se percebe também no conto “Tigrela”); ela se comporta de modo descontrolado e infantil, num tipo de regressão que se torna ainda mais violento pelo contraste com a imagem da formiga (como sabemos, ligada à ordem e à disciplina):

Uma formiga vermelha entrou na greta do lajedo e lá se foi com seu pedaço de folha, veleiro desarvorado soprado pelo vento. Soprei eu também, a formiga é um inseto! gritei, as pernas flexionadas, pendentes os braços para diante e para trás no movimento do macaco, hi! hi! hu! hu! hi! hi! hu! hu! é um inseto! um inseto! repeti rolando no chão. Ele ria e procurava me levantar, você se machuca, menina, cuidado! (p.45)

Pouco depois, a menina foge para o campo, num paroxismo de dor que a leva a chorar e roer as unhas (ela, que tinha começado a se controlar, para não virar uma moça de mãos feias, de repente não se importa mais com isso, transforma-se em puro desatino, graças ao sofrimento).

Mais tarde, ela acredita que o primo está melhorando de saúde, e a alegria de vê-lo se recuperando faz com que ela torne ao bosque num estado bem diferente. Ela distrai-se, observando o mundo dos insetos (novamente, como n’“A rosa verde”), mas há um momento em que, assim como no conto “Anão de jardim”, a menina também encontra um inseto, um besouro, que lhe proporciona uma reflexão voltada para a fronteira entre vida e morte e a própria transformação que tal ciclo indica. Afinal, a garota não estava, por sua vez, sujeita a essas mudanças, morrendo para certos aspectos – da infância – e nascendo para outros – do amor? O começo deste trecho lembra mais uma vez “Tigrela”, pela simbiose entre o animal e o humano:

(…) recuei quando apareceu o besouro de lábio leporino. Por um instante me vi refletida em seus olhos facetados. Fez meia-volta e se escondeu no fundo da fresta. Levantei a pedra: o besouro tinha desaparecido mas no tufo raso vi uma folha que nunca encontrara antes, única. Solitária. Mas que folha era aquela? Tinha a forma aguda de uma foice, o verde do dorso com pintas pequenas irregulares como pingos de sangue. Uma pequena foice ensanguentada – foi no que se transformou o besouro? (p.47)

Certa de que achou um segredo fatal, a garota decide esconder a folha; mostrá-la ao primo equivalia a dar-lhe uma sentença de morte. Porém, quando volta para casa e vê que a tal moça, prevista pela tia Clotilde, chegou, o ciúme torna a fisgá-la. A menina observa o casal como antes observara os insetos e o caminho traçado na mão do primo: por uma espécie de lupa, o vidro da janela.

No final, ambíguo, não se pode afirmar se o desejo de morte (ou a entrega dela, na forma de uma folha mórbida) era um simples ciúme de uma moça real, que viera buscar o primo, tirando-o do alcance da paixão da garota, ou se essa moça já não era a própria morte, anunciada como uma dama de vestido verde: “Fui levantando a cabeça. Ele continuava esperando, e então? No fundo da sala, a moça também esperava numa névoa de ouro, tinha rompido o sol. Encarei-o pela última vez, sem remorso, quer mesmo? Entreguei-lhe a folha.” (p.49)

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, deste mês de fevereiro, no jornal Rascunho)

As perdas familiares

Um livro de Patti Smith – Linha M (Companhia das Letras, 2016) – me acompanhou neste janeiro, tendo inclusive viajado comigo, para que eu pudesse lê-lo num quarto azul com cortina xadrez, durante os intervalos do amor. E já quase no finzinho, uma passagem (que à primeira vista pode não ser tão poética ou relevante quanto outras) mereceu um grifo, e agora ganha este meu texto. Retomando o assunto da morte do seu marido, que perpassa todo o volume, a autora diz:

“Desejamos coisas que não podemos ter. Tentamos conservar certos momentos, sons, sensações. (…) Quero ver meus filhos ainda crianças. Mãozinhas pequenas, pés ligeiros. Tudo muda. Garoto crescido, pai morto, filha mais alta que eu, chorando por causa de um sonho ruim. Por favor, fiquem aqui para sempre, digo para as coisas. Não vão embora. Não cresçam.” (p.170)

Como os pais lidam com o luto da infância de seus filhos? Nunca li nada a respeito, nem conversei diretamente sobre o tema com ninguém. Na verdade, eu sequer havia formulado a questão dessa maneira, antes do livro de Patti Smith. Patti tem quase a idade da minha mãe, e exatamente por isso estabeleci um elo entre o seu texto e várias situações que vivi em família. Num domingo recente, por exemplo, enquanto eu contava uma história engraçada, minha mãe me interrompeu para dizer: “Ah, agora você deu o sorriso que tinha quando criança!”

E houve inúmeros episódios de nostalgia antes desse.

Existe aí um real sentimento de perda, que eu costumava considerar exagero. Um lamento pelo rosto perdido, pela aparência anterior de um(a) filho(a), o cheiro que ele(a) tinha, a sua pouca estatura, as roupinhas, o timbre de voz desaparecido… se isso não for luto, não sei que conceito terá.

A ideia de um exagero – e a consequente indignação que me invadia – impediu que eu muitas vezes escutasse o saudosismo de minha mãe. Queria passar para outro assunto, rápido. Não estimulava aquelas memórias, que no fundo me acenavam com um desejo de regressão, como se as palavras maternas negassem, ou desvalorizassem, as minhas conquistas, o progresso para me tornar adulta (condição que, por si, já considerava vantajosa). Em última instância, eu temia que a sua saudade indicasse um anseio de posse ou proteção.

Mas – Patti esclareceu – esse luto pela infância é somente desamparo. Impotência diante de algo invencível: o tempo.

Não sei se alguém sente falta da própria infância com a mesma força que um pai ou mãe pode sentir, em relação ao passado de seus filhos. Eu não sinto. E suponho que ninguém é um perfeito espectador de si, sobretudo numa época em que a consciência está se formando, e a imaginação se confunde facilmente com o real. Eu apenas tenho ocasionais retornos a alguma sensação física antiga: a experiência de ver meu corpo muito próximo do chão, ou a maravilha que era ser tomada nos braços, alegremente indefesa e leve. Mas saudade ou tristeza em relação a esse tempo, não tenho.

Como sempre criei gatos, e não filhos humanos, penso que essa transição de aparências aconteceu de modo mais sutil, comigo em relação a eles. Mas é verdade que até hoje tento flagrar um gesto brincalhão de filhote, na minha gata de 15 anos, e quando ele aparece… devo ficar igual à minha mãe descobrindo em mim um sorriso de criança.

Estamos a cada minuto perdendo uns aos outros – e a nós mesmos –, eis a realidade inescapável. Mas por que no primeiro caso parece mais doloroso, não sei. Talvez a resposta passe pela questão da autoconsciência e suas falhas etc. Nessa perspectiva, os aniversários devem ser rituais de despedida, marcos específicos dentro de uma cotidiana perda que, ainda que seja bem previsível e familiar, dói. Dói tanto às vezes, que lateja.

Tércia Montenegro (texto publicado hoje no Vida & Arte do jornal O Povo)

Linha M

“Acredito no momento. Acredito nesse balão alegre, o mundo. Acredito na meia-noite e na hora do meio-dia. Mas no que mais acredito? Às vezes em tudo. Às vezes em nada. É algo que flutua como a luz refletindo numa lagoa. Acredito na vida que um dia todos vamos perder.” (Patti Smith, Linha M. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)

Grata, Patti Smith, por sua presença que esteve ao meu lado neste janeiro.

A beleza ancestral

Depois de ontem – graças aos Percursos Urbanos, projeto do Júlio Lira que é uma das iniciativas mais lindas que movimentam a cidade – pude firmar reflexões que já vinha ensaiando dentro de mim, mas até então se amontoavam, confusas. O passeio, com o tema “Jardins de calçada”, foi conduzido pela arquiteta Karina Diógenes e teve o registro fotográfico feito por Ivonisio Mosca.

Levados por esse mote, conhecemos sete mulheres de três bairros (Rodolfo Teófilo, Benfica e Fátima). Essas senhoras, moradoras antigas e figuras de grande força, embora cada qual com seu estilo próprio, criaram redutos de beleza e utilidade medicinal em praças e canteiros, responsabilizando-se pelo cuidado de muitas plantas, que crescem nos espaços públicos, mas sob um afeto essencialmente privado. Quando encontrei D. Geralda, de 97 anos, voz baixinha e energia tão poderosa, creio que entendi tudo. Eu estava diante de uma beleza ancestral, a mesma que reverencio em árvores seculares. E a partir daí, passei a pensar no sagrado que é a velhice.

Não por acaso, eu me incomodo ao ver episódios de “Gracie & Frankie” – apesar da diversão, do humor caricato, feito obviamente para descontrair, as personagens parecem reforçar os valores de uma sociedade que festeja a juventude. Há momentos interessantes de empatia para com os idosos, ao longo desta série: esse colocar-se no lugar de alguém que já não tem tanta força física, ou destreza mental, surge como um argumento implícito – mas, dentro do circuito de glamour e extrema riqueza (todo mundo rasga dinheiro e vive em mansões, ali), “Gracie & Frankie” passa uma mensagem enfática de preocupação com a aparência, a beleza associada a um frescor juvenil.

Se os filhotes (de qualquer espécie) são sempre criaturas que nos arrancam um sorriso, quero acreditar que o motivo não está somente em sua estética. Celebramos, nessas feições tenras, a esperança, a ideia de continuidade que a nova geração parece garantir. Em contrapartida, o velho lembra o que tanto queremos evitar: a morte, o fim, a decadência. Numa esfera social extremamente utilitária – eu não ia usar o termo capitalista, mas é esse mesmo, não dá para evitar –, alguém que deixa de ser claramente produtivo, deixa de colaborar de modo imediato para manter girando a roda do sistema… o que acontece com alguém assim? É discriminado pelo governo, pelas pessoas, pela cultura. Com lapsos de exceção, é claro – mas no geral é tão “normal” aceitarmos que os idosos fiquem em casa, confinados, que sequer nos questionamos sobre como a cidade, os meios de transporte, os espaços urbanos etc, não facilitam a sua presença nas ruas. O objetivo silencioso é esconder essa gente, sufocar sua presença, antecipar simbolicamente a sua morte.

Mas o quanto teríamos a ganhar, todos nós, ao reconhecer essa beleza ancestral! E estou pensando não somente na carga histórica, nas lições de experiência ao escutar uma pessoa nonagenária. Penso na aparência de fato: a beleza de um rosto desenhado pelo tempo, a alegria de sentir, no pulso ou no peito, a energia de um coração que trabalha tão longevo – com um ritmo sábio que é o mesmo do vento, do riacho, dos bichos miúdos camuflados na areia.

Eu encontrei D. Geralda e me conectei com a natureza inteira através do olhar dela.

 

Tércia Montenegro – 19/01/2020

 

 

 

 

O sertão e as mulheres

Memorial de Maria Moura é o último romance de Rachel de Queiroz, um livro que veio para selar o estilo desta autora cearense nascida a 17 de novembro de 1910. Sua obra, perpassada pelo regionalismo moderno – quando Rachel foi uma das pioneiras, ao lado de autores como José Lins do Rego e Graciliano Ramos – já nasceu com traços bem definidos. Desde a estreia, com O Quinze, era evidente a força de sua escrita realista e objetiva. O cenário do Nordeste virava palco de histórias dramáticas, mas ao mesmo tempo surgia como espaço simbólico, fronteira de costumes e códigos morais. Nesse território, o papel feminino merecia destaque.

Em quase toda a literatura brasileira anterior, que contava com raríssimos exemplos de mulheres escritoras, o discurso sobre a feminilidade vinha de uma experiência distante, da observação feita a partir de um olhar masculino. Assim, por exemplo, foram os poemas árcades, com suas musas bucólicas, ou os textos românticos, que em prosa e verso celebravam a delicadeza de figuras virginais. Na perspectiva de autores mais argutos, a mulher podia sugerir perfis ambíguos ou até mesmo um comportamento devasso – e houve, claro, personagens profundas e inesquecíveis nas criações do Real-Naturalismo. Entretanto, por seu caráter de exceção, a maioria desses casos não se firmava com espontaneidade a ponto de soarem convincentes: as mulheres dos livros podiam parecer exóticas ou “casos únicos”, sem correspondente na vida trivial de um ser humano.

Rachel de Queiroz tratou o tema do feminino de outro modo – e sua própria imagem de mulher na área das letras solidificou-se com naturalidade. Era um reflexo da fluidez que a autora aplicava a seus projetos literários, abrindo caminhos com vigor inquestionável, mas sem alardear sacrifícios ou grandes dificuldades; ao final, parecia tão óbvio que aquela trilha estivesse aberta, que se podia esquecer que há pouco tempo ela não estava lá. Basta lembrar que Rachel foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, rompendo preconceitos que até 1977 – ano de sua posse – ainda eram impositivos.

Assim também ocorre com as personagens de Rachel: se alguma se sobressai, por seu protagonismo, nem por isso o seu caráter é inverossímil ou as suas ações, improváveis. Tudo envolve o leitor com a máxima espontaneidade. Maria Moura, por exemplo, pode ser considerada uma figura revolucionária e emblemática; no entanto, por mais que ela cause espanto pelas vestimentas masculinas e ousadia guerreira, não é um exemplo isolado de coragem feminina. Tal característica se reflete em diversas personagens, como em Marialva, a prima que foge para casar com o saltimbanco, ou em Firma, a esposa peçonhenta de Tonho. Até nos casos malsucedidos, que têm como desfecho uma desgraça, exalta-se a liberdade feminina enquanto ela dura – e podemos lembrar a mulher adúltera que seduz o padre, ou mesmo a própria mãe de Maria Moura, que desafiou a sociedade da época ao “amigar-se” com um homem mais jovem.

Memorial traz ainda o sabor dos relatos históricos, com cenas que parecem pertencer a uma esfera mítica e, talvez, eterna. Assim observamos a simbologia do lar, desde a casa da infância, que Maria Moura incendeia, até o casarão que anos depois faz construir, na Serra dos Padres: o espaço de habitação se reveste de um poder pessoal, de uma independência que a personagem aos poucos conquista. Hoje, numa sociedade cada vez mais globalizada, talvez não haja mais tanta importância dada ao “chão” dos antepassados, mas ainda persiste a ideia de autonomia e status associada a uma casa própria. De igual forma, a figura do tocador de rabeca, Valentim, provavelmente não é mais comum nas grandes cidades, embora persista pelo sertão. Mesmo assim, parece eterno o ímpeto aventureiro representado por este músico circense – como é eterna a sensibilidade que ele desperta, ao encontrar Marialva, o “par de olhos verdes” com quem se casará.

Há trechos, porém, que claramente apontam a época em que a história ocorre, em meados do século XIX. É o caso do episódio em que Maria Moura vê pela primeira vez uma cédula de dinheiro e considera que aquilo era um papel sem graça, que não impressionava nem pesava na mão, como as moedas. A curiosa ideia de que as cédulas não iriam “pegar” como moda, nas transações financeiras, leva a uma reflexão sobre o nosso tempo atual, numa perspectiva do passado, mas também na permanente transição para um tempo futuro. Pois se para Maria Moura era improvável que um dia o dinheiro de papel “vingasse”, para nós até mesmo este já se torna raro, substituído pelas transações feitas com cartão de crédito e transferências on line. Perde-se cada vez mais a sensação do corpo relativa ao peso das moedas, do ouro ou da prata, uma experiência física que não encontra substituto.

Tais mudanças envolvem não somente as vivências corporais, mas também as emotivas – e Memorial de Maria Moura enseja reflexões as mais variadas sobre aspectos de permanência e transição em hábitos, relações sociais ou crenças. Comparativamente, olhamos para nosso próprio século, ao visitarmos o antigamente. Por um lado, conhecemos uma paisagem primitivíssima, impregnada de atmosfera épica, na constante guerra pela sobrevivência. Por outro lado, entretanto, sob as camadas típicas e culturais de um espaço e uma época, vemos os costumes, as emoções permanentes de qualquer ser humano. Nessa dimensão, as mulheres são protagonistas, representantes de um contexto universal.

Os episódios em que Maria Moura sai para os confrontos armados, seus gestos de grandeza bélica ou suas decisões autoritárias, nada mais são que exigências da natureza. Fraquejar seria a desonra, opção que essa mulher – feita com a fibra dos sertanejos – rejeita. É a própria Maria Moura quem declara que não nasceu para coisa pequena, que descobriu ter força e saber controlá-la: “E quando eu não fiz nada porque não queria, isso também foi bom, sinal de que eu comandava a minha força. Eu só fazia o que queria” (p.220). Esse vigor ressoa em vários componentes do enredo, repetido com maior ou menor intensidade em outras personagens.

É marcante a sensação de que a obra de Rachel de Queiroz nasce verdadeira, como um retrato vivo baseado na pesquisa, na observação, num reflexo da tendência neo-realista do momento. Mas, por mais que a descrição da realidade e dos acontecimentos possa indicar camadas ideológicas e críticas (que obviamente existem), a primeira pretensão de Memorial de Maria Moura é a de envolver o leitor, com um bom relato de aventuras. Rachel de Queiroz seguiu o antigo e sábio preceito do filósofo Horácio, quando dizia que a finalidade da arte deve ser ensinar através do prazer.

Tércia Montenegro (em prefácio para a edição de Memorial de Maria Moura, da Best Bolso, em 2010)