Reviajar – Ghent

Há exatamente um ano, eu partia do Brasil para viver um semestre em pesquisa de pós-doc, na Bélgica. Essa experiência, que eu previa rica em termos intelectuais e artísticos, acabou se revelando muito mais profunda no quesito pessoal. Foi um momento de virada, posso dizer: mas não é que me transformei – acho que aprendi a me conhecer com um tipo de consciência que apenas o isolamento e as diferenças culturais permitem ativar. Apesar disso, ainda não me dei conta de todos os níveis de observação que atingi durante e depois dessa viagem: em várias ocasiões me pego refletindo sobre os contrastes entre o que vejo agora aqui, em Fortaleza, no meu hábito, e o que vi lá.

Precisei de outro semestre inteiro de repouso dentro de uma rotina para me decidir a resgatar as fotos que fiz na Bélgica, os passeios, as anotações, os catálogos de museus que trouxe, as ideias. Tudo isso se transforma em matéria-prima para um novo romance – e, para além disso, é uma forma de maturar os efeitos. Já se instalou uma distância, um tempo irreversível: posso usar esse caminho para fazer um retorno imaginário. Você, leitor(a) deste blog, sinta-se convidado(a) a me acompanhar nesta série de postagens, que não terão uma periodicidade fixa – mas devem acabar apenas quando se esgotarem os temas relativos a essa estada. Assim, à medida que reviajo por situações e paisagens, elejo o que de mais importante ficou. Se a lembrança resistiu até aqui, creio, é porque merece o espaço, as palavras.

Começo o ciclo pelo finalzinho. Em dezembro de 2015 eu estava em Ghent, num dia de passeio com amigos (também estrangeiros e pesquisadores na Université de Liège). O grande objetivo nessa cidade belga era – claro – o Retábulo do Cordeiro Místico. A obra-prima de van Eyck está na catedral de Saint Bavo, e, sendo completamente sincera, a catedral me emocionou bem mais que o quadro. Entrar numa sala cheia de turistas para contemplar uma obra imensa por trás de um espesso de vidro de segurança nunca provoca perfeitas epifanias… mas a questão não era apenas essa. Se o(a) leitor(a) visita, por exemplo, um site que traga boas reproduções do retábulo (aproveito para indicar um aqui),  consegue perceber detalhes que, ao vivo, são até mais difíceis de notar, pelas dimensões da obra e pela posição que o espectador é obrigado a assumir. Não é o mesmo que encontrar um Vermeer ou um Rembrandt no Rjiskmuseum, por exemplo: aí, sim, a gente percebe que a visita foi um privilégio extremo, porque aquelas cores são tão diferentes de qualquer reprodução em livro, e a textura da tela, com suas ranhuras, suas crepitações, suas espessuras de tinta, tudo nos conjuga tanto com o gesto criador do quadro, que não há substituto possível para a experiência.

A catedral de Saint Bavo, porém, trouxe-me – na sua cripta – a beleza de afrescos do século X. A arte medieval sempre me põe emocionada, e ainda mais quando se apresenta assim, desgastada, incompleta – uma sugestão do esplendor ingênuo que um dia teve:

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A visita ao Castelo de Gravensteen também foi um anticlímax. Não chego a me arrepender, porque, afinal, eu precisava conhecer o único castelo medieval preservado na região de Flandres. Mas foi ver um exemplar dessa arquitetura para servir de lição, e acho que pelo resto da vida não vou querer de novo entrar em calabouços, masmorras ou câmaras de tortura.

em Ghent

Finalmente, para concluir o passeio da maneira mais bela possível, Ghent com sua iluminação noturna trouxe o melhor espetáculo: um jogo de volumes, reflexos e sombras que faz a gente ter vontade de apenas caminhar – como se caminhasse dentro de uma obra de arte.

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O lugar dos bichos

Da minha coluna Tudo é Narrativa, publicada no jornal Rascunho:

O LUGAR DOS BICHOS

 

          Nas narrativas clássicas – incluindo-se aí as religiosas – o animal sempre ocupou um lugar secundário, tendo a sua existência sob risco constante. O antropocentrismo que orienta nossas práticas moldou um olhar de superioridade em direção às demais espécies, e os relatos de sacrifícios jamais tiveram a intenção de provocar horror pela matança de bichos; ao contrário, passavam a mensagem de justeza, de uma busca de “equilíbrio” na ordem dos fatos: algumas vidas animais a menos serviam para aplacar a ira dos deuses, ou para expiar os pecados humanos.

      Lembro que, na infância, a leitura do Antigo Testamento me pareceu uma sequência de crimes impunes e abomináveis para com ovelhas, cordeiros e outras criaturas do tipo. E o absurdo era que, na mesma idade, eu recebia toda uma literatura voltada para a idealização de porquinhos, galináceos, formigas, ursos ou sapos. Não demorou para que eu compreendesse que o mundo rosado, construído pela ficção infantil, nada mais era que um artifício de fantasia que – em grande parte – tinha o propósito de distrair ou ensinar preceitos de moralidade ou comportamento. A estratégia do antropomorfismo revelava que também esses autores (por melhores que fossem suas intenções) rendiam-se ao impulso de medir toda experiência pelo critério da humanidade.

       Adolescente, tornei-me leitora de obras realistas ou regionais, sem encontrar alívio no tratamento dessa questão. Os animais vinham retratados como brutos, irracionais, incapazes de sentir ou até mesmo sofrer. Em vários relatos, eram mencionados somente como um alimento em fase ainda não degustável. Mesmo um caso de exceção, como o da famosa cachorra Baleia, confirma a regra geral. A riqueza psicológica que lhe é concedida tem o peso de um contraste que ressalta os estreitos limites em que as pessoas de Vidas secas circulam.

    Ermelinda Ferreira, num artigo que discute a metáfora animal como representação do outro na literatura, bem resumiu a tendência dominante: a maioria dos autores brasileiros tomou a decisão de desconsiderar os animais em termos ontológicos. Graciliano Ramos, por exemplo, em diversas passagens célebres de São Bernardo, de Infância e do já citado Vidas secas, valeu-se da metáfora animal somente para demonstrar a baixa escala alcançada pelo humano.

     Artistas contemporâneos talvez estejam mais dispostos a rever essa atitude – quando não por motivação ideológica precisa, por simples opção estética. Para ficarmos com o espaço sertanejo, basta o exame de algumas fotografias de Tiago Santana, que inclusive batizou um de seus livros como O chão de Graciliano (2006). Em diálogo com o cenário do escritor, o volume reúne imagens realizadas em viagens ao sertão de Alagoas e Pernambuco. A partir do próprio título evocador de telurismo, o fotógrafo (re)constrói signos agrestes e propõe um trânsito entre linguagens artísticas – interesse que se renova em sua recente publicação, O céu de Luiz (2014), dedicada a uma série de imagens inspiradas na obra de Luiz Gonzaga.

        N’O chão de Graciliano parece haver uma aproximação de técnicas entre as duas artes de grafar, seja com o verbo ou com a luz. Já se ressaltou, em analogia fisiológica, que Graciliano Ramos executa uma “composição por decomposição”. Tal aspecto é reprisado na fotografia de Tiago Santana, que também decompõe, mutila ou desfoca o indivíduo. Os cortes dos enquadramentos, os ângulos escolhidos, a própria escolha do preto e branco – tudo revela a intencionalidade de uma grande força sintética: exatamente como podemos classificar, pela precisão linguística, o projeto literário de Graciliano Ramos.

      Mas, ao contrário do romancista, o fotógrafo não parece considerar que a figura do animal traga um sinal de inferioridade. Se o autor, num trecho de Memórias do cárcere, escreve: “Homem das brenhas, afeito a ver caboclos sujos, famintos, humildes, quase bichos” (1954, p.112), podemos afirmar que essa gradação qualitativa – com o bicho ocupando o último nível – não ilustra o trabalho de Tiago Santana, onde vemos os animais elevados à individualidade, com vários indícios de valores positivos atrelados a eles.

      Em diversas imagens do artista cearense, temos estratégias de composição que dispõem a figura humana em relação presencial com os bichos, e estes surgem em realce ou com maior nitidez – em detrimento da pessoa, que costuma surgir com o rosto encoberto ou desfocado, ou ainda com menor peso visual devido a tratamentos de luz, contraste ou textura. Em certos arranjos, a fotografia constrói verdadeiros corpos híbridos: figuras se criam a partir de uma complementaridade física. O cão, o cavalo, o jumento e a cabra aparecem articulados ao cotidiano sertanejo de tal forma que o animal existe sobretudo por um componente afetivo de convivência.

      Logicamente, o espaço é também uma simbolização, uma construção subjetiva. Graciliano Ramos e Tiago Santana construíram temas sertanejos a partir de escolhas que, nos dois autores, indicam uma preferência pela apresentação do cenário como propício à interdependência entre homem e bicho. Entretanto, se na obra literária esse aspecto colabora para uma “historiografia da angústia”, no corpus fotográfico de Santana parece antes haver uma ponderação sobre a existência e a relação das outras espécies com o ser humano, sem que este assuma um local de superioridade.

        Firma-se a mensagem – infrequente, embora tão óbvia – de respeito pelos animais a partir da constatação de que eles são distintos de nós. É um equívoco considerá-los, por suas características específicas, inferiores às pessoas, ou, conforme o movimento oposto, idealizados enquanto seres de um tipo ingênuo. Qualquer base comparatista se destrói, ao pensarmos que, mudando-se a essência, muda-se a maneira de estar no mundo, e os critérios têm de ser particulares para cada caso. O que vale para um, deixa de se aplicar no lugar alheio.

      Esse exercício de reflexão talvez nos faça mais justos diante das criaturas que nos rodeiam. Cada uma delas, humana ou não, encontra-se mergulhada na própria narrativa vital. O respeito à trajetória e ao espaço do outro, antes de ser um ato de cidadania ou caridade, é simplesmente a noção de que somos todos limitados por alguma circunstância – e a finitude comum talvez seja a principal.

 

Tércia Montenegro