Louvain, Leuven

O último dos meus passeios, nessa temporada belga que vai se encerrando, foi para conhecer Leuven, também chamada de Louvain-la-vieille pelos francófonos. Se existe uma cidade universitária na plena acepção de seu termo, é esta. Eu me senti perfeitamente acolhida e feliz, ao andar pelo centro, entre tantos prédios históricos e importantíssimos para o conhecimento – como é o caso do College van Premonstreit, em que trabalhou Georges Lemaître, pai da teoria do Big Bang. Aliás, é de se reconhecer como este estudioso, que além de padre foi astrônomo, cosmólogo e físico, serve de exemplo para as pessoas que acham que religião e ciência são inconciliáveis. Mas o seu caso não é isolado; em Leuven, os espaços católicos se confundem com os refúgios acadêmicos – e vice-versa. Em todos os ambientes há menções a escolas, estudo – há um hotel chamado “Professor” e uma pizzaria “Filosofia”. E, ponto resumitivo, a biblioteca fica em espaço de honra, imponente e majestosa (como deve ser!). Tudo bem que esse besouro empalado fica meio avulso na paisagem – ainda que possa ser uma referência sinistra ao Kafka. Mas tentemos nos concentrar na beleza do edifício (e nas maravilhas que ele contém):

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Para além disso, Leuven, com seu Jardim Botânico, fez com que eu descobrisse um tipo de sacralidade no silêncio da natureza. No Grande Béguinage, viajei pelo tempo, recuperando a existência dessas mulheres que, se serem religiosas, decidiram levar uma vida comunitária, de estudo e paz.

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O hôtel de ville e a igreja de Saint Pierre são monumentos góticos esplendorosos, como nunca antes tinha visto – e o ideal foi estar ali num domingo, com as ruas desertas, o rebuliço do comércio bem longe, e o carnaval… o que é mesmo isso?

Carnaval belga

Pesquiso num guia da Wallonie e encontro diversas manifestações carnavalescas. Além das famosas máscaras de Ostende, celebrizadas por Ensor, há a criação de bonecos como o Bonhomme Hiver, um manequim de palha que costuma ser usado feito bode expiatório. Afogado em algumas regiões, queimado em outras, este tipo de judas garante a festa por aqui. O travestimento de homens e mulheres é mais um ponto em comum com o carnaval brasileiro. Entretanto, existem as singuralidades, óbvio : soube que em Vierves os habitantes coletam ovos e distribuem uma gigantesca omelete enquanto o cortejo percorre as ruas. Em Malmedy e Stavelot, as fantasias são folclóricas (o Blanc Moussi parece uma versão do Doutor Peste veneziano), e em Fosses o Polichinelo, popularizado pelo teatro ambulante, é o personagem mais popular. Ainda faltaria pesquisar sobre o carnaval na região de Flandres – mas, como sempre, este gênero de festa (com suas multidões) não me deixa lá muito animada…

A lenda nos vidros

Aqui em Liège, faz alguns meses já, fotografei uma sequência de seis janelas que traziam inscrições. Elas pertenciam a um estabelecimento comercial que depois eu soube tratar-se de uma gráfica – mas nada na aparência do prédio, fechado, sugeria uma atividade específica. Apenas as inscrições no vidro das janelas criavam a sua singularidade : como trechos de uma lenda, elas instigavam o mistério e a poeticidade. Traduzo aqui os seus textos, para lembrar como é importante traçar palavras que nos mantenham na superfície (e também nos salvem dela).

Primeira janela – Conta-se que o vapor que se deposita no vidro de certas casas faz reaparecer inscrições que teriam sido traçadas anos antes.

2a – Alguns chegam mesmo a pretender que, na origem, estas inscrições teriam sido formadas na areia que serviu para a fabricação destes vidros.

3a – Elas teriam sido escritas por todos os que, partindo rumo ao deserto em busca de alguma verdade, perderam-se nas areias movediças.

4a – Para não afundar muito depressa, eles teriam tentado acalmar sua agitação traçando inscrições produzidas por um agradável movimento manual.

5a – Eles não buscavam saber o que escreviam ; queriam apenas encontrar as palavras que os mantivessem por mais tempo na superfície.

6a – Os que retornaram passam o tempo a assoprar sobre os vidros, na esperança de encontrar suas incrições e compreender o sentido.

Janela

Gombrich

Sobre a necessidade do mistério e o desprezo por uma arte óbvia: “Un signe d’indulgence devant lequel certains seront émus jusqu’aux larmes provoquera chez d’autres un sentiment de dégoût; non pas du fait qu’ils n’auraient pas saisi le sens du message, mais parce qu’ils l’auraient trop bien compris.” (Gombrich, 2003, p.62)

Sophie e as muitas formas de narrar

Descobri Sophie Calle mais ou menos na época em que começava a conhecer a obra de Marina Abramović – e houve inclusive um momento em que confundi as duas: Marina perdendo o seu grande amor, Ulay, na Muralha da China; Sophie soltando no mundo artístico o fim de um relacionamento infame, com “Take care of you”… As produções de ambas se encontravam, pelo veio íntimo – embora Marina me parecesse mais consistente, com um projeto prévio. Sophie deixava as coisas muito ao acaso, e isso, embora não me desagradasse de todo, plantava a dúvida: até que ponto essa arte era válida, estética – as velhíssimas questões.

Aproveitei minha estada na Bélgica para investigar as bibliotecas, que têm vários livros de Calle – num cadastro oscilando entre a seção de fotografia e a de biografias. O resultado dessa pesquisa foi bem nítido: agora para mim, Sophie é uma escritora. Pouco importa o instrumento que ela escolhe para narrar; a grande marca condutora de suas ideias é sempre um fluxo de ação, com personagens, com histórias. Ela pode “disfarçar” seus projetos na forma de um diário de viagem que se mistura com entrevistas sobre a dor (em Douleur exquise – um dos mais belos livros sobre a condição humana que já vi), pode elaborar minicontos autobiográficos (em Des histoires vraies), pode desmascarar a percepção equívoca das pessoas, para contar a história de monumentos e pinturas desaparecidos (em Souvenirs de Berlin-Est, Disparitions e Fantômes).

Em todas essas edições, fica evidente um plano (se não no início – pois a ideia pode nascer de puro improviso – ao menos depois, na elaboração de um livro que é sempre um objeto artístico). Aqui, a editora Actes Sud, responsável pelos títulos que citei antes, e a Éditions Xavier Barral, que realizou Elle s’est appelée successivement Rachel, Monique… tiveram um impacto decisivo na criação da obra. O cuidado com a qualidade do papel, a textura das impressões fotográficas, a escolha das fontes… cada detalhe mostra muitas outras pessoas, preparadores, capistas, todo um ateliê gráfico envolvido de maneira indispensável.

Um livro como este último, por exemplo, poderia resvalar pelo sentimentalismo com facilidade; afinal, foi concebido a partir de diários e fotografias da mãe de Sophie Calle, além dos registros de instalações e performances feitas após a morte dela. Mas o volume em si é um primor, com o título em letras bordadas, as fotos simulando a pátina do tempo. E, óbvio, Sophie sabe construir a narração: vai espargindo a existência de sua mãe em idas e vindas que têm datas ou temas como pretextos. Um simples carimbo, “Ce livre a été volé à Monique Sindler”, que aparece a determinada altura como um acessório, uma marca irônica que se costuma fixar nos pertences para preservá-los, retorna à última página do livro, a do colofão – um local aonde muitos leitores não chegam. Mas quem ali estiver, no fim do trajeto entende a mensagem: este livro foi “roubado” de Monique Sindler, foi o que a mãe de Sophie nunca escreveu.

Da mesma forma, a palavra salva um outro projeto, que sempre me pareceu lindo na ideia, mas nem tanto na execução. Voir la mer surge como uma sequência de vídeos em que Sophie filma pessoas que, em Istambul, nunca viram o mar. Quando encontrei esta obra como parte de uma exposição no Bozar, em Bruxelas, vacilei com o terror do pieguismo. As pessoas olhavam o mar, filmadas de costas para a câmera, e depois eram instruídas a se virar, para que Sophie pudesse fazer um registro dos “olhos que tinham acabado de ver o mar pela primeira vez”. A câmera dissecava o olhar das pessoas, que iam ficando mais constrangidas que emocionadas com o momento. Pois o livro, realizado após os vídeos, não me prometia grande novidade – além da beleza plástica, com a ótima qualidade das imagens e o papel-manteiga azul alternando com as páginas em que havia fotos. Mas então, no final do volume, veio o texto redentor – disfarçado dentro uma lista tão entediante quanto os vídeos. Sophie anota:

“A mulher com o bebê olhou o mar por 3 minutos e 26 segundos.

O homem profundo olhou o mar por 2 minutos e 13 segundos.

A mulher 738 olhou o mar por 1 minuto e 49 segundos.”

E vai assim por mais 8 linhas, durante as quais a gente se pergunta que raio de estilo antropológico é esse, e por que seria interessante um cronômetro a medir a contemplação dessa gente. Mas aí se chega à frase final, a maior de todas, onde Sophie prova que conhece tudo o que uma escritora deve saber:

“As crianças olharam o mar por mais ou menos 1 minuto e 30 segundos e depois correram na direção dele.”

 Com esses meninos apressados e desobedientes, correndo para o mar que conheciam há apenas um minuto e meio, retomamos o prazer de se lançar no que é imenso. E de todas as formas de narrar, a espontaneidade de correr riscos – como tão bem faz Sophie – talvez seja a mais intensa.

 

Tércia Montenegro (crônica publicada também hoje no blog da Companhia das Letras)