Sobre fotos e farsas

A legenda era tão surpreendente quanto a imagem que eu tinha sob os olhos: “Manbaa Mokfhi diverte os seus companheiros, agindo como um equilibrista em sua mula. O instantâneo capta precisamente a pirueta chamada ‘estrela do céu’, muito apreciada entre os mujahideen, 2002.” Com a série “Desconstruindo Osama”, que conheci no fotofestival Solar, o trabalho de Joan Fontcuberta me seduziu imensamente, pela inteligência e humor.

A sequência de imagens em que ele aparece barbado e vestido à maneira de um mulçumano tem outros momentos hilários. O seu personagem é o doutor Fasqiyta Ul-Junat, um dirigente da Al-Qaeda, que supostos repórteres de um fictício jornal independente, Al-Zur, revelaram na verdade ser Manbaa Mokfhi, um ator e músico que havia trabalhado em novelas televisivas no mundo árabe. Após o furo jornalístico, o comediante reconheceu ter sido contratado para interpretar o papel de terrorista-vilão em operações orquestradas no Afeganistão e Iraque, conforme detalha um recente livro de Fontcuberta: “Depois dos atentados de 11 de setembro, a inteligência estadunidense e os aliados de sua órbita de interesse precisavam encontrar rapidamente um culpado que fizesse esquecer a cadeia de aparentes negligências em que haviam incorrido. Segundo alguns grupos antibelicistas, foi assim que a Oficina de Influência Estratégica encarregada da difusão de informações falsas inventou o personagem de Osama Bin Laden e o grupo de seus seguidores mais próximos.”

Deste livro, consta também uma entrevista/conversa entre os pretensos fotojornalistas que fizeram “a descoberta inverossímil” em torno de Ul-Junat: sob os nomes de Mohammed Bem Kalish Ezab e Omar Bem Salaad, estes personagens debatem sobre os paradoxos de sua profissão, dentro de uma tradição religiosa que proíbe imagens – e suas reflexões atingem um valor universal. Com a mão sobre o peito, pensemos no Brasil recente ao ler este trecho, por exemplo: “Tal como ocorre com a Bíblia, a doutrina islâmica pode ser interpretada de muitas maneiras, tanto para promover a paz e a tolerância como para promover a guerra e o fanatismo. Os culpados desse desencontro interessado são os ideólogos que distorcem a religião – qualquer religião – para colocá-la a serviço de seus programas políticos e seus interesses econômicos.”

A ideia de que o 11 de setembro nada mais foi do que um autoatentado para promover interesses bélicos (e financeiros – óbvio) já vem sendo debatida por diversas vertentes. Mas, para além de teorias da conspiração, o que a proposta de Fontcuberta faz é criticar a fotografia como evidência do real. Uma foto não é um fato – cada vez menos, aliás, neste mundo em que a manipulação digital virou uma tendência frenética.

Fontcuberta cria uma farsa – pelo tom jocoso e pela dimensão teatral, inclusive. Sua obra provoca o tipo de estranhamento que leva ao riso, sim, mas logo o ultrapassa para chegar a um questionamento complexo. A simplicidade também está no recurso estético: o uso de colagens em fotografia, deslocando elementos de vários lugares e promovendo o seu inusitado encontro numa cena, é tradicional. Os surrealistas, principalmente, souberam explorá-lo muito bem. Mas Fontcuberta, à diferença dos vanguardistas do início do século XX, que se empenhavam na geração de uma estranheza onírica, interessa-se pelo efeito de realidade que expõe nossos preconceitos culturais, nossos temores mais arraigados. A visão de um sujeito com longa barba desgrenhada e turbante recebe, imediatamente, um rótulo; se ele estiver num cenário de deserto, segurando uma arma, então… é inevitável pensar em terrorismo, ameaça, fundamentalismo etc.

Além de todos estes aspectos de reflexão política, social e cutural, a obra de Fontcuberta – ao colocar em dúvida o conceito de “verdade” que ainda persegue a imagem fotográfica – joga mais um peso na sua definitiva classificação como arte. Embora a fotografia tenha nascido com forte valor utilitário e documental, as estratégias e interesses particulares já presentes em seus primeiros autores (Robert Cornelius e Hippolyte Bayard, dentre outros) indicavam uma prática, em certa medida, ficcional.

Fontcuberta, também enquanto professor e pesquisador, aponta para suas realizações artísticas na consciência deste esgarçamento de fronteiras: ler seus livros, como La furia de las imágenes – notas sobre la postfotografía, acrescenta profundidade à fruição do seu trabalho. Afinal, este não é apenas um artista de êxito. É um artista que pensa sobre a linguagem que manipula e – a julgar pela sua palestra que vi, “A decadência da mentira”, realizada no citado fotofestival Solar, de Fortaleza – é um perfeccionista, que organiza com didatismo as ponderações que apresenta. No meio de tantos que se vangloriam de serem criadores meramente pulsantes, orgulhosos de um improviso desleixado na hora de falar, ouvir Fontcuberta abre um oásis. Não à toa eu sempre prefiro os artistas intelectuais: inspiração, surto de loucura, sorte pode até gerar alguns resultados na arte. Mas faz diferença, quando alguém assume o prazer – e a necessidade – do estudo nesta área.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal curitibano Rascunho)

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A ficção nas imagens

Quem estiver em Fortal neste período sinta-se convidado! O meu curso abordará a proposta narrativa de criadores, modernos ou contemporâneos, que dão ênfase às imagens em seus traballhos, seja em fotografia, pintura ou performance. Serão feitas análises a partir das estéticas de Duane Michals, Frida Kahlo, Nahui Olin, Marina Abramovic, Milo Moiré, Balthus, Yoko Ono, Günter Grus, Orlan, Remedios Varo e Francesca Woodman, dentre outros.

O curso acontece às terças de fevereiro e março, de 18h às 20h. Sobre taxa de inscrição e maiores informes, contatem a galeria Sem Título, pelo telefone 3037 0008 ou pelas mídias sociais: instagram @semtituloarte

Ter ou não ter

Conheci a literatura de Lina Meruane em 2015, à época da publicação do meu Turismo para cegos. Com poucos meses de diferença, a Companhia das Letras publicava o meu romance de estreia, enquanto a extinta Cosac Naify trazia ao público brasileiro Sangue no olho, da autora chilena. Essa confluência de tempos e temas nos aproximou invariavelmente, e quando li o romance de Lina Meruane notei que a afinidade não parava aí. Perspectivas sobre o mundo, experiências profissionais, alguns tratos de linguagem: Lina e eu pertencemos à mesma família literária, afirmo – e com isso aponto as semelhanças mas não estabeleço identidade absoluta (quem tem família sabe o que estou dizendo).

Foi, portanto, com uma expectativa óbvia que comprei o recente lançamento dessa irmã de letras. Contra os filhos, desde o título, propõe-se a questionar o império dos rebentos – circunstância que ameaça (e muitas vezes extingue) a liberdade na vida de uma mulher. A discussão sobre maternidade envolve, por tabela, a presença de uma paternidade e de alternativos papéis sociais que Lina Meruane debate, mas não enfatiza, justamente porque seu foco é a figura da mulher – que continua a mais cobrada e julgada neste assunto. Existem pais responsáveis e amorosos: alguns até se ocupam da prole sozinhos, sim. Mas admitam que isso é exceção. E, admitido o fato, façamos como a autora chilena: vamos nos voltar para a figura da mulher.

Ter ou não filhos, para alguém do sexo feminino, costuma ainda ser uma opção camuflada. As perguntas que se dirigem a uma jovem – ou mesmo a uma mulher mais madura – especulam sobre quando terá filhos e quantos pretende. Como se a ideia da abstenção fosse raríssima – anormal. E como se a decisão não envolvesse um processo complexo e irreversível. Na verdade, disfarçar a maternidade sob os rótulos de beleza, simplicidade, harmonia ou santidade são velhos artifícios sociais para a manutenção do sistema de mão-de-obra econômica. Dos corpos femininos se exige “que façam sua gestão privada”, muitas vezes sem assistência do Estado, embora em prol deste.

Na esteira das leituras fundamentais em torno dessa questão, encontra-se Silvia Federici. No seu O Calibã e a Bruxa, descobrimos a força com que políticas pró-natalistas sustentaram o desenvolvimento capitalista na Europa, inclusive com a existência de leis que penalizavam o celibato. O Estado invade a esfera familiar, para supervisionar a vida sexual e a procriação – e adivinha sobre qual dos cônjuges recai o maior grau de fiscalização e exigência?

A caça às bruxas foi largamente motivada pelos chamados “crimes reprodutivos”: as mulheres não podiam ter o controle da vida; descobrir estratégias anticonceptivas era feitiçaria… assim como reunir-se com outras mulheres foi logo associado a práticas malignas, invocação de demônios. Não espanta que o fenômeno da sororidade continue a enfrentar tanta resistência. As mulheres foram ensinadas, durante séculos, a temer e odiar umas às outras. Sua celebrada “passividade” ou “recato” nasceu como um traço imposto pela sociedade – não tem correspondência na natureza, onde as fêmeas sempre foram ativas e ferozes.

Essas opiniões invasivas, essas cobranças milenares impostas às mulheres variam em dramaticidade dependendo da sociedade e do contexto político – mas não há momento em que não sejam grotescas, pelo desrespeito que demonstram à individualidade. A sugestão de que uma mulher sem filhos é incompleta expõe um preconceito claro: considera que um filho seria “o modo de aperfeiçoar esse ser informe e deficitário”. Por que os homens, ao contrário, seriam criaturas completas antes, e independentemente, de serem pais? Por que as meninas recebem bonecas para desde cedo aprenderem a se ocupar com o outro (e, mais tarde, estarem dispostas ao sacrifício ou anulação em benefício alheio), enquanto os meninos ganham carrinhos, com os quais são estimulados a conquistar um percurso e avançar (de forma solitária ou não, pouco importa)? Essas reflexões, já bastante antigas, continuam sendo necessárias, porque – para lembrar a muito conhecida Simone de Beauvoir – “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.

Élisabeth Badinter, n’O mito do amor materno, explica como o apagamento da figura da mulher em prol de uma figura de mãe construiu-se a partir do século XVIII, na França: “A nova mãe é essa mulher que conhecemos bem, que investe todos os seus desejos de poder na pessoa de seus filhos. Por eles, esquecerá de contar seu tempo e não poupará nenhum esforço, pois os sente como partes integrantes de si mesma”.

A culpa, lançada às mulheres que não se encaixavam nesse modelo, cresceu a partir de um discurso moralista, religioso ou médico: “Assim fazem Rousseau e Freud, que elaboraram ambos uma imagem da mulher singularmente semelhante, com 150 anos a separá-los: sublinham o senso de dedicação e sacrifício que caracterizam, segundo eles, a mulher ‘normal’. Fechadas nesse esquema por vozes tão autorizadas, como podiam as mulheres escapar ao que se convencionara chamar de sua ‘natureza’? Ou tentavam imitar o melhor possível o modelo imposto, reforçando com isso sua autoridade, ou tentavam distanciar-se dele, e tinham de pagar caro. Acusada de egoísmo, de maldade, e até de desequilíbrio, àquela que desafiava a ideologia dominante só restava assumir, mais ou menos bem, sua ‘anormalidade’. Ora, a anormalidade, como toda diferença, é difícil de se viver. As mulheres submeteram-se portanto, silenciosamente, algumas tranquilas, outras frustradas e infelizes.”

“Hoje já não estamos mais nesta situação”, assinala Badinter, escrevendo na década de 1980. Entretanto, lembremos que em 2016 a pesquisa da socióloga israelense Orna Donath, que resultou no livro Regretting Motherhood, provocou uma polêmica global, levantando acusações que poderiam ter saído de cartilhas ancestrais.

Atualmente existe um perigo conservador até em algumas tendências feministas. Conforme ressalta Lina Meruane, o “feminismo essencialista” se transforma num tiro no pé, na medida em que celebra a mulher com suas especificidades, pretendendo que a sua natureza deva obedecer aos ciclos e condições físicas mais primitivas, sem o auxílio de qualquer conforto que a tecnologia possa proporcionar. Recusando o parto em hospitais, o leite em pó, as vacinas e, por extensão, tudo o que possa ser utilizado em substituição a um “processo natural”, essas mães ecológicas acabam por aceitar as exigências mais excessivas, chegando ao ponto de atuarem como enfermeiras e professoras dos próprios filhos, completamente absorvidas neste acúmulo de papéis em torno da família – e sem nenhuma vida fora dela.

Qualquer semelhança com um eterno retorno histórico – detalhado também por Federici, Badinter, Beauvoir – não será mera coincidência. Temos de lembrar repetidamente essas lições do passado, para ficarmos alertas.

Em todos estes livros (e em diversos outros que por razões de espaço não citei), para além da abordagem do conteúdo, ressalto o gesto primeiro de consultá-los, buscando referências. Esse é o primeiro passo, essencial, para a liberdade: permitir-se o pensamento. Se alguém rejeita tal possibilidade sob o impacto, digamos, de um título que lhe revira tabus, o caminho sequer começa. Contra os filhos é um nome que cria, sim, repulsa: mas vencê-la já é sinal de maturidade reflexiva. Se dedicamos um olhar racional aos assuntos, conseguimos domesticá-los – não somos mais seus reféns. A partir daí, surge toda uma prática de autonomia e autocuidado, para fazermos nossas escolhas com consciência.

 

Tércia Montenegro (texto publicado na edição de janeiro do jornal Rascunho)

 

 

 

O demônio favorito

A recente edição brasileira dos Diários de Sylvia Plath levou-me de volta a esta autora. Eu, que anos atrás tinha lido com admiração os viscerais versos de Ariel, nunca me detivera no suicídio de Sylvia com grande atenção. Talvez apenas tenha deixado escapar um lamento diante d’A redoma de vidro, que anuncia um talento narrativo infelizmente condenado – pelas circunstâncias – a jamais amadurecer.

Os Diários, entretanto, pelo próprio gênero textual, forçam uma atitude diferente. O leitor cai na intimidade, no interior do pensamento privado, sem disfarce ficcional. Eu conheci o impulso primário de Sylvia, aquele que provavelmente ela despejava com máxima urgência – mais até do que na poesia. E (confesso) não esperava a força de tantas reflexões – nem esperava desmascarar o mecanismo de fetiche comercial que se criou em torno da escritora e de sua vida.

Neste último aspecto, fui auxiliada pela biografia escrita por Janet Malcolm, A mulher calada. Seguindo a tendência usual a vários de seus livros, também neste Malcolm levanta a bandeira de como a verdade é escorregadia, com cada versão exibindo os seus próprios interesses. A ambiguidade do título aqui se evidencia: A mulher calada pode, no impacto inicial, sugerir um perfil de submissão e timidez (uma mulher levada a se calar – e o suicídio parece endossar essa tendência interpretativa). Mas no decorrer das páginas encontramos um episódio em que Sylvia desafia sua cunhada Olwyn com persistente silêncio, no meio de uma discussão: “Olwyn ataca Sylvia verbalmente, mas suas palavras não passam de palavras; a mudez (medusal) de Sylvia Plath é que é a arma mortífera, impiedosa”.

A revelação de uma mudez hostil e de uma “voz má” surge nos melhores escritos literários e nos Diários de Sylvia Plath. Ainda muito jovem, a poetisa manifesta absoluta lucidez, tanto sobre suas ânsias como suas limitações: “Entre os milhões, ao nascer eu também era tudo, potencialmente. Eu também fui cerceada, bloqueada, deformada por meu ambiente, pela manifestação da hereditariedade. Eu também arranjarei um conjunto de crenças, de padrões pelos quais viverei”.

Ela detecta na sociedade – que vê como o seu “demônio favorito” – a grande causa das limitações, principalmente por causa dos códigos de comportamento feminino: “Tenho consciência demais arraigada em mim para romper com os costumes sem efeitos desastrosos; consigo apenas debruçar-me invejosa na beirada e odiar, odiar os rapazes que podem esbanjar livremente o apetite sexual, sem receio, permanecendo íntegros, enquanto eu me arrasto de encontro em encontro ensopada de desejo, sempre insatisfeita.”

Janet Malcolm lembra que em 1956 “não havia movimento ou teoria feminista, e as relações entre homens e mulheres se encontravam no apogeu do inevitável delito transferencial. Que os embates entre Sylvia Plath e a literatura tenham se fundido com sua inveja e ressentimento em relação aos homens não é surpreendente”. Essa tendência inclusive gerou um maniqueísmo entre as figuras da escritora e seu marido Ted Hughes, também poeta: para a cunhada Olwyn – ainda conforme Malcolm – até hoje Sylvia é “representada como uma antagonista silenciosa, poderosa e sinistra” de seu irmão.

Na contramão dessa ideia, pintada como vítima de um marido egocêntrico e infiel, Sylvia Plath virou emblema de luta para muitas feministas. Embora não falte quem lhe critique a “covarde” e “egoísta” atitude de se matar, deixando dois filhos pequenos (um dos quais no futuro, aos 47 anos, repetiria o seu gesto), a maior parte das vozes se elevou contra Hughes – que divulgaria ao longo dos anos (com várias mutilações) os diários e cartas da ex-esposa, lucrando financeiramente com sua fama póstuma, sim, mas vivendo sob uma espécie de maldição dessa mulher talentosa e enlouquecida: uma imagem tão poderosa que esteve a ponto de esmagá-lo, principalmente quando reprisada por Assia Wevill. Ela, que foi a mulher com quem Hughes traiu Sylvia, matou-se em 1969, utilizando o idêntico método de se envenenar com gás – mas sua decisão envolveu também a filhinha que tivera com Ted, dois anos antes.

Essa “voz má” de Plath – ou mesmo o seu silêncio combativo – seria sintoma de um temperamento ávido e narcisista, potencializado (ou justificado) por uma doença mental que a levou ao suicídio? O público das várias biografias escritas sobre a autora continua ávido por explicações. Mas não esqueçamos que a tentativa de classificar o psiquismo de alguém é tarefa muito complexa, e qualquer rótulo empobrece. Um livro como o de Phyllis Chesler, Mulher e loucura, ajuda a refletir a respeito das pressões sobre as mulheres da década de 1950, criadas para regular seu psiquismo dentro de um modelo “aceitável”. Sobretudo, alerta para as tradições deste pensamento que continuamos a encontrar, de um modo às vezes tão agressivo.

Afinal, imaginando Sylvia Plath encarnada, digamos, numa atual jovem brasileira, ela certamente poderia afirmar o que vai nesta passagem: “Um homem, se escolher ser promíscuo, pode continuar torcendo o nariz para a promiscuidade, do ponto de vista estético. (…) Mas as mulheres também desejam. Por que devem ser relegadas à posição de zeladoras de emoções, babás de crianças, alimentando sempre a alma, o corpo e o orgulho do homem? Ter nascido mulher é minha tragédia horrorosa. (…) Sim, meu desejo ardente de me misturar a turmas de operários, marinheiros e soldados, a frequentadores de bares – fazer parte de uma cena, anônima, ouvindo e registrando – tudo isso é prejudicado pelo fato de eu ser uma moça, uma fêmea que corre sempre o risco de ser atacada e maltratada. Meu interesse imenso pelos homens e suas vidas é frequentemente confundido como desejo de seduzi-los, ou como um convite à intimidade. Mas, meu Deus, quero conversar com todo mundo, o mais profundamente que puder. Quero poder dormir em campo aberto, viajar para o oeste, andar livremente pela noite…”

Devemos admitir que mais de meio século se passou, mas o demônio que perseguiu Sylvia permanece à solta, estimulando várias fontes de maldade em torno – e dentro – das mulheres.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal curitibano Rascunho. Pode ser lido também aqui)