Turismo na FLIP

Amigos, escrevo-lhes de Belém, onde participo do congresso internacional de literatura comparada (Abralic). Não estou na Flip, portanto – mas o Turismo foi para lá. E um pouco dele (e da história de sua criação) pode ser visto neste vídeo, preparado pela Petrobras, patrocinadora do projeto. Façam uma boa viagem!

 

Turismo na Letra Freudiana – amanhã!

ESCOLA  LETRA FREUDIANA

 

 

                       PSICANÁLISE E TEXTO

        “ Turismo para cegos – o jogo das aparências ”

                   Apresentação: Tércia Montenegro*           

 

                                 Sábado: 27.06.15

                                         Horário: 10:00h

                                   Av.Santos Dumont 2626

                                    Plaza Tower-sala de reuniões

 

              * Escritora.Autora do romance recém lançado “Turismo para cegos”

Karen e Conrad

Passei muito tempo para terminar a biografia do Conrad – e não somente porque o final do semestre me atacou de inúmeras formas (a maioria delas, desagradáveis). O principal motivo foi o impulso de jogar longe o livro a cada vez que a autora, Jessie Conrad, referia-se ao biografado – seu marido – como “meu amo e senhor”. Em cada ocasião, ao apanhar o volume que tinha aterrissado num canto do tapete ou, numa parábola desajeitada, caíra batendo na quina da estante, eu dizia a mim mesma que era preciso perdoar tal linguagem por causa do século em que se passava, quando as mulheres mal sonhavam em ter direitos etc. Logo em seguida, porém, lembrava que afinal Conrad não era um autor medieval, muito pelo contrário – e sua esposa, de escrita tão lúcida em todos os outros momentos, estava longe de ser uma pobre imbecil que ele tivesse pego como escrava… embora fosse exatamente assim que ela agia! O problema não se concentrava nas palavras de Jessie; as palavras eram um reflexo, apenas. Sua submissão a um homem irascível, sujeito a ataques de irritabilidade e absurdamente egoísta chega, no final do livro, a alcançar um tipo de orgulho, quando Conrad morre. Afinal, a esposa tinha sido a “única pessoa a suportá-lo”, tinha “cumprido bem sua missão” – como se o casamento se resumisse a um tipo de emprego permanente: servir a um indivíduo, cozinhando para ele, cuidando de seus achaques, servindo de datilógrafa e matriz para a sua descendência, e ainda companheira de viagens e compreensiva ouvinte de tantos problemas. Em troca, Jessie se vangloriava de ter ajudado a criar um gênio – e o horror dessa constatação me deixa estupefata! Pois até hoje, se alguém quiser apostar, ainda é possível encontrar mulheres assim, vaidosamente subjugadas – e o pior é que elas não são necessariamente estúpidas, isentas de raciocínio. O que se passa, meu Deus, para que elas esqueçam a individualidade em nome de um sacrifício que denominam investimento no outro? Não me digam que é amor; ou melhor, talvez seja amor, sim – mas esse amor vendido socialmente, através dos modelos repetidos de sensualidade e obediência que rondam as mulheres por toda a vida, fazendo com que elas considerem o cúmulo do elogio se um homem as pede em casamento, mesmo que isso signifique que elas não terão mais tempo para as viagens ou os estudos que tanto quiseram fazer. Por que será que a simples ideia de que o outro está pensando nelas parece a essas mulheres algo mais importante do que o fato de que elas podem – e devem – pensar em si mesmas? Em termos narrativos, é como se todas estivessem conformadas ao papel secundário, felizes por terem encontrado uma sombra onde se esconder. Um esquecimento que me parece fatal é esse, de que em cada vida só existe um protagonista, e esse não pode ser senão aquele mesmo que vive, que respira por conta própria etc.

Mas, apesar dos pesares, a tal biografia serviu para me instruir em alguns pontos. A partir dela aprendi sobre a amizade de Conrad com Ford Madox Ford (que, segundo Jessie, era um grandessíssimo machista, então imaginem o nível do sujeito). Os dois chegaram a escrever livros juntos e, previsivelmente, separaram-se com várias rusgas, embora anos depois Ford tenha escrito o seu Joseph Conrad. A Personal Remembrance, elogiando (e expondo) várias técnicas literárias do colega. E, também, foi interessante usá-la como introdução para a leitura do Coração das trevas, que é meu livro de agora – e, não por acaso, está me lembrando muitíssimo a Karen Blixen! Aí está: chego à conclusão de que Karen foi um Conrad, tanto nas experiências de aventura quanto na destreza artística. Mas por que isso ainda parece estranho e raro – que as mulheres alcancem o ponto máximo? Pena desse mundo, que ainda precisa (e tanto!) evoluir.

Reler antes de dormir

A todo instante, estão me propondo – com seduções, ameaças ou chantagens – o desvio das minhas prioridades. Cada assunto desejaria o monopólio, a dedicação absoluta. Mas, se penso na literatura, nas artes e em tudo o que me faz feliz, digo, ao apelo intruso: “Espere um pouco. Sente neste tamborete. O seu lugar não é num sofá confortável. Quando muito, eu lhe darei alguma atenção, de pé, e sempre de um jeito apressado”. Só o amor justifica, para mim, a lentidão.

Se durante as horas “úteis” do dia ajusto a rotina conforme o termômetro alheio, depois do pôr do sol (que em Fortaleza é bem veloz), o foco muda. Meu ritmo se contamina dessa lerdeza de quem busca as minúcias: faço uma pequena refeição, brinco com os gatos, às vezes saio para caminhar (nada de cooper!). Estou me preparando para logo mais, para essa noite que traz uma hora reservada às releituras. Nesses momentos, pouco antes de dormir, volto aos textos que se transformaram em amor permanente, na minha trajetória de leitora.

Na cabeceira, conforme eu esteja com uma disposição reflexiva, aventureira ou descontraída, me esperam Cortázar, Quiroga, Cervantes, Tchékhov, Nabokov. Se me sinto introspectiva, resgato Katherine Mansfield, Sophia de Mello Breyner, Cecília Meireles. E há inúmeros outros, numa estante inteiramente composta de livros lidos e adorados, que aprendi a pegar como quem se debruça sobre um álbum de retratos: conheço sua aparência, então as páginas não se viram com pressa ou mistério – mas ganharam a importância dos afetos reconhecíveis, o bem-estar dessa espécie de retorno.

Não importa que as releituras sejam fragmentadas. Aliás, eu diria que é melhor que assim aconteçam. Ontem, por exemplo, eu queria apenas retomar certo parágrafo de Amrik, o meu preferido da Ana Miranda – e na semana anterior bastava uma estrofe do Neruda, para me sossegar a memória e o prazer. Se um livro no contato inicial seduz pela surpresa, mais adiante continuará seduzindo justamente pela característica contrária: tornou-se íntimo como uma pessoa, com suas feições estáveis.

A releitura é comum entre crianças, que costumam ter suas histórias preferidas, repassadas até a memorização. Mas na vida adulta quase todo mundo perde a disponibilidade para voltar a velhos textos; é óbvio que se prefira a postura “funcional”, de multiplicar leituras e assuntos, devorando-os apenas uma única vez. Afinal, inúmeras exigências impõem a quantidade de informações como aspecto superior à qualidade, sobretudo em época de mídias eletrônicas tão rápidas que se tornam impalpáveis. Entretanto, quantas vezes não paramos, saudosos diante de uma estante com obras que já lemos? Não nos conformamos com aquele único contato, queremos de novo aquela voz, aquele sabor… mas quando? Nas próximas férias ou na aposentadoria?

Eu decidi, com lentidão amorosa, não esperar por nada disso. E toda noite, suspendendo as prioridades que o mundo tenta me impor, releio livros como quem visita sua família. Posso gastar o dia conhecendo coisas novas e interessantes – mas na hora do boa-noite, quero o aconchego de uma arte conhecida e insuperável. Isso me garante um sono pacífico.

Tércia Montenegro (crônica também publicada hoje no blog da Companhia das Letras)

 

 

 

 

 

 

 

 

Fishman

A arte é uma coisa híbrida. Respira, desdobra-se por vários ambientes. Metamorfoseia-se, troca de corpo, arrisca os limites. Instaura embates.

Um dos atores é fishman: tem corpo de homem, mas não foi sempre assim – e traz membranas entre os dedos, como a personagem de André Breton, Nadja. O surrealismo se anuncia nos toques mínimos: luzes, desencontros, (im)possibilidades. Ao mesmo tempo, o cenário é poético, impressionista como uma tela de Monet. E há as bonecas russas, símbolos ambíguos de uma gestação fálica.

O outro ator também mergulha os pés na água e – sabe-se – convulsiona por dentro, igualmente: é desdobrável, mutante como cada um de nós. Não existe ser, só existe estar sendo. Humano é todo esforço de palavra, todo gesto de elevação rumo a novos planetas, novas peles. Cada abraço vira peixe e desliza, fugidio. O que eu não capturo é o que me conquista – definitivamente.

  • Parabéns ao grupo Bagaceira de Teatro, por seus 15 anos em cena! Fishman é uma comemoração para todos nós. Quem ainda não viu, corra para o teatro do Dragão do Mar, às 20h – só até o próximo domingo!