Para amar Manaus

Aproveitando o final das férias, fui à Amazônia – mas o sonho de conhecer o “Brasil profundo” teve de ser adiado por questões logísticas e éticas. Dentre estas últimas, ficou evidente que eu não poderia participar de um passeio que envolvesse pesca a piranhas, nado com botos ou focagem noturna de jacarés. Parece que a maioria dos turistas se diverte exotizando um bicho, sem pensar na intrusão que representa àquele habitat – por isso, foi um pouco difícil encontrar uma agência (fui a quatro) que simplesmente me oferecesse um trajeto de barco para ver o encontro das águas e voltar.

Quanto às questões logísticas, dormir na selva requer uma programação bem mais detalhada – e com mais tempo e dinheiro – do que previ. O ideal é sair direto do aeroporto para o traslado, sem ficar zanzando por Manaus. Entretanto, como eu não conhecia a cidade, achei interessante passear pelo centro histórico e também pela Ponta Negra, com uma esticada até o Museu do Seringal. Há coisas que lemos nos livros de História que só vão fazer sentido in locu – cada vez fico mais convicta.

Outros museus que visitei foram: o Palacete Imperial (que recomendo pela maior coleção numismática do Brasil) e o Museu Amazonense, infelizmente quase oco (a não ser por algumas peças indígenas e uma sala informativa sobre tecnologia lítica). Mas o melhor é o Musa, que fica no Jardim Botânico – um belo pretexto para ir até o lugar, embora a chuva forte do último dia tenha me contido. Assim, deixei de subir os 42 metros de torre para apreciar a floresta vista de cima. Mas, para ser bem sincera, ainda que eu tivesse joelhos fortes e tempo de sobra, talvez preferisse a hierarquia natural. As árvores e os pássaros devem permanecer no alto.

Dessa viagem, fica a lição – já tão repetida, porém nunca o bastante – de que a natureza é mesmo curativa. Passar dez minutos andando numa trilha, ou descansando diante de águas, ouvindo barulhos não-eletrônicos, equivale a uma noite de repouso. Ou talvez mais.

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O regresso ao contínuo

    Em 2017, o centenário de nascimento de Algirdas Julius Greimas – linguista lituano grandemente responsável pelos avanços na área da semiótica – trouxe várias comemorações pelo mundo acadêmico. Os estudos dessa linha greimasiana costumam ser temidos por sua complexidade, mas também trazem ao pesquisador experiências de reflexão tão arrebatadoras que só podem ser comparáveis a determinados momentos estéticos. O próprio título de minha seção, Tudo é narrativa, foi inspirado nessa proposta semiótica. Óbvio que não pretendo agora enveredar pelo tema teórico da construção do sentido – mas, em homenagem ao autor de Semiótica das Paixões, gostaria de fazer volteios em torno de um assunto que o leitor pode inclusive considerar em sua dimensão mística: o par contínuo-descontínuo.

   Simplificando estes termos dentro de uma estrutura textual, o contínuo é a continuação, a rotina; o descontínuo é a parada, ou o acontecimento. Assim, qualquer enunciado modula estas instâncias, à medida que vai trabalhando com fatos dados ou novos. Toda cadeia processual possui alternância, e é a própria tensão entre tais dicotomias que vai gerando o andamento do texto.

       Se saímos, porém, da perspectiva de uma semiótica tensiva (mais explorada por outros teóricos, sobretudo por Claude Zilberberg), encontramos uma distinta aplicação para esta ideia oposicional. O descontínuo seria tudo o que está mergulhado na, por assim dizer, semiosfera. O princípio da comunicação é que ela aconteça por fragmentos. O fato de precisarmos falar a respeito de algo que estamos pensando, por exemplo, demonstra como existe uma separação entre a nossa mente e a de outra pessoa. Cada indivíduo é mera parte da humanidade, que se encontra em estado de dispersão – por isso, parece primordial que nos comuniquemos. Essa troca só é possível porque existe a separação, a diversidade. Se tudo fosse reduzido ao uno, as necessidades de transferência ou diálogo ficariam subitamente esgotadas.

      Faço uma pausa para o leitor respirar, contando uma ilustrativa experiência pessoal.

      Já faz muito tempo sinto uma espécie de chamado para uma vida mais primitiva, algo que nomeio como tentação de ser hippie. Insistentemente cogito passar um longo período sem tecnologia, de maneira mais ou menos selvagem, em contato íntimo com a natureza. Como jamais arrisquei efetivamente essa mudança, contento-me com pequenos retiros rústicos, para me desintoxicar. Foi assim que há cerca de um mês passei um final de semana numa praia ainda pouco conhecida, a quatro horas de Fortaleza. A paisagem, com dunas belíssimas, era um tipo de representação do infinito – e andar sob as estrelas parecia um ensinamento ancestral: estamos aqui por um instante apenas, mas isso não é trágico. Logo estaremos de novo integrados ao contínuo universal. Sem desejos, anseios ou fragmentos.

    Tudo muito espiritualizado e perfeito – não fosse pela presença de outras pessoas falando, quebrando o momento. Eu queria apenas ser esmagada pelo silêncio, deixar que ele me preenchesse, mas duas senhoras atrás de mim conversavam. Elogiavam um conjunto de panelas em promoção numa certa loja.

     Escutar aquele comentário me fez entender como a comunicação pode ser um defeito.

    Há momentos em que fazer uso da língua se torna um distúrbio, uma ação postiça. Toda mensagem é uma forma de romper-se, de evidenciar as fraturas: de mim para você, sempre haverá desentendimentos, elementos alheios incontornáveis.

    Esse é o descontínuo, convulsionando. E ele convulsiona o tempo inteiro, no espaço cultural permeado por signos – a tal semiosfera.

    Entretanto, temos uma potencialidade de transcendência, uma integração holística possível – o regresso ao contínuo, quando nada mais for separado, tempo e espaço e corpos: tudo inexiste porque chegou a uma totalidade tão extrema que qualquer coisa (inclusive a linguagem) se torna supérflua, uma futilidade que finalmente se ultrapassou.

   A própria língua deixaria de existir porque tudo nela – assim como no mundo – funciona na base de contrastes. Se digo (na tentativa de explicar uma vida-além) que ela seria um estado perene de paz, aí já existem oposições, pois não se entende o conceito de paz a não ser pondo-o em contraste com o de guerra; a ideia de estado obriga a pensar na ausência de estado, o perene evoca o perecível. Assim, cada palavra ou partícula existe somente por dialogar com outra – e este mecanismo, por si, é um sintoma da imperfeição, das partes que vão se dinamizando e nunca chegam à unidade completa. Chegar a essa imobilidade seria o fim das contradições e do simbólico. Seria a morte, por assim dizer.

     Nesse momento, penso que a frase do sábio “Só sei que nada sei” não parece uma lição de humildade, mas, ao contrário, uma afirmação iluminada (e até um pouco envaidecida): saber o nada é saber o tudo. É ter acesso à perfeição. Quando não existem divisões, compreender-se dentro da continuidade é contemplar o divino. Ou melhor, é dissolver-se nele, deixar de ser matéria, átomo. Retornar ao contínuo.

Tércia Montenegro (texto publicado também aqui, no jornal Rascunho)

O viajar impreciso – Hamburg

Toda viagem reverbera, constrói memórias, referências e outras âncoras das quais partimos para entender a nós mesmos. Eu sempre gosto de voltar aos lugares onde estive (e continuo estando, numa diferente dimensão) – por isso, as fotos, os objetos e diários de bordo que recupero constantemente. Mas também sinto a necessidade de construir viagens futuras, de começar a vivê-las através dos planos. Por mais que elas possam parecer impossíveis por alguma razão prática do momento, não ousar sequer imaginá-las atingiria um nível absurdo de autocensura. Portanto, resolvi inaugurar esta série de postagens sob o título “O viajar impreciso”. Não tenho qualquer estimativa de data para conhecer estes locais que elejo (daí a imprecisão), mas formular o desejo já é uma forma de início.

O primeiro destino da lista é Hamburgo – por causa de sua Filarmônica. Não digo mais nada. Apenas perco o fôlego.

Die Elbphillarmonie in Hamburg

 

 

Para saber mais, recomendo este link.

Laila e Pierre

Foi com grande alegria que ontem – na abertura da exposição de artes visuais promovida pelo CLAV do IFCE – soube que minha fotografia recebeu o primeiro prêmio.

Laila e Pierre tem uma importante história pessoal, conectada com a do meu livro, Turismo para cegos – e isso não só pela lembrança do casal, feito de pedra e escuridão, mas também (e talvez principalmente, hoje) pela conexão com a Itália. Ela foi registrada em Veneza, durante a Bienal de 2015.

Tudo é narrativa. Tudo é imagem.

Abaixo, cenas do evento, sob o clique de Luiz Alves:

Em tempo: a exposição pode ser visitada até o final deste mês, no Museu do Centro Cultural Dragão do Mar.

Pelo Gavião

Ontem eu realmente precisava de um passeio ecológico, que me tirasse da sensação de fim de mundo e me jogasse no meio da mata. O projeto Percursos Urbanos, que existe há 14 anos, capitaneado pelo amigo Júlio Lira, foi a salvação. Leonardo Jales – do Movimento Pró-Árvore, levou-nos às margens do açude Gavião, e de lá saímos numa trilha pela caatinga. Entre muitas reflexões sobre temas hídricos, climáticos e edáficos, tive o meu primeiro aprendizado em reconhecimento botânico. O belo pau-ferro, o aguapé com sua flor-de-um-dia, as ninfeias, o torém… era a experiência de uma aula em que as folhas não estavam num livro, mas na própria natureza. Foi assim que descobri, por exemplo, a razão de certa paisagem do México me parecer tão familiar: o angico e a jurema preta, dentre outras espécies, existem igualmente no sertão de Jalisco! Também soube da impressionante agressividade vegetal da viuvinha e da castanhola, e aprendi que o cerrado povoa o litoral de Fortaleza, vindo do Piauí. Leonardo ainda comentou sobre o tingui, provavelmente a planta mais antiga de que se tem notícia (um estudo genético estimou sua origem em mais de 35 milhões de anos), e o fato de ela ser nativa da caatinga, o que faz com que a ancestralidade desse bioma seja mais remota que a da Mata Atlântica e a da Amazônia.

A lição – além de abrir a consciência para tantas questões ambientais – ensinou a poética da nossa região, fez sonhar com passeios de caiaque e (pelo olhar atento do Júlio) apontou a beleza xamânica no voo das andorinhas. Como se não bastasse, eu lembrei que uma trilha na mata é excelente forma de meditação. Existem silêncios e grandezas que só as árvores indicam.