Reviajar – Chez moi

Há exatamente um ano voltei para casa. Dei por encerrada minha temporada belga e tive, desde então, a experiência de retomar a vida que escolhi levar. Creio que jamais teria chegado a refletir sobre tantos assuntos (rotina, arte, feminismo, autoestima) num nível de tal profundidade – e poder de mudança – sem passar pelo deslocamento do exílio. Pois meu ciclo simbólico parece agora chegar a uma espécie de resumo íntimo: a distância me permite enfim desejar novos projetos para a pesquisa que inspirou meu pós-doc. É hora de olhar para trás, vendo o que sobressai da memória, o que de fato importa. Nada melhor para inaugurar este momento do que um retorno ao espaço doméstico – o lugar que habitei durante 6 meses, em frente à igreja de Saint Denis, em Liège. Estas fotografias têm um sentido muito particular: por um lado, me fazem sorrir, lembrando o inofensivo fantasma de um vestido ancestral, suspenso sobre uma misteriosa escada; por outro, recordam que meu verdadeiro quarto, em Fortaleza, nunca precisou de edredons nem lareiras (felizmente!).

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Viajar com Tchékhov

Tive o prazer de inaugurar as leituras de 2017 com Um bom par de sapatos e um caderno de anotações, coletânea de fragmentos escrita por Tchékhov sobre uma viagem que ele realizou a Sacalina, ilha que recebia presos deportados. A motivação para a experiência foi, em grande parte, conduzida pelo “lado médico” do autor – mas a observação sensível, que transforma o visto em outra coisa, está o tempo inteiro neste livro, organizado por Piero Brunello. É o que prova que um escritor nunca deixa sua tentação estética, por mais que profissionalmente incursione por outros territórios.

O livro surgiu num momento providencial da minha vida, quando eu refletia (e continuo nesse processo) a respeito de comodismo versus aventura. O risco de cair no conforto da primeira opção quase me fez negar o gosto que sempre tive pelas explorações imprevistas. De modo mais direto: sobre as difíceis viagens, não posso me queixar de ter já sofrido cansaço, se descubro, por exemplo, que Tchékhov saiu de Moscou em 21 de abril de 1890, para chegar a Sacalina somente em 11 de julho. Partiu de lá em 13 de outubro, voltando para casa apenas em 9 de dezembro. Além de todo o desgaste do tempo de deslocamento, enfrentou condições adversas até mesmo para um resistente russo: teve de andar em meio a lama e frio, usando botas de feltro, e em sua rotina com os prisioneiros só encontrou – como podemos imaginar – cenas degradantes de imundície e embotamento ou desespero.

As lições não param neste ponto. O desejo de observar, inspirado por uma pesquisa, num “elogio à experiência direta”, foi o que levou Tchékhov a sua expedição – que, dentre muitos ensinamentos, trouxe também a humildade de rever expectativas: perceber como relatos alheios ou leituras às vezes são completamente equivocados.

Um dos seus princípios, válido para qualquer coisa, não somente para viagens, era não desanimar: “não se deixar vencer pelas dificuldades iniciais e pelo medo do imprevisto” (p.39) E o outro: não planejar demais, sob pena de se privar do prazer – e da sabedoria – do Acaso. Um bom par de sapatos é um livro essencial sobre coragem. Do tipo que faz a gente se jogar sem paraquedas, para cair bem em cima do desejo.

Reviajar – Ghent

Há exatamente um ano, eu partia do Brasil para viver um semestre em pesquisa de pós-doc, na Bélgica. Essa experiência, que eu previa rica em termos intelectuais e artísticos, acabou se revelando muito mais profunda no quesito pessoal. Foi um momento de virada, posso dizer: mas não é que me transformei – acho que aprendi a me conhecer com um tipo de consciência que apenas o isolamento e as diferenças culturais permitem ativar. Apesar disso, ainda não me dei conta de todos os níveis de observação que atingi durante e depois dessa viagem: em várias ocasiões me pego refletindo sobre os contrastes entre o que vejo agora aqui, em Fortaleza, no meu hábito, e o que vi lá.

Precisei de outro semestre inteiro de repouso dentro de uma rotina para me decidir a resgatar as fotos que fiz na Bélgica, os passeios, as anotações, os catálogos de museus que trouxe, as ideias. Tudo isso se transforma em matéria-prima para um novo romance – e, para além disso, é uma forma de maturar os efeitos. Já se instalou uma distância, um tempo irreversível: posso usar esse caminho para fazer um retorno imaginário. Você, leitor(a) deste blog, sinta-se convidado(a) a me acompanhar nesta série de postagens, que não terão uma periodicidade fixa – mas devem acabar apenas quando se esgotarem os temas relativos a essa estada. Assim, à medida que reviajo por situações e paisagens, elejo o que de mais importante ficou. Se a lembrança resistiu até aqui, creio, é porque merece o espaço, as palavras.

Começo o ciclo pelo finalzinho. Em dezembro de 2015 eu estava em Ghent, num dia de passeio com amigos (também estrangeiros e pesquisadores na Université de Liège). O grande objetivo nessa cidade belga era – claro – o Retábulo do Cordeiro Místico. A obra-prima de van Eyck está na catedral de Saint Bavo, e, sendo completamente sincera, a catedral me emocionou bem mais que o quadro. Entrar numa sala cheia de turistas para contemplar uma obra imensa por trás de um espesso de vidro de segurança nunca provoca perfeitas epifanias… mas a questão não era apenas essa. Se o(a) leitor(a) visita, por exemplo, um site que traga boas reproduções do retábulo (aproveito para indicar um aqui),  consegue perceber detalhes que, ao vivo, são até mais difíceis de notar, pelas dimensões da obra e pela posição que o espectador é obrigado a assumir. Não é o mesmo que encontrar um Vermeer ou um Rembrandt no Rjiskmuseum, por exemplo: aí, sim, a gente percebe que a visita foi um privilégio extremo, porque aquelas cores são tão diferentes de qualquer reprodução em livro, e a textura da tela, com suas ranhuras, suas crepitações, suas espessuras de tinta, tudo nos conjuga tanto com o gesto criador do quadro, que não há substituto possível para a experiência.

A catedral de Saint Bavo, porém, trouxe-me – na sua cripta – a beleza de afrescos do século X. A arte medieval sempre me põe emocionada, e ainda mais quando se apresenta assim, desgastada, incompleta – uma sugestão do esplendor ingênuo que um dia teve:

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A visita ao Castelo de Gravensteen também foi um anticlímax. Não chego a me arrepender, porque, afinal, eu precisava conhecer o único castelo medieval preservado na região de Flandres. Mas foi ver um exemplar dessa arquitetura para servir de lição, e acho que pelo resto da vida não vou querer de novo entrar em calabouços, masmorras ou câmaras de tortura.

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Finalmente, para concluir o passeio da maneira mais bela possível, Ghent com sua iluminação noturna trouxe o melhor espetáculo: um jogo de volumes, reflexos e sombras que faz a gente ter vontade de apenas caminhar – como se caminhasse dentro de uma obra de arte.

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Da Bélgica e do Brasil

Agora que a minha temporada de pós-doc vai se encerrando, é tempo de fazer um balanço, não somente profissional – proveitosíssimo – mas também particular. Passar 6 meses na Bélgica foi uma escolha que envolveu ritmos e circunstâncias quase milagrosas para mim: tudo se ajustou de uma forma incrível. Não digo que todos os dias foram perfeitos; houve muita saudade (dos gatos, dos amigos e familiares, do sol, da língua portuguesa), mas até os momentos difíceis foram importantes, para que eu soubesse valorizar o que está em jogo na vida. As conclusões foram inúmeras, e tive tempo de aprofundar ideias em diversas áreas; fiz não somente um, mas três cadernos de viagem! Essas anotações eu vou compartilhar com as pessoas queridas, que mal posso esperar para abraçar de novo. Por enquanto, neste hiato entre a despedida e o regresso, revejo locais que, de inéditos, passaram a ser afetivos. Afinal, a Bélgica tornou-se um pouco o meu país; há coisas que vou levar daqui em diante como parte do que sou/serei, em direção às próximas experiências.

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Charleroi: tudo é fotografia

Para finalizar 2015, que viu o seu segundo semestre tão dedicado à fotografia (objeto de minha pesquisa de pós-doc), visitei o Musée da Photographie, em Charleroi. Além dos meus autores idolatrados, encontrei no acervo permanente vários nomes que não conhecia, e extremamente interessantes. Destaco, por exemplo, a obra da finlandesa Susanna Majuri, do tcheco Pavel Banka, da mexicana Erika Harrsch…

Susanna Majuri (Mykines – 2007)

Pavel Banka (da série Infinity)

 

Erika Harrsch

O espaço do museu é um prazer à parte, com seu maravilhoso jardim, sua biblioteca aconchegante e a arquitetura, que conserva a atmosfera da época em que o local foi um convento:

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Os autores nacionais também preenchem uma boa lista: Yvan Weber, Aurélie Fayt, Michel Papeliers, Colin Delfosse, Bruno Arnold & Yves Vranken, Victor Guidalevitch são belgas que me farão sair à procura de mais. E agora há pouco, neste primeiro de janeiro, outra artista se acrescentou: Brigitte Grignet, cuja exposição está na galeria Satellite, do cinema Churchill (onde vi Béliers – um filme islandês lindo!). Dela é a imagem abaixo, que subitamente me levou à Beira-Mar de Fortaleza:

Brigitte Grignet

Aprender a ver com a pintura

Entre um intervalo e outro da pesquisa e das aulas na ULg, planejo pequenas visitas a Flandres. E quando penso em Bruges, por exemplo, inevitavelmente sou levada a Marguerite Yourcenar (por sua Obra em negro). Então, a preparação bibliográfica para estas paisagens envolveu obrigatoriamente um livro, encontrado aqui na Biblioteca des Chiroux, Marguerite Yourcenar – regards sur la Belgique. É dele que extraio a seguinte preciosa passagem, sobre como aprendemos a ver com a pintura:

“Quand on a vu un paysage d’hiver de Brueghel et qu’on se promène ensuite dans un bois à la fin de l’hiver, le sol couvert de neige et les branches encore mortes en apparence toutes noires que ce bois soit situe en Pologne, dans les Flandres d’aujourd’hui ou dans l’État du Massachussetts, on reconnaît mieux sa beauté, on s’aperçoit mieux de la longuer des ombres, de cette espèce de dureté craquelante su sol, de toutes ces choses que nous sentons, qu’un enfant qui court dans les bois sent, éprouve en quelque sorte, sans avoir à les nommer, sans avoir à les indiquer par des termes précis.” (Marguerite Yourcenar: entretiens avec des Belges, p.97)