Viver junto

O “tema do dia” hoje girou em torno da rotina coletiva – tanto pela reportagem de capa do Vida & Arte (que trazia um pouco sobre as casas de alguns artistas cearenses dispostos a se integrar numa existência de bom convívio entre amigos e vizinhos) quanto pelo filme Et si on vivait tous ensemble, que pude ver, numa sessão da hora do almoço (e por que as boas películas sempre ficam esmagadas nos horários infames, enquanto há grande oferta de horários para os filmes de ação-massificada?).

O filme é divertido e comovente. Ao propor uma vida coletiva entre parceiros idosos que preferem a companhia uns dos outros à frieza profissional e degradante num asilo, a história posiciona o tema da solidão no que ele tem de mais profundo, reafirmando uma ideia que eu já trazia comigo, a respeito da identidade agregada à geração. Apesar do inevitável (e, em muitos casos, sadio) convívio que podemos ter com pessoas de faixas etárias diferentes, em geral sentimos que o nosso pertencimento se acopla à realidade dos nossos amigos – muito mais do que à vida de nossos pais, por exemplo – porque somos da mesma geração. Daí porque a sensação de velhice se inicia quando os nossos companheiros começam a morrer; é o marco temporal se aproximando. E, numa perspectiva bem racional da situação a que todos estamos condenados, talvez seja eficiente pensar que a melhor companhia para os velhos são outros velhos. Juntos, eles não devem se sentir tão pessimistas ou frágeis quanto na presença de jovens. Estes jamais poderão compreendê-los, pelo simples fato de que a experiência de uma longa idade ainda lhes é impossível, física e emocionalmente.

Felizes e sábios, os que percebem a necessária riqueza dos amigos. Mesmo que não vivamos todos juntos (por enquanto), a presença deles é a melhor maneira para escapar de si.

O espetáculo da morte

            De vez em quando reflito sobre esse tipo de mercado que justifica tantas iniciativas estranhas, desde funerais luxuosos (com salões da memória virtuais e videolápides) até crimes que geram lucro: autobiografias de assassinos e filmes, além do comércio – ilegal, mas corriqueiro – de objetos macabros transformados em relíquias. É fato que a morte virou tema de mistério e tabu, e talvez isso estimule o prazer ou a necessidade de esmiuçá-la. Na modernidade, perdemos o direito de morrer em casa; saímos do ambiente afetivo para um território de neutralidade hospitalar – e, como consequência, ficamos entregues a uma transição cada vez mais desconhecida e solitária. Daí porque (é uma hipótese) alguns se entregam a curiosidades mórbidas, fixações trágicas, num anseio por investigar um assunto que parece fugidio. Em determinado lugar está o sujeito que lucra com isso, vendo na morte – dos outros, claro – um filão inesgotável.

            Mas pode-se ter um aspecto positivo nessa exploração. Alguns argumentam que exposições dedicadas ao tema (como a que ocorreu em 2008, em Dresden) desmitificam a morte, tornando-a mais conhecida e, portanto, menos temível (será?). Outros continuam achando essas atitudes polêmicas, como no caso das múmias colocadas em museus. Qual o tratamento mais adequado a elas – enquanto objeto de contemplação ou interesse científico? Há quem justifique o seu exame para fins unicamente intelectuais, com as múmias acessíveis somente a egiptólogos e demais pesquisadores de apuro arqueológico. O visitante comum teria de inibir sua curiosidade, pois colocar um cadáver (por mais remoto que seja) como “peça de exibição” seria obsceno.

A sagração do corpo morto é assunto fértil em muitas sociedades, enquanto outras simplesmente ignoram o potencial de respeito que um defunto poderia inspirar. Também épocas específicas, de grandes pestes ou catástrofes, veem a urgência falar mais alto que a dignidade: criam-se valas comuns, enterros apressados, cremações coletivas como opção higiênica (pois o corpo do parente morto, por mais chorado que seja, depois de um tempo vira peste biológica para os viventes). E surgem os sepultamentos anônimos, prática hoje usual na Suíça e na Alemanha. As cinzas são dispersas em florestas, a saudade dissolvida na terra – sem necessidade de criar monumentos, jazigos em que os restos se aprisionam como em jaulas, conservando uma suposta identidade que a família deve, periodicamente, prantear.

Mas a necessidade da memória talvez seja mais forte que a ideia de liberdade. Se para mim é poético pensar em mortos dissolvidos em pó pela atmosfera, sei que muitos se revoltam com a perspectiva de perder o último resquício, a ossatura que é testemunho de uma vivência. Os esforços para deixar um rastro servem, afinal, à mais humana das características: a vaidade.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

Para fugir da contemporaneidade

Volto à questão da arte brasileira, agora para detalhar meu desagrado com duas obras específicas, na exposição da Unifor. Refiro-me às instalações de Tunga: com vidro, chumbo, correntes e uma esponja enegrecida – tudo num arranjo caótico, naquele aspecto de fraude que perpassa tantas iniciativas contemporâneas (parece que estamos num vale-tudo em que um simples espasmo já é considerado gesto criativo). Pois bem: após uma pesquisa, constatei que o citado artista tem reconhecimento internacional, prestígio etc, já morou em vários países e é filho do poeta Gerardo Mello Mourão. Esse último fato foi o que mais me alertou, porque Mello Mourão (apesar das escolhas políticas que mancharam bastante sua imagem) era um bom poeta e um homem inteligente, o que torna bem provável que educasse os filhos num ambiente de fruição artística. As viagens de Tunga e suas experiências internacionais também devem ter contribuído para que ele desenvolvesse sensibilidades e aprendizados estéticos. Então, eu me pergunto: por que ele desperdiça o talento que provavelmente possui em obras bizarras, que precisam de explicações de curadoria para que o público emita um “ahhh, sim”? E não me refiro apenas às peças que estão na Unifor, mas a várias outras que integram uma galeria inteira em Inhotim. O que podemos dizer, por exemplo, de uma instalação denominada “Cooking Crystals Expanded”, constituída por um “emaranhado de cristais e frascos de urina suspensos por redes e fios”? E outra, que é feita de 11 metros de chumbo que formam uma trança para ser disposta num gramado? Tudo isso me parece iniciativa pobre para chocar os desatentos, coisa de vanguarda envelhecida mesmo. Perdi a vontade de visitar Inhotim só por saber que ali se privilegiam essas tais “tendências contemporâneas” – que, no fundo, continuam reverberando as crises de non sense da arte no início do século XX. Todo esse experimentalismo estéril me cansa; são convulsões tão insistentes que me fazem querer fugir de volta aos clássicos. Esses, sim, parecem ter sempre o que ensinar, em renovações permanentes de temas e apuro técnico.

Nice

Nice e Estrigas foto

Acabo de saber da morte de Nice, talentosíssima e tão querida em suas muitas delicadezas. Um dos momentos de maior aprendizado da minha vida foi quando pude conhecê-la e ao seu marido, Estrigas, na casa-museu do Mondubim.  Isso foi em 2010 – só agora reparo com espanto. Que Nice agora esteja com seus pincéis, bordados e flores  numa dimensão mais tranquila do que esta nossa!

Sobre veleiros e cataventos

Amigos, hoje, em homenagem ao aniversário de 287 de Fortaleza, saiu este meu texto no caderno especial do jornal O Povo. Cada convidado devia escolher um bairro da cidade como tema, e a mim coube o Mucuripe…

   Sobre veleiros e cataventos

Nesta direção, a paisagem ficou sufocada por prédios, e apenas sobre o mar é possível ver as nuvens. Mas pelo calçadão caminham os turistas, ou correm, desinteressados de natureza. Em ziguezague, desviam das pessoas que vendem chapéus e óculos, oferecem comida, quadros e esculturas. Há os que expõem aos gritos sua oferta e os que pedem esmola por cegueira, aleijão ou velhice. Em dez minutos chega-se ao final do trajeto, bem perto das barracas de peixe, onde as jangadas descansam à tarde.

O Mucuripe, antigamente, era sobretudo o farol: pintado em cores claras, com as ameias delicadas – tão diverso daqueles faróis dos livros ilustrados, que na infância eu associava a gigantes, ciclopes com seu olho varrendo a noite em fachos poderosos. Havia também o porto, como ainda hoje – com seus guindastes e marinheiros, e a linha férrea anunciada numa curva, pouco antes do painel feito por Estrigas. Mas agora o farol se arruinou, entregue à própria carcaça feito um bote encalhado, casco de bicho marítimo, agredido por sujeira e crime. O bairro se reduziu, limitou-se pelo medo.

Eu circulo entre os extremos: à direita, hotéis blindados, com leões-de-chácara estufando os coletes à prova de balas. Do outro lado – ah! Vejo corpos de cães ou de bêbados, pedras na arrebentação, estátuas de Martim e Iracema. Um vendedor passa com três cocos em cada mão, preparando-se para um boliche verde.

Neste trecho – com futebol na areia – a vida parece lenta e salgada. Cinco homens num bote seguem a onda rotineira; mais perto da margem, turistas se arriscam nos caiaques. As embarcações levam nomes poéticos, Pele Morena, Catolé, Atlântico, Garopinha – e algumas anunciam venda (quem quer morar no mar?). Mas é aqui onde a gente repousa, nesta simbiose de madeira das árvores e barcos, com grupos deitados à sombra feito acampassem, velas recolhidas como grandes cortinas enroladas.

A claridade incomoda, conforme se avança ao encontro das armadilhas: cestos, redes que anunciam os metros finais da orla – barracas onde ficam homens de facão ágil, compassando o ritmo da morte; uns escovam tábuas vermelhas, o rosto crestado como as ranhuras das mesas. Num canto, dispõem os peixes em camadas, parecendo trapos – mas são seres ainda, pelos olhos e lábios abismados. As balanças pesam as postas, levantam as carnes em leque, feixes moles. O dedo de um comprador investiga guelras, experimenta o róseo do frescor, o avesso das escamas. De uma tigela, tentáculos se expandem, imóveis. E ainda há os camarões, as ovas que se amontoam como peças de um jogo. Os pombos desfilam em pose de elegantes senhoras, e há uma pausa nos cheiros, na náusea de vísceras expostas, pois ali se vendem frutas: mangas, sapotis, limões.

Retorno o passo em direção à Capelinha de São Pedro, com a cruz inclinada no teto, tímida e bela, livre de extravagâncias como as estátuas brutais que se veem no pátio de outras igrejas. Agora o Mucuripe fica tranquilo, indiferente à ganância que o rodeia. Muitos metros para cima, entretanto, talvez um magnata estrangeiro tome whisky no seu terraço. Ele está diante de veleiros e cataventos, mas não repara. Não enxerga os ciclistas, os meninos do surfe ou os gatos cochilando como esculturas, à sombra. Ignora as jangadas, caídas num desmaio lateral, e a bomba d’água com que os pescadores se refrescam. Seus goles são tão rígidos que ele nem vai se dar conta se, em vez do mar, um dia houver uma serra, um edifício ou uma extensão completa de areia, à sua frente.

Tércia Montenegro