Manter a cena

“De repente a janela para a qual estava olhando se tornou branca em virtude de alguma coisa clara por trás. Afinal, então, alguém tinha entrado na sala de estar; alguém estava sentado na cadeira. (…) quem quer que fosse continuou lá dentro; por um golpe de sorte, tinha se acomodado, de maneira a lançar uma sombra de forma irregularmente triangular sobre o degrau. Isso alterava um pouco a composição do quadro. Era interessante. Podia ser útil. (…) Devíamos continuar a olhar sem relaxar por um segundo a intensidade da emoção, a determinação de não se deixar desencorajar, não se deixar ludibriar. Devíamos manter a cena presa – assim – num torno, não deixando que nada viesse estragá-la. Precisávamos, pensou, molhando o pincel deliberadamente, nos colocar na dimensão da experiência cotidiana, sentir simplesmente que isto é uma cadeira, que isto é uma mesa, e, contudo, ao mesmo tempo: É um milagre, é um êxtase.”

(Virginia Woolf. Ao farol)

Anúncios

Raridades

Nos últimos dois meses, raridades chegaram até mim – mas não por serem inacessíveis e distantes; ao contrário, estão felizmente próximas e cheias de afeto. São raras por sua qualidade, por um quesito de beleza inquestionável. Ser arrebatada por essas experiências é algo ao mesmo tempo tão surpreendente e imprescindível que não sei o que faria neste mundo sem elas. Cada vez mais o estado de encantamento me parece a saúde possível, a alternativa única. Então, entre abril e maio, tive a sorte de me encontrar com estas obras e seus brilhantes autores:
O cd Futuro e Memória, de Dalwton Moura e Rogério Franco, reunindo tantos artistas ótimos e com uma produção impecável, fotos do Luiz Alves, um primor!
O livro Perecível, do Felipe Camilo, com textos e fotos que têm o poder de impor um ritmo específico à leitura e manuseio. É preciso parar, folhear, ver – sentir e respirar.
show da Kátia Freitas no Cineteatro São Luís, que me fez lembrar como, doze anos atrás, eu punha “Coca-colas e iguarias” no máximo volume, várias vezes por dia, querendo romper a solidão de um velho apartamento onde dava os primeiros passos para a vida que sonhava ter – e hoje tenho.
As exposições do Sérvulo e em sua homenagem, no Dragão do Mar e no Museu da Indústria – e os presentes da querida Dodora Guimarães: os catálogos das Obras Públicas do Sérvulo e da expo Linha, a Luz, O Crato, ambos com fotografias de Gentil Barreira, tão perfeitos.
show dos Argonautas com a Mônica Salmaso, que foi uma coisa divina, na exata medida de tanto talento. E depois, fico horas repassando as canções do cd Jangada Azul, com ênfase nas faixas “Mareia”, “Ilação”, “Aqui nesta ilha” (sobre belíssimo texto de Joice Nunes) e “Plantaria” (a partir de poema de Alan Mendonça).
Quando me lembro de cada um desses privilégios, não tenho qualquer dúvida. Sou absolutamente feliz.

O elixir da feiura

Se toda leitura é um diálogo, eu me alegro por mensalmente obter, nas páginas do jornal Rascunho, um ótimo espaço de troca com José Castello. Sua coluna, A literatura na poltrona, é a primeira que leio – e deixo que as reflexões reverberem: faço um café, releio os parágrafos, penso um pouco, anoto ideias e recomendações de títulos. Como em qualquer boa conversa, o tempo é livre para fluir.

Na coluna de fevereiro, não foi diferente, embora talvez eu tenha demorado mais ainda, antes de passar para as outras páginas do jornal. É que tenho um fraco pelo tema; quando a conversa é sobre imagens, eu perco o horário – quero me debruçar infinitamente sobre o assunto, quero me concentrar nos detalhes.

“O veneno da beleza” foi inspirado no livro A arte do retrato, de Norbert Schneider. E em seu texto Castello nos faz percorrer algumas obras: aponta A rainha de Tunis, de Quentin Massys, mostra o Arnolfini celebrizado por van Eyck. Comenta um Rembrandt e um Rubens, nos leva a Botticelli e a Leonardo da Vinci. Eu acompanhei as imagens através das palavras, depois fui buscar as reproduções, lembrei-me de quase todas elas (exceto a do Rubens), voltei às palavras. E logo pensei no Eco da História da beleza e sua antípoda, a História da feiura, livros que obviamente Castello também conhece, mas mesmo assim eu gostaria de folheá-los, detendo-me em exemplos, e dizer: “Estes são os meus preferidos”. Pela simples troca. Pela sensação de conversa.

É verdade que o feio sempre me interessou – pelo seu caráter desviante, espantoso: por aquilo que nos leva a investigar a própria origem da repulsa. Será o medo (cristalizado culturalmente pelas associações do grotesco com o inferno, a doença, as dores) que nos faz fugir da feiura? Ou apenas um infame julgamento de valores, que estima a aparência como garantia do todo?

Na História da feiura, Umberto Eco observa que imagens repulsivas podem ter uso complexo, servindo para inspirar terror sacro, riso ou um tipo específico de fruição. A tradutibilidade da noção de harmonia (ou do seu oposto) é uma tarefa esquiva, pois o seu sentido muda conforme as épocas ou culturas. Mas talvez a percepção do que é feio sirva principalmente para investigar nossos critérios, pesos e medidas que levamos em conta na criação do juízo estético.

Se vejo uma Cruficação de Grünewald e me incomoda o aspecto de um cristo defunto, no seu esgar doloroso, tão humano e íntimo, o que isso diz sobre mim? Que entro em crise com representações divinas e carnais em simultâneo, que busco a ingenuidade de um mito asséptico? É provável – mas não somente. Também me perturbo com estas fotografias de múmias à página 65. Para além do terror das caveiras com seu eterno grito mudo, penso nessa ideia de exibir corpos à maneira de estátuas.

Lembro um debate que acompanhei na época em que a mostra Corpo humano chegou a São Paulo pela primeira vez: o processo de plastinação, que pereniza cadáveres para usá-los como exemplos anatômicos, fazia palpitar uma questão ética. Ali, em exibição, ainda estavam figuras humanas, pessoas que efetivamente percorreram a existência antes de serem transformadas em fósseis sintéticos. Até que ponto o sensacionalismo mórbido superava o interesse científico, no caso? A exposição era completamente legítima, ou o uso de corpos reais levantava um dilema insuperável?

Posso discutir esse impasse, mas nem por isso sou imune ao grotesco.  Colocaria no topo de uma lista arrepiante As tentações de Santo Antônio de Dalí, como um dos meus quadros favoritos – mas talvez aí o Surrealismo (pelo seu próprio nome, sua proposta de escapismo) me preserve de um conflito. Algo em mim assegura que este cavalo furioso, estes elefantes com pernas palafíticas jamais chegarão a concluir o golpe que preparam: o desfigurado está fora do real, na proteção de uma fantasia. Assim é grande parte da obra de Dalí: suas formas moles, imprevisíveis, que se esticam, inflam ou convulsionam em desertos inóspitos, estão limitadas pela proposta. É algo que Goya, por exemplo, nunca me deu. Muitos dos Caprichos do artista espanhol me reviram o estômago, e há gravuras da série Os desastres da guerra que são o puro horror elevado à condição de arte.

Mas voltemos à História da feiura. De algum modo o assunto poderia funcionar como uma espécie de poção revigorante, inspiradora – algo que não somente produz recusa, mas, ao contrário, pode ser prazeroso… ou necessário? Ao lado de um Lúcifer hermafrodita, Eco revela que sim. Eu havia parado nesta imagem graças à atração que tenho por gravuras medievais. Elas me trazem um respiro de inocência, um traço pueril, por medonhos que sejam os temas (e alguém já disse que, cronologicamente, somos nós os antigos, em comparação com aquela humanidade dos primórdios, numa vida ainda fresca sobre a Terra). Pois aqui encontro, no texto esclarecedor: “Os monstros terão, por fim, um enorme sucesso no universo heterodoxo dos alquimistas, onde simbolizarão os vários processos para se obter a Pedra Filosofal ou o Elixir da Longa Vida – e podemos supor que para os adeptos das artes ocultas eles não pareciam assustadores, mas maravilhosamente sedutores.” (p.125)

Atuando à maneira de venenos, filtros ou qualquer tipo de substância para o bem ou o mal, o jogo das aparências permanecerá instável. Basta ver Hieronymus Bosch, com suas telas cheias de figuras tão deformadas quanto misteriosas. Ou então Giuseppe Arcimboldo, que chega ao complexo de unir retrato e natureza-morta, num efeito de delicadeza e monstruosidade que lembra contemporâneas colagens, híbridos digitais (embora o autor tenha vivido há séculos). Quem quiser, pode mesmo arriscar-se por Johan Heinrich Füssli, que não produziu quadros feios – mas o efeito perturbador dos seus sedutores demônios, das suas mulheres que expandem um olhar de loucura, é quase supersticioso: traz a sensação de que a arte pode virar um feitiço.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa. Pode ser lido também aqui)

 

Varo, essa alquimista

Não é raro que artistas se sintam atraídos pelo mágico. Talvez o próprio processo de criar ainda conserve sua aura de mistério – malgrado o que afirmam certos críticos ou softwares. Caso contrário, se o encanto foi mesmo descartado para esta e as próximas gerações, consolemo-nos vendo o que se fazia tempos atrás. Podemos pensar em Artaud e seu teatro ritual, assimilado a uma cura xamânica, ou então lembraremos Rimbaud e a cabala, Borges e suas ligações com o ocultismo, Jodorowski ou Mutarelli e as práticas com o tarô… Muitos exemplos seriam apropriados – mas, como sempre tenho grande interesse no México, aproveito-me do tema.

Remedios Varo, embora nascida na Espanha, encontrou ali a sua morada e refúgio. Dizia que sua pintura, misteriosíssima e cheia de fabulações cosmogônicas, poderia ter sido criada em qualquer lugar – porém, duvidemos. O México, conforme bem assinalava André Breton, é um “lugar surrealista por excelência”.

Sua chegada ao país em 1941 foi reflexo da política de Lázaro Cárdenas, que na ocasião defendia o Direito de Asilo e se posicionava contrariamente às violações de liberdade praticadas tanto pelo imperialismo nazista quanto pelo franquismo. Por causa dessa atitude, uma importante corrente de refugiados – dentre os quais estavam grandes nomes da intelectualidade europeia – foram se encontrar no exílio. Surrealistas como Leonora Carrington, Wolfgang Paalen, Alice Rahon, Kati e José Horna, Benjamin Péret, César Moro e vários outros assim conviveram. A efervescência entre os estrangeiros fez com que eles se encastelassem numa espécie de gueto convivial – em que havia inclusive um combate aos “três emes”: Mexicanidade, Machismo e Muralismo, considerados muito poderosos na arte nativa.

Ao lado de Leonora especialmente, Remedios fez parcerias artísticas, como a elaboração de uma peça de teatro “irrepresentável”, devido à complexidade do cenário, ao número de personagens e sua peculiar caracterização. Mas as próprias autoras mostraram-se cientes disso, ao afirmar no início: “Esta obra foi feita somente para divertimento dos atores. O público é mero acidente”. Fragmentos da peça – que, ao que parece, foi feita ao modo surrealista do cadavre exquis, em que cada autora escrevia uma parte ignorando totalmente o que a outra escreveria – podem ser vistos no livro Cartas, sueños y otros textos de Remedios Varo, publicado pelas Ediciones Era.

Com Leonora, Remedios também preparava receitas enigmáticas, feitas para curar a insônia ou produzir sonhos eróticos. Ambas frequentavam livrarias ocultistas, o que sem dúvida contribuiu para a construção do universo mutante, misterioso e quase fantasmagórico de vários de seus quadros.

Entretanto, a sua principal postura foi a de criação solitária, concentrada na disciplina e jamais na vaidade de um possível aplauso. Em carta destinada ao primeiro marido, Gerardo Lizarraga, ela inclusive comentava: “Me custa muito entender a importância que parece ter para ti o reconhecimento do teu talento. Eu pensava que para um criador o importante seria criar, e o futuro de sua obra seria uma questão secundária, e fama, admiração, curiosidade das pessoas etc muito mais consequências inevitáveis que coisas desejadas”.

Para Remedios Varo, realizar a Grande Obra era o que lhe permitia conhecer e conhecer-se. Numa espécie de concepção transcendental, o próprio processo estético se tornava um fazer mágico. Ela pintou perseguidores da sabedoria interior, como um taoísta em Ermitão (1955), um escalador espiritual em Ascensão ao monte análogo (1960) e um peregrino descalço cruzando o deserto em Caminho árido (1962).

No livro de Masayo Nonaka sobre a pintora, ressalta-se a raiz hispânica desses ritos – vindos de sábios influenciados pelo Islã, “astrólogos e alquimistas que adquiriram a sabedoria mística ao estudar a natureza e observar os planetas. Eram versados em geometria, matemáticas e teoria musical, cujos princípios estavam baseados na harmonia. O universo em si era harmonia. Varo se inspira nas sensibilidades místicas de sua herança espanhola”.

Sempre fascinada por eclipses, forças telúricas e zodiacais, Varo desenvolve um ponto específico de sua iconografia através do movimento. Muitas de suas figuras são viajantes, movem-se por meio de complicados aparatos mecânicos ou máquinas bizarras com polias, asas ou rodas; são deslocadas pelos astros ou pelas águas, sofrem traslados através de capilaridades ou quebras gravitacionais. Porém, como ressalta José Lucas, no artigo “Remedios Varo: el viaje interior”, este movimento é na verdade interior, cíclico, metafórico.

Novamente aqui, vemos que o autoconhecimento era o que impulsionava a artista. Mas engana-se quem imagina que essa busca foi severa, reflexo da implacável educação religiosa que Varo recebeu na infância. O seu humor está presente em diversas telas, como por exemplo nas invenções fantásticas de Vampiros vegetarianos (1962), de Banqueiros em ação (1962) e Locomoção capilar (1959). Além disso, as experiências surrealistas lhe asseguraram uma mirada risível sobre os comportamentos. Ela costumava lançar-se ao que denominava experimento “psico-humorístico”, que consistia no envio de cartas para desconhecidos, cheias de confissões disparatadas ou convites misteriosos. Conforme testemunhou Leonora Carrington, “Nunca chega uma resposta. As pessoas não têm tempo para nada realmente interessante”.

Outros que conviveram com ela – como foi também o caso de Octavio Paz – costumavam destacar a sua capacidade de ironizar qualquer tema, inclusive os que lhe eram mais sagrados. É o que vemos Varo fazer, numa de suas cartas, quando escreve (sob pseudônimo) a respeito de pintura – e chega a extremos cômicos com ímpetos que deve ter conhecido na prática:

“A coisa começou aproximadamente há seis meses. Eu pintava com entusiasmo um quadro onde se via um amável prado, com carneiros e vacas passeando serenamente. Confesso que me sentia satisfeito com a obra, mas aqui de repente uma força irresistível me impeliu a pintar, sobre o lombo de cada carneiro, uma pequena escada, em cujo extremo superior se encontrava uma imagem da minha vizinha da frente; sobre as vacas me via obrigado a colocar, não sem angústia, uns lenços bem pregados. Poderá você imaginar a minha surpresa e desolação. Escondi este quadro, começando outros, mas me via sempre instado a introduzir elementos estranhos neles, até que chegou um momento em que, tendo derramado por acaso certa quantidade de molho de tomate sobre minha calça, achei a mancha tão extremamente significativa e emocionante, que rapidamente cortei o pedaço de tecido e o emoldurei. Eu me vi obrigado a levar, a partir do momento em que pintei o primeiro quadro que lhe mencionei, uma vida quase clandestina, temendo que as pessoas me descubram e me façam examinar por um alienista.”

Em 1986, cerca de vinte anos após sua morte, Remedios Varo integrou a exposição Arte e Alquimia, na Bienal de Veneza. E hoje, três décadas depois, ela continua ensinando mistérios – de força ancestral, rito ou riso – a quem quer que seja. Basta que vejamos quadros como Bordando o manto terrestre (1961), Criação das aves (1957) ou Presença inquietante (1959), dentre tantos mais.

Tércia Montenegro (texto da coluna Tudo é Narrativa, publicado no jornal literário curitibano Rascunho)

Turismo no Design

Através da querida ex-aluna Andressa Silveira, soube que o meu Turismo para cegos motivou uma experiência na disciplina de Design Gráfico Aplicado à Publicidade no curso de Publicidade e Propaganda da UFC. O padrão foi criado pelo estudante Patrick Santiago, a partir da relação que a personagem Laila constrói, entre linguagem e formas. O diálogo com a capa original e com experimentos estilísticos gerou uma proposta linda e harmoniosa, que tenho a alegria de partilhar com vocês:

graficzny.com.pl

Sequestrar a arte

158 artistas expondo em 15 espaços da cidade, sob a organização de 9 curadores: uma colaboração voluntária que fez a efervescência cultural em Fortaleza durante um mês. Foi belo, foi revigorante – além de marcante em termos históricos. Mas foi, acima de tudo, necessário. O Salão de Abril Sequestrado representou uma iniciativa da classe artística contra a inexplicável mudez da Prefeitura, que em 2017 deixou que os meses se desenrolassem, sem dar qualquer resposta à pergunta “Não vai ter Salão de Abril este ano?”. O compromisso, assumido desde 1964 pela administração pública, parecia ignorado pela atual gestão. Era grande o risco de que este – que é o mais antigo salão de artes em vigor no país – passasse a ser desconsiderado e, por conseguinte, fosse extinto.

O Salão Sequestrado aconteceu como estratégia de salvamento – sem perder por isso o prumo da qualidade, das excelentes trocas estéticas. A organização costurou temas e propostas múltiplas, com uma eficiência impecável, num prazo quase impossível. E os espaços utilizados, dentre galerias e sedes culturais autônomas, envolveram também as afetividades urbanas. A Vila Vicentina, o Poço da Draga, o Parque do Cocó são locais que levantam questões muito sérias relativas à preservação do patrimônio paisagístico e das comunidades hoje, em Fortaleza. Envolver esses ambientes na proposta do Salão reforçou o seu gesto político. Trata-se de defender, de modo amplo, o que está sendo ameaçado, o que por um triz pode ser condenado ao sumiço.

Não raramente, a técnica do descaso é adotada em nosso país: em vez de recusar claramente uma atitude ou compromisso – o que provocaria réplicas imediatas, polêmicas –, a pessoa simplesmente vai deixando correr o tempo, evitando o assunto, “matando no cansaço”, como se diz. Foi esse o destino empoeirado, aliás, que sofreu uma escultura produzida por Flávio de Carvalho, em homenagem a Garcia Lorca – e que depois viria igualmente a ser salva através de um sequestro. Em matéria assinada por Lais Modelli para a BBC Brasil, publicada em 30 de setembro, somos informados de que o monumento foi danificado em 1969 numa explosão misteriosa, possivelmente associada ao Comando de Caça aos Comunistas. As ruínas da obra foram levadas pela Prefeitura de São Paulo para um lugar desconhecido e, apesar de todos os esforços do artista que a criou, nenhuma satisfação foi dada, acerca do seu paradeiro.

Esperava-se que a escultura simplesmente fosse esquecida, bem como a figura que ela homenageava – o poeta Lorca, até hoje um exemplo de resistência a governos repressores.

Entretanto, em 1979 o futuro cineasta Fernando Meirelles, que à época estudava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), descobriu o esconderijo da escultura num depósito. Com um grupo de amigos conspiradores, ele conseguiu raptar a obra de Flávio de Carvalho, que depois foi remontada e exposta no vão livre do Masp, até finalmente ser restituída ao local onde primeiro esteve, a Praça das Guianas.

Aqui, a similaridade do gesto de sequestro é uma feliz coincidência. Nos dois casos trata-se de uma captura não para ocultar algo; ao contrário, sequestrar a arte só pode ter por finalidade expandi-la, torná-la viável, tirá-la de qualquer congelamento. Mas, para além desse aspecto, há o sentido jurídico do termo: um sequestro para o cumprimento da tutela de urgência, verdadeira medida cautelar para a asseguração do direito.

Depois que o Sequestrado abriu suas atividades, o secretário Evaldo Lima prometeu, em entrevista concedida ao jornal O Povo no dia 29 de setembro, um Salão com mostra retrospectiva do acervo da Prefeitura, a acontecer no último mês de 2017. A cidade está aguardando, assim como espera para os anos seguintes um compromisso público fortalecido na direção da arte e da cultura. Não deveria ser necessário lembrar que esses elementos são parte crucial na formação do pensamento e da própria humanidade – mas esta anda tão enxovalhada, que já bastante gente vai pensando que se trata de um luxo…

Tércia Montenegro (Texto publicado hoje no jornal O Povo. Para ler neste veículo, clique aqui)