Manter a cena

“De repente a janela para a qual estava olhando se tornou branca em virtude de alguma coisa clara por trás. Afinal, então, alguém tinha entrado na sala de estar; alguém estava sentado na cadeira. (…) quem quer que fosse continuou lá dentro; por um golpe de sorte, tinha se acomodado, de maneira a lançar uma sombra de forma irregularmente triangular sobre o degrau. Isso alterava um pouco a composição do quadro. Era interessante. Podia ser útil. (…) Devíamos continuar a olhar sem relaxar por um segundo a intensidade da emoção, a determinação de não se deixar desencorajar, não se deixar ludibriar. Devíamos manter a cena presa – assim – num torno, não deixando que nada viesse estragá-la. Precisávamos, pensou, molhando o pincel deliberadamente, nos colocar na dimensão da experiência cotidiana, sentir simplesmente que isto é uma cadeira, que isto é uma mesa, e, contudo, ao mesmo tempo: É um milagre, é um êxtase.”

(Virginia Woolf. Ao farol)

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Começamos o mês de maio, e é impossível não pensar no que acontecia cinquenta anos atrás, na França. Talvez a razão não seja apenas histórica, mas reflexo do que estamos vivendo agora: uma urgência política que merece um levante, sim, faz tempo já.

Em comemoração à data, no Dragão do Mar abriu-se uma exposição de Philippe Gras, com fotos inéditas do período. Tudo isso nos motiva à atitude libertária, nem que seja através de um gesto mínimo, a dois – a insolência e o amor por trás das barricadas.

 

Dentro da caixa escura

Há um ano Fortaleza ganhou um Museu da Fotografia e, quando conheci o espaço, senti que recuperava uma das melhores experiências estéticas que já tive. No final de 2015, encerrando minha estada de pesquisa justamente voltada para a arte fotográfica, visitei Charleroi, cidade belga conhecida por ter um magnífico museu na área.

Eu sempre entro nestes locais como quem explora uma catedral: vou em busca do silêncio e do sagrado. Há algo em mim que precisa recuperar um senso mágico. A fotografia – antigamente eu pensava – era a linguagem que com maior dificuldade me traria um grande impacto. Por sua banalização cotidiana, sua presença invasiva em tantos e diversos lugares, ela precisava mesmo ser muito boa, para me chamar a atenção. E ainda restava a dúvida quanto à “necessidade” de um museu que lhe fosse específico. Reproduzir fotos em livros, vê-las em catálogos, paredes ou postais não trazia uma equivalência? Mas a reprodutibilidade técnica não aniquilou a aura, oh Walter Benjamin.

Quando vi pela primeira vez uma exposição de Francesca Woodman – com as imagens no tamanho que a artista tinha escolhido para elas (e que era menor do que as impressões em qualquer livro) –, quando vi sob o vidro o papel pigmentado que estivera sob as vistas de Diane Arbus – quando tive ao alcance Cartier-Bresson, quando conheci na mesma sala (e por isso, para mim eles estarão sempre juntos) afinlandesa Susanna Majuri, o tcheco Pavel Banka, a mexicana Erika Harrsch… O único prazer comparável ao Musée da Photographie chegou à minha cidade, e não preciso mais morrer de saudades.

Ultrapassando a experiência pessoal, que – óbvio – não se repete (e quiçá nem se transmita), há fatos relevantes, de um alcance coletivo. O Museu da Fotografia em Fortaleza promove encontros, oficinas e workshops. Atua em comunidades carentes, com a ajuda de uma equipe educativa que ensina crianças a montarem câmeras Pinhole para produzir fotos artesanais. Ativou também recentemente o hábito do cineclubismo, com exibição gratuita de filmes clássicos premiados por fotografia, e ao longo destes meses trouxe importantes exposições.

Para além da Coleção Paula e Sílvio Frota, cujo rico acervo foi o elemento motivador da construção deste espaço, o museu apresentou, a partir de outubro, a obra de fotógrafos brasileiros em conflitos armados. Na linha de frente fez o público conhecer imagens contemporâneas feitas na Líbia, na Síria, no Iraque e em outros países, com a participação dos seus autores num ciclo de palestras. Ouvir Gabriel Chaim, João Castellano e Felipe Dana foi, sem dúvida, uma chance de refletir sobre questões que toda arte (que digo eu? que todo gesto humano) potencializa: território, política, liberdade, existência.

Meses antes, eu tinha ouvido naquele mesmo auditório uma palestra de Izabel Gurgel, sobre Frida Kahlo. Izabel estava interessada “em como a Vida se manifesta na forma Frida” – com as múltiplas visadas que o tema permite. As reflexões passaram pela fotografia como uma “insistência na repetição”, pela perda da memória (que equivale à perda do próprio rosto), pela “elaboração estética de si”, por álbuns de família vistos após um luto, pela ficção como “uma potência de desenho interior”… até a ideia de uma Frida-palhaça, com “sua entrega radical de presença”, inclusive – ou principalmente – diante dos desconcertos, do que não se sabe.

Essa palestra foi mais uma situação irrepetível, um privilégio que o museu trouxe à cidade. As digressões, as costuras temáticas diante do repertório de imagens aconteceram naquela tarde. Em outra, virão pensamentos diferentes, porque o contexto será diverso. E o Museu da Fotografia, na concepção dos arquitetos Marcus e Lucas Novais, reprisa de propósito uma caixa mágica, um dispositivo de captura. Somos presos pelo impacto – e, ao mesmo tempo, arremessados.

O clique da fotografia acontece inclusive sobre o olho de quem a contempla. Foi por causa dele que num janeiro de exílio tive um bem-estar imediato com certa imagem de Brigitte Grignet. Ela mostra uma jovem com os cabelos esvoaçando, prestes a pular de um pequeno muro, o mar espumoso logo atrás. Há um cão que espera a mulher, de costas para nós, e também não vemos o rosto dela. Tudo parece mistério, nessa foto em preto e branco onde o negrume do cabelo, da saia e do cão mantém o equilíbrio. Depois descobri que foi feita no Chile – mas não importa: quando vi a foto, exposta na galeria Satellite, do cinema Churchill em Liège, subitamente voltei à Beira-Mar de Fortaleza. Isso me bastou. Clic.

“Girl in the wind” in Chiloe, Chile

Tércia Montenegro (texto publicado no espaço Vida e Arte do jornal O Povo e também no jornal Rascunho, na coluna Tudo é narrativa)

Laila e Pierre

Foi com grande alegria que ontem – na abertura da exposição de artes visuais promovida pelo CLAV do IFCE – soube que minha fotografia recebeu o primeiro prêmio.

Laila e Pierre tem uma importante história pessoal, conectada com a do meu livro, Turismo para cegos – e isso não só pela lembrança do casal, feito de pedra e escuridão, mas também (e talvez principalmente, hoje) pela conexão com a Itália. Ela foi registrada em Veneza, durante a Bienal de 2015.

Tudo é narrativa. Tudo é imagem.

Abaixo, cenas do evento, sob o clique de Luiz Alves:

Em tempo: a exposição pode ser visitada até o final deste mês, no Museu do Centro Cultural Dragão do Mar.