Recriar o rosto

Os fotógrafos sabem que o retrato também é um tipo de ficção. Trata-se de recriar o rosto, enxergar sua multiplicidade.

Estes cliques são do Júlio Lira, que tanto gosta de percorrer – e inventar – paisagens:

 

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Laila e Pierre

Foi com grande alegria que ontem – na abertura da exposição de artes visuais promovida pelo CLAV do IFCE – soube que minha fotografia recebeu o primeiro prêmio.

Laila e Pierre tem uma importante história pessoal, conectada com a do meu livro, Turismo para cegos – e isso não só pela lembrança do casal, feito de pedra e escuridão, mas também (e talvez principalmente, hoje) pela conexão com a Itália. Ela foi registrada em Veneza, durante a Bienal de 2015.

Tudo é narrativa. Tudo é imagem.

Abaixo, cenas do evento, sob o clique de Luiz Alves:

Em tempo: a exposição pode ser visitada até o final deste mês, no Museu do Centro Cultural Dragão do Mar.

Pelo Gavião

Ontem eu realmente precisava de um passeio ecológico, que me tirasse da sensação de fim de mundo e me jogasse no meio da mata. O projeto Percursos Urbanos, que existe há 14 anos, capitaneado pelo amigo Júlio Lira, foi a salvação. Leonardo Jales – do Movimento Pró-Árvore, levou-nos às margens do açude Gavião, e de lá saímos numa trilha pela caatinga. Entre muitas reflexões sobre temas hídricos, climáticos e edáficos, tive o meu primeiro aprendizado em reconhecimento botânico. O belo pau-ferro, o aguapé com sua flor-de-um-dia, as ninfeias, o torém… era a experiência de uma aula em que as folhas não estavam num livro, mas na própria natureza. Foi assim que descobri, por exemplo, a razão de certa paisagem do México me parecer tão familiar: o angico e a jurema preta, dentre outras espécies, existem igualmente no sertão de Jalisco! Também soube da impressionante agressividade vegetal da viuvinha e da castanhola, e aprendi que o cerrado povoa o litoral de Fortaleza, vindo do Piauí. Leonardo ainda comentou sobre o tingui, provavelmente a planta mais antiga de que se tem notícia (um estudo genético estimou sua origem em mais de 35 milhões de anos), e o fato de ela ser nativa da caatinga, o que faz com que a ancestralidade desse bioma seja mais remota que a da Mata Atlântica e a da Amazônia.

A lição – além de abrir a consciência para tantas questões ambientais – ensinou a poética da nossa região, fez sonhar com passeios de caiaque e (pelo olhar atento do Júlio) apontou a beleza xamânica no voo das andorinhas. Como se não bastasse, eu lembrei que uma trilha na mata é excelente forma de meditação. Existem silêncios e grandezas que só as árvores indicam.