História das almas que se atrasam

Aconteceu no México. Certo homem contratou um grupo de nativos para fazer o transporte de mercadorias por umas montanhas, e no começo eles andaram bastante rápido, avançaram bem – até que pararam em determinado local para o descanso. O tempo foi passando, passando, o contratante já achava que estava na hora de retomar o trajeto; falou com um dos nativos, e ele disse que não era possível seguir ainda, precisavam aguardar mais um pouco. O homem se chateou e foi falar com o chefe dos transportadores. Mesma resposta: tinham de esperar. Mas por quê? perguntou o homem. Havia um prazo a cumprir; eles estavam ali parados, esperando o quê? Então o chefe lhe disse que, como tinham feito a travessia muito depressa, suas almas ficaram pelo caminho; agora eles deviam esperar que elas chegassem.

Essa história – presente em algum filme cujo nome escapa – eu ouvi do Gentil Barreira, no dia em que ele me convidou para integrar um projeto fotográfico.  A série nasceu de um desejo, ou de um tormento (o que tantas vezes quer dizer o mesmo). Consistia em capturar a relatividade da luz, numa experiência de que só a fotografia é capaz: uma figura podia aparecer em três lugares simultaneamente, dissolvida pelo movimento.

Ele me pediu para fotografar com objetos sertanejos. Primeiro, um remo encontrado no açude Castanhão, que em época de seca expõe seus tesouros escondidos pela água. Depois, uma folha do tamanho do meu rosto, ferruginosa e estranhamente parecida com um peixe. Eu devia dançar, fazer movimentos sob o flash contínuo, devia agitar o vestido, sim, girar a saia farfalhante, o cabelo num ritmo insano, criando uma nuvem negra no lugar da cara.

No cenário, uma velha lona de algodão, do tipo antigamente usado para cobrir a carga em caminhões. Estendida como uma parede flexível no estúdio, ela criava uma textura sépia – e, junto com os objetos sertanejos que iam compondo as cenas, tudo parecia de uma ancestralidade selvagem.

A série já continha várias imagens. De início, veio Lara. Segurando dois globos luminosos (na verdade, ratoeiras semelhantes a armadilhas para a pesca de lagosta, recheadas com minúsculas lâmpadas de led), ela posou, agitando-se de várias maneiras. Eu vi reflexos esverdeados, sensações de néon, bolas de fogo, manchas crispadas. Depois, Ângela – levando cipós originalmente usados para amarrar pés de tomate – surgiu como uma camponesa na colheita. O seu gesto suspenso era coisa fértil, sagrada, uma oferenda de trigo. Mas em seguida ela também se agitou, e vi um banho vertical de feixes dourados.

Marina, artista dos malabares, mostrou a mágica de ter relâmpagos nas mãos. Raios ríspidos foram as lâmpadas de led suspensas, virando força centrípeta, desenho de trajeto numa escrita chamejante: bambolês de luz. E Sara, dançarina, transformou seu vestido num jorro branco flutuante. Valéria – a fisiculturista – posou estática, mas usando na cabeça um crânio de boi. Era o seu corpo um minotauro-fêmea, versão que sequer Picasso imaginou.

E então, lá estava eu, usando uma saia de flamenco que se transmutava em asas; um xale tecido com reflexos. Feita no instante do salto, a fotografia me permitia levitar. O flou era o seu feitiço: criava cortinas, véus, ritmos nublados. A fluidez no resultado dava exatamente a sensação de que a lente capturava minha alma errante, que se atrasa –  porque o corpo é sempre mais ansioso, mais acelerado.

A velha história de que a fotografia sequestra a alma adquiria uma nova perspectiva. Porque capturava para nos devolver a ela. Se nosso olhar deseja parar um pouco, buscar a unidade em formas dissolvidas pelo gesto, é isso o que encontramos. E – embora talvez Gentil Barreira não tenha planejado – existe uma lição implícita em seu ensaio fotográfico. Ele faz ponderar sobre a pressa constante em que vivemos, o afã, a ansiedade, a correria de alcançar, mesmo que com o sacrifício de alguma parte – mesmo que não cheguemos inteiros.

Agora lembro Virginia Woolf, que em texto sobre abadias e catedrais (integrando o livro Cenas londrinas) comenta como tais construções são capazes de nos submeter à “pausa, expansão e liberação da pressa”. Pois também as fotografias – apesar de conterem arquitetura mais discreta – trazem um efeito parecido. E, se pensarmos bem, não é pouco quando uma arte, para além de qualquer traço estético ou espiritual, ensina a harmonia de estarmos quietos.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal Rascunho)

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Resoluções

Para que servem as datas, os marcos simbólicos, afinal? Eles têm uma função organizadora – embora eu comece as práticas antes do calendário, só para ir pegando o jeito. Assim, 2018 deve intensificar resoluções que já são realidade, de certa forma; mas o que é novo passa a ser hábito (e não existe negatividade neste termo, quando se trata de coisa boa). Decisões relativas a bem-estar, autocuidado, amor com todos os seus exageros, arte… É preciso uma vida inteira para se desconstruir, retirar as carapaças e escudos que nos vão colando por cima, dizendo que isso é o nosso próprio corpo. Mas hoje vejo claramente que não; meu corpo, minha identidade é leve, um molusco flexível. Nada a ver com essa rigidez de papeis previstos, comportamentos aceitos e sorrisos convencionais. E também estou longe de metas, expectativas ou prazos – na verdade, exercito o tal presente permanente: única forma de domar o tempo, torná-lo sólido. Então, com a intensidade máxima em cada momento – e sempre pensando no que de fato é desejo –, mergulho nas experiências. Que elas continuem.

 

Uma questão de ética

A leitura (ainda no prelo) de A ética no jornalismo brasileiro, livro organizado por Guilherme Carvalho, trouxe-me reflexões bem produtivas, especialmente porque na mesma época tive também sobre a cabeceira A transfiguração do lugar-comum, do filósofo Arthur C. Danto. As duas obras convergiram numa questão que pude desenvolver em palestra com estudantes do grupo Novos Talentos, do jornal O Povo.

Em artigo no primeiro livro mencionado, Plínio Bortolotti comenta:

“O único imperativo categórico da profissão seria dizer e divulgar a verdade em qualquer circunstância, mas mesmo isso pode ser posto em xeque em algumas ocasiões. Não é incomum, por exemplo, o profissional omitir a sua condição de jornalista para obter alguma informação – e também, em algumas ocasiões, deixar de publicar alguma informação para evitar o mal maior. Se o jornalista sabe, por exemplo, de uma operação policial para prender uma quadrilha de assassinos da pior espécie, deve divulgar o fato, mesmo sob o risco de fuga dos criminosos?

“No entanto, quando se utiliza o método utilitarista, quem autoriza o jornalista a definir qual seria o ‘mal menor’ ao tomar uma decisão com base nesse raciocínio? Como medir se o maior número de pessoas beneficiadas não provocou mal irreparável na minoria? Como ter certeza de que o ato vai provocar os efeitos previstos?”

O efeito do texto jornalístico – com suas consequências diretas sobre a realidade – traz implicações desconhecidas pela arte. O grau de compromisso do artista para com o seu público é de outra ordem, é outro o seu pacto, outra a natureza do real que aparece em suas obras. A própria noção de representação artística, no seu duplo sentido (re-apresentação e substituição de um elemento por outro) demonstra um deslocamento que o jornalismo não admite. O compromisso do jornalista é com o fato; o do artista, com a fábula.

Lógico que a imprensa não está isenta de circunstâncias (políticas e econômicas) que podem levar um profissional a deformar o seu relato. Diz Mauri König, no livro citado:

“Não escapa a um espectador mais atento que no processo de produção de notícias há esforços explícitos de manipulação, que algumas vezes os jornalistas reconhecem e denunciam, mas nem sempre são capazes de escapar do ardil. Há uma manipulação ativa, tendo a notícia como espetáculo, a fabricação de matérias, reportagens exageradas ou sensacionalistas.”

Alterações textuais feitas para adensar o interesse sobre um tema – assim como estratégias de “disfarce” de que um jornalista pode se valer para obter uma informação ou se infiltrar num determinado espaço… tudo isso não cria qualquer conflito para o ficcionista, por exemplo. Ao contrário, ele está autorizado a mudar nomes, cenas, situações – e, caso necessite de uma observação real para embasar seu texto, não precisa se apresentar como escritor; não há qualquer princípio a obedecer, nesse sentido. O único aspecto essencial a respeitar, óbvio, é o da primazia da vida. Assim, presenciar algo terrível sem interferir de alguma maneira (sob o pretexto de mais tarde fazer uma publicação sobre aquilo), mergulha num crime ético qualquer pessoa. Como ressalta Arthur Danto:

“Tom Stoppard disse certa vez que se você vê uma injustiça acontecendo do lado de fora de sua janela, a coisa mais inútil que poderia fazer seria escrever uma peça de teatro a respeito.”

Há, portanto, um limite ético – o do respeito à existência – insuperável em qualquer caso. Esse ponto torna revoltantes as obras artísticas que ferem o indivíduo de alguma forma. Propostas que envolvem a presença de animais e plantas em museus, em situação de risco ou desconforto, geram protestos justos – sobretudo porque a distância psicológica instaurada pelo espaço de exibição é incorreta do ponto de vista moral, assinala Danto. E o filósofo continua:

“Isso significa admitir que há algo na noção de distanciamento psicológico que, mesmo não podendo nos ajudar a delinear a distinção que buscamos [entre arte e coisas do mundo], nos sugere que uma obra de arte é um objeto diante do qual só uma atitude estética é apropriada, nunca uma atitude prática.”

A ideia dessa recusa – de uma reação prática viabilizada pela arte – obviamente não exclui a sua possível função didática, educativa, expiatória etc. O que Danto assinala é que a atitude de contemplação exigida pela obra afasta o tipo de engajamento que sentimos diante das coisas no mundo real. Exemplificando:

“O perímetro convencional do teatro desempenha uma função análoga à das aspas, que servem para isolar o que estiver entre elas do discurso coloquial normal, neutralizando seu conteúdo em relação às atitudes que seriam apropriadas à mesma frase se ele fosse afirmado em vez de meramente citado”. Nesse sentido, os personagens são citações de pessoas, representações delas, não pessoas reais. O mesmo distanciamento contemplativo acontece em outras linguagens: “(…) as molduras dos quadros ou as vitrines de uma exposição são suficientes, como os palcos, para informar às pessoas familiarizadas com as convenções implicadas que elas não devem reagir ao que está delimitado como se fosse a realidade.”

Dessa maneira, o jornalismo, por seu próprio lugar instaurado em meio às estratégias do texto escrito, cria um rol de expectativas que endossam o seu princípio ético – e elas não são as mesmas que poderíamos aplicar à literatura ou qualquer outra arte.

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é narrativa, do jornal Rascunho)

Ao Mar

Amigos, para este Cine Ceará foi selecionado um curta inspirado no meu livro Dicionário amoroso de Fortaleza.  Ao Mar, de Esaú Pereira Barbosa, é um filme lindo e sensível, e poderá ser visto na Mostra Olhar do Ceará nesta segunda-feira dia 7, às 14h30, no Cine Dragão, sala 1. Para mais informações, cliquem aqui.

Ao dia 12

Trecho do Robert Musil:

“(…) podemos entender tudo, porque a alma só aceita aquilo que lhe pertence; em certo sentido ela já sabe de antemão o que irá experimentar. Amantes nunca se contam novidades (…). Pois o amante nada reconhece na pessoa amada senão que esta lhe provoca de modo indescritível a atividade interior. (…) E reconhecer uma pessoa ou coisa sem a ligar a si mesmo é mais impossível ainda, pois tomar conhecimento toma algo das coisas; elas mantêm sua forma, mas parecem desabar em cinzas dentro dela, alguma coisa se evapora, sobram suas múmias.

(…)

Como pode um detalhe iluminar, onde tudo é luz? Para que as esmolas da segurança e do inequívoco, onde tudo é plenitude? E como podemos desejar algo só para nós, ainda que seja a coisa amada, se já vivenciamos que os amantes não pertencem mais a si, mas a tudo o que se aproxima deles, entrelaçados que estão pelos olhares?” (pp.594-5)

O nosso nome

Em 2012, um amigo médico contou do espanto que sentiu quando, lendo a lista dos pacientes agendados para aquele dia no consultório, achou o meu nome mas, no horário previsto, viu uma garotinha entrar pela porta.

Esse episódio me indicou que eu tinha uma homônima, nascida também em Fortaleza.

O tempo foi passando, e de vez em quando alguém me dizia que, por eu não estar no Facebook, tinha se confundido, enviado um pedido de amizade virtual para a outra Tércia Montenegro.

Até ontem, porém, não tínhamos estado frente a frente – e tudo aconteceu na Bienal do Livro: melhor contexto, impossível! A amiga Cleudene deparou com minha xará-quase-perfeita (apenas os sobrenomes paternos nos diferenciam) e, ultrapassando qualquer pretexto de timidez, fez as apresentações. “Tércia Montenegro, esta é a Tércia Montenegro”. O jogo de espelhos onomástico arrancou risadas, exigiu foto de registro e – embora saibamos não ter parentesco ou qualquer história juntas – criou um elo entre nós. Porque o nome é parte de uma experiência única, eu olhei para aquela jovem como quem descobre uma pessoa iniciada no mesmo tipo de mistério. Que momento singular!

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