O nosso nome

Em 2012, um amigo médico contou do espanto que sentiu quando, lendo a lista dos pacientes agendados para aquele dia no consultório, achou o meu nome mas, no horário previsto, viu uma garotinha entrar pela porta.

Esse episódio me indicou que eu tinha uma homônima, nascida também em Fortaleza.

O tempo foi passando, e de vez em quando alguém me dizia que, por eu não estar no Facebook, tinha se confundido, enviado um pedido de amizade virtual para a outra Tércia Montenegro.

Até ontem, porém, não tínhamos estado frente a frente – e tudo aconteceu na Bienal do Livro: melhor contexto, impossível! A amiga Cleudene deparou com minha xará-quase-perfeita (apenas os sobrenomes paternos nos diferenciam) e, ultrapassando qualquer pretexto de timidez, fez as apresentações. “Tércia Montenegro, esta é a Tércia Montenegro”. O jogo de espelhos onomástico arrancou risadas, exigiu foto de registro e – embora saibamos não ter parentesco ou qualquer história juntas – criou um elo entre nós. Porque o nome é parte de uma experiência única, eu olhei para aquela jovem como quem descobre uma pessoa iniciada no mesmo tipo de mistério. Que momento singular!

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Hoje é dia de Camus

“Mas do amor só conheço a mistura de desejo, ternura e entendimento que me liga a determinado ser.”

“Estou falando daquilo que todos nós, artistas, incertos de sê-lo, mas seguros de não ser outra coisa, esperamos, dia após dia, para, finalmente, consentir em viver.” (O avesso e o direito)

 

Diamantinismo

       O grupo era formado por um sociólogo, um jornalista, um engenheiro e uma professora (esta que lhes escreve). O engenheiro, francês, lançava um toque blasé à excursão, e a cada choque cultural sussurrava: “C’est très singulier”, sem maiores juízos ou comentários. Inspirados no Pireneísmo – um tipo de montanhismo praticado nos Pirineus – nós seguimos o lema “Subir, sentir e narrar”, que garante uma experiência completa aos esportistas capazes de escalar a montanha, sentir sua atmosfera poética e depois contar as vivências num relato inteiriço.

        Na França, há inclusive uma revista dedicada às publicações dos aventureiros que adotam o Pireneísmo. Como estávamos na Chapada Diamantina, naturalmente tivemos de fazer adaptações. No meu caso, isso significou boas doses de coragem e desprezo por meu próprio desgaste físico. Para chegar à Cachoeira do Buracão (o passeio “mais leve”, segundo os guias), saltei inúmeras pedras, traumatizando-me eternamente para o jogo da amarelinha (embora não o de Cortázar, é claro). Fiz a travessia por uma ponte-tábua entre desfiladeiros, pois a outra opção era ficar à deriva dentro da água congelante, no cânion. Cheguei à cachoeira após um trajeto na chuva, agarrando-me às reentrâncias das pedras.

     Depois de moer a musculatura das pernas, atravessei de volta aquela paisagem lunar, com pequenas explosões de bromélias, vassourinhas, maçarandubas e candombás – a planta fênix, que nunca queima, conforme disse o nosso guia, que também era especialista em reconhecer abelhas selvagens e nos alertou em relação a dois enxames, dos quais felizmente conseguimos escapar. Na última parte do trajeto, eu estava tão exausta que só pude descer a trilha de terríveis pedras porque dava a mão a um amigo – e foi assim, como se seguisse para uma contradança, que cheguei a solo firme.

        No outro dia, experimentei as belezas do Poço Azul, com sua água invisível dentro da qual boiamos sobre abismos rochosos. Uma pedra específica, grande como um rosto gritando, era a mais temível: sua mandíbula fazia pensar em velhos rituais de sacrifício – mas pelo jeito ela não espantou o casal estrangeiro que encontramos no final do banho. A moça, eslovena, e o rapaz, croata, pesquisavam estalactites. Quando questionado sobre a viagem tão distante até este Brasil nordestino, o jovem afirmou que estava “živjeti ursan život u Hrvatskoj” – ou seja, vivendo uma vida de merda na Croácia… Óbvio que isso justifica uma boa fuga para a Chapada Diamantina.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

Cachoeira do Buracão