Da Arte

Arte para resistir (e existir). O final de semana foi bem fértil neste quesito, em Fortaleza. Sexta-feira à noite, houve a efêmera exposição de vários artistas (dentre eles, os excelentes Felipe Camilo, Iana Soares, Marco Aurélio e Fernando Jorge) no ateliê do Rian Fontenele. Foi muito bom reencontrar a Corona e um novo desenho dela – e, óbvio, estar entre as obras, sentindo a efervescência do processo criador, é algo que me deixa revigorada. Existe um prazer especial em ser plateia, em fruir daquilo que alguém criou: é um tipo de meditação, às vezes; pode ser incômodo, prazeroso ou sublime também – mas quase nunca me deixa indiferente.

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No sábado de manhã, a abertura da expo Os pensamentos do coração, em homenagem ao Leonilson, trouxe outra alegria semelhante. O Sobrado José Lourenço ficou lindo com tantas peças-de-primor! Destaco aqui Made in China, do Yuri Yamamoto, Me deixa fazer o caminho de volta, da Raissa Cristina, e Corpo dissecado para autópsia sensitiva, do Nilo Lima Barreto:

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Bom também foi encontrar, num outro espaço do Sobrado, a expo Biwá, com arte quilombola – e ler esta delícia: “Biwá significa “nasceu para nós” em Yorubá. Eu conto, diz o griô. Nós te escutamos, respondemos. Era uma vez, afirma o griô. Era uma vez no tempo, respondemos. E assim começam as narrativas.”

Aprendi também que parangolé quer dizer conversa… Tudo é texto, afinal: a roupa e o próprio corpo.

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Caio

Dentro da família que se escolhe – a dos amigos -, ele foi (é) tão querido. Sempre talentoso com as palavras, exímio piadista, generoso de afetos, Caio: meu primeiro modelo de escritor. Ético e alegre, sabedor de que a verdadeira ambição do artista deve ser o infinito em sua luta íntima, ele me ensinou tanto, que nem posso expressar. Mas agora ele sabe, sim, agora ele vê tudo. E talvez não caiba ser saudoso na eternidade.

A casa de Kahlo

Motivada pela postagem abaixo, que me fez reviajar para o México, recupero uma crônica que foi publicada em 15 de agosto de 2012, na coluna que eu tinha no jornal O Povo. Esse texto e os demais da época foram reunidos no meu livro Os Espantos (para saber mais, clique na guia Autora).

Já comentei na crônica anterior, quinze dias atrás, que a Cidade do México é um esplendor em museus – mas, em meio a tantas opções, a Casa Azul (que era residência da pintora Frida Kahlo) ainda se destaca. Faz toda a diferença andar por um ambiente que foi habitado pelo próprio artista, mesmo que na maior parte dos espaços hoje se perceba um “arranjo” artificial, criado para expor os objetos, e não mais para desfrutar deles. Na verdade, o único aposento que parece ter sido realmente mantido, em composição e atmosfera, é o estúdio onde Frida pintava. Uma placa na parede confirma o pressentimento: todos os móveis, com estantes de livros, cavalete, espelho, estão ali exatamente como no passado. Vemos os pincéis e as tintas (guardadas em frascos de perfume), tudo paralisado numa expectativa inútil – e a cadeira de rodas, um corpete que Frida usou, depois de várias cirurgias… O ateliê vibra de luz e dor, com janelas abertas para o jardim.

A essa altura do percurso, passamos pelos quadros e desenhos famosos, vimos a lareira que Diego Rivera mandou construir para a sala principal e descobrimos um acervo de ex-votos pintados em chapas de alumínio, que se mandava fazer pelo alcance de uma graça. Frida colecionava essas relíquias de arte popular, assim como também guardava inúmeras bonecas numa escrivaninha. Cada quarto estava repleto de gente, turistas lentos e silenciosos, provavelmente tão impressionados quanto eu. Porque é quase um ato profano, ingressar na intimidade doméstica de quem se admira e não se conhece – ainda mais em outra época, póstuma. Frida não tem como fechar as portas, defender-se do olhar invasivo de estranhos que sondam sua existência talentosa e trágica. Sua presença ronda os objetos que lhe sobreviveram, está fragmentada na memória de todas estas peças – mas ao mesmo tempo se distorce, com a lojinha de souvenirs e a escultura dela e Diego como esqueletos, num senso de humor bizarro. São as exigências do turismo, dirão alguns, e eu não posso negar. Estes elementos lembram que a Casa Azul, afinal, não é mais uma casa…

Talvez o verdadeiro refúgio de Frida, o núcleo onde ela ainda se mantém discreta e preservada, esteja no último quarto. Em meio à mobília e tantos acessórios de decoração, sobre uma mesa está sua urna funerária, em formato de sapo. Os antigos mexicas acreditavam que este animal tinha comunicação direta com o inframundo, por sua capacidade anfíbia – mas há outra explicação válida. Diego Rivera, marido de Frida, também era conhecido pelo apelido de sapo, por sua aparência gorda, de olhos saltados. Para as cinzas de uma mulher que viveu sempre desconfortável no próprio corpo, não pode haver descanso melhor que uma urna no formato do homem que ela amava.

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Frida Kahlo em foto de Edward Weston, em 1930.