Aldemir e o desenho solar

A poucas horas de embarcar para um período italiano de estudo/turismo/aventura espiritual, não pude deixar de ver a exposição “Aldemir Martins – desenho solar”, que vai até amanhã na Casa D’Alva (rua João Brígido, 934). Fiquei encantadíssima por encontrar obras do acervo do artista, incluindo o Olé, com seu corpo de hachuras transformado em estrela porosa, uma peneira ao sol. Aldemir sempre me ensinou que um bicho pode nascer de arabescos, de uma malha de fios, como por mágica – e assim são todos os seus desenhos de galos e gatos, hipnotizáveis de geometria. Ele desenhava como se fizesse uma teia de aranha, em minúcias tão delicadas! Mas de repente um banho de cor atravessa um lado desse corpo quase transparente, materializando-o.

Toda essa mostra de Aldemir traz o interessante convívio entre um gesto rústico, que lembra a xilo, e traços internos sutilíssimos, na criação das texturas. Há muitas obras a citar: os seus pássaros, por exemplo, de corpo horizontal (um deles feito de listras, como se fosse uma partitura), uma cabra feita de tramas como se montada de retalhos (e que me lembrou a cabra de Picasso), um peixe que, na barriga, traz um tabuleiro de xadrez – e os cangaceiros, ah! com sua pele ríspida e digna, figuras de fazer sonhar com movimentos. A dança da mão do artista está toda lá.

Deixo Fortaleza pelos próximos dias com a satisfação por essa nova galeria de arte, responsabilidade do artista José Guedes. Não somente o espaço é aconchegante e tranquilo, mas também há capricho na criação do catálogo e, sobretudo, há a qualidade das exposições. A próxima – já fiquemos atentos – será em torno da Heloísa Juaçaba, sua obra e seu acervo.

Aldemir Martins, Olé, 1954.

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Colotlán, Jalisco

Nunca consigo firmar todas as impressões que trago de uma viagem – e talvez até faça isso de propósito, para deixar as coisas reverberando por muito tempo, sem conclusão ou pensamento definitivo. O México, por exemplo, em dezembro: já fiz algumas postagens a respeito, mas precisaria de mais uma dezena, no mínimo. Entretanto, como depois de amanhã embarco para a Itália, o mais provável é que as lembranças do final de 2014 fiquem no território do diário de bordo e das anotações esparsas, com este blog cedendo lugar às impressões que agora virão, do outro país.

Mas é preciso que antes disso eu fale de Colotlán. Porque estive na “tierra del alacrán”, um pueblo distante 4 horas de Guadalajara. Fiz palestra para os estudantes da Escola Preparatoria, a Prepa, como carinhosamente todos chamam – e conheci alunos índios, da tribo wixarica, que usa a planta peyote em seus rituais e produz um artesanato lindo (ganhei colar, pulseira e brincos!). Não esquecerei também a experiência com a culinária: tomei michelada, experimentei chicherrones, gorditas com nopales (o bom e velho cacto que já tinha provado na Bahia), molle, pipián… mas o grande marco foi o mezcal Felino, em doses de chupirrito e depois num regalo: a garrafa artesanal, em vidro soprado, obra de Prof, um antigo professor que agora, aposentado, dedica-se à produção de destilados num abarrote em García de la Cadena. Ali eu ensinei os passos primordiais do samba à simpática Marguerita, que me levou para tomar uma nieve (sorvete) de cajeta. E, nos arredores, também conheci Temastián, com a emocionante iglesia de lo Señor de los Rayos e os tantos ex-votos que me lembraram o interior do Ceará. Como não sentir saudade?

Alunos

Alunos wixarica, com a miniatura de peyote e roupas típicas.

Provando - ou "aprovechando" a michelada.

Provando – ou “aprovechando” a michelada.

Os gatos e a literatura

A ligação entre gatos e literatura sempre foi indispensável para mim (e o leitor deste blog percebe imediatamente tal fato), então é um motivo de evidente prazer quando encontro outras pessoas constatando essa proximidade. Quando a reflexão vem de alguém tão querido e admirável como a escritora Ana Miranda, aí eu fico – não há outra palavra – embevecida!

Hoje o amigo Silvestre me enviou uma crônica da Ana que saiu no Correio Braziliense. Com a delicadeza que lhe é típica, a autora comenta sobre o universo felino, sua convivência com esses animais e a aura de arte que eles têm. Fala ainda sobre Filó, a gata-cúmplice de seus textos atuais (e motivadora deste seu, recente). Lembra a maravilhosa Lygia, gatófila confessa, e até menciona a minha turma de ga(ro)tos, deixando-me superorgulhosa!

Quem quiser conferir o texto pode clicar abaixo, para aumentá-lo. E, na imagem, pode conhecer Filó, que em 2007 posou para uma foto que fiz na casa de Ana, em Aquiraz.

"Gatos literários", crônica de Ana Miranda para o Correio Braziliense de hoje.

“Gatos literários”, crônica de Ana Miranda para o Correio Braziliense de hoje.

Ana Miranda e a gata Filó

Ana Miranda e a gata Filó

Flávio de Carvalho

Há alguns anos – admito – eu tinha preconceito contra performances. Não entendia o seu propósito, ou achava que tudo consistia num simples exercício de chocar, sem méritos estéticos. O espanto gratuito, que estaria muito mais próximo de um experimento sociológico, era o único resumo que eu conseguia fazer de várias intervenções, performances e happenings. Agora, depois de algum estudo a respeito, mudo de opinião, passo a admirar trabalhos na área e até penso em me arriscar nesse estilo… Claro que o conhecimento não legitima toda e qualquer obra (como em tudo, há os criadores e os imitadores – e estes serão sempre superficiais), mas eu gosto de saber quando o meu repúdio é motivado por minha própria ignorância (o que acontecia anteriormente) e quando tenho argumentos a respaldá-lo.

O trabalho de Flávio de Carvalho, pioneiro e visionário, foi o pontapé de que eu precisava. Ele é um clássico da performance brasileira, mas infelizmente só ouvi falar em seu nome há uns três anos. Agora fui aos livros e registros, que me impressionaram ainda mais favoravelmente: aprendi que o artista teve uma boa formação, e essa é uma pista maravilhosa. Adoro descobrir que alguém foi transgressor porque conhecia as regras, aprofundou-se nelas antes. Aliás, para mim essa é a transgressão autêntica; não acredito em rebeldias ingênuas ou inconscientes.

Flávio, desenhista exímio e arquiteto, escolheu dedicar-se a uma pintura expressionista e convulsa, como essa que encontrei na Pinacoteca:

Nu teatral (1949)

Nu teatral (1949)

Sua série Trágica (1947) é uma lição de desenho, ao mesmo tempo indicando liberdade e domínio de gesto. Seu interesse pela moda, pelo corpo enquanto casa, traz uma voracidade pluriartística que até hoje causa desconforto: as pessoas em geral se incomodam se um artista circula por mais de um ofício – como se cada um devesse eleger o “seu lugar” e firmar-se nele, fossilizar-se pela insistência. Ao contrário, uma simbiose entre vida e arte exige movimento contínuo, reinvenção e espasmo. Flávio de Carvalho levou isso tão a sério que incursionou inclusive pelo cinema. Não importa a falta de resultados: sua vontade de realizar um filme, que seria intitulado A deusa branca, já se firma como ato. Afinal, ele viajou à Amazônia em 1958 com esse desejo: contar a história de Umbelina Valéria, branca aprisionada pelos índios que se teria tornado uma deusa. Em meio a inúmeras confusões, ele rompeu com o comandante da expedição, mas esteve mergulhado na aventura até o fim. A sua viagem poderia, em si, ser considerada uma produção artística? Eu acredito nisso. Num mundo em que a viagem é uma performance, eu me disponho a roteiros imprevisíveis.

Livros de viagens

A Coleção Brasiliana tem, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, vários exemplos de imagens que constituíam aqueles livros de viagens do século XIX – obras que eram o principal meio de difusão da diversidade brasileira na época. A gente ainda consegue viajar por essas mapotecas, e agora não apenas rumo a outros lugares, mas também a outros tempos, quando o ritmo era tão lento que parece quase impossível de imaginar. Fotografei alguns exemplos para os leitores deste blog. O primeiro é um óleo sobre tela; em seguida, temos uma aquarela, uma litografia e uma água-tinta e aquarela sobre papel. Aproveitem o passeio!

Joseph Léon Righini - Casa de índios na Floresta Mata-Mata, no Moju, Pará (1867)

Joseph Léon Righini – Casa de índios na Floresta Mata-Mata, no Moju, Pará (1867)

Jules Marie Vincent de Sinety - Os jesuítas (1841)

Jules Marie Vincent de Sinety – Os jesuítas (1841)

Johann Moritz Rugendas - Défrichement d'une forêt (1835)

Johann Moritz Rugendas – Défrichement d’une forêt (1835)

Henry Chamberlain - Pretos de ganho (1821)

Henry Chamberlain – Pretos de ganho (1821)

O corpo e a escultura

Não enfrentei a fila de uma hora e meia em pleno sol de janeiro na Pinacoteca do Estado de São Paulo para ver as obras de Ron Mueck – mas assim mesmo, perdendo-me entre as salas à procura de um certo quadro de Almeida Júnior que eu precisava muito rever, acabei encontrando o Couple under an umbrella, rodeado por frenéticos telefotógrafos. Parece que percebo um traço de ironia que o artista passa a suas personagens, ao modo como elas permanecem tão reais e ao mesmo tempo tão pouco humanas, na forma de se resguardarem desse alvoroço insano que as circula. Mas não nos enganemos: elas não são pessoas tranquilas ou sábias, são esculturas.

Ron

E, se não pude ver os outros oito trabalhos expostos, ao menos me consolei com o catálogo, que trazia um excelente texto de Robert Storr, sobre a obra de Ron Mueck:

“Duas coisas estão certas: estamos muito distantes da ideia clássica da escultura, e igualmente distantes de seu equivalente modernista na abstração idealista. De fato, chegamos a um tipo de arte excentricamente ilusionista, que só pode florescer uma vez que esses dois paradigmas tenham perdido sua autoridade para manter aprisionados, sequencialmente, os artistas, os ditames do gosto e os amantes da arte em geral. Ingressamos em um terreno da substituição do trompe d’oeil, das cópias que induzem ao erro, dos gêmeos grotescos. Efetivamente, estamos em meio a lembretes extremamente desconcertantes de até que ponto é possível reproduzir a natureza e de até que ponto os resultados se distanciam inexoravelmente da realidade.” (pp.19-20)