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Caros amigos,

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meu destino

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Os embrutecidos

     Num desses dias, precisei ser atendida por uma médica e, ao contrário, vi à frente um robô, um autômato que sequer me olhava, enquanto fazia perguntas e preenchia dados. A criatura só levantou a cabeça em minha direção no início (quando o meu silêncio de espanto fez com que eu atrasasse as respostas, que ela queria rápidas, e também robóticas) e no final (quando detectei um sorriso medonho de tão artificial, surgido no seu rosto à guisa de despedida – mas agora penso que deve ter sido uma careta sincera, de alívio por ver-se livre de um paciente). Estava claro que a agenda da médica era uma sequência de suplícios e eu, um número que ela pretendia riscar o mais velozmente possível.

     Uma embrutecida pela profissão – concluo (ou estaria assim por outro motivo?). Algum problema pessoal podia respingar nos seus gestos, na impaciência por resolver questões alheias, ao passo que os próprios dilemas ficavam em segundo plano, adiados para o fim do expediente? Essa era uma ideia, embora eu ache – por uma experiência particular que ainda insisto em aplicar aos outros – que o ato do ofício cria o milagre de abstrair. A não ser num exercício puramente mecânico (o que não pode ser o caso da medicina), o profissional usa sua concentração de tal maneira que não lhe sobra tempo para divagar por assuntos diversos, inclusive os mais íntimos. Agora, se a profissão já não satisfaz, não traz desafio nenhum, é natural que se reprisem as tarefas, dentro de um ciclo obrigatório – e a irritação cresce quanto mais aquilo vai parecendo óbvio, sem surpresas. A pessoa gostaria de abandonar tudo e se entregar somente aos pensamentos.

      A tal médica não devia encontrar uma doença instigante há muito tempo. Felizmente, eu fui outra paciente a decepcioná-la. Minha saúde teve apenas o efeito de aborrecê-la (a ela, que queria a moléstia rara, a chance de pesquisar algo incomum e, quem sabe, escrever um artigo para o Lattes). Saí do consultório consciente de que minha aparência foi esquecida de imediato, como quem esquece um papel de propaganda desinteressante que acabou de amassar e jogar, em forma de bola, no cesto de lixo. Eu, porém, não esquecerei a médica-robô. Ela ficará – num misto de horror e piedade – como exemplo do que não quero ser: alguém de sangue frio, pedra bruta que vive como se conhecesse as verdades e já não houvesse nada a valer um olhar curioso, um aprendizado.

Tércia Montenegro (05/02/2014)

Passagens por Paris

Anotações sobre uma visita à exposição “Passagens por Paris”, do MASP:

 – “As meninas Cahen D’Anvers” (que eu já conhecia) voltaram a me comover, sobretudo a cor de rosa, com sua expressão de cansaço tão frágil! Os vestidos das meninas de Renoir cintilam em pinceladas de luz, parecem feitos de confetes – mas talvez o grande segredo deste quadro seja o fundo pesado, em vermelho-escuro, contrastando com a leveza das crianças.

– Vejo a bailarina esculpida de Degas – tão diferente de suas figuras pintadas. Ela é estranhamente mendiga, com seu tutu que parece feito de estopa e seu corpete de bronze (como o resto do corpo, mas pintado de marrom). As sapatilhas parecem flexíveis, elásticas, como o único toque de balé neste corpo que, de resto, seria o de um palhaço exausto. Entretanto, se contornamos a estátua, vemos às suas costas o laço de cetim sobre a trança dura e as mãos unidas em concha: são um efeito de delicadeza, mas que permanece quase oculto – disponível apenas aos que se dispõem a “rodear” essa escultura (e assim o espectador é quem dança em torno da bailarina estática).

– Eu adoro os pintores obsessivos (em tema e estilo), como Degas com as bailarinas, Morandi com as garrafas, Aldemir com os gatos, Chagall com os sonhos azuis… Por outro lado, há Picasso, com sua multiplicidade, sua “instabilidade”, se assim podemos dizer.

 – De van Gogh, encontro um banco de pedra do asilo de Saint-Rémy, pintado de um jeito que a tinta parece porejar. E “A arlesiana”: ainda sem amarelos, mas já tão van Gogh! “O filho do carpinteiro”: uma criança esverdeada, feia, trágica.

– Ainda de van Gogh, uma natureza-morta com prato, vaso e flores, de 1884/5 – tão anônima estilisticamente, que é quase inacreditável pensar no gênio (ou no fanático) que já existia por trás daquilo.

– Toulouse-Lautrec: seus traços rápidos que são quase esboços; o gesto convulso e ríspido no quadro “A dançarina Loïe Fuller vista dos bastidores – a roda” (a roda é aquela feita por seu vestido espalhado, na gloriosa dança). “Monsieur Fourcade” (1889) parece desenhado a giz de certa. Lautrec impõe o inacabado (e até mesmo o feio, desde que seja dinâmico) à arte moderna.

 

– Maravilhosa, a sala dos Modiglianis: as mulheres-girafas, bizantinas em sua verticalidade (e também nos olhos oblíquos). Sua “Lunia Czechowska” (1918) é praticamente um ícone. Entretanto, o seu retrato de Diego Rivera é estranhíssimo: compacta a figura, o corpo espargido em pinceladas à Pollock – nada das curvas serenas, da expressão vazia que encontramos num retrato de “Leopold Zborowski”, de 1919. E este foi pintado três anos depois, o que leva a pensar que foi mesmo o tema o responsável pela mudança de técnica. Para pintar o muralista mexicano, sua corpulência e força política, Modigliani não se atreveu a uma transfiguração longilínea.

Passeio no barroco

Estive em Minas na semana passada e enchi meus olhos de barroco. Lia, durante a viagem, o apropriado Drummond. Dele retiro o fragmento de Passeios na ilha: serve para refletir – antes e depois de olhar estas imagens lindas, capturadas no Museu de Diamantina:

 “Barroco, afinal, não é apenas uma atitude antiluterana, circunscrita no tempo e no espaço, porque barroco é um modo de ser permanente da sensibilidade, barroco é o esquema de gravitação dos corpos celestes, barroca é a circulação do sangue nas veias e – acrescenta o sábio Reinaldo dos Santos – ‘o mar é barroco’. Mesmo, porém, dentro da perspectiva histórica, podemos anotar um barroco da Reforma, e foi o que fez um companheiro do crítico espanhol na tertúlia de Pontigny, onde se discutiu o problema da arte barroca. O pintor holandês Gudman acha que o verdadeiro pintor barroco é Rembrandt, entre outras razões porque procede de Lutero e porque exalta a vida individual.” (pp.77-8, grifo nosso)

O primor detalhista torna este São Francisco tão expressivo que até se veem os dentes em sua boca aberta.

O primor detalhista torna este São Francisco tão expressivo que até se veem os dentes em sua boca aberta.

De provável autoria de um discípulo de Aleijadinho, esta escultura veio de Sabará.

De provável autoria de um discípulo de Aleijadinho, esta escultura veio de Sabará.