Liège au Moyen Âge

Eu, que sempre me interessei muitíssimo pela Idade Média, neste mês de dezembro tive a ótima oportunidade de mergulhar outra vez no tema, através de um ciclo de “animações medievais” promovido em Liège. Com a estrutura fornecida por uma empresa especializada em “reviver” os tempos do Moyen Âge, o Museu Grand Curtius abriu exposições gratuitas, assessoradas por guias a se apresentar em trajes típicos, dando explicações detalhadas dos objetos.

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Gravação de uma “cena medieval”, no Grand Curtius

Na primeira tarde do evento, o tema mais interessante foi sobre “a cosmética na era medieval”, e com isso aprendi que, se fosse uma mulher do século XIII, certamente teria morrido envenenada por mercúrio (pois era a forma mais comum de conseguir vermelhidão para os lábios) ou chumbo (do qual derivava um tipo de pó famoso por manter os rostos pálidos, antes que alguém tivesse a boa ideia de substituir a substância por algo mais inocente como… farinha!). A vida não era fácil, mas a ideia de que os medievos eram avessos à higiene mostrou-se equivocada; a sujeira começou a imperar na Europa a partir da Renascença, graças às práticas médicas de então. Na época medieval, portanto, todo mundo era limpinho – o que significava: banho uma vez por semana (um padrão que alguns europeus parecem ainda hoje conservar)!

A higiene e a educação também imperavam à mesa, via de regra. Cada pessoa levava o próprio talher para a refeição e, como ainda não existia louça à farta, em vez de prato usava-se um pão duro, onde os alimentos iam sendo colocados. Num banquete formal, era costume que os convidados se sentassem segundo uma hierarquia de importância, e a quantidade de alimento se fazia proporcional a tal regra. Quase não se bebia água (por causa da poluição dos rios e fontes), e, já que não havia uma técnica desenvolvida para preservar o vinho, a preferência era pelo hidromel e pela cerveja.

Nesta segunda tarde, dedicada à culinária, o aroma dos temperos me fez pensar no quanto o preparo da comida, o convívio com os próprios ingredientes mesmo, foi se modificando ao longo do tempo. E no entanto, ainda é tão simples fazer um retorno a esse passado, em termos gustativos: cravo, gengibre, hortelã, canela, noz moscada… Talvez por isso alguns desses aromas pareçam enfeitiçados – por causa de sua história medieval…

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A terceira tarde foi a mais animada – o trio dos Menestréis de Mandini animou a plateia com músicas e danças. Mas, para além dos festejos e cirandas, fiquei encantadíssima com a possibilidade de ouvir canções de trovadores e goliardos, ao som de uma vieille à rue e de uma cítara. A música medieval tem um apelo irresistivelmente místico, e os versos, em langue d’oc, um sabor que me transporta de imediato aos livros, a velhos poemas, livros de horas, tapeçarias.

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Para fechar a experiência, intercalei todas essas jornadas com a leitura dos Contes du Moyen-Âge, de Michel Zink, com as ótimas ilustrações de Pierre-Olivier Leclercq. Foi uma boa viagem no tempo!

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Le Grand Curtius e a Idade Média

Se depois de uma semana em Liège certas ruas já me parecem familiares, os museus, par contre, continuam sendo uma atração inesgotável.  Hoje tive a alegria de visitar o Grand Curtius, que fica perto da rue Hors Chatêau. Vi apenas metade do acervo, com a sensação inédita de poder voltar amanhã para contemplar o resto (e com isso pude dimensionar a plenitude em que vive, por exemplo, monsieur Armand, o senhor francês que certa vez encontrei no Louvre e que me disse que, a cada semana, voltava ali para ver alguma sala).

A metade do Grand Curtius consiste num mergulho que começa pela pré-história e, no meu caso, foi até a Idade Média. Essa é uma época que sempre me faz parar, embevecida. Selecionei algumas imagens e informações riquíssimas para compartilhar com o leitor interessado no tema.

Vierge à l'enfant

Vierge à l’enfant, vers 1530

(Venerada numa capela da antiga catedral. Revela um estilo gótico tardio com traços da produção limbourgeoise. Denota também influência da escultura suábia)

Christ mosaneO Cristo acima é um bom exemplo de “art mosan”, um estilo que se desenvolveu no vale do rio Meuse (e daí o nome “Mosa”, de Meuse) entre o fim do século X e a metade do século XIV. A cultura era herdeira da época carolíngia; Liège no século XII contava com mais de 20 paróquias, além dos colegiados, estabelecidos nos locais em que seus fundadores haviam evangelizado. Essas instituições ligadas à igreja desenvolviam o ensino e a arte, contando com importantes bibliotecas e ateliês de iluminuras e ourivesaria.

vers 1260-1270

vers 1260-1270

Fiquei absolutamente magnetizada pela dramaticidade deste cristo, com seu esquema arcaicizante (flexão dos braços em W, posição dos dedos). A obra provém da capela de Frenay, em Lens-sur-Geer.

Vierge d'Évegnée, vers 1060-1070

Vierge d’Évegnée, vers 1060-1070

A iconografia acima é a da “Siège de la Sagesse”, em referência ao trono de Salomão: Maria serve efetivamente de trono ao seu filho, sabedoria encarnada. Mas a virgem está igualmente representada como uma nova Eva: ela segura na mão direita uma maçã, símbolo do pecado original. Fortemente esquematizada, esta figura traz vestígios de arcaísmo, sobretudo pela frontalidade. Estilisticamente, pode ser comparada às portas da igreja Sainte Marie de Capitole, em Colônia, datadas de 1050.

Vierge de Xhoris, vers 1030

Vierge de Xhoris, vers 1030

Esta outra “Sediae Sapientiaie” tem uma silhueta caracterizada pelo alongamento, ao contrário da anterior. O rosto apresenta similitudes com o cristo de Tancréamont, o que conduz a uma datação próxima a 1030.

Vierge, início do séc. XII

Vierge, início do séc. XII

Vierge à l'enfant, vers 1149-1150

Vierge à l’enfant, vers 1149-1150

Acima, a dita Virgem de Dom Rupert mostra um estilo mosan mesclado com o bizantino (no véu da Virgem e na almofada do tipo “obus” sobre a qual ela se senta). Este relevo provém da abadia beneditina de Saint-Lorent, em Liége, e o seu nome é atribuído a uma lenda segundo a qual Dom Rupert, famoso teólogo liégeois do século XII, pouco voltado aos estudos durante a juventude, teria sido abençoado pela Virgem, que permitiu que “seu espírito se desenvolvesse”.

Para terminar esta postagem (e tendo que suprimir muitas imagens lindas, para não me estender infinitamente), vão ainda estas duas, que me comoveram por sua semelhança com as esculturas populares nordestinas. Não é que elas têm um quê de mestre Noza? Ou melhor: em verdade histórica seria bem o contrário – mas em termos emotivos foi assim que estabeleci a conexão: do Ceará para o mundo, sempre. O sentido é esse.

séc. XIII

séc. XIII

De um relicário. Fotografada por trás de vitrine; perdão pela qualidade!

De um relicário. Fotografada por trás de vitrine; perdão pela má qualidade!

Mon seul désir

Continuando a postagem anterior, prossigo na tentativa de traduzir Paris através dos museus. Ainda no Louvre, visitei as obras medievais e deparei logo com a beleza da Bôite Reliure, caixa-livro da primeira metade do século XI, que a partir de 1677 continha a “fórmula do sermão dos duques de Brabant”, com filigranas, esmaltes carolíngios e os quatro evangelistas nos cantos – uma peça que merece longos momentos de contemplação.

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Também o Relicário do braço de Carlos Magno (Liège, 1165-1170) e o Relicário de São Francisco de Assis (ateliê de Limoges, c.1228), em forma de trevo, me fisgaram.

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A Idade Média se mostrava ainda em faianças e tapeçarias medievais. Estas últimas, em vermelhos e azuis pálidos, delineando-se em meio a tons terrosos para compor uns rostos crespos de lã, foram um ótimo prelúdio do que eu veria no Musée de Cluny. A famosa sequência dos tapetes da Dame à la licorne me arrebatou, como não poderia deixar de ser. Mas, se todas as atenções apontavam o tapete enigmático do sexto sentido, intitulado “Mon seul désir”, nem por isso deixei de passear longamente pelas outras salas, transportando-me às termas de Cluny (na época da Lutécia), olhando lápides do século XIII ou apreciando as esculturas antigas. O destaque vai para este capitel mostrando Daniel na cova com o leão (Paris, vers 1030-1040):

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E, embora as esculturas góticas (e as igrejas!) mereçam um espaço específico de comentários, por enquanto eu apenas atiço, com a beleza destas estátuas longuíssimas (ainda do Musée de Cluny):

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A Cesária o que é de Cesário

A CESÁRIA O QUE É DE CESÁRIO

Tércia Montenegro

26/12/2013

       Só agora, que já “assentei a poeira” desta última viagem, posso organizar as minhas impressões – tão boas e impactantes – da África. De uma parte dela, melhor dizendo: a parte talvez mais próxima de nós, pela língua, pela arquitetura colonial, pela culinária que herdamos dos portugueses. “Que Cabo Verde não amadureça!”: era o refrão dos amigos poetas, que (re)encontrei graças à Feira Mundial da Palavra. Num pequeno grupo bem humorado, exploramos as marcas de uma cultura ainda intacta – e não somente no passado luso que citei, mas em outros ricos indícios, de uma raiz bem mais remota. Os penteados e as roupas, com distinções tribais, a incrível destreza dos belos corpos negros, o artesanato (com as franjas dos panos de téra, a ressaltar os movimentos dos quadris), tudo era ensinamento ancestral.

            A paisagem às vezes parecia indecisa, entre a caatinga e a savana. No ônibus do time futebolístico Tubarões Azuis, fiz um passeio de reconhecimento. Na praia de São Tomé, divisei um cenário de descobrimento; a areia escura, de chão poroso como um bolo macio, abria-se para águas infinitas. Na Ponta Bicuda, diante da praia Mulher Branca, uma chapada exibia as fases geológicas do terreno, e alguns turistas aproveitaram para catar pozolanas, as rochas vulcânicas que assumem desenhos curiosos. Não desci à Cova de Lázaro, o famoso bandido que fez de certa gruta o seu refúgio – e não me arrependi. Disseram-me que havia ali ossadas de cães caídos por descuido.

          De outros locais, já mais perto do Plateau, estende-se costa de Santiago, em sua forma de ferradura. Do restaurante “O poeta”, visitei o farol de D. Maria Pia, dito “A ponta temerosa”, guardado pelo velho Malaquias e seu sobrinho, o atual faroleiro Jorge. Ambos eram de uma simpatia irresistível, daquela que nos constrange na hora de partir (porque afinal queríamos ficar, para um café e uma longa conversa sobre a vida). Ali, com o sabor do vento marítimo, senti palpitar minha aventura africana. Em frente, o ilhéu de Santa Maria sobressaía-se, e eu já tinha ouvido as pessoas murmurarem sobre o antigo leprosário. Imaginei fantasmas mutilados e tristes naquele gueto – e depois pensei nos três pescadores que se perderam, saídos para um dia de trabalho normal. Talvez tivessem ido em busca de atum, um dos peixes mais atrativos de Praia. Por algum motivo, escapou-lhes a rota, e ficaram sozinhos por 24 dias num barco de cinco metros, até aportarem em São Luís do Maranhão. Isso me contou o faroleiro, e lamentei não conhecer a costa maranhense, os ditos lençóis, e tanta coisa que ainda há por ver neste mundo.

Farol

            Vista do farol

        Mas pelo menos vou conhecendo o que consigo. Em Cabo Verde, visitei apenas (parcialmente) uma das ilhas do arquipélago. Para conhecer mais, precisaria de outras semanas: o acesso aos locais é lento, como o tempo tranquilo do povo. Não fui a Fogo, que era o meu grande interesse vulcânico – mas em compensação conheci a Cidade Velha, em Santiago. D. Rosalinda, a guardiã das chaves da igreja de Nossa Senhora do Rosário, transporta-nos a uma atmosfera medieval. O único ponto de ressalva foram os camelôs, insistentes em sua negociação. Eles estendem suas mercadorias na praça do Pelourinho e, quando eu quis comprar uma fruteira com peças miúdas, de madeira, subitamente me vi dentro de uma disputa entre dois senegalenses. Os vendedores me mostravam produtos semelhantes, mas cada um oferecia um preço menor do que o do outro, numa espécie de leilão ao contrário. Fui salva pelos amigos brasileiros.

            Ainda precisaria falar do mercado Sucupira, das mechas de cabelo à venda, para serem trançadas in loco. E dos alfaiates sorridentes, que preparam vestidos em meia hora. Precisaria abrir um espaço grande para o batuku, espetáculo de dança e canto que parece nos raptar para dentro de uma floresta, onde as mulheres se transformam em deusas fortes. Sim, é necessário voltar à África (não só fisicamente, mas com outros textos). Por enquanto, eu termino com a lembrança de Cesária Évora, enquanto ouço uma morna. Conduzida pelos nomes, lembro aquele poeta português, um dos meus preferidos, e de quem também se dizia para não amadurecer. Não é um despropósito fechar com seus versos, já que Cabo Verde tem – na sua genética de palavras e na própria história – um sabor de Portugal:

  “E evoco, então, as crônicas navais:

Mouros, baixeis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no mar, salvando um livro, a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!”

(Cesário Verde)