Gravuras

Ainda no Espaço Cultural Unifor, até o início do próximo mês, está em cartaz a exposição da coleção Itaú Cultural, com 451 gravuras. Organizada num percurso histórico, a mostra traz obras de Martin Schongauer, Dürer, Martin de Vos, Goya, Rembrandt, Piranesi e Daumier, dentre outros. Aqui, uma seleta das imagens que preferi:

 

A lenda do asno – anônimo do séc. XVI

Pág. de Adriaen Collaert II (editor), ca. 1600 – uma estrutura já de HQ!

Rembrandt, sempre comovente!

Idem

A deliciosa sátira de William Hogarth (1763)

De William Dickinson, “Diane, Viscondezza Crosbie” (1779), feita a partir da pintura de Joshua Reynolds

Lautrec, “Ultime ballade”, s/d

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O dono da desgraça

 

Susan Sontag, no clássico Diante da dor dos outros, compara a câmera fotográfica a uma arma, com um gesto de disparo semelhante – e cita as palavras de Ernst Jünger em 1930: “É a mesma inteligência, cujas armas de aniquilação são capazes de localizar o inimigo com exatidão de metros e segundos”.

Essa ideia de apontar para o outro, direcionar-lhe uma atenção que também é um tipo de violência (roubo da privacidade, invasão de momento, disparo-clique pronto a ferir, quem sabe – seja na autoimagem ou numa perspectiva mais grave): tudo isso passou a ser loucamente ignorado nos tempos atuais. Ninguém mais pede permissão para tirar uma foto ou filmar: microcâmeras em celulares atuam o tempo inteiro. O único empecilho parece estar no próprio excesso de dados; os usuários se valem da tecnologia com tamanha obsessão, que não têm o que fazer depois com os resultados dela. Os produtos se acumulam de tal maneira que são anulados pelo desperdício da oferta: quando se contam imagens aos milhares, dificilmente alguma é boa o suficiente para chamar a atenção – ou ficar na memória.

Exceto as imagens de violência escancarada. Essas parecem ter um local garantido, circulação inegável. A motivação passa pela curiosidade mórbida, que nos faz presos de fascínio pela dor alheia. Novamente com Sontag, “a caçada de imagens mais dramáticas (como, muitas vezes, são definidas) orienta o trabalho fotográfico e constitui uma parte da normalidade de uma cultura em que o choque se tornou um estímulo primordial de consumo e uma fonte de valor”.

Um filme como O abutre, do diretor Dan Gilroy, mostra um telejornal oferecendo ao público “vítimas bem de vida, feridas por pobres”, de acordo com a máxima da imprensa marrom: “Sangue dá audiência”. O protagonista, interpretado por Jake Gyllenhaal, justifica o título metafórico: ele é uma figura que ronda em busca da carnificina. Munido de um rádio da polícia que o orienta em direção às ocorrências, vende pequenos vídeos para a mídia sensacionalista. Em seu profissionalismo que beira a psicopatia, chega a deslocar um homem ferido pelo chão, para melhorar o ângulo de filmagem. Sua prontidão para os casos de emergência recorda o trabalho de Weegee, que na década de 1930 era o único fotojornalista com permissão para portar um rádio policial de curta distância.

Em momentos de guerra ou conflito físico generalizado, cenas de horror ganham ainda mais espaço. A ideia de que existe uma utilidade – de denúncia e documento – legitima os registros sanguinolentos. O clube do bangue-bangue, outro filme (inspirado em livro homônimo), faz referência a um grupo de quatro especialistas em clicar a violência entre facções negras no início da década de 1990, nos arredores de Johanesburgo.

Dentre eles, Kevin Carter ganhou um Pulitzer com uma foto representativa da fome no Sudão – e recebeu, junto com a honraria, um monte de críticas por não ter ajudado a criança faminta, espreitada por um urubu. Embora haja testemunhos de que o menino fotografado não teria morrido à míngua, como o texto visual parece sugerir, Carter cometeu suicídio um ano após publicada a imagem. Ken Oosterbroeck, também membro do grupo, por essa época já havia morrido, vítima de uma fuzilaria enquanto fotografava: um destino trágico que lembra o de Robert Capa, quarenta anos antes pisando numa mina na Indochina – e seu corpo foi encontrado (dizem) com as pernas dilaceradas, mas ele ainda segurava a câmera nas mãos. João Silva, igualmente pertencente ao clube do bangue-bangue, reprisou ainda mais de perto essa cena fatal – porém sobreviveu. Feriu-se numa mina no sul do Afeganistão em 2010, teve as pernas amputadas e hoje se locomove com a ajuda de próteses, prosseguindo como fotojornalista.

Fotógrafos de guerra parecem inspirar narrativas, e não somente trágicas (como o prova o fato de Capa ter escrito o bem-humorado Ligeiramente fora de foco, além de participar como coautor de Um diário russo, com John Steinbeck). Mas, para além das histórias contadas ou mostradas, a sua profissão inspira um eterno debate ético.

Adrenalina, sensação de viver por um fio, na agonia milimétrica de capturar o instante decisivo: tudo isso é pré-requisito para quem faz da câmera instrumento e linguagem, na situação jornalística. E, no caso de experiências extremas, o impacto tanto pode gerar um vício quanto um estresse pós-traumático. A metáfora da ave de rapina associada a um profissional – que parece, justamente pelo ofício, ganhar com a desventura alheia – é o trampolim para crises psicológicas. Dificilmente se consegue manter a consciência livre de questionamentos.

Também o brasileiro Sebastião Salgado enfrentou fantasmas quase insuperáveis, após cobrir as guerras africanas. O seu projeto Sahel – o homem em agonia, já mostrava, na década de 1980, a fome no norte da Etiópia. No documentário de Wim Wenders e Juliano Salgado, a sequência de imagens terríveis (“150 km de cadáveres”, como ressalta o texto de O sal da terra) feitas durante o genocídio em Ruanda em 1994, chegou a expulsar pessoas da sala do cinema. Lembro que na sessão em que eu estava duas figuras se levantaram aos prantos, quase correndo, para sair tropeçando no escuro. Depois daquilo, pensei, ia ser bem difícil continuar com o filme – e com a vida também. Era o que dizia Salgado. Depois de Ruanda, não havia sentido: era de se acreditar que a raça humana não merecia viver. O seu desalento só pôde ser vencido pela mensagem de esperança. No seu caso, ela foi traduzida pelo resgate da Mata Atlântica, que deu origem ao Instituto Terra. “Eu vi o que nós fomos antes de ser lançados na violência da cidade, onde o direito ao espaço, ao ar, ao céu e à natureza se perdeu entre os muros”, diz o fotógrafo no livro De ma terre à la terre, em coautoria com Isabelle Francq.

Para os que continuam longe dessa fase redentora, a polêmica permanece. A espetacularização, com o único objetivo de chafurdar na violência, não parece trazer nenhum valor reflexivo. Fora de contexto, muitas cenas reduzem-se à ação medonha e gratuita, sem uma individualização, uma história que humanize o fato. Mas será que tendências ideológicas ou mesmo estéticas justificam a exibição da desgraça? Luc Bachelot, em artigo para a revista La part de l’oeil, dizia em 2008: “Podemos matar alguém, com efeito, mas como matar uma imagem? A morte é súbita, brutal. Ela vem e logo passa, mas a imagem fica. É a morte indefinidamente mantida, agindo sem fim.”

Também John Fante, num dos contos d’O vinho da juventude, parece ter atingido o resumo desse choque ao relatar fatos após um terremoto nos Estados Unidos: “Logo em seguida, vi os três fotógrafos de noticiários cinematográficos. Filmavam uma mulher que tinha morrido esmagada debaixo de uma parede que desabou. Deitada de lado, ela ficara semissoterrada sob toneladas de alvenaria. As câmeras foram colocadas uns dois metros acima dela, os rapazes tendo os pés bem apoiados e de cigarros acesos na boca enquanto preparavam o plano. Olhar para eles causava o mesmo impacto de receber uma bala entre os olhos.”

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é Narrativa, do jornal literário Rascunho. Pode ser lido também aqui)

 

Varda

 

Trechos de uma entrevista conduzida por Hans Ulrich Obrist:

“(…) o acaso da vida privada, o acaso dos encontros determinam também o que fazemos”

“Não tenho vontade de fazer cinema autobiográfico. Tenho vontade de fazer um cinema em que eu exista dentro do filme, e principalmente quando é um filme sobre os outros.”

(Oh, Agnès, você tem tanta razão!)

Filmes sobre artistas

Na mesma noite, tive a boa surpresa de ver estes dois filmes sobre artistas: A margem da linha Vélázquez, o realismo selvagem. Este último já me conquistou por ser um trabalho do Karim Aïnouz (ele é o tipo de diretor cujo nome basta para me fazer ir ao cinema). Com o tema em torno do grande pintor sevilhano, então, que mais eu desejava? Foi maravilhoso perceber a ligação entre aquelas pinturas da corte espanhola e um impressionismo já anunciante – ao mesmo tempo em que Vélázquez em nada devia aos mestres flamengos (cujos fundamentos religiosos o seu rei e patrão, Filipe IV, empenhava-se em massacrar, na Holanda de 1600). Reconhecer a estética fílmica – da obsessão pelo céu, por exemplo, e da narrativa similar à de Viajo porque preciso… – foi o brinde para os fãs de Karim.

A margem da linha , documentário de Gisella Callas, talvez se ressinta de certa monotonia – mas ainda assim há momentos valiosos. A obra de Regina Silveira e o seu testemunho, bem como o de Leda Catunda, foram pontos altos. Os “papéis dóceis” de Sérgio Sister também me conquistaram – e as lições do Lama Padma Santen, físico quântico e budista (talvez esses termos, numa certa medida, sejam redundantes?), ficaram reverberando, tanto quanto aquela definição: “A arte é o que nos dá a sensação de que a vida podia ser diferente”. Fiz anotações: garrafa cheia de água do mar, à deriva no mar – garrafa pontilhada, ilusória, em pânico de partir-se. O leão de manteiga feito por Michelangelo. “Ver e traçar”, texto do Paul Valéry. A cor como experiência – e o azul é sempre contemplativo. Apaixonante, eu acrescento.

                                                     Sérgio Sister

Cine Caolho

E como parece que as energias cósmicas estão me envolvendo com narrativas cênicas de modo especial nestes dias, convido os leitores a ver o filme Porque era ela. A entrada é franca: às 19h30, nesta segunda-feira, dia 5 de setembro, no Dragão do Mar. Após a sessão, farei um debate com a diretora, Luciana Vieira. Não deixem de prestigiar mais este bom exemplo da arte cearense!

 

filme

Aquarius

Envolvida com tantas leituras e pesquisas, já percebo que não conseguirei fazer a postagem ideal sobre o filme Aquarius – então, para ao menos roçar no assunto antes que o tempo imponha suas prioridades, faço este registro mínimo. Quem sabe, isso possa ser suficiente para aguçar a vontade em quem ainda não viu o filme. Há vários motivos para ir ao cinema. A atmosfera de tensão no trabalho de câmeras e na escolha de ritmos talvez seja o ponto mais importante, por construir uma estética que faz crescer o enredo numa expectativa constante.

Em vários momentos, a direção de Kleber de Mendonça Filho lembra a de Karim Aïnouz: a cena da festa, logo na primeira parte do filme, poderia pertencer a O abismo prateado ou a Praia do Futuro – e existe, claro, a locação, o sol de Recife, o mar, os ambientes domésticos que tanto se assemelham no espaço nordestino urbano. Mas, para além das afetividades (não vou negar o prazer dessa experiência – o pertencimento – ao assistir a excelentes filmes produzidos nesta região brasileira), Aquarius é uma obra, por assim dizer, útil. Embora nenhuma arte precise se legitimar pelo aspecto da serventia reflexiva ou discussão ideológica (há inclusive vários exemplos que mostram o desastre que boas intenções acarretam na estética), também não se pode cair no extremo contrário, de criticar os casos que misturam com sucesso estes ingredientes.

Ensinar com deleite, propunha o clássico – e Aquarius faz isso. Ensina, ou expõe, o que subjaz às decisões imobiliárias, aos acordos que massacram a paisagem urbana, forçando-a a se verticalizar. Mostra como as pessoas se transformam em marionetes do medo, vivendo de acordo com o plano (e para o lucro) dos grandes empresários. Escancara, sem maniqueísmos, as discrepâncias econômicas, o racismo, o preconceito sexual e físico, o falso romantismo em torno da noção de família… e nenhum destes temas pesa na história a ponto de lhe roubar o principal: a beleza com que é contada. Com elenco primoroso e fotografia impecável, Aquarius é daqueles filmes que deixam a sensação das boas viagens: um desejo de voltar, de rever.

Amar os museus

“Quem precisa da França sem o Louvre?”, “Quem seríamos sem os museus?”, “Se os retratos nunca tivessem sido inventados, quem eu seria, sem os olhos dos que viveram antes de mim?”

Estas indagações já valem a ida ao cinema, para ver Francofonia, de Alexander Sokurov. Outros motivos: a narração em russo; as imagens iniciais, com fotografias de Tchékhov, e a construção do enredo, com uma metalinguagem interessante (embora os fantasmas de Napoleão e da França personificada tenham me parecido recursos ingênuos). Mas o conteúdo principal, que pesa com maior consistência, é a história em torno de Metternich. O oficial nazista, transformado em curador das artes pela Europa, ajudou a proteger a coleção do Louvre, deixando-a escondida no castelo no Vale do Loire, para onde tinha sido evacuada.

Tantas reflexões em torno da arte e da guerra – extremos que nos definem enquanto humanos – inspiram o desejo de ver também A arca russa, do mesmo diretor, sobre o Hermitage. Descubro neste link que há ainda a promessa de Sokurov de fazer filmes sobre o Prado e o Museu Britânico. Boas notícias, e tão necessárias!

Em tempo: ontem, além de Francofonia, estive no cinema para uma sessão do Aquarius. Mas a obra do Kleber de Medonça Filho merece uma postagem demorada, que prometo para breve.