Varda

 

Trechos de uma entrevista conduzida por Hans Ulrich Obrist:

“(…) o acaso da vida privada, o acaso dos encontros determinam também o que fazemos”

“Não tenho vontade de fazer cinema autobiográfico. Tenho vontade de fazer um cinema em que eu exista dentro do filme, e principalmente quando é um filme sobre os outros.”

(Oh, Agnès, você tem tanta razão!)

Filmes sobre artistas

Na mesma noite, tive a boa surpresa de ver estes dois filmes sobre artistas: A margem da linha Vélázquez, o realismo selvagem. Este último já me conquistou por ser um trabalho do Karim Aïnouz (ele é o tipo de diretor cujo nome basta para me fazer ir ao cinema). Com o tema em torno do grande pintor sevilhano, então, que mais eu desejava? Foi maravilhoso perceber a ligação entre aquelas pinturas da corte espanhola e um impressionismo já anunciante – ao mesmo tempo em que Vélázquez em nada devia aos mestres flamengos (cujos fundamentos religiosos o seu rei e patrão, Filipe IV, empenhava-se em massacrar, na Holanda de 1600). Reconhecer a estética fílmica – da obsessão pelo céu, por exemplo, e da narrativa similar à de Viajo porque preciso… – foi o brinde para os fãs de Karim.

A margem da linha , documentário de Gisella Callas, talvez se ressinta de certa monotonia – mas ainda assim há momentos valiosos. A obra de Regina Silveira e o seu testemunho, bem como o de Leda Catunda, foram pontos altos. Os “papéis dóceis” de Sérgio Sister também me conquistaram – e as lições do Lama Padma Santen, físico quântico e budista (talvez esses termos, numa certa medida, sejam redundantes?), ficaram reverberando, tanto quanto aquela definição: “A arte é o que nos dá a sensação de que a vida podia ser diferente”. Fiz anotações: garrafa cheia de água do mar, à deriva no mar – garrafa pontilhada, ilusória, em pânico de partir-se. O leão de manteiga feito por Michelangelo. “Ver e traçar”, texto do Paul Valéry. A cor como experiência – e o azul é sempre contemplativo. Apaixonante, eu acrescento.

                                                     Sérgio Sister

Cine Caolho

E como parece que as energias cósmicas estão me envolvendo com narrativas cênicas de modo especial nestes dias, convido os leitores a ver o filme Porque era ela. A entrada é franca: às 19h30, nesta segunda-feira, dia 5 de setembro, no Dragão do Mar. Após a sessão, farei um debate com a diretora, Luciana Vieira. Não deixem de prestigiar mais este bom exemplo da arte cearense!

 

filme

Aquarius

Envolvida com tantas leituras e pesquisas, já percebo que não conseguirei fazer a postagem ideal sobre o filme Aquarius – então, para ao menos roçar no assunto antes que o tempo imponha suas prioridades, faço este registro mínimo. Quem sabe, isso possa ser suficiente para aguçar a vontade em quem ainda não viu o filme. Há vários motivos para ir ao cinema. A atmosfera de tensão no trabalho de câmeras e na escolha de ritmos talvez seja o ponto mais importante, por construir uma estética que faz crescer o enredo numa expectativa constante.

Em vários momentos, a direção de Kleber de Mendonça Filho lembra a de Karim Aïnouz: a cena da festa, logo na primeira parte do filme, poderia pertencer a O abismo prateado ou a Praia do Futuro – e existe, claro, a locação, o sol de Recife, o mar, os ambientes domésticos que tanto se assemelham no espaço nordestino urbano. Mas, para além das afetividades (não vou negar o prazer dessa experiência – o pertencimento – ao assistir a excelentes filmes produzidos nesta região brasileira), Aquarius é uma obra, por assim dizer, útil. Embora nenhuma arte precise se legitimar pelo aspecto da serventia reflexiva ou discussão ideológica (há inclusive vários exemplos que mostram o desastre que boas intenções acarretam na estética), também não se pode cair no extremo contrário, de criticar os casos que misturam com sucesso estes ingredientes.

Ensinar com deleite, propunha o clássico – e Aquarius faz isso. Ensina, ou expõe, o que subjaz às decisões imobiliárias, aos acordos que massacram a paisagem urbana, forçando-a a se verticalizar. Mostra como as pessoas se transformam em marionetes do medo, vivendo de acordo com o plano (e para o lucro) dos grandes empresários. Escancara, sem maniqueísmos, as discrepâncias econômicas, o racismo, o preconceito sexual e físico, o falso romantismo em torno da noção de família… e nenhum destes temas pesa na história a ponto de lhe roubar o principal: a beleza com que é contada. Com elenco primoroso e fotografia impecável, Aquarius é daqueles filmes que deixam a sensação das boas viagens: um desejo de voltar, de rever.

Amar os museus

“Quem precisa da França sem o Louvre?”, “Quem seríamos sem os museus?”, “Se os retratos nunca tivessem sido inventados, quem eu seria, sem os olhos dos que viveram antes de mim?”

Estas indagações já valem a ida ao cinema, para ver Francofonia, de Alexander Sokurov. Outros motivos: a narração em russo; as imagens iniciais, com fotografias de Tchékhov, e a construção do enredo, com uma metalinguagem interessante (embora os fantasmas de Napoleão e da França personificada tenham me parecido recursos ingênuos). Mas o conteúdo principal, que pesa com maior consistência, é a história em torno de Metternich. O oficial nazista, transformado em curador das artes pela Europa, ajudou a proteger a coleção do Louvre, deixando-a escondida no castelo no Vale do Loire, para onde tinha sido evacuada.

Tantas reflexões em torno da arte e da guerra – extremos que nos definem enquanto humanos – inspiram o desejo de ver também A arca russa, do mesmo diretor, sobre o Hermitage. Descubro neste link que há ainda a promessa de Sokurov de fazer filmes sobre o Prado e o Museu Britânico. Boas notícias, e tão necessárias!

Em tempo: ontem, além de Francofonia, estive no cinema para uma sessão do Aquarius. Mas a obra do Kleber de Medonça Filho merece uma postagem demorada, que prometo para breve.

 

 

Observação e captura

A arte do desenho segue os mesmos gestos iniciais que a literatura e a fotografia: observação e captura. Talvez por isso eu sempre tenha gostado de acompanhar o trabalho de desenhistas, reparando na forma como alternam a atenção do modelo para o papel – e a magia com que transformam carne em traço, sob o mistério do estilo. Devido à minha curiosidade ou disponibilidade, não sei, o interesse algumas vezes foi mútuo, e já pelos menos seis ou sete artistas quiseram me desenhar (e nessa contabilidade não entram os episódios em que, como professora, percebi que a atenção fixa de certos alunos na verdade era estudo de fisionomia que, discretamente, ia se transformando em esboço, durante a aula. Nesses casos, por uma espécie de maldade incontrolável, eu fingia não perceber as intenções da pessoa e caprichava nos movimentos, nas gesticulações: arregalava os olhos, dava as costas, fazia de tudo para aumentar o grau de dificuldade da tarefa, até que o aluno desistisse e voltasse a prestar atenção na matéria. Funcionava.)

Quanto aos desenhistas que pediram minha permissão e tempo para a pose, claro que tiveram respostas positivas. Aprendi com meus gatos a estética da imobilidade relaxada, e não me constrange posar: afinal, eu observo enquanto sou observada; existe um diálogo nessa captura de imagem, e existe um silêncio permeado pelo som do lápis, das canetas, numa atmosfera que eu adoro integrar.

Ontem, portanto, havia esse grande motivo para que eu fosse ao Salão das Ilusões. O evento Mesa Branca não somente atrairia pessoas amigas que eu estava querendo rever há meses, como propunha sessões de desenho com a Raísa Christina, que eu já admirava desde o seu livro Mensagens enviadas enquanto você estava desconectado. Quando soube que havia a chance de ser desenhada por ela, entrei logo na fila – e o resultado é este, belíssimo, que vocês conferem abaixo. Um traço cheio de liberdade, revolta e, ao mesmo tempo, poética. Virou um dos meus retratos favoritos.

Tércia por Raíssa

Varda, única e múltipla

Que o cinema de Agnès Varda é feito de contrapontos e diálogos entre opostos, já se sabe – mas ainda assim a gente perde o fôlego quando encontra uma declaração tão lúcida como esta:

“Je n’ai aucune difficulté à admettre qu’on peut être soi et son double, soi et son contraire. On a une pensée et celle est combatue par une autre qui est aussi valable.” (do livro Agnès Varda: le cinéma et au-delà. org. de A.Féant, R. Hamery et E. Thouvenel)

A busca de coerência pode ser uma prisão, afinal.