Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog. A mim, só resta agradecer aos leitores e esperar que o ano que vem seja muito produtivo para todos nós, com muita paz, saúde, amor e – óbvio! – muitos livros e bichos.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 12.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 4 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

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Balthus e Hopper

Última postagem sobre o conde Klossowski, porque, afinal, há vários outros temas exigindo reflexão – mas eu não poderia ignorar a semelhança incrível de atmosfera narrativa entre muitos quadros deste artista e os de Hopper. Além disso, a luz que banha essas mulheres nuas e o trabalho com as cores, em certas obras, parecem tão próximos! Até agora não li nenhum trabalho que aproximasse os dois artistas, mas penso que isso seria bem válido. Observem, por exemplo, a seleção abaixo: o primeiro quadro é de Hopper, o seguinte de Balthus, e assim por diante.

 

 

 

 

 

Balthus e Setsuko

Como não amar a obra de uma pintora que se esmerava na criação detalhada de figuras felinas e, ainda por cima, era japonesa?

Setsuko, esposa de Balthus, dividiu com ele a rotina no Grand-Chalet perto da Rossinière, estação dos pré-Alpes suíços. Confiram alguns detalhes primorosos de dois de seus quadros:

Setsuko2

Chat jaune tigré sur chaise en tapisserie, 1986, Guache (detalhe)

 

Setsuko

Chat sur le lit, 1989. Guache (detalhe)

Tanta delicadeza me faz pensar que Balthus já desejava desde sempre a lentidão e o apuro de uma companhia feminina desse porte. Afinal, não parece por acaso que, por volta dos 14 anos, ao terminar o desenho de sua primeira historieta (celebrada pelo então amante de sua mãe, o poeta Rilke), o jovem Balthasar tenha batizado o gato protagonista como Mitsou. Invertendo-se um tantinho as duas últimas letras, encontramos um sabor japonês profético: Mitsuo é a promessa de Setsuko, para décadas depois…

Confiram três das imagens dessa primeira narrativa:

MItsou1 (1)

MItsou1 (2)

(detalhe)

Mitsou2

E, se quiserem saber mais sobre a vida e a obra de Setsuko Klossowska de Rola, herdeira de samurais, basta clicar aqui.

Balthus, Balthus, Balthus

Como não gostar imediatamente de um pintor que se denominava “o rei dos gatos”? E, de quebra, ainda tinha origem polonesa…

Eu já conhecia superficialmente a obra do conde Klossowski de Rola, mas foi a partir de dois livros, Le paradoxe Balthus, de Raphaël Aubert, e Les chats de Balthus, de Alain Vircondelet, que agora pude me aprofundar. O primeiro título empenha-se em levantar os aspectos mitômanos da personalidade deste artista, circulando principalmente pela esfera erótica de vários de seus quadros. Foi uma leitura válida principalmente pelas relações entre a obra de Balthus e a pintura anterior: às págs 85-86, por exemplo, o autor demonstra como o personagem do quadro “A rua” (1933), que atravessa a rua com uma tábua sobre o ombro, teria sido diretamente inspirado pelo homem que porta a cruz no afresco de Piero della Francesca em Arezzo (1452-1459). Confiram as imagens:

O melhor é que Balthus não concordava absolutamente com esta inspiração (apesar de venerar a obra de della Francesca): numa entrevista, consta que ele explodiu numa gargalhada e observou que não existem trinta e seis maneiras naturais de carregar uma tábua, ou seja, basta simplesmente olhar em torno para se dar conta da postura adequada. Embora Raphaël Aubert defenda que esta atitude foi mais uma estratégia do artista para se furtar às revelações e criar uma atmosfera de mistério, a gente que produz arte sabe o quanto os críticos e intérpretes de uma obra muitas vezes viajam – com a melhor das intenções, talvez, mas sem lembrar que jamais alguém de fora do processo criativo saberá completamente o que esteve envolvido ali. Toda e qualquer leitura, por mais fundamentada, é válida, sim, mas não tem peso de verdade. Dito isto, esclareço que a verdade muitas vezes não é a via mais interessante das coisas, aliás (não à toa escolhi a ficção!).

Mas voltemos ao livro citado. À pág.87, um ponto curioso, que cito em tradução minha: “Uma outra particularidade do trabalho de Balthus e que choca aqueles que descobrem pela primeira vez suas telas, vem igualmente dos seus pintores preferidos. O fato é que sobre o rosto dos seus modelos, o sorriso está como que fixado, voltado para o interior, e ali paira uma invencível melancolia. Um traço que se encontra em muitos pintores da Renascença, justamente: Gaddi, Botticelli e, claro e sempre, Piero della Francesca, tal como se pode ver no afresco da Visita da rainha de Sabá ao rei Salomão na igreja de Arezzo ou n’A madona de Senigallia (1470) do museu de Urbino.”

Ora, Balthus – novamente sem desprezar todo o crédito aos pintores antigos, que ele tanto amava – poderia responder a isso também com uma risada: afinal, há muitas motivações para inserir melancolia num rosto, ou para colocá-lo à maneira de efígie (Piero della Francesca não foi criador ou detentor autoral dos retratos em perfil). Mas o que me interessa nesta análise é a ponderação a respeito desta tendência nos rostos renascentistas – o que poderia se aplicar inclusive ao sorriso igualmente “voltado para o interior” que se vê nos personagens de da Vinci (e aqui penso não somente na Mona Lisa, mas n’A dama com o arminho, n’A Virgem e o menino com Santa Ana, n’A virgem das Rochas… Penso sobretudo neste esplêndido São João Batista, que poderia ter alcançado tanto sucesso em termos de risinho enigmático quanto a célebre Gioconda, tão célebre que  me dá um certo tédio e me faz preferir os outros quadros deste gênio.

Finalmente, para concluir a apreciação do livro de Aubert, é bastante proveitoso pensar, às págs.100-101, no efeito de “Unheimlichkeit” (inquietante estranheza), emprestado do Freud e que pode ser aplicado tanto a um quadro como “A rua” como à obra dos pintores metafísicos em geral (especialmente De Chirico). O esclarecimento vem de Jean Clair, que traduzo: “Existe inquietante estranheza apenas na medida em que o real é expressamente colocado como tal e onde a sua figuração representa somente um desvio, o menor possível em relação ao normal”. O projeto surrealista não poderia, portanto, ser enquadrado assim, já que estes artistas buscavam o maior afastamento possível do real – mas aí eu penso: e Magritte? Não há inquietante estranheza nele? Assunto para outro dia…

 No livro de Alain Vircondelet, a grande qualidade são as imagens, inclusive com exemplos da pintura de Setsuko, esposa de Balthus (e retornarei a esse ponto em breve). O texto, porém, é irritante, na sua tentativa de criar solenidade. Como sei que toda mistificação é um ato de ignorância, não admito que falem de gatos como seres misteriosos, criaturas deslizantes e furtivas, que se põem a meditar sobre segredos profundos da “vida subterrânea” (sic!). Isso é realmente nunca ter vivido com um gato; nunca ter aprendido a sua linguagem, a maneira como seu corpo comunica, tanto quanto os olhos ou a voz. Isso é não saber que os felinos – assim como cada animal, aliás – têm uma sabedoria infinita a nos inspirar, mas ela nem de longe diz respeito a enigmas. É algo extremamente simples, mas o autor de Les chats de Balthus achou que fazer um livro vaporizado por feitiços soava mais inteligente. Neste caso, é bem o contrário, hélas.

Stoichita e a sombra

São admiráveis as pesquisas de Victor I. Stoichita, como já comentei em postagem anterior neste blog – e o seu livro Brève histoire de l’ombre, por exemplo, é bem mais profundo do que o Ombres portées, de Gombrich. Mas todos somos humanos (além de frágeis), então o equívoco ou, neste caso, o desconhecimento, fazem parte de qualquer processo de estudo, que jamais estará completo. Aliás, encontrar pequenos deslizes nos grandes autores não justifica a complacência, óbvio – mas serve como um lembrete de que a perfeição é coisa utópica.

A derrapagem de Stoichita acontece à página 149, em comentário à vinheta característica do personagem Lucky Lucke, « o homem que atira mais rápido do que sua sombra » :

Diz Stoichita : « Cet emblème final est d’autant plus significatif que dans les bandes dessinées dont il est le héros, Lucky Lucke ne tue jamais personne. Dans ce monde idéal, seul le ridicule tue et les balles ne servent que de véhicule à la pure expression inoffensive de la supériorité du héros. »

Ora, na verdade, o personagem Lucky Lucke, ao menos no princípio de suas aparições, comete uma morte, sim, e contra o seu próprio sósia ! É o que se vê na história intitulada justamente Le sosie de Lucky Lucke, de 1947 (Morris. Les intégrales v.1. Dupuis, 1980). Confiram a sequência abaixo, quando inicialmente o xerife tem dificuldades de diferenciar o herói do bandido (por ironia, o sósia é um criminoso condenado, Mad Jim) e, para solucionar o problema, faz com que o cavalo de Lucky Lucke, o fiel Jolly Jumper, reconheça o seu dono :

Lucky1

Após ser desmascarado, o bandido escapa, e nosso herói sai em seu encalço, não sem antes prometer ao xerife que trará o fugitivo de volta… num caixão !

Luck2

O desenrolar da história nos mostra apenas o momento do duelo e, no quadrinho seguinte um personagem vitorioso, que por um instante não sabemos definir : será Lucky Lucke ou Mad Jim ?

Lucky3

Finalmente, a dúvida se dissipa quando vemos a chegada do coveiro (vale observar a estratégia eufêmica para se falar do assassinato), com o tal personagem em primeiro plano montando Jolly Jumper, que não se deixa cavalgar a não ser pelo seu dono…

Lucky4

O final feliz, com a celebração da justiça, daria margem a outras considerações – mas vamos aqui nos deter apenas neste ponto : Lucky Lucke mata alguém, nesta HQ de 1947. Na época, a tal vinheta do « homem que atira mais rápido do que sua sombra » ainda não existia, e o próprio personagem era desenhado de maneira diferente, com ações menos realistas etc. Entretanto, os aspectos do estilo vintage não nos interessam a não ser como pistas de um percurso que vai progredindo ao longo do tempo, na construção deste perfil do herói. E é neste momento que a « falha », digamos, de Stoichita, merece ser levantada : não por si só, mas pela série de reflexões que (lamentamos) este autor deixou de fazer, ao desconhecer tal referência. Afinal, é de se supor que exatamente este episódio de Lucky Lucke possa ter despertado, em Morris, a ideia para a principal caracterização de seu personagem. Matar o sósia, o duplo, em certa medida equivale a matar a própria sombra…