Sontag e o silêncio

Nestes dias desconcentrados e difíceis, a leitura só poderia acontecer de forma fragmentária. Poemas ou ensaios seriam a opção. Como eu estava precisando racionalizar, deixei o gênero poético de lado e me agarrei com A vontade radical, da Susan Sontag. O ensaio “A estética do silêncio” satisfez de imediato, mas dando aquela sensação de atraso – porque, quando eu li O homem que dorme, do Perec, os romances de Vila-Matas sobre “a arte do não” e o próprio Baterbly, o escrivão, fiz inúmeros questionamentos sobre o tema. Sontag teria vindo no momento ideal, então. Mas mesmo agora, com a simples lembrança destas obras, aproveito muitíssimo as suas ponderações:

“A atitude verdadeiramente séria é a que encara a arte como um ‘meio’ para alguma coisa que talvez só possa ser atingida pelo abandono da arte. (…) Embora não seja mais uma confissão, a arte é mais do que nunca uma libertação, um exercício de ascetismo. Através dela o artista torna-se purificado – de si próprio e, por fim, de sua arte. (…) enquanto anteriormente o bem do artista era o domínio e o pleno desempenho de sua arte, agora o seu bem mais elevado é atingir o ponto onde tais metas de excelência tornam-se insignificantes para si, emocional e eticamente, ele fica mais satisfeito por estar em silêncio que por encontrar uma voz na arte. (…) O silêncio é o último gesto extraterreno do artista: através do silêncio ele se liberta do cativeiro servil face ao mundo, que aparece como patrão, cliente, consumidor, oponente, árbitro e desvirtuador de sua obra.” (pp.12-3)

“Uma decisão exemplar dessa espécie só pode ser efetuada após o artista ter demonstrado que possui gênio e tê-lo exercido com autoridade. Uma vez suplantados seus pares pelos padrões que reconhece, há apenas um caminho para seu orgulho. Pois ser vítima de ânsia de silêncio é ser, ainda num sentido adicional, superior a todos os demais. Isso sugere que o artista teve a sagacidade de levantar mais indagações que as outras pessoas, e que possui nervos mais fortes e padrões mais elevados de consciência.” (pp.13-4)

“De tudo o que é dito pode-se indagar: por quê? (Incluindo: por que se deveria dizer isso? E: por que eu deveria dizer alguma coisa, de qualquer modo?)

Além disso, falando-se em termos estritos, nada que é dito é verdadeiro. (Embora uma pessoa possa ser a verdade, nunca se pode dizê-lo.)

Todavia as coisas que são ditas podem às vezes ser úteis – é o que as pessoas geralmente querem significar quando enxergar alguma coisa dita como sendo verdadeira.” (pp.26-7)

“Um dos usos do silêncio: atestar a ausência ou a renúncia ao pensamento.” (p.27)

“(…) a obra de arte eficaz deixa o silêncio em seu rastro.” (p.31)

O amor descomplicado

O grande sacrifício da minha vida foi passar os últimos seis meses longe dos meus gatos. Eles me fizeram falta física e espiritualmente – algo que estava para além de qualquer ponderação racional. E agora, retornando à casa, eles me recebem com uma primeira reação de surpresa, mas que imediatamente se transforma em acolhida: alegria imediata, proximidade para o carinho, o estar-junto-direto, olhos apertados de prazer… Talvez o amor dos bichos seja o único descomplicado. Sem cobranças, amarguras, ressentimentos – e, apesar disso, eles se lembram do passado. O seu amor também é feito de memória (a complicação, portanto, não está aí). Mas o seu afeto se desapega de tudo o que é análise, para se concentrar na presença.

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Varda, única e múltipla

Que o cinema de Agnès Varda é feito de contrapontos e diálogos entre opostos, já se sabe – mas ainda assim a gente perde o fôlego quando encontra uma declaração tão lúcida como esta:

“Je n’ai aucune difficulté à admettre qu’on peut être soi et son double, soi et son contraire. On a une pensée et celle est combatue par une autre qui est aussi valable.” (do livro Agnès Varda: le cinéma et au-delà. org. de A.Féant, R. Hamery et E. Thouvenel)

A busca de coerência pode ser uma prisão, afinal.

Para amar Ponty

Se a significação só é possível a partir da percepção, a filosofia de Merleau-Ponty também só existe a partir de sua postura sensível e artística. Como não se apaixonar por um pensador que diz coisas assim?

“Já que a percepção mesma jamais é acabada, já que ela só nos dá um mundo a exprimir e a pensar através das perspectivas parciais que ele ultrapassa por todos os lados, já que sua inenarrável evidência não é das que possuímos e, enfim, já que o próprio mundo só se anuncia por sinais fulminantes como pode ser uma fala, a permissão de não ‘acabar’ não é necessariamente preferência dada ao indivíduo sobre o mundo, ao não significante sobre o significante, ela pode ser também o reconhecimento de uma maneira de comunicar que não passa pela evidência objetiva, de uma significação que não visa um objeto já dado, mas o constitui e o inaugura, e que não é prosaica porque desperta e reconvoca por inteiro nosso poder de exprimir e nosso poder de compreender.”

“O pintor é tão incapaz de ver seus quadros quanto o escritor de se ler. Essa telas pintadas, esses livros, têm com o horizonte e o fundo da própria vida deles uma semelhança demasiado imediata para que um e outro possam experimentar em todo o seu relevo o fenômeno da expressão. É preciso outros fluxos interiores para que a virtude das obras se manifeste suscitando nelas significações de que não eram capazes. Inclusive, é somente nelas que as significações são significações: para o escritor ou para o pintor, há apenas alusão de si a si, familiaridade com o ronronar pessoal.” (grifo meu)

“Na medida em que o pintor já pintou, e em que é de certa maneira mestre de si mesmo, o que lhe é dado com seu estilo não é um certo número de ideias ou tiques dos quais pode fazer o inventário, é um modo de formulação tão reconhecível para os outros e tão pouco visível para ele quanto sua silhueta ou seus gestos cotidianos.”

“(…) a percepção já estiliza.”

“Há significação quando submetemos os dados do mundo a uma ‘deformação coerente’. (…) O mundo percebido, e talvez mesmo o do pensamento, é feito de tal modo que nele não se pode colocar nada que logo não adquira sentido nos termos de uma linguagem da qual nos tornamos depositários, mas que é tanto tarefa quanto herança.”

“(…) cada fragmento do mundo (…) mostra um certo modo que ele tem de responder e de vibrar sob o ataque do olhar (…) e finalmente ensina, além dele mesmo, uma maneira geral de falar.”

“De que maneira o pintor ou o poeta seriam outra coisa senão seu encontro com o mundo? De que falariam? De que falaria inclusive a arte abstrata, senão de uma certa maneira de negar ou de recusar o mundo? A austeridade, a obsessão das superfícies ou das formas geométricas têm ainda um cheiro de vida, mesmo que seja uma vida envergonhada ou despreparada. A pintura reordena o mundo prosaico e produz, se quiserem, um holocausto de objetos, assim como a poesia faz arder a linguagem ordinária.”(grifo meu)

MERLEAU-PONTY, Maurice. A prosa do mundo. Trechos entre as págs. 106 e 118)

Ler e ver

Há uns dois meses, anunciaram – falsamente – a estreia da A espuma dos dias nos cinemas de Fortaleza. Pensei que havia perdido as escassas sessões, quando na verdade elas sequer haviam começado. Procurei o filme em locadoras (também em vão) até que descobri que na verdade ele era inspirado num livro do Boris Vian. Como já havia lido poemas deste ótimo autor francês, não demorei a encomendar o tal romance. A espuma dos dias transcorre num clima surrealista, mas não no estilo flâneur de, por exemplo, Nadja, do André Breton. Embora os personagens sejam igualmente livres de censura, quanto aos absurdos do mundo que os rodeia, no livro de Vian tudo se torna divertido, sem que pareça automatismo. Vejam, por exemplo, esta passagem:

“Colin, de pé na esquina da praça, esperava Chloé. A praça era redonda e havia uma igreja, pombos, um jardim, bancos e, em frente, carros e ônibus no macadame. O sol também esperava Chloé, mas podia se divertir fazendo sombras, fazendo germinar sementes de feijão selvagem nos interstícios adequados, fazendo escancarar as janelas e envergonhando um poste de iluminação aceso em razão de inconsciência da parte de um lumifuncionário.

Colin enrolava a borda de suas luvas e preparava sua primeira frase. Esta se modificava mais e mais depressa à medida que a hora se aproximava. Ele não sabia o que fazer com Chloé. Talvez levá-la a um salão de chá, mas em geral a atmosfera ali é mais para deprimente, e as senhoras glutonas de quarenta anos comem sete doces de creme com o dedinho levantado – disso ele não gostava. (…) Não no deputódromo, ela não gostaria. Não nas corridas de bezerro, ela vai ficar com medo. Não no hospital Saint-Louis, é proibido. Não no museu do Louvre, está cheio de tarados atrás dos querubins assírios.” (pp.56-7)

Outras inúmeras partes engraçadíssimas alternam-se com momentos poéticos, a ponto de às vezes termos a sensação de ler uma espécie de fábula. Mas, como eu lia já pensando no filme que me aguardava depois, não podia evitar a todo instante o pensamento: “Como será que esta cena vai ser transposta?” Havia muitos desafios na troca de linguagem artística, e só por isso eu me sentia atraída para o cinema – além de saber que Audrey Tatou estava no papel de Chloé (o que vale por uma boa recomendação. Nunca vi filmes ruins que essa atriz tivesse feito). Hoje, finalmente, eu estava pronta para enfrentar um shopping, único lugar em que o filme era exibido. Aturei com bravura a atmosfera nociva do espaço – não só pelo mofo que começava a arder na garganta, assim que alguém entrava na sala de exibição: a loucura de consumo, passeios frenéticos e overdose alimentícia (que caracteriza, em linhas básicas, um shopping center) também me trouxe um grande mal-estar. Claro que parte disso pode ser atribuída ao desfecho da história de A espuma dos dias, que é tristíssimo. Se no livro ainda se aguenta o suicídio até de um minúsculo personagem, na tela isso seria cruel demais – motivo pelo qual o filme busca um desfecho de redenção, mas que afinal não tira o gosto da tragédia. Tristeza no enredo, entretanto, não significa um defeito; se o espectador não for melindrosamente sensível, consegue acompanhar bem as criatividades de cena, que o filme esbanja. A atmosfera opressiva de sua última parte corresponde à tônica que Boris Vian criou – e que deixa clara a redução do homem ao rato, na mensagem escancarada pelo existencialismo vicioso a que um dos personagens se entrega. Pensar, rir, deixar-se levar pelo fluxo da vida; afinal, não importa o rumo da correnteza, pois o que restará no fim é isso: a espuma dos dias.

→Bom para ler e ver, comprovando de que modo o pessimismo pode ser o nó de uma história graciosa e poética, sem prejudicá-la.

De Ponty a Proust

Agorinha estava mergulhada na Fenomenologia da percepção, do Merleau-Ponty, e deparei com este trecho:

“O hábito exprime o poder que temos de dilatar nosso ser no mundo ou de mudar de existência anexando a nós novos instrumentos.” (p.199)

Ora, essa citação me levou – como uma verdadeira madeleine – a uma cena do segundo volume do Proust, À sombra das raparigas em flor. Acontece quando o jovem Marcel, melindroso do jeito que era, hospeda-se com sua avó no Grande Hotel em Balbec e começa a estranhar o quarto em que deveria dormir:

“É a nossa atenção que põe os objetos num quarto, e o hábito que os retira, abrindo espaço para nós. Espaço era o que não havia para mim no meu quarto de Balbec (meu de nome apenas), pois estava cheio de coisas que não me conheciam e me devolveram o olhar desconfiado que lhes lancei e, sem levar em conta a minha existência, participaram que eu lhes desarrumava a rotina da sua. (…) Sentia-me atormentado pela presença de pequenas estantes envidraçadas, ao longo das paredes, mas sobretudo por um grande espelho com pés, atravessado no meio do quarto e antes de cuja partida achava eu que para mim não haveria sossego possível. A todo instante erguia os olhos – a que os objetos do meu quarto em Paris não incomodavam mais que minhas próprias pupilas, pois não eram mais que anexos de meus órgãos, uma ampliação de mim mesmo – para o teto soerguido daquele belvedere situado no cimo do hotel e que minha avó escolhera para mim.” (pp.508-9)

Devo revelar que, quando li esta passagem de Proust, considerei tão magistral a sua percepção do espaço quanto a do tempo (tão badalada no seu processo de memória involuntária, com a citada madeleine etc). Agora Merleau-Ponty me lembra que estas duas instâncias físicas são habitadas pelo corpo simultaneamente, de maneira inextrincável. É realmente uma pena que o espaço proustiano não tenha alcançado tanta fama quanto o seu dispositivo memorialístico – e me pergunto se este não teve privilégio por aparecer nas primeiras páginas de uma obra volumosa. A maioria das pessoas, então, deixa de comentar este traço em Proust porque não chega a ler o volume 2, 3, etc, de Em busca do tempo perdido? É uma hipótese. Mas uma hipótese lamentável, porque os preguiçosos perdem ótimas reflexões – e, a propósito, já me cobro (após o hiato de tantos livros que se puseram no meio) o começo da leitura de O caminho de Guermantes. Certamente terei várias surpresas em breve.