O mau jogo

No dia em que morre Dario Fo – que tanto celebrou o riso -,  recebemos a notícia de que deram o Nobel da Lygia para o Bob Dylan. Ah, meu São Cortázar! Estamos, sim, nessa “perfeita disponibilidade das peças de um puzzle” – mas alguns jogos estragam o prazer da partida.

 

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Bater a porta

O convite de uma amiga surge agora como um novo caminho artístico, insinuando-se paralelamente aos meus outros tantos projetos. É uma ideia bruta ainda, mas que me instiga pelo trabalho coletivo, coisa rara de acontecer no ofício da escrita. Não sabemos quanto tempo levará, nem prevemos a forma ou o resultado deste impulso. De qualquer modo, o aprendizado – e o crescimento – acontecerá para nós. Já começou, aliás: pelas coincidências cósmicas, conheci o Projeto Nora, interligado com o que queremos. Histórias de mulheres. De pessoas que têm de se afirmar como tal – porque, pelo fato de serem mulheres, são vistas (pelos demais, às vezes por si mesmas) em primeiro lugar como mulheres e, só depois, talvez, como pessoas.

Este blog não é um espaço para grandes reflexões íntimas, mas assim mesmo arrisco alguns pontos necessários. Depois de morar 6 meses na Bélgica, eu percebi o quanto de machismo existe no pensamento brasileiro. Machismo nas palavras, no peso que têm termos como velhice, feiúra, gordura – se associados ao sexo feminino, em especial. Machismo na distribuição de lugares, que em “tradicionais” encontros familiares empurra as mulheres para a companhia umas das outras, onde (espera-se) que tratem apenas de assuntos domésticos ou cosméticos. Machismo nas brincadeiras sarcásticas que pretendem relativizar as qualidades de uma pessoa ou exibir suas fraquezas – sendo que, se essa pessoa fosse um homem, haveria a opção de guardar silêncio: a ideia de uma revanche violenta, ou do medo de uma reação intempestiva, considerada viril, justifica o respeito ao homem. Para mim, isso é pura covardia, e os covardes só perdem para os cruéis, no nível de baixeza.

Lendo sobre o Projeto Nora, eu me felicito mentalmente por ter batido a porta na cara de muita gente que mereceu. Desfiz amizades, injetei friezas e distâncias e, em alguns casos, continuo alerta a ponto de chamar a polícia se encontrar determinados sujeitos. Claro que preferia não ter passado por várias situações infames – mas tudo isso me ensinou a reconhecer os que elejo para andarem ao meu lado. Eles têm olhos limpos, riso ingênuo e nenhuma intenção de adestrar, tolher ou sufocar. Para alguém assim, inexistem portas aqui em casa: meu afeto circula livre, alegre.

Fishman

A arte é uma coisa híbrida. Respira, desdobra-se por vários ambientes. Metamorfoseia-se, troca de corpo, arrisca os limites. Instaura embates.

Um dos atores é fishman: tem corpo de homem, mas não foi sempre assim – e traz membranas entre os dedos, como a personagem de André Breton, Nadja. O surrealismo se anuncia nos toques mínimos: luzes, desencontros, (im)possibilidades. Ao mesmo tempo, o cenário é poético, impressionista como uma tela de Monet. E há as bonecas russas, símbolos ambíguos de uma gestação fálica.

O outro ator também mergulha os pés na água e – sabe-se – convulsiona por dentro, igualmente: é desdobrável, mutante como cada um de nós. Não existe ser, só existe estar sendo. Humano é todo esforço de palavra, todo gesto de elevação rumo a novos planetas, novas peles. Cada abraço vira peixe e desliza, fugidio. O que eu não capturo é o que me conquista – definitivamente.

  • Parabéns ao grupo Bagaceira de Teatro, por seus 15 anos em cena! Fishman é uma comemoração para todos nós. Quem ainda não viu, corra para o teatro do Dragão do Mar, às 20h – só até o próximo domingo!

Yuríssimo!!!

Parabéns ao querido Yuri Yamamoto, que ontem foi o vencedor do quadro “Como manda o figurino”, do programa televisivo Fantástico, com 69% dos votos do público. Multiartista ligado ao desenho, à moda, à literatura e, sobretudo, à dramaturgia, Yuri faz parte do grupo Bagaceira de teatro e é um daqueles amigos que, se orgulho matasse, eu estaria por um triz! Além de tudo (ou principalmente), Yuri é uma pessoa formidável, tão simples e sempre sorridente!

O trem no teatro

Aviso aos amigos que estão ou estarão em Sampa neste mês de março: começou a nova temporada de O trem das onze, espetáculo teatral dirigido por Lucas Sancho, com inspiração no meu livro de contos Linha Férrea. Agora com novo elenco, a peça fica em cartaz às quartas-feiras até 25/03, às 20h, no espaço Cia. do Pássaro.

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Maria do Caritó

Amigos,

Em meio a uma frenética semana de atrações culturais, com Palco Giratório e Festival de Cinema Francês, encontrem um tempinho para conferir esta peça, Maria do Caritó, com texto do querido e talentoso Newton Moreno. Cliquem no flyer abaixo para aumentá-lo:

Maria Caritó

Jantar com Brecht

     Além das inúmeras atrações museológicas de Berlim e dos passeios por suas pontes com paisagem de outono, um ponto inesquecível da minha viagem foi a casa de Brecht. Fora do circuito turístico, a residência do dramaturgo alemão hoje se abre para visitação, e toda noite funciona ali, nos porões onde havia a cozinha de Helene, um restaurante peculiar.

    O cardápio lista os pratos que a esposa do poeta lhe preparava – e é algo quase místico pedir uma refeição naquele ambiente. Sentei-me a uma mesa de cinco pontas: uma daquelas de carteado, onde Brecht possivelmente jogava com os amigos. A mobília parece autêntica, assim como as luminárias, que são verdadeiros spots (retirados dos teatros onde Brecht estreou?), suspensos como lustres. Nas paredes, há retratos do artista e textos musicais em moldura. Pequenas caixinhas simulam palcos e composições cênicas: vemos um teatro em miniatura, à espera de personagens para habitá-lo. Ali estavam os acessórios d’A ópera dos três vinténs, e mais adiante se adivinhava a atmosfera de Santa Joana dos Matadouros por alguns elementos mínimos, como reproduções de brincadeira.

    Para comer, que tal um wiener schnitzel, ou um escalope à vienense? Quem sabe uma carne cozida com salsa de albaricoque e rábano picante? Ou então um gnocchi de Salzburgo – ou um crepe recheado com diversos tipos de quark (seja lá o que isso for)? O menu, mesmo traduzido para o inglês e o espanhol, lançava uma zona de mistério à escolha. Não foi algo preocupante, porém: logo constatei que a comida era excelente e, apesar de no primeiro momento assustar pela fartura de carnes gordurosas, parecia incrivelmente leve. Talvez fosse o clima frio a me exigir quantidades calóricas extras, ou talvez eu estivesse disposta a ousadias culinárias em nome da arte… não sei ao certo o motivo, mas o fato é que jantei com um apetite impressionante e no dia seguinte acordei me sentindo muito bem!

    A Brecht Haus, além de seu restaurante-adega, ainda funciona como espaço cultural, promovendo palestras, lançamentos de livros e outros eventos interessantes. A agenda é bem diversificada, aberta a nomes consagrados ou iniciantes. Aliás, o bom de conhecer um lugar desses é justamente a sensação de se misturar com os ídolos, ter a chance de vê-los como pessoas, com uma vida íntima e trivial inclusive, parecida com a de qualquer um de nós. Pela falta de costume, ainda me assusto com esse impacto: quase desmaiei quando soube que na Literaturhaus Villa Augustin, em Dresden, onde eu fizera uma leitura, também Herta Müller (a maravilhosa autora d’O compromisso, Nobel de 2009) havia estado, concedendo uma entrevista.

    Mas às vezes os lugares e as épocas não parecem tão inatingíveis. Entramos numa igreja medieval, jantamos na casa de um artista morto há quase sessenta anos, ou subimos ao domo de uma catedral que, em sua cripta, guarda caixões de príncipes do século XVI… Este é um real acesso à história, uma forma de entender as experiências alheias e entrar no mundo.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)