Preferências

(Para mim, o teatro. Os coqueiros à beira-mar. Tchékhov. E a cor vermelha. Mas todo o resto é igual,  Wisława.)

Possibilidades

Prefiro o cinema.Prefiro os gatos.

Prefiro os carvalhos sobre o Warta.

Prefiro Dickens a Dostoiévski.

Prefiro-me gostando das pessoas

do que amando a humanidade.

Prefiro ter agulhas e linha à mão.

Prefiro a cor verde.

Prefiro não achar

que a razão é culpada de tudo.

Prefiro as exceções.

Prefiro sair mais cedo.

Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.

Prefiro as velhas ilustrações listradas.

Prefiro o ridículo de escrever poemas

ao ridículo de não escrevê-los.

Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,

para celebrá-los todos os dias.

Prefiro os moralistas

que nada me prometem.

Prefiro a bondade astuta à confiante demais.

Prefiro a terra à paisana.

Prefiro os países conquistados aos conquistadores.

Prefiro guardar certa reserva.

Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.

Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.

Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.

Prefiro os cães sem a cauda cortada.

Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.

Prefiro as gavetas.

Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui

a muitas outras também não mencionadas.

Prefiro os zeros soltos

do que postos em fila para formar cifras.

Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.

Prefiro bater na madeira.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.

Prefiro ponderar a própria possibilidade

do ser ter sua razão.

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Varda

 

Trechos de uma entrevista conduzida por Hans Ulrich Obrist:

“(…) o acaso da vida privada, o acaso dos encontros determinam também o que fazemos”

“Não tenho vontade de fazer cinema autobiográfico. Tenho vontade de fazer um cinema em que eu exista dentro do filme, e principalmente quando é um filme sobre os outros.”

(Oh, Agnès, você tem tanta razão!)

Ainda Tchékhov

Trecho do livro que citei em postagem dias atrás – para utilizar sempre que alguém vier com argumentos de que é bom especializar-se numa única arte:

“Medicina, ciências naturais e literatura tinham origem e objetivos comuns. A Suvórin, que pensava de outro modo, [Tchékhov] escrevia: ‘Se uma pessoa conhece a teoria da circulação do sangue, então ela é rica; se, além disso, ela aprender a história das religiões e a romança Lembro-me do instante maravilhoso, então ela não ficará mais pobre, e sim mais rica ainda’. E citava o exemplo de Goethe, em que coexistiam o poeta e o naturalista, para sustentar que somente os erros podiam lutar entre si, não os conhecimentos. Em sua opinião, o erro dos escritores russos era não conhecer as ciências naturais. Exemplo disso era a desconfiança, para não dizer a hostilidade, de Tolstói em relação à medicina. Se tivesse estado à cabeceira do príncipe Andrei em Guerra e paz, dizia Tchékhov, ‘eu o teria curado’.” (p.150)

Meditação e arte

Trechos de Em águas profundas, do David Lynch:

“(…) se você está preocupado porque 30 minutos depois estará em algum lugar, não há como criar. Por isso a vida artística implica liberdade; é preciso tempo para que as coisas interessantes possam acontecer. Nem sempre há muito tempo para as outras coisas.”

“Há um ditado que diz: ‘Mantenha os olhos na rosca e não no buraco’. Se você mantém os olhos na rosca e faz o seu trabalho, isso é tudo o que pode controlar. Não se pode controlar nada que esteja do lado de fora, fora de você. Mas você pode se voltar para dentro e dar o melhor de si.”

“É senso comum: quanto mais o artista sofre, menos criativo ele fica. O mais provável é que trabalhe de má vontade e que dificilmente faça algo de interessante.

A essa altura alguém pode mencionar Vincent Van Gogh, como exemplo de um pintor que fez coisas maravilhosas a despeito ou por conta do sofrimento. Acredito que Van Gogh teria feito coisas ainda mais maravilhosas se não fossem pelas restrições impostas por seus tormentos. Não acredito que tenha sido a dor que o tornou tão grande; a pintura é que lhe deu o pouco de felicidade que teve.

Alguns artistas têm a raiva, a depressão e a negatividade como suas molas propulsoras. Acham que devem se agarrar à raiva e ao medo para colocar no trabalho que fazem. E abominam a ideia de serem felizes – isso realmente os desagrada. Acham que a felicidade os fará perder o estímulo e o poder.

Mas não se perde o estímulo quando se medita. Assim como não se perde a criatividade. E não se perde o poder que se tem. Na verdade, quanto mais meditamos e transcendemos, mais as coisas se desenvolvem e percebemos isso. Quando mergulhamos mais fundo, ganhamos mais compreensão de todos os aspectos da vida. Dessa forma, o entendimento aumenta, o apreço cresce, a grande figura se forma e a condição humana se torna cada vez mais visível.”

Ressuscitando Barthes

Depois do horror passado com o livro de Binet (veja postagem abaixo), eu precisava voltar ao Barthes, que, se não é um autor completamente idolatrado por mim, tem passagens capazes de me transportar ao mesmo nível aonde Lispector me leva. Por exemplo:

“eu me interessaria por ver meus olhos somente quando eles te olham”

Fichado: estou fichado, fixado num lugar (intelectual), numa residência de casta (se não de classe). Contra isso, só uma doutrina interior: a da atopia (do habitáculo em deriva). A atopia é superior à utopia (a utopia é reativa, tática, literária, ela procede do sentido e o faz avançar).”

“(…) o prazer que cai, cai para sempre, insubstituível. Outros prazeres vêm, que não substituem nada. Não há progresso nos prazeres, apenas mutações.”

“a enxaqueca também acaricia certos dias meus”

“meu corpo é debilmente teatral para si mesmo”

“(…) a função de toda gaveta é de suavizar, de aclimatar a morte dos objetos, fazendo-os passar por uma espécie de lugar piedoso, de capela empoeirada onde, sob pretexto de os manter vivos, arranjamo-lhes um tempo decente de triste agonia”

“Para destruir, é preciso poder saltar

Inventar o silêncio

 

A edição 195 do jornal Rascunho trouxe, na seção Inquérito, com Charles Kiefer, um tema que me sensibiliza muito: a opção pelo silêncio. Desde a época em que, para o mestrado, pesquisei a obra de Raduan Nassar – tantas vezes definido como um “ex-critor” –, essa postura me intriga e fascina.

Inicialmente, fui tentada a considerar inviável tal espécie de renúncia. Como um artista, para quem a criação é coisa tão vital, poderia abdicar (e ainda mais, voluntariamente) de sua prática? No imaginário, estes indivíduos me surgiam como discretos rebeldes que, à custa dessa greve, pareciam elaborar algum protesto – contra o mercado? o público? os seus contemporâneos? Não me importava o ideal por trás da decisão: eu achava que essas pessoas amargavam o sacrifício, a sensação de sufocar pelo não-dito, ou não-escrito. Seriam mártires da estética ou, no mínimo, seres infelizes.

O tempo – com variados exemplos – fez com que eu mudasse de juízo.

O silêncio, como escolha, apresentou legitimidade e inúmeras facetas. Não se trata (apenas) de um gesto de recusa: deixar de produzir é também um tipo de resposta e, em última instância, o vazio linguístico pode ser recebido como um texto, implícito ou radicalmente econômico.

A própria literatura se encarrega dos exemplos. Vila-Matas é a figura que logo recordamos, para abordar estes casos; com Bartleby & cia. (e depois, em outros textos) o escritor espanhol explora, em sua ficção, episódios envolvendo “artistas do não”. O mote fornecido pelo livro de Melville, Bartleby, o escrivão, usa como ponto de partida a personalidade de quem prefere a paralisia ao gesto, a imobilidade à ação.

O silêncio derivado dessa circunstância parece ter uma raiz fleumática ou displicente, algo que se encontra em Oblómov, o protagonista eternamente deitado em sua cama. Este romance de Ivan Gontcharóv, publicado em 1859, repercute na obra de Georges Perec, O homem que dorme, de 1967. A preguiça ou indiferença pode ser um dos motivos para essa atitude de persistente repouso.

Confundindo-se com um pessimismo profundo – e oscilando à borda de um estado depressivo –, tal postura parece ecoar o início d’ “O artista inconfessável”, de João Cabral: “Fazer o que seja é inútil/ Não fazer nada é inútil”. Os versos seguintes, porém, elegem “o inútil do fazer” como mais relevante, “porque ele é mais difícil/do que não fazer” e o esforço, em si, já tem valor.

Fernando Pessoa – via Bernardo Soares, no Livro do desassossego – abordou o tema com abundância adverbial: “Mais vale supremamente não agir que agir inutilmente, fragmentariamente, imbastantemente, como a inúmera supérflua maioria inane dos homens”. O orgulho de se destacar da massa, do grosso comum da humanidade, surge como outro motivo para a recusa de agir. O ponto que oscila entre plenitude e pessimismo continua, porém, escorregadio. Em momento adiante, o poeta reflete: “Mas não sei se a definição suprema de todos esses propósitos mortos, até quando conseguidos, deve estar na abdicação extática do Buda, que, ao compreender a vacuidade das coisas, se ergueu do seu êxtase dizendo ‘Já sei tudo”, ou na indiferença demasiado experiente do imperador Severo: ‘omnia fui, nihil expedit – fui tudo, nada vale a pena’.”

Susan Sontag, no ensaio “A estética do silêncio”, pertencente ao livro A vontade radical, demora-se em ponderações sobre o assunto e admite: “A atitude verdadeiramente séria é a que encara a arte como um ‘meio’ para alguma coisa que talvez só possa ser atingida pelo abandono da arte”.

Desde que o fazer estético pode ser considerado uma libertação, ou até mesmo um exercício de ascetismo, o artista vai se tornando purificado – “de si próprio e, por fim, de sua arte”. A necessidade (que, como tal, sempre revela uma carência, uma fragilidade) é superada pela satisfação. O artista não sofre mais com a inquietação de realizar uma obra; atingiu o sossego, que é mais valioso do que a voz.

Assim observa Sontag: “O silêncio é o último gesto extraterreno do artista: através do silêncio ele se liberta do cativeiro servil face ao mundo, que aparece como patrão, cliente, consumidor, oponente, árbitro e desvirtuador de sua obra”.

Em meio a tanto ruído do mundo, o caminho da contemplação surge como um veio promissor. É nesse sentido que abdicar da arte pode ser o ápice do propósito artístico, o exercício dentro de uma estética ensinando a extrair prazeres do mínimo. Render-se à tentação da mudez é, portanto, uma fase de êxtase, e não de sacrifício, para quem assim procede.

Mas Sontag adverte que essa etapa – como num trajeto de iluminados – tem de ser alcançada tardiamente: “Uma decisão exemplar dessa espécie só pode ser efetuada após o artista ter demonstrado que possui gênio e tê-lo exercido com autoridade. Uma vez suplantados seus pares pelos padrões que reconhece, há apenas um caminho para seu orgulho. Pois ser vítima de ânsia de silêncio é ser, ainda num sentido adicional, superior a todos os demais. Isso sugere que o artista teve a sagacidade de levantar mais indagações que as outras pessoas, e que possui nervos mais fortes e padrões mais elevados de consciência”.

O silêncio, em todas essas colocações, pode ser um sinal de orgulho no ultrapassar a ação (ainda que esta seja original, artística), ou pode, ao contrário, ser despretensioso, derivado de simples letargia. Também é possível que nem dependa de uma escolha do indivíduo, nos casos em que ele se encontra pleno a ponto de perder o anseio por criar. Tal parece ter sido o caso de Charles Kiefer, que em sua entrevista declara: “Como eu vivo hoje em absoluta plenitude, não escrevo mais”.

Sendo múltipla e criativa – embora exteriormente possa soar como uma tendência uniforme e estéril, devido à falta de produtos ou resultados –, a inação guarda o impulso narrativo. Susan Sontag assinala que “a obra de arte eficaz deixa o silêncio em seu rastro”. Numa linha próxima, mas agora pensando no potencial inventivo dessa mudez, arriscamos a afirmação vista pelo outro lado para dizer: o silêncio eficaz deixa um rastro de arte.

 

Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Tudo é narrativa, do jornal Rascunho)