Amar uma língua

Amar uma língua é afeto permanente, constitutivo. Aprendi a pensar em português: foi nesse repertório de palavras que me ensinaram o nome das coisas e dos sentimentos. Que isso tenha se multiplicado depois – com o aprendizado de outros idiomas – não faz qualquer diferença. Minha língua-mãe continua sendo seiva, leite primordial. É minha identidade e meu espaço livre. É onde me banqueteio a cada instante, a cada dia.

 

Publicação na revista Pessoa, em celebração ao mês da Língua Portuguesa. Para ver o site, clique aqui.

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O regresso ao contínuo

    Em 2017, o centenário de nascimento de Algirdas Julius Greimas – linguista lituano grandemente responsável pelos avanços na área da semiótica – trouxe várias comemorações pelo mundo acadêmico. Os estudos dessa linha greimasiana costumam ser temidos por sua complexidade, mas também trazem ao pesquisador experiências de reflexão tão arrebatadoras que só podem ser comparáveis a determinados momentos estéticos. O próprio título de minha seção, Tudo é narrativa, foi inspirado nessa proposta semiótica. Óbvio que não pretendo agora enveredar pelo tema teórico da construção do sentido – mas, em homenagem ao autor de Semiótica das Paixões, gostaria de fazer volteios em torno de um assunto que o leitor pode inclusive considerar em sua dimensão mística: o par contínuo-descontínuo.

   Simplificando estes termos dentro de uma estrutura textual, o contínuo é a continuação, a rotina; o descontínuo é a parada, ou o acontecimento. Assim, qualquer enunciado modula estas instâncias, à medida que vai trabalhando com fatos dados ou novos. Toda cadeia processual possui alternância, e é a própria tensão entre tais dicotomias que vai gerando o andamento do texto.

       Se saímos, porém, da perspectiva de uma semiótica tensiva (mais explorada por outros teóricos, sobretudo por Claude Zilberberg), encontramos uma distinta aplicação para esta ideia oposicional. O descontínuo seria tudo o que está mergulhado na, por assim dizer, semiosfera. O princípio da comunicação é que ela aconteça por fragmentos. O fato de precisarmos falar a respeito de algo que estamos pensando, por exemplo, demonstra como existe uma separação entre a nossa mente e a de outra pessoa. Cada indivíduo é mera parte da humanidade, que se encontra em estado de dispersão – por isso, parece primordial que nos comuniquemos. Essa troca só é possível porque existe a separação, a diversidade. Se tudo fosse reduzido ao uno, as necessidades de transferência ou diálogo ficariam subitamente esgotadas.

      Faço uma pausa para o leitor respirar, contando uma ilustrativa experiência pessoal.

      Já faz muito tempo sinto uma espécie de chamado para uma vida mais primitiva, algo que nomeio como tentação de ser hippie. Insistentemente cogito passar um longo período sem tecnologia, de maneira mais ou menos selvagem, em contato íntimo com a natureza. Como jamais arrisquei efetivamente essa mudança, contento-me com pequenos retiros rústicos, para me desintoxicar. Foi assim que há cerca de um mês passei um final de semana numa praia ainda pouco conhecida, a quatro horas de Fortaleza. A paisagem, com dunas belíssimas, era um tipo de representação do infinito – e andar sob as estrelas parecia um ensinamento ancestral: estamos aqui por um instante apenas, mas isso não é trágico. Logo estaremos de novo integrados ao contínuo universal. Sem desejos, anseios ou fragmentos.

    Tudo muito espiritualizado e perfeito – não fosse pela presença de outras pessoas falando, quebrando o momento. Eu queria apenas ser esmagada pelo silêncio, deixar que ele me preenchesse, mas duas senhoras atrás de mim conversavam. Elogiavam um conjunto de panelas em promoção numa certa loja.

     Escutar aquele comentário me fez entender como a comunicação pode ser um defeito.

    Há momentos em que fazer uso da língua se torna um distúrbio, uma ação postiça. Toda mensagem é uma forma de romper-se, de evidenciar as fraturas: de mim para você, sempre haverá desentendimentos, elementos alheios incontornáveis.

    Esse é o descontínuo, convulsionando. E ele convulsiona o tempo inteiro, no espaço cultural permeado por signos – a tal semiosfera.

    Entretanto, temos uma potencialidade de transcendência, uma integração holística possível – o regresso ao contínuo, quando nada mais for separado, tempo e espaço e corpos: tudo inexiste porque chegou a uma totalidade tão extrema que qualquer coisa (inclusive a linguagem) se torna supérflua, uma futilidade que finalmente se ultrapassou.

   A própria língua deixaria de existir porque tudo nela – assim como no mundo – funciona na base de contrastes. Se digo (na tentativa de explicar uma vida-além) que ela seria um estado perene de paz, aí já existem oposições, pois não se entende o conceito de paz a não ser pondo-o em contraste com o de guerra; a ideia de estado obriga a pensar na ausência de estado, o perene evoca o perecível. Assim, cada palavra ou partícula existe somente por dialogar com outra – e este mecanismo, por si, é um sintoma da imperfeição, das partes que vão se dinamizando e nunca chegam à unidade completa. Chegar a essa imobilidade seria o fim das contradições e do simbólico. Seria a morte, por assim dizer.

     Nesse momento, penso que a frase do sábio “Só sei que nada sei” não parece uma lição de humildade, mas, ao contrário, uma afirmação iluminada (e até um pouco envaidecida): saber o nada é saber o tudo. É ter acesso à perfeição. Quando não existem divisões, compreender-se dentro da continuidade é contemplar o divino. Ou melhor, é dissolver-se nele, deixar de ser matéria, átomo. Retornar ao contínuo.

Tércia Montenegro (texto publicado também aqui, no jornal Rascunho)

Viajar não acaba nunca

Então houve aquela aula de polonês em que a professora pediu uma sentença com um verbo perfectivo que, conjugado no presente, tivesse valor de futuro. Eu sugeri o verbo “podróżować” (viajar), mas então a nauczycielka Magdalena Szymanska saiu-se com essa frase, de uma fulminante verdade filosófica: “Viajar não tem perfectivo, viajar não termina nunca”.

Respaldada pela sabedoria eslava, eu retomo o interminável tema – porque as experiências de estar em trânsito sempre me fascinaram. Há alguns anos inclusive publiquei Meu destino exótico, ebook disponível na Amazon, que condensa alguns acontecimentos, dentre curiosos e cômicos, que fui colhendo pelo mundo. Uma série de circunstâncias, porém, fez com que do ano passado para cá eu me pusesse a refletir (e continuo nesse processo) a respeito de comodismo versus aventura.

O risco de cair no conforto da primeira opção quase me fez negar o gosto que tenho pelas explorações imprevistas. Salvou-me desta incoerência Um bom par de sapatos e um caderno de anotações, coletânea de fragmentos escrita por Tchékhov sobre a viagem que ele realizou a Sacalina, ilha que recebia presos deportados. A motivação para a experiência foi, em grande parte, conduzida pelo “lado médico” do autor – mas a observação sensível, que transforma o visto em outra coisa, está o tempo inteiro neste livro.  É o que prova que um escritor nunca deixa sua tentação estética, por mais que profissionalmente incursione por outros territórios.

De modo mais direto: sobre as difíceis expedições, não posso me queixar de ter já sofrido cansaço, se descubro, por exemplo, que Tchékhov saiu de Moscou em 21 de abril de 1890, para chegar a Sacalina somente em 11 de julho. Partiu de lá em 13 de outubro, voltando para casa apenas em 9 de dezembro. Além de todo o desgaste do tempo de deslocamento, enfrentou condições adversas até mesmo para um resistente russo: teve de andar em meio a lama e frio, usando botas de feltro, e em sua rotina com os prisioneiros só encontrou – como podemos imaginar – cenas degradantes de imundície e embotamento ou desespero.

As lições não param neste ponto. O desejo de observar, inspirado por uma pesquisa, num “elogio à experiência direta”, foi o que levou Tchékhov a sua viagem – que, dentre muitos ensinamentos, trouxe também a humildade de rever expectativas, perceber como relatos alheios ou leituras às vezes são completamente equivocados.

Um dos seus princípios, válido para qualquer coisa, era “não se deixar vencer pelas dificuldades iniciais e pelo medo do imprevisto”. E o outro: não planejar demais, sob pena de se privar do prazer – e da sabedoria – do Acaso. Um bom par de sapatos é um livro essencial sobre coragem, do tipo que faz a gente se jogar sem paraquedas, para cair bem em cima do desejo.

Se entendemos, aliás, que a própria vida é processada como viagem, a extensão do ensinamento de Tchékhov se amplia – e aqui preciso fazer uma costura com certo conhecimento acadêmico…

Já faz muito tempo que conheci a proposta de Lakoff e Johnson, no clássico Metáforas da vida cotidiana – mas posso dizer que meu fascínio por ela continua intacto. Poucas vezes fiquei tão empolgada com uma teoria e, embora jamais tenha utilizado essa linha em nenhum trabalho específico, quase todos os dias penso em como nós, humanos, somos moldados por estruturas mentais metafóricas e metonímicas, que nos condicionam a perceber de um modo particular. Claro que não poderia reduzir o trabalho dos pesquisadores nas poucas linhas deste texto; portanto, sem qualquer tentativa resumitiva, destaco somente o que me leva à reflexão de agora.

Estamos habituados – dizem Lakoff e Johnson – a entender acontecimentos dentro de um padrão comparativo (ou metafórico, por comparações implícitas). Assim, o trajeto de um lugar a outro, com simultânea passagem de tempo e espaço, serve de paralelo ao percurso da própria existência. Cognitivamente, somos levados a compreender que A VIDA É UMA VIAGEM, estrutura que justifica uma série de expressões, do tipo “Ele partiu”, para se referir à morte, ou “Quando o bebê chega?”, para indagar sobre um nascimento.

Ora, mas a vida não apenas poderia ser compreendida em seus limites e abrangência, mas também em suas aventuras ou peripécias, dentro do esquema de uma viagem. Tal ponto já foi diversamente explorado, por inúmeros artistas, poetas, cineastas – e, embora sejamos da opinião de que uma biografia jamais pode ser, na sua inteireza, narrada (vejam a propósito nosso artigo “Verlaine e seu fantasma”, na edição de número 197 deste Rascunho), enxergamos, óbvio, que ela é composta à maneira de uma narração.

A sequencialidade, as ações lineares, o retorno de leitmotive, a presença de personagens em variados papéis, os cenários, os momentos de clímax, até mesmo as digressões… tudo parece “combinar” com os ingredientes de um romance, nem sempre longo ou interessante – e, claro, não obrigatoriamente sensato. Mas, por mais vanguardistas que sejam as experiências de errância de um personagem em sua narrativa, digamos, real, o fio condutor, ou o eixo de sua história, será inevitável, com um começo no nascimento e um final na morte.

Talvez pela tentativa de quebrar o possível neste padrão aprisionante (ou seja, tudo o que não for chegada e partida, os extremos deste esquema), às vezes nos esforçamos por fazer do caminho vital uma coisa singular, irrepetível, que vale o registro. É como diz Vila-Matas, em seu Não há lugar para a lógica em Kassel: “tive a impressão de estar vivendo mais uma vez o começo de uma viagem que poderia acabar transformando-se em um relato escrito no qual, como era comum, mesclaria a perplexidade e a vida em suspenso para descrever o mundo como um lugar absurdo aonde se chegava através de um convite muito extravagante.”

E através do texto se pode sentir – como quando se encontra o verbo exato – que podróżuję, de fato, jamais acaba!

Tércia Montenegro (crônica publicada aqui, no jornal Rascunho)

 

Goethe na intimidade

Há alguns anos, quando fui a Frankfurt para a Feira do Livro, pude conhecer a casa em que Goethe viveu: vi os papéis de parede autênticos, a mobília, o piano piramidal, o teatro em miniatura, a biblioteca… Meu Deus, eu vi até mesmo as panelas usadas na época e a escrivaninha de onde saiu o Werther!

Tempos mais tarde, em Roma, também descobri um apartamento onde o poeta alemão viveu, durante sua temporada na Itália. E a visita me ensinou sobre o seu lado voltado para as artes plásticas – além de me postar diante da exata janela em que Goethe foi retratado por Tischbein na seguinte obra:

Mas até ontem, por mais que todas essas referências (e leituras em tradução) me aproximassem de Goethe, eu ainda não tinha desfrutado de sua intimidade, por assim dizer. Pois só é possível tornar-se familiar de um artista mergulhando em sua obra, percebendo como ela foi feita – no original, com o sabor autêntico.

Um minicurso com a amiga Reseda Streb, como parte da programação da Semana da Língua Alemã, na Casa de Cultura, abriu-me as portas da poesia germânica. Não foi uma experiência de entendimento imediato, óbvio (a cópia com minhas anotações abaixo demonstra o processo), mas o fascínio prevaleceu. Ao ouvir Reseda lendo os versos, com seu ritmo autêntico – e depois, ao experimentar também uma leitura em voz alta, tive a mesma sensação de entrar n’Os Lusíadas, ou na Divina Commedia.

Camões, Dante e Goethe pertencem a universos e temas distintos, lógico. Mas lê-los no original provoca em mim a mesma coisa; ativa o mesmo lugar interno – aquela fisgada de arrebatamento que também tive diante de Vermeer, diante de Rembrandt, ó céus. É nessas horas em que sinto o privilégio da arte, e como ela cria um tipo de felicidade específico.

Todo o esforço para aprender um novo idioma vale a pena nesses momentos. Assim como os sacrifícios para fazer uma viagem com o grande objetivo de ver um quadro num museu. São experiências de clímax na vida. E – devo admitir – , exatamente por trazerem êxtase, tornam-se um vício também.

O que posso fazer? Continuo perseguindo o princípio do prazer.

Obs.: Na época de minha visita à casa de Goethe em Roma, fiz uma postagem neste blog, que pode ser lida aqui.

Para matar Roland Barthes

Quem matou Roland Barthes?, de Laurent Binet, tem um título original mais interessante para o seu enredo (embora não tanto para o mercado): A sétima função da linguagem. A hipótese desse “thriller acadêmico” gira em torno de uma possível função – mágica – que Jakobson teria explicitado em sua clássica obra sobre o assunto; porém, à maneira do índex que também constituía a ameaça criminosa em O nome da rosa (influência evidente em Binet), o tal ensaio vira um instrumento mortífero graças aos poderes que seria capaz de conferir à pessoa que o utilizasse.

O livro começa com algumas qualidades irônicas, sobretudo no retrato humano, excessivamente humano, que traça de personalidades científicas. Quem já teve a oportunidade de conviver 10 minutos com um grande nome das pesquisas (linguísticas ou não) reconhece de imediato o temperamento agônico-vaidoso que encrespa, via de regra, esses indivíduos. Foucault, Deleuze, Kristeva, Sollers, Derrida: todo mundo entra nesse caldeirão em que teorias interessantes se misturam a conchavos sórdidos. É claro que o livro pretende ser uma ficção – e isso estabelece limites bastante claros. Mas o leitor fica com o gosto ruim de perceber que, tirando as máscaras das referências didáticas, o que sobra é uma história bem ruim. O velho esquema de passeio-por-muitas-paisagens, ação e mais ação, mistérios motivando personagens caricatos cheira a Dan Brown. As cenas de sexo são das menos convincentes já escritas: parecem fabricadas por um robô empenhado em encadear sequências previsíveis, que têm como único appel o fato de acontecerem em locações extravagantes.

A tradução para o português, de Rosa Freire d’Aguiar, também é descuidada, como o demonstra esta passagem:

“Eco diz que a teoria de Austin não se limita a esses poucos casos mas que ele a estendeu a situações linguísticas mais complexas, quando um enunciado não se contenta em afirmar alguma coisa sobre o mundo mas visa provocar uma ação, que se realiza, ou não, pelo simples fato de que esse enunciado é formulado. Por exemplo, se alguém lhe diz ‘está calor aqui’, pode se tratar de simples constatação sobre a temperatura mas em geral você entende que o outro conta, a partir do efeito de observação, com o fato de você ir abrir a janela. Da mesma maneira, quando alguém pergunta ‘que horas são?’, espera como resultado para a pergunta não que você responda sim ou não, mas que de fato lhe diga a hora.” (p.211)

O negrito acima acentua um trecho completamente incompreensível – por causa da tradução! E não é preciso saber francês ou consultar o original para supor que Binet deve ter escrito “quando alguém pergunta ‘você tem um relógio?'”. Neste caso, sim, seria possível a resposta sim ou não – embora, conforme a teoria de Austin, saiba-se que a verdadeira intencionalidade é saber a hora etc.

Há outras derrapadas de menor gravidade; entretanto, não quero responsabilizar a tradutora para além do que ela merece. Binet me pareceu enfadonho em suas soluções bizarras. Isso atrapalha até o “serviço científico” que ele poderia prestar, convidando leitores a buscarem teorias ou autores muitas vezes áridos. Desisti de recomendar mesmo curtas passagens para os meus alunos (embora trabalhando com Jakobson, Barthes, Foucault e Kristeva). O livro não merece concessões. Ele incorre no pecado do desleixo estético: não parece se importar com o texto; é cheio de irregularidades na proposta narrativa, sem que isso pareça atender a um propósito. Seu suspense conspiratório não é suficiente para compensar as fragilidades e inverossimilhanças da trama.

Houellebecq, meses atrás, e Binet, agora, inspiram a minha resolução de ano-novo (e de vida): exigir da arte o espanto imprescindível. Ser impaciente com o trivial – e rejeitá-lo. Vou engrossando o casco. Não apenas uma segunda chance a esse tipo de autor é impossível, como decido abandonar peças semelhantes – sejam livros, filmes, espetáculos – no meio. Afinal, a experiência demonstra: se não trouxe nenhum impacto até determinada altura (meia hora, 5o páginas), é caso perdido. Por que perder o tempo, esse bem inestimável?