Observação e captura

A arte do desenho segue os mesmos gestos iniciais que a literatura e a fotografia: observação e captura. Talvez por isso eu sempre tenha gostado de acompanhar o trabalho de desenhistas, reparando na forma como alternam a atenção do modelo para o papel – e a magia com que transformam carne em traço, sob o mistério do estilo. Devido à minha curiosidade ou disponibilidade, não sei, o interesse algumas vezes foi mútuo, e já pelos menos seis ou sete artistas quiseram me desenhar (e nessa contabilidade não entram os episódios em que, como professora, percebi que a atenção fixa de certos alunos na verdade era estudo de fisionomia que, discretamente, ia se transformando em esboço, durante a aula. Nesses casos, por uma espécie de maldade incontrolável, eu fingia não perceber as intenções da pessoa e caprichava nos movimentos, nas gesticulações: arregalava os olhos, dava as costas, fazia de tudo para aumentar o grau de dificuldade da tarefa, até que o aluno desistisse e voltasse a prestar atenção na matéria. Funcionava.)

Quanto aos desenhistas que pediram minha permissão e tempo para a pose, claro que tiveram respostas positivas. Aprendi com meus gatos a estética da imobilidade relaxada, e não me constrange posar: afinal, eu observo enquanto sou observada; existe um diálogo nessa captura de imagem, e existe um silêncio permeado pelo som do lápis, das canetas, numa atmosfera que eu adoro integrar.

Ontem, portanto, havia esse grande motivo para que eu fosse ao Salão das Ilusões. O evento Mesa Branca não somente atrairia pessoas amigas que eu estava querendo rever há meses, como propunha sessões de desenho com a Raísa Christina, que eu já admirava desde o seu livro Mensagens enviadas enquanto você estava desconectado. Quando soube que havia a chance de ser desenhada por ela, entrei logo na fila – e o resultado é este, belíssimo, que vocês conferem abaixo. Um traço cheio de liberdade, revolta e, ao mesmo tempo, poética. Virou um dos meus retratos favoritos.

Tércia por Raíssa

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O amor descomplicado

O grande sacrifício da minha vida foi passar os últimos seis meses longe dos meus gatos. Eles me fizeram falta física e espiritualmente – algo que estava para além de qualquer ponderação racional. E agora, retornando à casa, eles me recebem com uma primeira reação de surpresa, mas que imediatamente se transforma em acolhida: alegria imediata, proximidade para o carinho, o estar-junto-direto, olhos apertados de prazer… Talvez o amor dos bichos seja o único descomplicado. Sem cobranças, amarguras, ressentimentos – e, apesar disso, eles se lembram do passado. O seu amor também é feito de memória (a complicação, portanto, não está aí). Mas o seu afeto se desapega de tudo o que é análise, para se concentrar na presença.

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Da Bélgica e do Brasil

Agora que a minha temporada de pós-doc vai se encerrando, é tempo de fazer um balanço, não somente profissional – proveitosíssimo – mas também particular. Passar 6 meses na Bélgica foi uma escolha que envolveu ritmos e circunstâncias quase milagrosas para mim: tudo se ajustou de uma forma incrível. Não digo que todos os dias foram perfeitos; houve muita saudade (dos gatos, dos amigos e familiares, do sol, da língua portuguesa), mas até os momentos difíceis foram importantes, para que eu soubesse valorizar o que está em jogo na vida. As conclusões foram inúmeras, e tive tempo de aprofundar ideias em diversas áreas; fiz não somente um, mas três cadernos de viagem! Essas anotações eu vou compartilhar com as pessoas queridas, que mal posso esperar para abraçar de novo. Por enquanto, neste hiato entre a despedida e o regresso, revejo locais que, de inéditos, passaram a ser afetivos. Afinal, a Bélgica tornou-se um pouco o meu país; há coisas que vou levar daqui em diante como parte do que sou/serei, em direção às próximas experiências.

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Louvain, Leuven

O último dos meus passeios, nessa temporada belga que vai se encerrando, foi para conhecer Leuven, também chamada de Louvain-la-vieille pelos francófonos. Se existe uma cidade universitária na plena acepção de seu termo, é esta. Eu me senti perfeitamente acolhida e feliz, ao andar pelo centro, entre tantos prédios históricos e importantíssimos para o conhecimento – como é o caso do College van Premonstreit, em que trabalhou Georges Lemaître, pai da teoria do Big Bang. Aliás, é de se reconhecer como este estudioso, que além de padre foi astrônomo, cosmólogo e físico, serve de exemplo para as pessoas que acham que religião e ciência são inconciliáveis. Mas o seu caso não é isolado; em Leuven, os espaços católicos se confundem com os refúgios acadêmicos – e vice-versa. Em todos os ambientes há menções a escolas, estudo – há um hotel chamado “Professor” e uma pizzaria “Filosofia”. E, ponto resumitivo, a biblioteca fica em espaço de honra, imponente e majestosa (como deve ser!). Tudo bem que esse besouro empalado fica meio avulso na paisagem – ainda que possa ser uma referência sinistra ao Kafka. Mas tentemos nos concentrar na beleza do edifício (e nas maravilhas que ele contém):

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Para além disso, Leuven, com seu Jardim Botânico, fez com que eu descobrisse um tipo de sacralidade no silêncio da natureza. No Grande Béguinage, viajei pelo tempo, recuperando a existência dessas mulheres que, se serem religiosas, decidiram levar uma vida comunitária, de estudo e paz.

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O hôtel de ville e a igreja de Saint Pierre são monumentos góticos esplendorosos, como nunca antes tinha visto – e o ideal foi estar ali num domingo, com as ruas desertas, o rebuliço do comércio bem longe, e o carnaval… o que é mesmo isso?

Carnaval belga

Pesquiso num guia da Wallonie e encontro diversas manifestações carnavalescas. Além das famosas máscaras de Ostende, celebrizadas por Ensor, há a criação de bonecos como o Bonhomme Hiver, um manequim de palha que costuma ser usado feito bode expiatório. Afogado em algumas regiões, queimado em outras, este tipo de judas garante a festa por aqui. O travestimento de homens e mulheres é mais um ponto em comum com o carnaval brasileiro. Entretanto, existem as singuralidades, óbvio : soube que em Vierves os habitantes coletam ovos e distribuem uma gigantesca omelete enquanto o cortejo percorre as ruas. Em Malmedy e Stavelot, as fantasias são folclóricas (o Blanc Moussi parece uma versão do Doutor Peste veneziano), e em Fosses o Polichinelo, popularizado pelo teatro ambulante, é o personagem mais popular. Ainda faltaria pesquisar sobre o carnaval na região de Flandres – mas, como sempre, este gênero de festa (com suas multidões) não me deixa lá muito animada…

A lenda nos vidros

Aqui em Liège, faz alguns meses já, fotografei uma sequência de seis janelas que traziam inscrições. Elas pertenciam a um estabelecimento comercial que depois eu soube tratar-se de uma gráfica – mas nada na aparência do prédio, fechado, sugeria uma atividade específica. Apenas as inscrições no vidro das janelas criavam a sua singularidade : como trechos de uma lenda, elas instigavam o mistério e a poeticidade. Traduzo aqui os seus textos, para lembrar como é importante traçar palavras que nos mantenham na superfície (e também nos salvem dela).

Primeira janela – Conta-se que o vapor que se deposita no vidro de certas casas faz reaparecer inscrições que teriam sido traçadas anos antes.

2a – Alguns chegam mesmo a pretender que, na origem, estas inscrições teriam sido formadas na areia que serviu para a fabricação destes vidros.

3a – Elas teriam sido escritas por todos os que, partindo rumo ao deserto em busca de alguma verdade, perderam-se nas areias movediças.

4a – Para não afundar muito depressa, eles teriam tentado acalmar sua agitação traçando inscrições produzidas por um agradável movimento manual.

5a – Eles não buscavam saber o que escreviam ; queriam apenas encontrar as palavras que os mantivessem por mais tempo na superfície.

6a – Os que retornaram passam o tempo a assoprar sobre os vidros, na esperança de encontrar suas incrições e compreender o sentido.

Janela