Para rir com Proust

Não é a primeira vez que eu posto, aqui, uma passagem engraçada do Em busca do tempo perdido – e provavelmente não será a última, visto que ainda me faltam dois volumes para completar essa obra-prima. Cada vez mais me convenço de que Proust alcança seu mérito não somente pelo afamado fôlego, ou pela sensação envolvente que os leitores temos, de folhear um álbum da aristocracia francesa para nos determos numa e noutra personagem, e então ouvir sua história, deliciosamente recheada de ironias ou descrições mordazes. Diante disso, a tal madeleine já seria um ínfimo bolinho na mão de críticos literários que se contentam com petiscos. Afinal, o recurso da memória involuntária parece um detalhe, diante desse esbanjamento ágil, que Proust exibia no território da comicidade. Confiram um exemplo, se duvidam:

“Esse rapaz rubro, de feições rudes, era exatamente como se tivesse um tomate no lugar da cabeça. Um tomate exatamente igual servia de cabeça a seu irmão gêmeo. Para o contemplador desinteressado, há muito de belo nessas semelhanças perfeitas de dois gêmeos, que a natureza, como se houvesse momentaneamente industrializado, parece produzir em série. Infelizmente, o ponto de vista do sr. Nissim Bernard era diferente, e essa parecença era exterior apenas. O tomate n° 2 se comprazia freneticamente em fazer com exclusividade as delícias das damas, e o tomate n° 1 não detestava condescender aos gostos de certos senhores. Ora, cada vez que, sacudido, assim como que por um reflexo, pela lembrança das boas horas passadas com o tomate n° 1, o Sr. Bernard se apresentava em Às Cerejeiras, míope como era (e, aliás, a miopia não era necessária para confundi-los), o velho israelita representando o Anfritrião sem o saber, dirigia-se ao irmão gêmeo, dizendo: – Queres marcar um encontro para esta noite? – recebia logo uma surra vigorosa. (…) Por fim, aquilo acabou por aborrecê-lo de tal modo que, por associação de ideias, se enjoou dos tomates, mesmo dos comestíveis, e, se ouvia a seu lado, no Grande Hotel, um viajante encomendá-los, sussurrava-lhe: – Desculpe-me, senhor, por dirigir-me a sua pessoa sem conhecê-lo. Porém ouvi que encomendou tomates. Eles estão podres hoje. Digo-lhe isto no seu interesse, pois por mim tanto faz, nunca os como. O estrangeiro agradecia com efusão àquele vizinho filantropo e, desinteressado, chamava o garçom, fingia mudar de ideia: – Não, decididamente nada de tomates.” (Sodoma e Gomorra, pp.702-3, trad. Fernando Py)

Mariposas

Amigos, venho convidá-los para a exposição “Mariposa: obras sobre luz/luz sobre obras”, da qual estarei participando. Numa organização da Contemporarte galeria, junto com a Candela Iluminação, as peças estarão na Praça Portugal, n° 71, até dezembro – e a inauguração vai ser próxima terça-feira, às 20h.

 

“Uma de suas estátuas num quarto, e o quarto vira um templo”

O título desta postagem vem de um texto maravilhoso do Jean Genet que estou a ler, O ateliê de Giacometti. É um privilégio encontrar uma obra assim, em que dois artistas apresentam o que têm de melhor – do escultor, encontro novas obras em fotografias de Ernst Scheidegger (e aproveito para lembrar a sensação de ver suas silhuetas longilíneas e tão misteriosas – a primeira vez, foi na Cidade do México; a segunda, em Paris); do autor, recolho passagens de reflexão como esta, que cito abaixo, com total concordância:

“Não compreendo bem o que em arte se chama um inovador. Uma obra deveria ser compreendida pelas gerações futuras? Mas por quê? E o que isso significaria? Que elas poderiam utilizá-la? Para quê? Não entendo. Mas entendo bem melhor – ainda que muito obscuramente – que toda obra de arte que queira alcançar as mais grandiosas proporções deve, com uma paciência e uma aplicação infinitas desde os momentos de sua elaboração, descer aos milênios, juntar-se, se possível, à noite imemorial povoada de mortos que irão se reconhecer nessa obra.” (Cosac Naify, p.15)