Chorar nos museus

E não me esquecerei da senhora que me contou como certo dia, estando sozinha num museu de tapetes do Irã, pôs-se a chorar discretamente, mas não tanto a ponto de passar despercebida por uma jovem, também visitante. A desconhecida se aproximou e, num inglês canhestro, lhe disse que, sendo a senhora estrangeira e aparentando estar tão triste e só, poderia acompanhá-la para um chá. As duas conversariam e se sentiriam melhor. Naquele instante, a iraniana lhe pareceu mais bela que todos os tapetes do mundo: a senhora a abraçou em resposta à sua generosidade, e chorou ainda mais.

Para chorar também: Santa Maria Madalena (vers 1515), por Gregor Erhart, no Louvre.

Maria do Caritó

Amigos,

Em meio a uma frenética semana de atrações culturais, com Palco Giratório e Festival de Cinema Francês, encontrem um tempinho para conferir esta peça, Maria do Caritó, com texto do querido e talentoso Newton Moreno. Cliquem no flyer abaixo para aumentá-lo:

Maria Caritó

Serendipity

Amigos, caso queiram descobrir sobre esta palavra mágica em inglês, escutem a jornalista Maria,que me entrevistou para a Radio Alto 948, durante o Salão do Livro de Paris. Nós estávamos no hotel George Sand, onde a escritora francesa deu à luz o seu filho Maurice: ambiente propício às boas energias, certamente.

O link para ouvir a entrevista – que está dividida em duas partes – segue abaixo:

http://www.telechargement.radioalto.info/index.php?c=Defaut&a=listeEmission&typEmission=1

 

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Mon seul désir

Continuando a postagem anterior, prossigo na tentativa de traduzir Paris através dos museus. Ainda no Louvre, visitei as obras medievais e deparei logo com a beleza da Bôite Reliure, caixa-livro da primeira metade do século XI, que a partir de 1677 continha a “fórmula do sermão dos duques de Brabant”, com filigranas, esmaltes carolíngios e os quatro evangelistas nos cantos – uma peça que merece longos momentos de contemplação.

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Também o Relicário do braço de Carlos Magno (Liège, 1165-1170) e o Relicário de São Francisco de Assis (ateliê de Limoges, c.1228), em forma de trevo, me fisgaram.

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A Idade Média se mostrava ainda em faianças e tapeçarias medievais. Estas últimas, em vermelhos e azuis pálidos, delineando-se em meio a tons terrosos para compor uns rostos crespos de lã, foram um ótimo prelúdio do que eu veria no Musée de Cluny. A famosa sequência dos tapetes da Dame à la licorne me arrebatou, como não poderia deixar de ser. Mas, se todas as atenções apontavam o tapete enigmático do sexto sentido, intitulado “Mon seul désir”, nem por isso deixei de passear longamente pelas outras salas, transportando-me às termas de Cluny (na época da Lutécia), olhando lápides do século XIII ou apreciando as esculturas antigas. O destaque vai para este capitel mostrando Daniel na cova com o leão (Paris, vers 1030-1040):

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E, embora as esculturas góticas (e as igrejas!) mereçam um espaço específico de comentários, por enquanto eu apenas atiço, com a beleza destas estátuas longuíssimas (ainda do Musée de Cluny):

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Como traduzir uma cidade

Para traduzir uma cidade, eu prefiro começar pelos museus. Eles dizem muito sobre o caráter de um povo.

Paris, é óbvio, vive os arrebatamentos inesgotáveis do Louvre, mas não apenas dele. Depois do fervilhar de gente em torno da Gioconda, e para além dos turistas que se querem fotografar em poses engraçadinhas ao lado dos Escravos de Michelangelo, há muitos outros espaços interessantes – discretamente exultantes, eu diria.

Mas comecemos pelo Louvre, comme il faut. Nesta minha primeira visita, praticamente me restringi ao bloco Richelieu (escolha acertada; mas qual não seria?). Assim, comecei vendo estelas funerárias e cones de escrita suméria. O mundo fenício e púnico chegou a mim através de cabeças assombrosas, misteriosíssimas – e claro que me impressionei com a estela funerária árabe que trazia uma inscrição maldita: “Que Athtar O Oriental atinja aquele que a demolir.”

Apreciei pratos iranianos, vasos em forma de pássaros, jarros milenares, adagas, punhais com cabos em formato de dragão – da dinastia dos Sukkalmah – e a certa altura entrei numa euforia arqueológica. Eu queria morar ali, em meio àquelas peças: queria acordar vendo a estela babilônica usurpada por um rei elamita, no século XII a.C. E olhar durante horas a deusa com olhos e umbigo de rubi, feita em alabastro, no séc.III a.C.

Não acharia nada ruim circular ao longo de dias por aquelas salas, até topar novamente com o fabuloso capitel de uma coluna do palácio de Darius I. Eu me encantaria de novo com aquela bacia ritual ornada de peixes-cabras, em calcário, sabendo que na iconografia mesopotâmica eles significavam a personificação do “abismo das águas doces”, o domínio do deus Ea. Eu estudaria a cerâmica de Susa, as esculturas moabitas e, depois, os touros androcéfalos vindos do palácio assírio. E talvez parasse de novo, muitos minutos, diante daquela estátua-menir com um rosto mal traçado, quase um fantasma, olhos e nariz apenas sugeridos por trás de um lençol de pedra. Tudo isso antes de entrar nas salas com obras da Idade Média – assunto que fica para outro dia.

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Paris

Ontem regressei de Paris. O Salon du Livre foi um evento formidável (e em breve devo colocar mais detalhes aqui). Além disso, a própria cidade ultrapassa tudo o que se possa dizer sobre ela. Os golpes de beleza acontecem no meio da rua, como se fossem rajadas de vento que nos atingem, subitamente. Primeiro, foi a Place de la Concorde, com a igreja da Madeleine. Depois, nos dias seguintes, os museus, as outras igrejas. Os livros, as calçadas, a língua francesa. A culinária, as frutas, os xales. As pontes sobre o Sena e o inesquecível passeio de barco, poucas horas antes de eu voltar. Lembro aqueles versos de Lamartine e penso num retorno. Paris, sem dúvida, faz com que a gente deixe uma parte do coração por lá.
“O temps! Suspends ton vol, et vous, heures propices!
Suspendez votre cours:
Laissez-nous savourer les rapides délices
Des plus beaux de nos jours!”

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Em frente à casa de Victor Hugo, num dia de março.