A casa de Balzac

Trecho do livro Le flâneur des deux rives, de Apollinaire, sobre a região de Passy:

“On arrive ensuite derrière la maison de Balzac. L’entrée principale qui mène à cette maison se trouve dans un immeuble de la rue Raynouard. Il faut descendre deux étages et, grâce à l’obligance de feu M. de Royaumont, conservateur du musée de Balzac, on pouvait sinon descendre l’escalier même que prenait Balzac pour aller rue Berton et qui est maintenant condamné, du moins prendre un autre escalier qui mène dans la cour que devait traverser le romancier et passer sous la porte qui le faisait déboucher dans la rue Berton.”

Maison Balzac

Novamente Paris

Jardim

Hoje, 14 juillet – ou 14/7/14 (o que dá uma impressão de uma sequência cabalística)- é dia propício para que eu pense no meu recente retorno a Paris. Nesta segunda vez, que entretanto foi a primeira em tantos aspectos, tive a certeza de que uma extensão do meu corpo está na França. Porque de lá eu alcanço o mundo inteiro – e o mundo começou, algumas semanas atrás, no Trocadéro. Por exemplo: pensemos no Musée do Quai Branly, para um mergulho ancestral. Ali, há potes cerimoniais da população mapuche, máscaras da Danse des Chunclus e da Morenada, cerâmica Nasca (dos Andes pré-hispânicos), teponaztli (tambores astecas) e um maravilhoso vaso cefalomórfico maia, da Guatemala, datado por volta de 300 a.C.

Vaso

Eu poderia também falar das coroas e braceletes da Etiópia cristã, das cruzes de procissão e pinturas do começo do século XIII – ou então, comentar o díptico da igreja de Qaha Iyäsus. Ainda haveria o aloalo, tipo de pote funerário de Madagascar, ostentando crânios de zebras fixados como oferendas. E os guardiões dos relicários, obras do Congo. Os escudos de palha trançada, de madeira, ou ainda feitos de couro de elefante ou de rinoceronte, vindos da Uganda. E as máscaras küappaat, da Groenlândia, com uma deformidade que lembra os quadros do Francis Bacon…

Masque (1)

Na linha de sedução pelo terror, lembro os vodus do Haiti, ligados aos rituais desconhecidos da sociedade secreta Bizango: o personagem guerreiro se apresenta coberto de tecidos vermelhos e pretos, costurados em alternância com espelhos, como se fosse um tipo de brincante do Nordeste brasileiro.

Vodoo

Mas o mais comovente – se fosse preciso escolher – foi o mastro do urso, canadense,a retratar o mito de Peesunt, jovem raptada por ursos, que dá à luz criaturas mistas. É justamente assim que sinto, sequestrada por inúmeras culturas férteis, obras de arte, países, línguas – tantos sobressaltos felizes que acontecem somente em Paris.

Totem

A vida segundo Magritte

“L’objet de la poésie deviendrait une connaissance des secrets de l’univers qui nous permettrait d’agir sur les éléments.”

“Être surréaliste, c’est bannir de l’esprit le ‘déjà vu’ et rechercher le ‘pas encore vu’.”

“La grande force de défense, c’est l’amour qui engage les amants dans un monde enchanté fait exactament à leur mesure.”

 

O tempo criado pelo espaço

Sobre as fotografias de Eugène Atget, seu modo de sintetizar um panorama que se perde na distância:

“(…) uma rua ou viela que se estende ou se curva em direção ao passado. (…) Atget utiliza isso para criar a sensação de que a perspectiva é uma questão não só de espaço, como também de tempo: diante de seus olhos é meio-dia, mas o dia parece estar terminando no fim de cada rua.” (Geoff Dyer. O instante contínuo, p.231)

Histórias de tempo e silêncio

Acabo de assistir ao Histórias que só existem quando lembradas (Brasil, 2011), da diretora Julia Murat. Estava mesmo precisando de um filme assim, lento, como uma coleção de cromos expostos, dando tempo a que a gente reflita – e contemple. Cada vez mais me cansam os ritmos dos filmes de ação, e é quase uma heresia a forma como consumimos – de maneira tão descartável e rápida – essa arte, que é uma das mais demoradas a se realizar. Pois Histórias que só existem… entra para a minha lista (assim como O piano, assim como Lavoura arcaica) de películas que merecem ser revistas, sempre. Um enredo monótono, dirão alguns – mas o conteúdo se apreende na primeira sessão; as seguintes valem pela beleza (que é o que resiste). Eis aí: um excelente trabalho brasileiro, sobre o tempo e o silêncio.