Hoje é dia de Camus

“Mas do amor só conheço a mistura de desejo, ternura e entendimento que me liga a determinado ser.”

“Estou falando daquilo que todos nós, artistas, incertos de sê-lo, mas seguros de não ser outra coisa, esperamos, dia após dia, para, finalmente, consentir em viver.” (O avesso e o direito)

 

Para fazer a festa

“Nós compreendemos há muito tempo que não era mais possível mudar este mundo, nem remodelá-lo, nem impedir sua infeliz trajetória para a frente. Havia uma única resistência possível: não levá-lo a sério. Mas constato que nossas gozações perderam seu poder.” – Este é um trecho do recente A festa da insignificância, do Milan Kundera, e imagino que apenas esta convicção de impotência relativize o tremendo equívoco que se tem visto, em termos de resenhas e críticas, acerca deste livro. Afinal, dá para contar em poucos dedos aqueles que notaram, nessa festa do Kundera, o que ela se propõe a ser: justamente isso: alegria e irreverência, sem que isso contradiga a profunda reflexão, a filosofia subjacente (e mesmo explícita, com referências a Kant e Schopenhauer). Os que não aceitam, ou não enxergam, essa gozação de resistência insistem em rotular o autor como um denunciante da insignificância da sociedade atual – o que ele acaba por ser também, sim, mas nunca, jamais em primeiro plano, como o amargo esbravejador que esses resenhadores desejam pintar. Kundera é outra coisa, essencialmente – e basta lê-lo para saber. Não me esforço por classificações, porque elas são inevitavelmente pobres; apenas lembrem que esse grande celebrante do riso e da descontração como estratégia de vida, e não como alienação, tem a coragem de, no mesmo livro, colocar uma passagem como essa:

“Ela [Eva] não nasceu de um ventre, mas de um capricho, um capricho do Criador. Foi de sua vulva, a vulva de uma mulher sem umbigo, que saiu o primeiro cordão umbilical. Se eu for acreditar na Bíblia, saíram dela ainda outros cordões, um pequeno homem ou uma pequena mulher ligados um ao outro. Os corpos dos homens ficavam sem continuação, completamente inúteis, enquanto do sexo de cada mulher saía outro cordão, tendo na ponta outra mulher ou outro homem, e tudo isso, repetido milhões e milhões de vezes, se transformou numa imensa árvore, uma árvore formada por uma infinidade de corpos, uma árvore cuja ramagem toca o céu. E imagine você que essa árvore gigantesca fica enraizada na vulva de uma única pequena mulher, da primeira mulher, da pobre Eva sem umbigo.

“Eu, quando fiquei grávida, me via como uma parte dessa árvore, suspensa num de seus cordões, e você, ainda não nascido, eu te imaginava pairando no vazio, preso ao cordão saído do meu corpo, e desde esse momento eu sonhei com o assassino que, lá embaixo, degola a mulher sem umbigo, imaginei seu corpo que agoniza, morre, se decompõe, de tal modo que toda essa imensa árvore que brotou dela, ficando de repente sem raízes, sem base, começa a cair, eu vi a infinidade de seus ramos cair como uma chuva gigante e, me entenda bem, não foi com o fim da história humana que eu sonhei, com a abolição do futuro, não, não, o que eu desejei foi o total desaparecimento dos homens com seu futuro e seu passado, com seu começo e seu fim, com toda a duração de sua existência, com toda a sua memória, com Nero e Napoleão, com Buda e Jesus, desejei o aniquilamento total da árvore enraizada no pequeno ventre sem umbigo de uma primeira mulher tola que não sabia o que fazia nem os horrores que iria nos custar o seu miserável coito, que certamente não lhe dera o menor prazer…” (pp.94-95)

 É essa coragem artística que me faz lembrar, pelo tema e pelo gesto crispado (embora com outra conotação de dor), um quadro da Kahlo – é essa coragem que Kundera levanta, igualmente através do riso. Porque apenas com isso se pode ter “a ilusão da individualidade” enquanto as horríveis repetições nos cercam.

 

Um livro de um autor desta estirpe deveria ser anunciado, em jornais, apenas assim: “É um novo Kundera. Leia. Porque é um Kundera.”

Nabokov e as borboletas

Aos poucos vou lendo os Contos reunidos de Nabokov, e hoje ressalto uma passagem que me interessa particularmente, pela relação com o post anterior neste blog:  a ideia sobre um idêntico gesto de captura, seja em direção a palavras ou imagens. Essa foto do escritor russo, que abre a edição da Alfaguara, é uma das mais belas que já vi: a atitude imóvel de expectativa, de tensão criadora, o gesto suspenso à espera de que a presa pouse… não é exatamente isso o que faz um artista, seja em que área for?

Vejam se o trecho abaixo, retirado do conto “O aureliano”, não pode ser tomado de maneira belamente metafórica:

“O que desejava, com uma intensidade quase mórbida, era ele próprio pegar com a rede as mais raras borboletas de países distantes, vê-las voando com seus próprios olhos, ficar enfiado no mato até a cintura e sentir o final do movimento da rede chiando, e depois o furioso pulsar de asas através da dobra da seda entre os dedos.” (p.311)

Parece que vejo o escritor falar não de insetos, mas de palavras – e os países estrangeiros (Estados Unidos, Alemanha, Suíça), com suas línguas, eram seduções que ele ia, pouco a pouco, colecionando.

Claro que os imediatistas dirão que não é nada disso, que Nabokov simplesmente era, além de escritor, um estudioso de lepidópteros, atuando também como desenhista de borboletas para a sua amada Vera. Quem duvida pode visitar o acervo de borboletas que ele deixou e hoje está no museu de zoologia de Lausanne – e pode ainda consultar alguns textos confessionais, nos quais o famoso autor de Lolita sonhava com uma vida diferente, em que ele seria “feliz de uma outra maneira, como um obscuro entomologista”. Os argumentos são válidos, porém… prefiro continuar olhando esta imagem como se adivinhasse que Nabokov espreita algo, qualquer coisa – não apenas borboletas, mas todos os seres que sabem voar.

 

O belo e o banal

Eu me tornei fotógrafa em Israel. Apenas quando estive nesse país, as técnicas e os estudos anteriores se encaixaram perfeitamente com os temas que eu tinha à vista – e experimentei a angústia da captura (que é a mesma, quer a gente busque a palavra ou a imagem) na hora de criar.

Até agora, entretanto, não entendia porque, um ano depois de ter fotografado em Jerusalém, em Bet She’an e, sobretudo, em Zefat e Tel-Aviv, eu não consegui, em Veneza, fazer um registro que tivesse o meu estilo, por assim dizer. Todas as fotos saíam lindas, por causa da paisagem – mas elas podiam ter sido feitas por qualquer pessoa. Eu tentava refletir sobre essa beleza que, de tão extrema, parece que se esbanja e se banaliza – mas só recentemente, lendo Sémiotique de la photographie, alcancei um ponto mais ou menos firme sobre o assunto. Eis o trecho que fez disparar minha lembrança:

“Quelle est donc la part de l’objet (objet trouvé) qui se présente dans le lieu, qui ‘sollicite’ le photographe et, d’autre part, celle de la prise d’image? Une question de ce genre n’existe guère en peinture. Pensons à Canaletto et à ses vues de Venise: personne ne pourrait atribuer à la seule beauté de Venise la plénitude esthétique des paysages de Canaletto. Quelles sont donc les frontières entre la plénitude sensible que l’énonciation photographique offre au sujet représenté et celle que le sujet représenté offre à la photo?” (BASSO et DONDERO, 2011, p.101)

O que ocorreu em Veneza foi que minhas fotos soaram como uma única voz tímida perdida em meio a um coral possante: o aspecto extremamente turístico do lugar, somado ao fato de que todos ali estavam empenhados numa idêntica atitude fotográfica (obsessão que jamais tornei a ver, no mesmo nível, em qualquer outra cidade), tudo isso me fez sentir uma espécie de sufocamento, como se eu estivesse sendo soterrada por centenas de câmeras simultâneas – e a minha perdia o sentido, ao se misturar com a multidão. Não houve, portanto, qualquer “plenitude sensível” que eu pudesse oferecer às fotos que fazia, até porque isso se conquista com um ritmo lento (que, não por acaso, é o ritmo de um pintor: um pintor não dispara sobre uma imagem, ele a compõe).

Resta a dúvida: algum dia retornarei a Veneza para fotografar (e viver) de maneira tranquila?

Canaletto